O menino da bolha, o pelotense e a pandemia

O assunto coronavírus parece ter chegado no ponto da saturação. Outras pessoas com quem converso sentem o mesmo. 

O ponto de saturação pode ter ocorrido no lockdown, decretado em bandeira laranja, um contrassenso que produziu confusão e projetou a impressão de que as autoridades estavam confusas.

Ali talvez a população tenha perdido o senso de orientação. Ali talvez a política de combate à pandemia tenha desarticulado o compromisso. É uma hipótese, mas pessoalmente senti assim.

As reações cada vez em menor número às postagens sobre novas mortes e infectados parecem um dos indicativos naquele sentido. O índice de isolamento social, divulgado nesta terça-feira (25), também – 52% dos pelotenses continuam saindo às ruas, em muitos casos aglomerando.

Cena do filme O menino da bolha de plástico

O totem humano da prefeitura, paramentado com EPIs, que sai às ruas com cartazes questionando a movimentação, não tem conseguido resultados. O espírito de um filme dos anos 70, O Menino da Bolha de Plástico, pode estar encarnando nas pessoas.

No filme, John Travolta interpreta um garoto com zero imunidade, nenhuma defesa no organismo. Como qualquer bactéria ou vírus pode matá-lo facilmente, a família constrói uma grande bolha de plástico esterilizada, para que ele viva dentro, protegido dos riscos biológicos.

Começa a viver na bolha garoto. Na verdade, faz a transição da infância para a juventude isolado no interior da bolha. Um dia, a vontade de viver em liberdade se torna maior que o medo de morrer e ele abandona o casulo. É o momento mais bonito do filme.

A pandemia teve algumas fase. Primeiro, provocou medo extremo, terror. No decorrer dos meses, veio a fase da “dúvida”, que talvez muitos experimentem ainda. Faz sentido que se tenha passado para esta fase. Estatisticamente, o número de óbitos por covid, que no começo das projeções dos cientistas se anunciava alto, revelou-me muito menor. Em seis meses, 68 óbitos em mais de 340 mil habitantes, e na última semana, pela primeira vez desde o primeiro óbito, Pelotas registrou um número menor de infectados do que na semana anterior.

Toda vida importa – claro. Cada perda dói. Mas as pessoas podem estar assimilando a ideia, real, de que a percentagem de vítimas é majoritariamente composta por idosos com comorbidades. E que a maioria das pessoas, mesmo idosas, não corre risco de morrer pela ação do vírus.

No filme, o então rapaz, mesmo sem imunidade, rompe a bolha para viver livre o tempo que lhe couber. Já a maioria de nós pode estar percebendo que possui imunidade para fazer frente ao vírus. E que, portanto, não há motivo para desespero, passando da fase da dúvida para a fase da convicção.

Não deveriam sair e aglomerar. Mas sair protegidos, cuidando o distanciamento. Tocando em frente a sua vida, pagando para ver. Será o que está acontecendo?

1 thought on “O menino da bolha, o pelotense e a pandemia

  1. Muito bem feita a relação com o filme. O texto expressa muito bem o que parece mesmo ser o sentimento da grande maioria da pessoas.

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