Butiás no chão I

Meus Amigos de Pelotas sabem que sou jornalista desde antes daquele ano que segundo Zuenir Ventura não terminou, mas somente agora, isolado pela pandemia na bandeirinha do corner, me caíram os butiás do bolso: o eixo da minha vida profissional foi o Rural. Foi, não; ainda é.

Não me refiro ao Agro fashion & tech que aparece em vinhetas ufanistas da marketagem chapa-branca. O rural da minha vida tem um pé na roça de verdade. Com cheiro de barro e poeira, tem mais a ver com os ciclos da Natureza do que com as ondas do Mercado.

Falo da Agricultura, atividade que se identifica com Ceres, a deusa da fertilidade; e não do Agro, apelido recente, estiloso e masculino que sugere tratoragem, agrotóxicos, transgenia e outras práticas sem futuro por não respeitar a Natureza, mãe do meio ambiente e de tudo mais.

A verdade é que, mesmo absorvido paulatinamente pela vida urbana, nunca fiquei longe da lavoura. Atavismo: me criei no campo e cheguei a me colocar no partidor para disputar uma vaga na faculdade de agronomia de Pelotas. Na hora H, aos 18 anos, morando numa república dominada por estudantes de agronomia, mergulhei no jornalismo por necessidade de sobrevivência. Primeiro no rádio, depois em jornal e por fim em revistas. Como repórter, fui escalado em várias posições mas ali pelos 27 anos, por um misto de inclinação natural e nostalgia, escolhi a trilha rural que me permitiu fazer boas reportagens, ganhar uns prêmios e até escrever alguns livros.

Foi no jornalismo rural que me achei profissionalmente. Esse é um mundo complexo que envolve a agricultura e a pecuária, a silvicultura e a mecanização, as abelhas e os cavalos, abrangendo uma lista de culturas que começa no A de arroz e vai até o V de vinho. Uma beleza que exige planejamento e sacrifício. Mas de que adianta bater recordes de produção disso e daquilo se não houver zelo pelo equilíbrio ambiental? Isso é crucial porque, sem cuidado pelos diversos ecossistemas existentes em nossos biomas — Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa e Semi-Árido –, caminhamos fatalmente para destruir o maior tesouro do Brasil: a biodiversidade.

© Geraldo Hasse é jornalista

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