Butiás no chão II

ESPINGARDA FOTOGRÁFICA

Feita por meu pai Nelson Hasse (1911-1994), a foto que ilustra este texto data de 1950, época em que pouca gente possuía uma máquina fotográfica. Meu velho tinha um ‘caixote’ 6 x 8 com estojo de couro – não sei a marca, mas não era Hasselblad; bom caçador, ele o usava como se fosse espingarda: um tiro e pronto.

Seus alvos eram os filhos, os cavalos de cancha reta e certas cenas tomadas em suas andanças pelo mundo rural. Agricultor sem terra própria, era de certa forma um agrorrepórter sempre disposto a trocar impressões com os habitantes da paisagem. Só fotografava o que lhe parecia importante pelo passado ou como documento futuro, mas sem jamais “gastar pólvora em chimango”.

Os filmes ficavam meses dentro da máquina e só eram mandados revelar (no Studio Aurora, em Cachoeira) quando o rolo de 12 poses chegava ao fim. As cópias em p&b vinham com as bordas serrilhadas, como aparece na foto da fazenda acima, situada nas serranias entre Cachoeira, Encruzilhada, Caçapava e Santana da Boa Vista — um dos lugares mais frios e despovoados do Rio Grande.

Pela marca da sombra no pé da casa, construída no alto de uma coxilha, a foto foi tirada perto do meio-dia, em dia de calor, quando os únicos seres vivos visíveis são dois cavalos amarrados à sombra de uma árvore, à direita. Tiro e queda: uma boa foto é um documento histórico.

© Geraldo Hasse é jornalista

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