As locomotivas se foram e o progresso não veio. Por Neiff Satte Alam

O sol ainda não nasceu e a cerração nesta época do ano deixa tudo um pouco estranho, mas a turma de recuperação da Via Férrea que faz o trajeto entre a Estação Olimpo e a Estação Agente Gomes já está na estrada. Logo chegam ao local onde deverão ser trocados alguns dormentes. Descem da vagoneta e, em mutirão, retira dos trilhos o pesado meio de transporte que ainda primitivamente é movido a tração humana.

Pintura de autoria de Neiff Satte Alam

Pesadas marretas sobem e descem em ritmo alucinante e golpeiam os cravos que prendem os trilhos aos dormentes de madeira de lei. Os dormentes velhos castigados pela intempérie e pelas brasas eliminadas pelas locomotivas são substituídos por novos.

O trabalho é interrompido, pois a trepidação percebida nos trilhos e em seguida o som típico de uma máquina a vapor, identificam a aproximação de uma composição. Uma poderosa locomotiva puxa mais de trinta vagões com carga que se dirige ao porto de Rio Grande. O vapor e a fumaça cobrem os operários que, com seus corpos suados, já têm a cor cinza da paisagem assim encoberta.

O retorno é um pouco mais cansativo. Os músculos, castigados pelo esforço do transporte somado ao peso da marreta, anseiam por descanso.
Assim era o dia-a-dia dos ferroviários.

A Empresa, Viação Férrea do Rio Grande do Sul reconhecia este esforço e dava a seus funcionários um suporte social altamente significativo, além de salários justos.

Os filhos dos ferroviários tinham escolas, inclusive internatos para meninas, possibilitando crescimento e educação que os pais na maioria das vezes não tiveram.

Telegrafistas, Agentes de Estação, Guarda Linha, operários de Manutenção, tanto da estrada como das máquinas e vagões, enfim, todos os ferroviários tinham atenção à saúde de qualidade, com médicos, farmácia e hospitais que garantiam segurança e tranquilidade e, já velhos, aposentavam-se dignamente.

Cidades e vilas iam se formando ao longo das linhas férreas. Bagé, Santa Maria, Pelotas e Rio Grande eram os grandes centros ferroviários. Vila Olimpo era um ponto estratégico com sua oficina de máquinas, o que fazia esta localidade prosperar e, pela facilidade de transporte, interligar-se a Pelotas, Bagé e Rio Grande.

Com as locomotivas movidas a diesel, parecia que a região daria um salto e o progresso seria inevitável, mas, lamentavelmente, o rumo dos transportes, em razão de uma equivocada política no setor, desmantelou o sistema e canalizou esforços apenas para o transporte rodoviário.
Muitas redes foram arrancadas, Estações Férreas transformadas em prédios públicos com outras finalidades, peças de museu abandonadas e entregues ao descaso e a destruição pela ação da intempérie.

As nossas incertezas, a miséria da Metade Sul do Estado, o desemprego e presença de prédios fantasmas que assombram nosso presente, muito se deve ao desaparecimento da Viação Férrea do Rio Grande do Sul que, como tantas outras empresas gaúchas que sucumbiram a um progresso discutível (diziam que o transporte rodoviário iria alavancar a região e trazer riqueza), eram motivo de orgulho e nos representava frente ao resto do país.

Quando vemos os países de Primeiro Mundo se vangloriar de sua malha ferroviária, como suportes importantes para o desenvolvimento sentiram vergonha de não termos lutado o suficiente para manter e melhorar nossa V.F.R.G.S., uma verdadeira sucata nos porões da República.

Texto do livro As pitangueiras da Vila Olimpo, de Neiff Satte Alam.

Neiff Satte Alam é professor Universitário Aposentado – UFPEL Biólogo e Especialista em Informática na Educação

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