Um truque da Criação

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A propaganda eleitoral começou na televisão e no rádio. Não vi os programas ainda. Alguns vídeos nas redes, assisti. Políticos nas vilas. Cenas um pouco tristes, pois se trata de uma história conhecida. Uns moradores criticando a candidata da situação (sob máscaras) na vila Leopoldo Gotuzzo, agrupamento pobríssimo que, ironicamente, homenageia um cultor das artes plásticas. Sempre alguém reclama, e, justo ou não, sempre é um sinal de que algo não vai bem.

Todos já sabem como é uma eleição. Não há novidades. Bem, agora, além das formas narrativas convencionais, cada vez mais as pessoas montam e disseminam “memes”, aquelas figurinhas com que buscam fixar uma única ideia na nossa mente, verdadeira ou falsa.

O termo meme foi criado por Richard Dawkins no livro O Gene Egoísta. Ele procura estabelecer o gene como unidade da seleção natural. Como o gene é um replicador, ele fala sobre replicadores em geral, e fala que a mente funciona com memes, que também são replicadores. Dawkins procura estabelecer que todos os replicadores funcionam segundo os mesmos princípios.

Um meme tem por objetivo transmitir-se; sobreviver, replicar, perpetuar-se.

Se um meme corresponde à menor unidade do gene, como afirmam os especialistas, devemos então ser todos uns vendedores, desde o dia em que choramos pela primeira vez, na maternidade. Sempre empurraríamos algo para os outros, alguma coisa. Um ressentimento. Uma solução. Uma vaidade. Um serviço. Uma ilusão. Pedidos de socorro. Atenção, um vírus.

Um morador empurra uma insatisfação para a autoridade. Esta empurra de volta uma explicação (em geral, de que “ainda há muito a ser feito, mas que já fez muito”). O resto do “muito” que há para ser feito fica para um segundo mandato, quem sabe? Já os seguranças vigiam os ânimos para o caso de terem de empurrar fisicamente alguém.

Talvez um pouco por isso me pareçam tristes as eleições: a sensação de que sempre empurramos a vida para a frente, sem nunca gozá-la em plenitude. Como se fosse um truque da Criação.

Deus teria pensado assim: “Terei de dotar os homens de esperança, para que suportem o fato de tê-los criado”. É preciso acreditar em alguém, alguma coisa. Essa necessidade, essencial como água no deserto, explicaria tudo. Outra definição divina: “Nunca os problemas se resolverão de vez, para que os homens não fiquem sem ter o que fazer”.

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