A oratória do silêncio

Neiff Satte Alam *

“…No silêncio das crianças há um programa de vida: sonhos. É dos sonhos que nasce a inteligência. A inteligência é a ferramenta que o corpo usa para transformar os seus sonhos em realidade. É preciso escutar as crianças para que a inteligência desabroche. Sugiro então aos professores que, ao lado da sua justa preocupação com o falar claro, tenha também uma justa preocupação com o escutar claro. Amamos não a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A escuta bonita é um bom colo para uma pessoa se assentar…” (Rubem Alves, em Educação dos Sentidos).

Havia um silêncio, uma calma matinal que precede o nascer do sol. A floresta parecia sem vida, como se fosse uma tela renascentista a espelhar o profundo sem decifrar o visível.

Neste ambiente semiclaro, molhado de orvalho, surge o primeiro raio de sol. A vida parece explodir em sons, cores e movimentos. O verde parece mais verde. A sonoridade do canto dos pássaros disputa beleza com os reflexos multicoloridos de raios de luz que se projetam sobre e através de gotículas do orvalho que, frio, aquece o cenário. A vida nasce de dentro da floresta que a possuía latente, mas necessitou da luz para mostrar-se em toda a sua beleza e abundância.

Os Professores são esta luz que, dá vida ao saber, ilumina crianças, jovens e adultos, inteligências que pedem para eclodir, anseiam por aprender, construir conhecimento que permita dignidade no presente e no futuro, responsabilidade que só se compara a da maternidade.

Inundar com a luz do conhecimento os recantos mais obscuros da ignorância que, como a luz da manhã sobre a floresta, faz aparecer o que de melhor tem a humanidade, muitas vezes encoberta pelas trevas do “não saber” ou do “mal saber”, caminho fértil para os desmandos dos “espertos” e mal intencionados.

Tarefa complexa esta de ensinar, muitas vezes confundida com a tarefa de educação familiar, responsabilidade que muitas vezes é indevidamente repassada à Escola como se esta tivesse que terceirizar a tarefa dos pais, que parece, em muitos casos, não terem tempo para seus filhos e, sobre esta desculpa, deixam a tarefa para os Professores.

Mais complexa é esta tarefa se ainda tivermos a clara visão de que nossos estudantes só aprenderão se não acumularem informações sem a necessária compreensão e se colocarmos em seus cérebros a semente da incerteza e do aprender pelos erros e dúvidas e não pela conveniência de regras dogmáticas como se tudo fossem axiomas, prontos para o consumo e sem discussão ou contestação: “mais vale uma cabeça bem feita do que uma cabeça cheia”, disse Montaigne quando o Brasil estava sendo descoberto, no início do século XVI.

É sobre esta luz que falamos, a luz do conhecimento e do saber. Assim como a informação que está contida na semente, latente e aguardando o calor do sol para germinar, a criança, com calor e afeto do Professor, tem seu cérebro iluminado pelo saber acumulado pela experiência do mestre, que trabalhou e estudou para ser o profissional que haverá de iluminar os caminhos do futuro, com dignidade e segurança…Escutando os sons das falas dos pequeninos!

Neiff Satte Alam é professor Universitário Aposentado – UFPEL Biólogo e Especialista em Informática na Educação

Obrigado por participar. Comentários podem ser rejeitados ou ter a redação moderada. Escreva com civilidade, por favor. Abç.