‘Tropa Dark Side: a cultura geek como educação’. Por Carolina Amorim

Por Carolina Amorim, estudante de jornalismo na UFPel

Devido à pandemia e ao falecimento do fundador do projeto, Tony Gonçalves, a Tropa volta aos poucos, porém, a gratidão dos alunos e colegas permanece

O mundo geek chama atenção de muitos jovens quando o assunto é entretenimento, porém, na E.E.E.M. Profº Carlos Loréa Pinto um novo projeto aos alunos foi discutido em 2015, quando o professor de Língua Portuguesa, Tony Gonçalves, juntamente com os educandos criou a Tropa Dark Side – projeto que visa atividades pedagógicas para a inclusão e respeito entre os alunos rio-grandinos.

Proporcionando aos estudantes uma nova “família”, a Tropa Dark Side deixa a escola com mais um aspecto: um local de criação.

A cultura geek é tema do projeto devido a necessidade curricular e uma maneira de fugir das práxis tradicionais de quadro e giz, permitindo uma união entre animes, séries, filmes e educação- além de conter referência em seu nome com um dos maiores clássicos geek: “Star Wars”.

Willian Portela- o primeiro estudante a aderir ao projeto, ao ser procurado pelo professor de Língua Portuguesa, Tony Gonçalves, diz que foi pensado em algo que refletisse o mundo geek. “Sugeri para o Tony numa reunião, o nome ‘Tropa Dark Side’ então esse foi o nome que ganhou”.

Ao ser questionada sobre a diminuição da evasão entre os alunos por causa da Tropa, Gabrielly Butierres, professora de matemática e uma das responsáveis pelo projeto, diz que este é um dos objetivos e explica que “A ideia é justamente fazer com que estudantes se sintam pertencentes a escola, importantes para a escola e acolhidos pela escola. A cultura Geek tem muitas possibilidades de aprendizagem, mas é também uma forma de vincular a escola (que muitas vezes pode ser difícil de diferentes formas) a algo que estudantes gostam muito e, assim, fazer com que sigam na escola.”

Porém, a professora ressalta que o projeto não se deve somente aos estudantes, mas também aos educadores. “No contexto dificílimo de desvalorização do magistério estadual, o projeto também nos dá gás para continuarmos lutando por uma educação de qualidade e por espaços de ensino e aprendizagem diferentes do tradicional quadro e giz.”

Tropa Dark Side no Anime Extreme, em Porto Alegre, no dia 20 de outubro de 2018.                       (foto/ reprodução)

Estudantes participantes

Os alunos Tebas, Davi Duarte e Julia Oliveira contam um pouco sobre como foi para cada um a entrada na Tropa e de como a influência de diferentes atividades ajudou em questões de inclusão e novas amizades. Participando da Tropa desde 2017, o aluno Tebas- que prefere ser identificado pelo sobrenome, afirma que “A Tropa não só influenciou a minha frequência nas aulas como também fez com que minhas notas aumentassem e o comportamento na sala melhorasse muito.

Já o ex-estudante da instituição Davi Duarte revela que se sentiu acolhido pelos colegas e responsáveis quando entrou no projeto em 2018. “Além da cultura Geek ser algo que me atraiu para este grupo, o grande diferencial era que ali eu tinha um lugar, eu podia falar e ser ouvido, podia expressar meus interesses, e sem falar que os professores estavam ali sempre para ajudar, não só com relação as nossas atividades em eventos e na escola.”

Em 2019, Julia Oliveira ingressou na Tropa, mas já conhecia o projeto desde sua gênese e sempre participou dos eventos geek. Ela explica que o evento “é um espaço onde podemos nos expressar e mostrar o nosso amor por um personagem, como por exemplo fazendo um cosplay, dançando entre outras formas de expressão, mas cada um usa a maneira que se sente mais a vontade.”

Eventos

Nesses cinco anos de atuação, a Tropa Dark Side realiza edições do “Geek World”, onde são organizados eventos pelos professores e alunos dentro da instituição, sendo abertos à comunidade. De acordo com Butierres, este “é o momento que podemos mostrar para quem está de fora como um projeto de cultura Geek pode mobilizar toda a comunidade escolar”. Além de proporcionar uma abertura para a população conhecer o projeto, a Tropa leva o nome da escola a outros lugares em oficinas sobre a cultura geek e em instituições da região.

Em comemoração ao “Star Wars Day”, os alunos da E.E.E.M Profº Carlos Loréa Pinto se reuniram para assistir ao oitavo episódio de “Star Wars”, discutir sobre o futuro dos filmes, além de uma competição com um quiz e brindes (foto/ reprodução)

Já realizamos oficinas sobre cultura Geek em várias escolas da cidade, já fomos para Venâncio Aires falar sobre cosplay e sempre que possível participamos de eventos geeks na região, sempre levando o nome do Loréa e mostrando que outras formas de aprender e de ensinar são possíveis e dão resultados muito positivos.”, conta.

Pandemia e perda

Com a chegada da pandemia, houve uma parada na realização de eventos e oficinas geek, outra questão foi o falecimento do professor de português, Tony Gonçalves. Ele foi o criador do projeto, sendo conhecido como “Mestre Tony”-  alusão ao Mestre Jedi do filme Star Wars.

Ainda estamos aprendendo a não ter a presença física dele conosco e não está sendo fácil… Mas como diz o código Jedi: não há morte, há a Força. Então logo vamos estar honrando a vida, o amor e a alegria do Tony seguindo com as atividades da Tropa!”, desabafa Gabrielly.

A dificuldade de acesso a equipamentos de internet na situação atual (pandemia), também é tema que dificulta a participação dos alunos no projeto e realização de atividades das disciplinas do Ensino Médio. Para a professora Gabrielly “A pandemia acabou com muitas ilusões, inclusive a de que todos e todas têm acesso a internet e a tecnologia. E na Tropa não é diferente!”

As expectativas pós-pandemia ainda são positivas graças a um professor que trouxe o aluno mais próximo da escola. A Tropa leva consigo uma caminhada com muitos frutos e todos com o mesmo propósito: mudar a educação por meio da cultura geek e trazer novas atividades aos alunos e professores. “Como disse antes, vamos ter que buscar a força para superar esse ano tão difícil, mas firmei o compromisso de honrar tudo que o Tony fez por nós e uma das formas de fazer isso é seguir com a Tropa. Logo que for possível vamos reunir a Tropa e, como sempre fazemos, vamos decidir juntos quais serão os próximos passos”, conclui Butierres.

Sobre o processo seletivo

Segundo Gabrielly, “Como responsáveis pelo projeto, vimos que não poderíamos ter mais que 20, 25 estudantes na Tropa, então foi preciso fazer um processo de seleção”. Com isso, o processo seletivo vai mudando de acordo com o crescimento de participantes e se restringe aos estudantes do Ensino Médio da própria instituição, Carlos Loréa Pinto. No processo, ela conta que os interessados escrevem uma carta explicando o porquê querem participar do projeto e qual a relação com a cultura Geek e depois realizam uma entrevista. “Os critérios variam de ano para ano e são estabelecidos tanto pelos padawans quanto pelos mestres.”, conta. Além disso, mesmo após a formatura, os estudantes continuam participando sempre que podem.

Para mais informações sobre o projeto, acesse a página: https://www.facebook.com/tropadarksiders

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