O HOMEM-PONTE

Completaria hoje 86 anos o jaguarense Aldyr Garcia Schlee, filho de um imigrante alemão e de uma nativa da fronteira Brasil-Uruguai.

Ele morreu em 2018, deixando três irmãos, três filhos e três netos. Contar sua história é uma tentação para qualquer jornalista: ele se ajusta perfeitamente ao perfil do humanista de esquerda, bom caráter, bem-humorado e bem-sucedido profissionalmente.

Talentoso, começou no jornalismo como ilustrador, foi repórter e ocupou cargos de chefia enquanto evoluía como professor de língua portuguesa e, por fim, de direito internacional.

No meio dessa trajetória, foi preso pela ditadura de 1964 e, por tabela, demitido da Universidade Católica de Pelotas, na qual ajudara a criar o curso de jornalismo. Salvou-se via concurso público para lecionar na Faculdade de Direito da mesma cidade.

Schlee

Relativamente famoso como escritor, sua obra compreende uma centena de contos, algumas traduções, um estudo sobre João Simões Lopes Neto e um ensaio-romance histórico (Don Frutos) e até um tratado diplomático sobre o uso compartilhado da Lagoa Mirim pelo Brasil e o Uruguai. Deixou ainda um dicionário do linguajar do Pampa. Uma obra de muito boa qualidade, daí tantos prêmios conquistados.

Para fechar sua biografia, bastaria saber um pouco mais sobre sua vida, ouvindo pessoas que o conheceram – ele deu aula para centenas, milhares de jovens. Infelizmente, a pandemia nos encurralou. O que sei: embora tenha morado apenas dois setênios em Jaguarão, Schlee fez desta cidade fundada em 1855 o cenário da maior parte dos seus contos, em muitos dos quais deixa transparecer que teve uma meninice muito feliz.

Em sua infância, na segunda metade dos anos 1930, ele sentiu os reflexos do fausto jaguarense, vivido durante os anos de construção da ponte inaugurada em 1/1/31. Um retrato desse tempo aparece na crônica Os Alemão em que Aldyr fala dos quatro tios armadores e do próprio pai, apresentado como um esportista nas águas do rio, onde pilotava uma lancha e/ou se deixava rebocar equilibrado numa prancha de surfe. Teria sido o caçula distante dos irmãos pomeranos um bon vivant?

Ponte entre Jaguarão e Rio Branco

De um modo ou de outro, AGSchlee fez em muitos dos seus contos um retrato de uma Jaguarão ativa, charmosa, mundana e rica – território livre de homens de dinheiro que viviam da criação de gado, da exportação de carne e da importação de bens de consumo. A cidade também era o espaço onde naturalmente trabalhavam e se divertiam balconistas, estivadores, navegantes, muambeiros, estudantes, jogadores de futebol, peões de estâncias e prostitutas – seus personagens preferenciais, situados no lado pobre da situação.

O charme de Jaguarão vinha da ponte, do porto, do rio, dos trens, da jogatina, dos cabarés, do intercâmbio de fronteira — elementos presentes na primorosa ficção de Schlee, que não cita nem evoca rádio, jornal ou revista; aparentemente, ele só escreveu baseado no que viu e ouviu, claro que também dando muita cancha à imaginação. Escrevendo tanto em português como em espanhol, ele desenvolveu um estilo que o aproxima dos latino-americanos praticantes do realismo fantástico.

Dos estudos, fala muito pouco. Sua vida, pode-se deduzir, na infância e pré-adolescência, esteve muito focada no cinema e no futebol. Na cidade natal, ele tinha acesso grátis ao cine-teatro de um tio, enquanto nos domingos à tarde frequentava o cinema da cidade do outro lado do rio. Por acaso ele estava dentro do Cine Río Branco na tarde de junho de 1950 em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai.

O grande momento está narrado num dos seus Contos de Futebol: filme interrompido, acendem-se as luzes e vem a notícia pelo alto-falante: “El Uruguay es campeón del mundo!”. Vivas, abraços, festa: todos esquecem o filme. Contente com a alegria dos hermanos, o binacional Schlee não lamenta ter de voltar para casa mais cedo. Um dos seus times de botão era justamente o Nacional de Montevideo.

Pelas ricas descrições de cabarés em várias narrativas, inclusive nos Contos Gardelianos, é provável que o garoto Schlee tenha frequentado o Peixe, nome da “zona” de Jaguarão, cujo porto sempre tinha bom movimento. Em suas histórias, o escritor não entrega nenhum cacho pessoal, mas atiça a curiosidade dos leitores sobre esse aspecto de sua biografia – namoros, por exemplo; detalhes que só poderão ser esclarecidos, talvez, por depoimentos de amigos e colegas até o final de 1949, quando ele se mudou de Jaguarão para Pelotas, onde viveu pelo resto da vida, sem abandonar o ideal de ser uma ponte entre o Brasil e o Uruguai.

Quantos seriam hoje os contemporâneos do jovem AG Schlee entre os 28 mil habitantes de Jaguarão? E na pequena Rio Branco, com 13,5 mil habitantes no outro lado do rio? Impossível saber, exceto que são todos velhos — velhos guardiões de memórias prestes a se apagar.

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