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Opinião

Elis: “Uma eleição ímpar, com declínio da política”

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Elis Radmann*

Primeiro, por ser uma eleição no meio de uma pandemia. Na percepção da maioria dos eleitores, a campanha eleitoral deu “folga” para a Covid e as aglomerações se fizeram presentes. Aperto de mão e abraço foi visto e revisto em muitas fotos e vídeos pelas redes sociais. E teve até cidade que fez “arrastão”, puxado por trio-elétrico.

Em segundo lugar, a pandemia “bagunçou” a vida de candidatos experientes, que estavam muito acostumados a fazer campanha. De repente, as estruturas partidárias não sabiam se movimentar. Havia muita dúvida, se as visitas deveriam ser feitas, se as carreatas não seriam inoportunas, etc. Os candidatos preocupados com a disseminação da infecção, protelaram a saída às ruas. Enquanto isso, outros candidatos correram e estabeleceram vínculo com os eleitores, fizeram muito barulho e, alguns, descumpriram todos os protocolos sanitários.

Em terceiro lugar, a pandemia acelerou a importância das redes sociais, privilegiando os candidatos que estavam conectados e trabalhavam a sua reputação pessoal ou revisitaram o seu “modelo mental” e levaram as suas estratégias de campanha presencial para as redes sociais.

Em quarto lugar, com a força das redes ampliada, os candidatos oportunistas tiveram muita capacidade de potencializar suas Fake News. Os ataques entre os candidatos ganharam contornos como nunca vistos, com vídeos e montagens rodando pelos grupos de Whats.

As notícias falsas apareceram de todas as formas. E nesse contexto até o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião foi uma vítima. Como o site do IPO aparece em primeiro lugar em plataformas de busca como o Google, quando se digita “instituto de pesquisa” a sua logomarca foi utilizada pelo Brasil afora para “esquentar” pesquisas falsas, que eram propaladas em grupos de whats.

Em quinto lugar, com o fim das coligações na eleição proporcional, os partidos apostaram na estratégia de ampliação de candidaturas e acirraram a disputa dentro do mesmo partido. E viu-se aflorar um cenário de concorrência permissiva. No país 82 candidatos foram assassinados, a justiça eleitoral teve o maior número de processos, com denúncia de um candidato contra o outro e o clientelismo apareceu na sua forma mais crítica, se utilizando da fragilidade financeira da sociedade nessa pandemia. Nessa eleição, as bancas jurídicas de cada candidato trabalharam tanto quanto o grupo de mobilização.

Em sexto lugar, foi ampliada a “guerra de números”, utilizando pesquisas eleitorais encomendadas, registradas para atender uma demanda. Foi muito comum ver duas pesquisas publicadas na mesma cidade, no mesmo período e com resultados totalmente diferentes. Alguns registros eleitorais, “cumprindo os protocolos” eram feitos até por empresas que não eram de pesquisa.

Em sétimo lugar, verificou-se a falta de compromisso das propostas dos candidatos com o contexto. Em muitas cidades não houve o debate sobre a situação financeira do município. O debate mais importante foi absorvido pelas promessas de campanha, muitas extremamente eleitoreiras e descoladas da realidade.

Em oitavo lugar, o resultado de tudo isso traz um “efeito cascata!” Mas, que pode ser inicialmente constatado pela ampliação da negação da política que se mostra no aumento das abstenções, por exemplo de Porto Alegre, em 2016 foi de 22,51% e em 2020 chegou a 33,08%.

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Elis Radmann é diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO).

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    Cultura e diversão

    A felicidade

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    Vivemos uma época de simplificações, “memes”, como se diz. Um de meus problemas sempre foi a certeza de que, por baixo da felicidade, há inevitavelmente um problema. Algo como a lagoa do Laranjal: linda, desde que não mergulhemos nela. Sempre há um furo na história perfeita. Porque, sendo perfeita, não pode ser humana.

    Chaplin, um artista de quem gosto muito, escreveu: “Não precisei ir aos livros para saber que o tema da vida é conflito e dor”. Críticos disseram que ele era melancólico, triste. Chaplin não gostou. “Estão errados. Eu sou um otimista”. Um otimista não é necessariamente feliz. Mas, com sua atitude, presta um grande serviço à humanidade. Apesar dos problemas em que seu patético personagem se mete, sempre termina suas aventuras caminhando sozinho, de costas para a câmera, numa estrada poeirenta, rumo à próxima decepção, a superação desta e o lançar-se em busca de novas aventuras. Sucessivos calvários e ressurreições.

    O vagabundo de Chaplin era tão sonhador quanto outro personagem, Dom Quixote, mas nunca louco e alheio como este. Em Chaplin, cada poro de seu mirrado corpo desprovido é hiper consciente da realidade. Tudo nele é mecanismo de defesa em relação ao mundo real. Mais associal que antissocial, o personagem aspira ingressar na sociedade, só não nos termos dela. Existe, mas não se encaixa no mundo. Na verdade, o problema do personagem é maior: quer que o mundo se ajuste a ele (será que isso lhe parece familiar?) Não por acaso Chaplin se tornou um mito mundial: fez a plateia rir do próprio desespero, do seu desamparo diante da natureza, de sua inadequação. Não conheço nada mais genial, e reconfortante, do que isso.

    Tenho me interessado por outro pensador, este contemporâneo: o psicólogo Jordan Peterson. Sobre a felicidade, o canadense diz o mesmo que Chaplin. Para ele, a finalidade da vida não é a felicidade. “A realidade é sofrimento e tragédia. Você não vai querer viver a vida se entregando aos prazeres, até porque isso é impossível. No final, você vai querer ser o cara que construiu a arca” (referência a Noé). Diz ainda: “Todos nós carregamos fardos. A vida consiste em assumir responsabilidades, mirar alto e agir. Isto é o que vai fazer atravessar os percalços de existir. Se você fizer isso, talvez, naquela meia hora de paz no fim da tarde, você encontre a sua felicidade”.

    Freud, o homem que explica tudo, diz em essência o mesmo: “A felicidade humana está em desacordo com a natureza, onde tudo a contraria. A felicidade não foi incluída na Criação”, escreveu. Já Kafka é radical: “Há salvação. Só não para nós”. Woody Allen invoca o humor judaico: “O que eu acho da vida? Não é um bom negócio”.

    Sempre gostei dos pensadores realistas. Esses seres que se esforçam para ver as coisas como elas são, e só então, desiludidos, estabelecem os termos em que vão viver, inclusive para influir significativamente. É difícil. Uma pessoa que se propõe a enxergar as coisas como elas são, logo aprende a desconfiar, inclusive de si mesmo. Viver com medo (em estado de defesa contra a realidade) não é bom. Mas viver em negação é melhor? A experiência mostra que não adianta fugir. Chega uma hora em que o fardo pede passagem, com os problemas entulhados no sótão desabando pelo alçapão.

    Quem consegue ver as coisas como são, se vê, de repente, sozinho com a decepção, com esta lhe apontando o dedo, contraditando certezas e exigindo coerência, daí a dificuldade. Como ninguém fica de papo com a decepção, talvez só nos consultórios, em geral voltamos para o corredor de espera. É onde nos encontramos: no corredor, batendo cabeças.

    É difícil confiar em si mesmo. Imagine, agora que se avizinha mais uma eleição, confiar em quem se propõe a representar os outros. Imagine a cara de pau que a tarefa de ser aprovado pela maioria exige, sem desviar da coerência. Provável que não haja pretensão maior. Uma personalidade narcísica e, em consequência, uma atitude cínica. Eis as duas exigências do papel principal na mais antiga das peças: A Mediação dos Intermináveis Conflitos Humanos.

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    No passado, Lula foi eleito dizendo que a esperança venceu o medo. Acreditamos por um tempo. Então veio a decepção. Confiança demais nos outros, problema de sempre. Já Bolsonaro diz: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Seria caso de perguntar: Acima inclusive da esperança? Se for, chegamos a um estágio perigoso. Quase sempre temos estado aquém das possibilidades, nunca além.

    Chaplin pode ter atingido o teto da meta: gargalhar do próprio desespero, encarando-o com disposição de ânimo. Sem nada para matar a fome, comer uma bota, fazendo de conta que é um frango; chupar os pregos da bota como se fossem ossinhos da sorte, sabendo o tempo todo que são bota e pregos, nunca se enganando. Apesar dos desenganos, Smile!, como seguiu recomendando aquele emoji de 1968 chamado Smiley (foto). Hoje flutua nas ondas da internet a seguinte mensagem: “O maior negócio da vida é sorrir. Eventualmente, os outros acreditarão”.

    Eu acredito que todas as verdades essenciais já foram ditas. Ter ciência delas não nos tem conformado. Sem solução que dure, a saída elementar continua a de Chaplin: Smile!, depois materializada na figurinha do Smiley, hoje trivial nos emojis das redes sociais. Há uma ironia, uma tristezinha na sugestão. Mas, se não for ela, o que será?

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    Cultura e diversão

    O homem do norte. Por Déborah Schmidt

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    O Homem do Norte segue a história de vingança do príncipe Amleth (Alexander Skarsgård) que, quando criança, testemunhou seu pai, o rei Aurvandil War-Raven (Ethan Hawke), ser brutalmente assassinado por seu irmão, Fjölnir The Brotherless (Claes Bang), que ainda sequestrou sua mãe, a rainha Gudrún (Nicole Kidman). Vinte anos depois ele retorna determinado a salvar sua mãe, vingar seu pai e matar seu tio.

    Um dos diretores mais interessantes da atualidade, Robert Eggers se destacou logo com seus primeiros filmes, os excelentes A Bruxa (2015) e O Farol (2019), duas produções de terror aclamadas. Para seu próximo projeto, o cineasta saiu de sua zona de conforto e embarcou em uma trama de ação e aventura, em uma ambiciosa saga viking. O roteiro de Eggers e Sjón é baseado na lenda de Amleth, conhecida como inspiração para a criação da clássica peça Hamlet, de William Shakespeare. O longa explora uma história típica dos nórdicos antigos, acertando no drama familiar e na jornada de vingança.  

    Como o protagonista, Alexander Skarsgård demonstra toda sua entrega (física, principalmente) ao viver a versão adulta do guerreiro Amleth. Revelada em A Bruxa, a talentosa Anya Taylor-Joy tem um papel coadjuvante como Olga, mas rouba a cena com seu magnetismo e por estar ligada aos elementos místicos do longa, assim como os personagens de Willem Dafoe e Björk.

    Visualmente espetacular, a direção de fotografia de Jarin Blaschke, que trabalhou com Eggers em seus dois filmes anteriores, se destaca pela composição de ambientes naturais. Se tratando de um épico viking, a produção aposta em cenas de lutas com violência e selvageria, e também mostra autenticidade e fidelidade na impressionante recriação do visual e dos costumes vikings.  

    O Homem do Norte detalha com perfeição uma saga viking, em uma história de vingança e brutalidade que flerta com o misticismo. Um espetáculo artístico e grandioso.  

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    Especial

    DiCaprio, política e atores

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    Com sua venenosa língua hiperbólica, o escritor Truman Capote dizia que “atores são burros.” Exemplificou com John Gielgud (foto), grande ator shakespereano. “É maravilhoso no palco. Mas é uma voz.”

    Para ele, quanto melhor o ator, mais burro é.

    Se entendo o exagerado Capote, ele quis dizer que atores, seres emocionais, não possuem pensamento estruturado. Suficientemente crítico ou científico, se preferir. Isso parece verdadeiro quando “artistas” falam de política. É comum defenderem “boas causas” genericamente, sem considerar as especificidades das situações.

    Leonardo DiCaprio foi às redes elogiar “o compromisso da Anitta com a democracia.” Também pediu para “escutarem a cantora e tirarem seu título de eleitor.” Mais um exemplo, parece, do que Capote quis dizer.

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