‘Pelotas negra chega à Câmara com quatro representantes’. Por César Brizolara

César Brisolara, vereador eleito e integrante da RAPS, Rede de Ação Política pela Sustentabilidade.

César Brizolara

A Câmara de Vereadores de Pelotas inicia um momento ímpar em sua história. A eleição de quatro vereadores negros, três mulheres e um deficiente físico passa a dar vez e voz a tantos gritos silenciados, a maioria têm sido afastadas dos espaços de poder e, por consequência, das conquistas que chegam a outras categorias da população.

Pela primeira vez, o povo pelotense se conscientizou da necessidade urgente de eleger representantes que falem por ele no Legislativo, que até há pouco tempo era branco, masculino e praticamente insensível à invisibilidade social, racial e de gênero.

Embora sejamos de partidos e lados diferentes, há muito a se fazer em conjunto. O cargo que agora ocupamos nos cobrará esse dever: trazer ao debate as condições de trabalho, educação, saúde, moradia, exclusão social e racial e tantas outras separadas por um abismo.

Como negro representante da comunidade da Guabiroba, do Fragata e da cidade, sempre defendi a importância de assumirmos quem somos para que nossos direitos sejam respeitados e nossa voz seja ouvida. Em 2010, o Censo Populacional do IBGE apresentava dados desconcertantes. Em Pelotas, com uma população de mais de 320 mil habitantes, em torno de 60 mil se autodeclararam negros e pardos. Todos sabemos que Pelotas é uma das maiores cidades de população negra no Estado, mas os números do Censo não refletiram isso.

No entanto, os tempos mudaram. E a eleição deste ano já é um reflexo dessa mudança. Ao eleger quatro vereadores negros, o recado está dado: não vamos mais esconder quem somos.

Ao contrário, assim como no restante do país, nós, negros pelotenses, reivindicamos o espaço a que temos direito. Precisamos mudar os números de pesquisas onde o negro está sempre em desvantagem. Aumentar a consciência da nossa negritude é algo urgente, sob pena de inviabilizar a realidade da maioria da população negra de Pelotas.

Segundo a publicação Indicadores Sociais do Brasil de 2019, apresentada pelo IBGE, o salário médio do trabalhador branco é 73,9% maior do que do trabalhador negro.

A pesquisa constata que o rendimento do trabalho é resultado da inserção do trabalhador no mercado, “que tem estreita relação com a estrutura econômica do Brasil e com a hierarquia social que se revela pelas oportunidades existentes, escolhas individuais, formação escolar, evolução em carreiras específicas, evolução das tecnologias, entre outros fatores”. Só o dado escolarização já exemplifica bem essa diferença brutal de salários.

Entre os jovens que não estudam, 46% não concluíram o ensino fundamental. Não precisa estatística para sabermos que os jovens negros são os que mais abandonam a escola, para ganhar a vida como catadores, domésticas, cuidadores de carros, serviços gerais e tantas outras. Mas quantos ocupam o primeiro escalão do governo municipal?

Ainda no último Censo, Pelotas tinha 31,9% dos domicílios com rendimentos mensais de até meio salário mínimo. Isso mesmo, meio salário mínimo! É só andar pela periferia da cidade que vamos constatar que a maioria das famílias carentes é formada por negros.

Precisamos levantar a voz e gritar que “Vidas Negras Importam”, seja por causa da violência ou por causa do racismo estrutural que está profundamente inserido no Brasil, do qual Pelotas é um grande exemplo.

Segundo a socióloga Márcia Lima, do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, nos últimos anos aumentou a mobilização negra contra a violência racial, embora a discussão sobre o racismo em todas as suas vertentes seja ainda pouco visível. A violência que não nos permite exigir respeito por quem somos.

Como vereador eleito na periferia de Pelotas, quero trazer essa discussão para a Câmara.

Precisamos nos orgulhar de quem somos e compreender que nem todos vão entender a importância desse momento. Para esses, o nosso progresso deixará assustados, afinal “a vida é muito vasta para insistir naqueles que já deviam ter aprendido”. A apatia e o medo precisam ser trocados pelo orgulho e a mobilização negra, e agora temos força para fazer essa mudança.

Daqui pra frente vocês jovens, negros, mulheres, deficientes e demais periféricos esqueçam o “eu não posso”, “eu não consigo” ou o “isso é impossível para mim”, substituam pelo “SIM, EU POSSO!” e vejam em nós os oportunizadores de uma nova Pelotas. Nós somos a prova que a
mudança está na mão de vocês!

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