“O que aconteceu comigo?”

Quando certa manhã Zé acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num réptil monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre listrado, quase branco, dividido por escamas arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas poderosas pernas, lastimavelmente curtas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.

– O que aconteceu¬ comigo? – pensou.

Não era um sonho. Seu quarto, um autêntico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava, desempacotado, um mostruário de seringas – Zé era representante farmacêutico -, pendia o aplique que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma camisa Lacoste e colocado numa bela moldura dourada. Representava um Crocodylus niloticus sorridente que, em decúbito ventral, erguia ao encontro do espectador sua pesada cauda, do qual desaparecia toda a sua rugosidade.

O olhar de Zé dirigiu-se então para a janela e o tempo turvo – ouviam-se palavras de ordem contra uma suposta mudança de DNA, e gente orgulhosa da própria ignorância batendo no peito – deixou-o inteiramente melancólico.

– Que tal se eu continuasse dormindo mais um pouco e esquecesse todas essas tolices? – pensou, mas isso era completamente irrealizável, pois estava habituado a dormir do lado direito (ou do esquerdo, alternadamente) e no seu estado atual não conseguia se colocar em nenhuma dessas posições.

Qualquer que fosse a força com que se jogava para o lado, balançava sempre de volta à postura de bruços. Tentou isso umas cem vezes, fechando os olhos para não ter de enxergar as pernas desordenadamente agitadas, e só desistiu quando começou a sentir do lado uma dor ainda nunca experimentada, leve e surda.

– Ah, meu Deus acima de todos! – pensou.

– Que nacionalidade cansativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – surtando. A excitação ideológica é muito maior que na própria sede da firma, em Washington, e além disso me é imposta essa canseira de uma realidade mais surreal que os memes, a preocupação com a troca de narrativas por notícias falsas, as teorias conspiratórias irregulares e ruins, um convívio humano que muda sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso. O diabo carregue tudo isso!

(“A metamorfose através da alteração do DNA provocada por uma vacina”, texto muito, mas muito vagamente inspirado em Franz Kafka)

Eduardo Affonso é colunista de O Globo e, a pedido nosso, autorizou o compartilhamento, aqui, de seus posts no facebook.

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