O desejo de ter. Por Robson Loeck

Por Robson Loeck, sociólogo |

Exercitando o pensar sobre a conjuntura que se apresenta com a pandemia, mais uma vez, recordei uma conversa, realizada anos atrás, com um conhecido dos tempos da juventude.

Após os cumprimentos e antes de qualquer coisa, logo veio a primeira pergunta: “com o que tu trabalhas?”. Em seguida, foi a vez de: “que carro tu tens agora?”. Depois vieram algumas outras, como: “moras em uma casa?”; “Tens churrasqueira?”. Enfim, passavam-se os minutos e parecia que somente os meus bens materiais é que importavam.

Bom, a pessoa com quem eu dialogava não tinha nascido em “berço de ouro” e eu sabia que tivera muitas restrições materiais na infância e na juventude. Fui para mais uma tentativa de saber se estava de bem com a vida, mas não teve jeito, o interesse dele era listar as suas aquisições: um carro do ano; uma casa com churrasqueira e piscina; uma banheira de hidromassagem no banheiro, câmeras de vigilância espalhadas no pátio e dentro da casa, etc.

Era o jeito e com muito orgulho, de expressar que conseguiu sair das condições adversas e “venceu” na vida. Perguntei se tinha casado e tido filhos. A resposta foi positiva, contudo, nela veio a observação de que não tinha muito tempo para a família, pois trabalhava demais. Para ter tudo o que tinha, precisava “ralar” muito no emprego formal e, no sábado e domingo, em um negócio informal próprio.

É claro que foi muito bom saber que ele estava bem, entretanto, ao olhá-lo, me vinha à mente várias outras pessoas conhecidas, entre elas, umas com sérios problemas de saúde e outras já falecidas. Pessoas que, como ele, se dedicaram a construir o que não tinham antes da vida adulta: patrimônio! Mas, a custo de quê?

Pois bem, é sabido que ninguém está livre de infortúnios com o corpo e que suas origens são diversas, mas há que se considerar que o trabalho em excesso e as situações de estresse contribuem bastante, advindo daí uma nova pergunta: vale a pena?

Boa parte daqueles que já nasceram com muitos bens à disposição, provavelmente, vão dizer que sim, pois eles são os mesmos que necessitam de um mercado consumidor abundante, para que, assim, continuem acumulando recursos e desfrutando sem estresse dos seus bens. É importante que se diga que o seu trabalho é diferente, pois há uma diferença colossal entre aquele que já nasce rico e aquele que quer se tornar rico. O dinheiro é um motivador para ambos, mas as formas e as consequências de sua busca são também bem diferentes.

Com todos os instrumentos de comunicação à disposição, como os da publicidade no cinema, na televisão e, agora mais do que nunca, nas redes sociais, aqueles que já possuem bens de nascença o fazem ecoar, como se fosse algo natural, às mentes dos que não o possuem, a necessidade de ter bens. Despertam, assim, o desejo de ter e a sensação de que o sucesso e a felicidade são o resultado da quantidade de dinheiro que se tem no bolso e pode ser gasto. Nada mais falso, pois se assim o fosse os sentimentos de frustação e de infelicidade caberiam somente aos pobres, o que de fato não se verifica no mundo real.

Pior ainda é ver a influência nefasta de toda essa publicidade para além das ilusões, quando ocorre a necessidade de uma pessoa gastar tudo ou quase tudo o que adquiriu ao longo da vida, com muito “suor”, para “curar” uma doença, fazendo com que apenas deseje voltar a ter saúde e a felicidade, que antes achava não existir.

Toda essa naturalização do desejo de ter é fruto da disseminação de uma ideia dificilmente percebida e que não está a serviço da maioria das pessoas, ao contrário, se vale dos desejos despertados para continuar a justificar a realidade social. Mas seria possível existir uma sociedade menos individualista e consumista?

A história da humanidade nos mostra que já se sucederam várias formas de organização social, logo, que mudanças são possíveis. Sendo assim, já imaginou se os atuais recursos utilizados com publicidade estivessem a serviço de uma ideia de sociedade diferente, em que todos pudessem ter o seu lugar ao sol? Será que isso não poderia fazer aflorar o que o ser humano tem de melhor?

Pois bem, que fique claro que não existe sociedade sem trabalho, mas não podemos esquecer que ela é a concretização de ideias, “absorvidas” como verdade por boa parte das pessoas. Recentemente, em uma live na internet, ouvi que somos o resultado dos filmes que assistimos, dos livros que tivemos contato, das aulas que participamos, enfim, das nossas experiências com o mundo. Está aí uma lição básica da sociologia, ou seja, somos o resultado do que o meio social nos proporcionou, resta saber se temos o desejo de ir além dele.

* Robson Becker Loeck, cientista social, especialista em política, mestre em ciências sociais

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