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Brasil & Mundo

Relato de um sobrevivente do Covid

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Por Geraldo Hasse, jornalista |

O livro NÃO ABRIR OS OLHOS (Edições ARdoTEmpo, 2020) é um relato sofrido do artista plástico Alfredo Aquino sobre sua experiência como vítima do coronavírus, supostamente contraído durante um evento social a que compareceram diversas pessoas numa noite de agosto passado em Porto Alegre.

Mesmo tendo se resguardado perto da lareira, o pintor demorou a ir embora e ficou exposto a contatos fortuitos. Deu mole, enfim… Os sintomas apareceram depois de alguns dias. Feitos os testes, ele precisou ser internado num hospital de Porto Alegre, do qual saiu, dias depois, grato à equipe médica e revoltado com o desmazelo das autoridades em geral diante da doença mais mortal desde o surgimento da Aids.

Com 90 páginas, o livro tem passagens impactantes, a começar pelo  acompanhamento da evolução do estado do seu companheiro de quarto no hospital. No primeiro dia, os dois possuíam idênticos sinais vitais, mas logo o outro mergulhou num estado de inconsciência do qual não saiu mais. Nos dias seguintes, sua piora exigiu novos cuidados e avaliações frequentes da equipe médica. A seguir, foi levado para a UTI e, por fim, lá pelo quarto ou quinto dia, veio a informação de que ele havia morrido, mesmo tendo sido socorrido pelo respirador mecânico.

Após ver seu espelho partir, o artista ficou solito em seu quarto, sem receber visitas senão de integrantes da equipe do hospital. Decidiu manter-se quieto o máximo do tempo para não perder energia com distrações deletérias. Vem daí o título do livro: trata-se de uma referência a seu próprio estado físico – de olhos fechados – mas serve também como metáfora sobre o comportamento das autoridades políticas diante da gravidade da situação.

Sem abrir os olhos mas com a sensibilidade exacerbada pela luta para sobreviver, Aquino entra no melhor do seu relato. Aprofunda-se em algumas reflexões sobre o tremendo risco de morrer sozinho num quarto de hospital. Conclui que a Morte joga cara x coroa com a vida das pessoas, levando uns embora imediatamente e deixando outros para mais tarde. O momento é oportuno para um balanço de vida: segundo Aquino, cada um vai fazendo escolhas que representam “bifurcações”, algumas benfazejas, outras nefastas. Numa divagação próxima do delírio, recorda amigos escritores que a seu ver mereceriam ter ganho o Nobel de Literatura, entre eles o gaúcho Aldyr Garcia Schlee, o poeta maranhense Ferreira Gullar e o paulista Ignacio de Loyola Brandão, seu amigo dos tempos de São Paulo.

O registro é impactante pelo ineditismo e, também, pela descoberta de que, mesmo isolado, um doente pode ser alcançado pela solidariedade de um amigo médico distante que lhe pede informações e dá orientações por vias digitais. Quem o conhece sabe que a mão amistosa é de um psiquiatra de Pelotas.

Narrativa tão pungente pode ser útil às pessoas em geral e, particularmente, para jovens estudantes que desdenham da virulência do coronavirus. É notório que Aquino fez um esforço insano para vencer o vírus na solidão do isolamento e ao mesmo tempo sair do hospital com o rascunho de uma memória sobre a própria internação. Depois, enquanto se recuperava das sequelas da doença – exaustão e vertigens, entre outros sintomas –, ele praticou por semanas um dos atos mais solitários da vida humana: escrever. Coisa que conhecia indiretamente por força de seu ofício como editor.

Alfredo Aquino

Nascido em 1953 em Porto Alegre, Aquino é formado em arquitetura mas passou boa parte da vida profissional em São Paulo, onde sobreviveu como publicitário e capista de livros da Editora Brasiliense e do Circulo do Livro. Explorando sua habilidade para pintar, em 1978 fez uma pioneira exposição crítica à ditadura militar no Museu de Arte de São Paulo. A partir daí, passou a vender quadros no eixo Rio-São Paulo e abriu um surpreendente nicho de mercado na França, onde expõe com frequência.

De volta ao Rio Grande do Sul no início do século XXI, estreou como editor independente ao criar a ArdoTempo com o objetivo de lançar em 2010 Os Limites do Impossível – Contos Gardelianos de Aldyr Garcia Schlee, livro que vendeu 400 exemplares na noite de lançamento em Pelotas e abriu caminho para a luxuosa edição em capa dura de Don Frutos (550 páginas, 2011), romance biográfico sobre Fructuoso Rivera, o caudilho colorado do Uruguai.

Animado com o sucesso de crítica e público, Aquino relançou uma dezena de livros de contos de Schlee, que faleceu em 15/11/2018 aos 84 anos. Depois, a Ardotempo publicou livros de outros autores como a poeta Maria Carpi, a escritora Mariana Ianelli, o poeta Pedro Gonzaga, o médico-cronista Paulo Rosa e o jornalista/cronjista/romancista Ignacio de Loyola Brandão.

Mesmo sem estourar nas bancas com seus lançamentos, Aquino vinha otimista quando a pandemia lhe roubou a esperança em dias melhores, deixando marcas profundas no corpo e na alma.

Mais enquadrável como novela do que como romance, seu livro é uma narrativa instrutiva sobre os efeitos do vírus mais devastador do século XXI.

Se a ciência, a educação e o ensino não estivessem passando por um momento tão constrangedor no Brasil, “Não Abrir os Olhos” seria candidato certo à leitura em escolas para uma tomada de consciência sobre os estragos provocados pelo vírus e o estigma deixado por moléstia tão maligna quanto a tuberculose, o câncer e a Aids.

Dadas as restrições às atividades comerciais, o livro está sendo vendido pelo site da Ardotempo. A R$ 40 por exemplar, a receita obtida será doada a um hospital de atendimento ao Covid. Aquino não apostou numa grande tiragem, até porque é mais artista do que empresário. Como costuma fazer ao editar livros de autores de sua estima pessoal, ele custeia as despesas gráficas com o que consegue amealhar vendendo quadros – bem cotados no Brasil, melhor avaliados na França. Não acredita que o livro seja um sucesso de vendas a ponto de merecer uma segunda edição, mas arremata: “Se este livro evitar algumas contaminações e uma morte por Covid, terá valido a pena tê-lo escrito, editado, publicado e distribuído”.

Geraldo Hasse, jornalista

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Nota conjunta de Instituições do RS sobre a situação em áreas Kaingang

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As universidades e os institutos federais gaúchos vêm a público apontar a violência que está ocorrendo em áreas Kaingang no Rio Grande do Sul, a qual tem envolvido também estudantes de nossas instituições.

Temos relatos de perseguição, tortura e mortes nas terras indígenas de Serrinha, motivados por arrendamentos ilegais. É necessário que respeitemos os povos indígenas, suas culturas e modos de viver, e que possamos nos unir por melhores condições de vida em um planeta ameaçado tanto do ponto de vista ambiental quanto das relações sociais.

Enquanto instituições formadoras de pessoas e profissionais, é nossa responsabilidade defender os direitos humanos, culturais, sociais e de vida digna.

Nesse sentido, esperamos que as instituições competentes enfrentem essa dura realidade, coibindo o arrendamento ilegal de terras indígenas, causa principal para essa escalada de violência na região, evitando mais tragédias e sofrimento.

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha – IFFAR
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – IFRS
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense – IFSul
Universidade Estadual do Rio Grande do Sul – UERGS
Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre – UFCSPA
Universidade Federal do Rio Grande – FURG
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Universidade Federal de Pelotas – UFPel
Universidade Federal do Pampa – UNIPAMPA

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Autor de livro sobre Marielle é assassinado no Rio

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O escritor e capoeirista Leuvis Manuel Olivero, de 38 anos, foi assassinado enquanto caminhava na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ele era autor de 11 livros, um deles sobre Marielle Franco. Segundo testemunhas, os tiros que balearam Leuvis partiram de um carro em movimento. O crime ocorreu no dia 10 de outubro. A polícia ainda não sabe a motivação do homicídio.

Além de homenagear Marielle, Leuvis aponta, no seu livro, a relação das milícias cariocas com o assassinato da ex-vereadora e do motorista Anderson Gomes. Segundo a rádio Band News, outra das suas 11 publicações critica o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

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Brasil & Mundo

Bolsonaro prepara auxílio emergencial de R$ 400

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O governo federal decidiu que o valor do Auxílio Brasil passará de R$ 189, em média, para R$ 400, e contemplará 17 milhões de famílias, de dezembro deste ano a dezembro do ano que vem.

De acordo com a CNN Brasil, o governo deve anunciar a mudança nesta terça-feira (19).

Parte desse valor será pago com recursos do atual Bolsa Família e parte será um auxílio temporário. Serão gastos R$ 84 bilhões, sendo R$ 34,7 bilhões do orçamento do Bolsa Família e mais R$ 50 bilhões do auxílio temporário.

Com o reajuste, Jair Bolsonaro pretende conter a sua alta rejeição nas pesquisas de intenções de votos. 

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