Risco e benefício

Montserrat Martins *

 Medicina não é Matemática que tem números absolutos, como o zero e o dez numa escala de zero a dez. Ciência Médica é um estudo complexo e cada decisão é um cálculo de custo (ou risco) e benefício. O risco de uma cirurgia cardíaca é cerca de 1%, mas alguém será aquele 1% também.

Não existe na Medicina, na saúde, nada absolutamente inócuo, tudo é um conhecimento científico sobre risco e benefício. Nas vacinas contra vírus, como foi na H1N1, os problemas de saúde surgiram em 1 a cada 50 mil pessoas, mais raros do que numa simples dipirona que afeta 1 a cada 40 mil. Penicilina salva vidas em muitas situações, mas há pessoas alérgicas a ela também, que podem até morrer de choque anafilático.

O fato é que sem vacina cerca de 3% das pessoas no Brasil morrem com o Coronavírus (no Rio de Janeiro e Manaus é mais, mas devido ao caos da saúde lá), mas esse índice é desigual nas faixas etárias, acima dos 80 anos é mais de 20% e nos mais jovens é bem menos dos 3% da média geral.

Em uma cidade com 50 mil pessoas, 1 será prejudicada pela vacina mas nenhuma morrerá de Coronavírus se forem todos vacinados. Mas se não forem vacinados e forem contaminados,  1500 pessoas morrerão (os 3%). Fazendo os cálculos, você corre 1500 vezes mais risco não se vacinando, do que se vacinando.

Os medicamentos usados – que são importantes enquanto as pessoas não estiverem todas vacinadas – estão sob estudos também. A Ivermectina é usada tradicionalmente para parasitoses, Azitromicina é antibiótico, Cloroquina para malária. Os riscos de tomar remédio para parasita são quase irrelevantes, os antibióticos usados em exagero podem induzir resistência bacteriana, mas se você for alcançado pela Covid antes da vacina, o risco da Covid é bem maior. Destas o maior risco é o da Cloroquina, pois causa arritmias cardíacas que podem levar à morte, dependendo do estado prévio do paciente.

Estabeleceu-se uma discussão infindável se estes medicamentos seriam úteis ou não, pois foram feitos estudos que não comprovaram sua eficácia, mas também há informações de estudos que apontariam a diminuição da mortalidade entre os pacientes com Covid. Eu sou médico e estou ansioso pela vacina, mas pela relação custo-benefício já tomei Ivermectina, não teria nada a perder. Se a Covid chegar antes da vacina usarei o que os médicos prescreverem, sem medo da Azitromicina, já Cloroquina espero não usar, arritmia não é brincadeira. Ciência é isso, risco e benefício.

Montserrat Martins é médico psiquiatra.

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