Novas formas de fazer política. Por Robson Loeck

Robson Becker Loeck *

A manipulação e a desinformação não são coisas novas na humanidade e no que convencionamos a chamar de política. No século passado, elas já estavam presentes na propaganda política realizada em países liberais e autoritários. A novidade agora são os meios utilizados para tais práticas.

Patrick Champagne, em Formar a Opinião: o novo jogo político, de 1990, descreveu como a política estava sendo realizada na França. A importância adquirida pelos meios de comunicação, principalmente, os televisivos, e a profissionalização da atividade política que, além dos políticos, passava a contar cada vez mais com a presença de consultores especialistas e dos institutos de pesquisa de opinião para o sucesso eleitoral e boa condução governamental.

Todo esse processo tinha começado do outro lado do Atlântico, na eleição de 1960, quando no primeiro debate de candidatos à Presidência do Estados Unidos pela televisão, John Kennedy, jovem, bem apresentável e confiante, teve um melhor desempenho do que o abatido e tenso Richard Nixon. Kennedy tinha se preparado com especialistas para debater na TV, enquanto Nixon preferiu confiar na sua intuição.

Desde lá, ficava explícito que o “problema” não eram os meios, mas, sim, o modo como os meios eram utilizados na comunicação e na propaganda política. A televisão, em relação ao rádio, exigia um novo comportamento dos políticos e se tornou prevalente durante um bom tempo. Ela ainda está aí desempenhando o seu papel, mas, com o advento da internet, passou a dividir as atenções com outros veículos, que voltam a modificar as formas de se fazer política. Sites, blogs e as redes sociais, com a popularização dos smartphones, passaram a ser utilizados por especialistas para dar visibilidade e eleger políticos a cargos que outrora ninguém acreditaria que seria possível.

Ao analisar o contexto italiano e outros ao redor do mundo, esses novos especialistas são chamados por Giuliano Da Empoli de “os engenheiros do caos”. Título de seu livro, de 2019, em que ele descreve como os “spin doctors” (consultores políticos especializados em Big Data) passaram a utilizar a internet e as redes sociais para realizar uma comunicação direta com os eleitores, desprezando a mídia tradicional, até então, detentora da capacidade de ditar o ritmo e os rumos do jogo político.

Políticos como Beppe Grillo, Donald Trump e Jair Bolsonaro, que aliás se apresentam como antissistema político, são exemplos dessa nova “onda” de se fazer política. Nela, o que para muitos parece ser bizarro, inacreditável, horrível ou qualquer outro termo pejorativo, é estrategicamente pensado e divulgado para persuadir eleitores e para governar. O Twitter, o Facebook, o WhatsApp e o YouTube passaram a ser fundamentais e a atingirem em cheio quem não está “vacinado” sobre a maneira como são utilizados para se fazer política.

Materiais sobre isso são encontrados na própria internet e há filmes que ajudam a entender “as novidades”, como os estrangeiros: “Privacidade Hackeada”, “O Dilema das Redes”, “Citizenfour” e “Get me Roger Stone”. Dentre as produções nacionais, temos o “antigo”, mas nem por isso desatualizado, “O Dia Que Durou 21 anos”, que demonstra práticas de desinformação utilizadas nas décadas de 60 e 70 e que agora são praticadas em grande escala nas redes sociais; e também temos “A Verdade da Mentira”, que é outra boa opção sobre o contexto atual brasileiro.

E qual a importância de se inteirar sobre o que se apresenta? A resposta é evitar as práticas de manipulação e o autoritarismo. A democracia pressupõe participação e, para dela participar, é necessário, minimamente, possuir uma opinião sobre um conjunto de “coisas”, sendo fundamental, pra que isso ocorra, o acesso às informações. Logo, valer-se de desinformação em nada contribui para se chegar a uma opinião e, sem ela, caminha-se a passos largos para uma pseudodemocracia.

Compreendido isso, é visível que as dificuldades enfrentadas pela democracia representativa não o são de agora, já o eram, ao menos, desde o tempo em que a mídia tradicional “reinava” sozinha e manipulava a opinião pública. A internet e os sites, os blogs e as redes sociais trouxeram novas possibilidades e, ao que tudo indica, foram, até agora, “melhor” utilizadas em diferentes países pela extrema direita.

No Brasil, em que a mídia tradicional é uma concessão pública e está nas mãos de poucas famílias, o atual presidente trava uma “queda de braço” com uma das redes de comunicação e segue se relacionando diretamente com boa parcela dos brasileiros pelas redes sociais, comandadas por empresas privadas e que desfrutam de pouca regulamentação. Já a esquerda, que recentemente foi tirada do poder e que sempre “reclamou” do monopólio dos meios de comunicação, nada fez para mudar enquanto governou o país. Continua dependente e refém da mídia tradicional e “aprendendo” a usar as redes sociais.

E o que pode um “simples” cidadão fazer diante de um quadro desses? Um bom caminho é assistir, por exemplo, aos programas de televisão com o devido cuidado, sempre com a preocupação de se perguntar o porquê da divulgação de uma notícia em detrimento de outra. Também atentar para não curtir e passar adiante informações pelas redes sociais antes de checar a sua veracidade. Atos simples, mas que fazem toda a diferença pra quem de fato quer fazer a diferença e não simplesmente dizer que a conjuntura política “é culpa dos outros!”.

* Robson Becker Loeck, graduado e mestre em ciências sociais, especialista em política.

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