Cinema: Malcolm & Marie. Por Déborah Schmidt

Ambientado em apenas uma noite, o filme acompanha Malcolm (John David Washington), um cineasta em ascensão, e sua namorada, a atriz Marie (Zendaya). Eles acabam de chegar em casa após a première de seu novo filme e, enquanto aguardam a liberação das críticas, o casal discute sobre os problemas e segredos de seu relacionamento.

Zendaya é Marie

Escrito e dirigido por Sam Levinson, criador de EuphoriaMalcolm & Marie é um lançamento da Netflix que aborda uma história sobre memórias, traumas, erros e, principalmente, a falta de comunicação entre um casal.  

Após voltar da celebrada pré-estreia de seu filme, Malcolm vive a melhor noite de sua vida. Com um copo de bebida na mão e dançando a música que toca ao fundo, ele dá voltas pela sala e a câmera alterna entre acompanhá-lo e focar em Marie, que fuma um cigarro na varanda, claramente com algo a dizer. A cena prepara para o conflito central da trama, em uma tensão que só vai crescer ao decorrer da narrativa.  

Filmado durante a pandemia, com os atores e a produção em isolamento, o longa é limitado a apenas um cenário, uma enorme casa de vidro, e mesmo com algumas cenas ao ar livre, ironicamente, a sensação de distanciamento do casal é enorme.

Com uma dupla de protagonistas que mergulha profundamente na emoção de cada palavra, o aspecto teatral dos diálogos e o tom poético da fotografia em preto e branco mostra que, o que parece ser um pequeno desentendimento após um vacilo de Malcolm, logo toma proporções maiores devido a brutalidade honesta na forma como a discussão avança. A partir daí, acompanhamos o íntimo do casal e a complexidade de manter um relacionamento. Com diálogos bastante intensos, o interminável bate-boca dura a noite inteira e é cansativo e desgastante também para o espectador.  

Enquanto Zendaya vive uma Marie que, mesmo magoada, abre seu coração e se dedica a fazer o relacionamento funcionar, John David Washington entrega um Malcolm explosivo, equilibrando o sucesso de seu novo filme e a atenção que precisa dar à sua companheira. O filme fala muito sobre o ego e a dificuldade em se colocar no lugar do outro. No caso de Malcolm, de valorizar quem sempre esteve ao seu lado.  

Em seus melhores momentos, o filme explora a dificuldade de comunicação de um casal. Enquanto ela internaliza as mágoas, ele fala mais do que deveria. O destaque do longa é retratar o quão longe duas pessoas conseguem ir sem esquecer que se amam. Porém, nos seus piores momentos, o filme fica fascinado pela ideia de discutir cinema.

Embora seja divertido ver o desprezo de Malcolm pelos críticos de cinema, o discurso em si está totalmente deslocado da história principal. Em especial, quando Malcolm surta ao ler a primeira crítica sobre o seu filme, que, aliás, elogia o seu trabalho. Ao abrir espaço na trama para fazer uma crítica sobre a crítica, vemos muito de Sam Levinson no personagem.  

Malcolm & Marie se perde no seu próprio desejo de ser profundo. Sua complexidade está em simplesmente ser o retrato cru e fiel de um relacionamento.

Obrigado por participar. Comentários podem ser rejeitados ou ter a redação moderada. Escreva com civilidade, por favor. Abç.