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Brasil & Mundo

Os militares e a crise. Por Geraldo Hasse

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Foi lançado na noite de terça 16 de março o livro OS MILITARES E A CRISE BRASILEIRA (Alameda Editorial), com 25 artigos de especialistas em assuntos militares, sob a coordenação de José Roberto Martins Filho, estudioso da história militar contemporânea da Universidade Federal de São Carlos. Sem querer teorizar, Martins deixou no ar uma pergunta: onde estão, se ainda existem, os nacionalistas das Forças Armadas? Ninguém respondeu.

Após largar com um atraso de meia hora, a live dirigida pelo editor Haroldo Sereza rolou sem percalços, enterrando o temor de sabotagens por hackers ligados ao governo militaróide do presidente Jair Bolsonaro.

Cada um dos articulistas teve de cinco a dez minutos para expor o conteúdo dos seus artigos, que resumem anos de estudos e investigações. Como disse Manuel Domingos Neto, “esse livro só foi possível graças a uma teia de muitos anos”, mas assim mesmo esse veterano pesquisador admitiu que é preciso pesquisar mais para conhecer e definir “as fileiras desconhecidas que deram o golpe na democracia brasileira”. Segundo ele, Jair Bolsonaro é apenas a ponta de um iceberg ancorado nas costas do Brasil.

Entre as novidades apresentadas pelos palestrantes e que estão explicadas no livro, destacam-se as seguintes:

+ Analisando as chamadas “guerras híbridas” – conceito criado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 1980 –, o antropólogo Piero Leirner explicou que os militares brasileiros assimilaram automaticamente a ideia de que na vida moderna a guerra não se faz apenas no âmbito militar, mas envolve “estratégias comunicacionais” para atacar inimigos que, no caso brasileiro, seriam o PT, o comunismo, as ONGs, o MST, os gays, os quilombolas e outros querelantes do status quo. Situado no front dessa guerra híbrida, Bolsonaro seria o homem-bomba em quem os militares, como “elementos de salvação do caos”, estariam de olho… Conclusão de  Leirner: “Isso vai longe”.   

+ Comentando o risco de ruptura institucional pela militarização do governo brasileiro, o cientista político Eduardo Heleno, da Universidade Federal Fluminense. Disse que a situação brasileira lembra a do Uruguai em 1968, quando Pacheco Areco assumiu o governo, abrindo caminho para a ditadura militar implantada em 1973.

+ Analisando a educação dos militares, a jornalista Anna Penido, especializada em pedagogia, atribui a um processo educacional distorcido a resistência dos militares brasileiros ao controle civil na democracia. Por exemplo, a prioridade na instrução militar inibe o ensino de princípios de direitos humanos, de cooperação e integração. Segundo Penido, os militares vivem num “mundo paralelo” que lhes garante privilégios como o de possuir não apenas uma educação específica, mas uma justiça própria e um exclusivo sistema de inteligência que paira sobre os civis como uma ameaça de golpe ou intervenção.  

+ Eduardo Mei, professor de sociologia da Unesp de Franca, afirmou que o atual governo militar está usando a pandemia como oportunidade para eliminar os “indesejáveis” da sociedade brasileira: a maioria pobre, o que deu origem ao clamor contra o que vem sendo chamado de genocídio.

+ Eduardo Costa Pinto, da UFRJ, disse que os militares se envolveram tanto no governo – refletindo o chamado pensamento olavista (de Olavo de Carvalho), o guru bolsonarista, que “representa a extrema direita dos EUA” – que já não se sabe mais seu papel institucional, pois estão presentes na defesa, na segurança civil e na política, sem que se saiba exatamente se estão em todas essas áreas por ideologia, pragmatismo ou oportunismo corporativista.

+ Pesquisando o mundo dos chamados “influenciadores digitais” que pairam sobre o governo Bolsonaro, o jornalista Marcelo Godoy, autor do livro A Casa da Vovó – Biografia do DOI-Codi 1969-1991, encontrou 115 oficiais superiores (principalmente do Exército) operando uma rede de twitteiros cujo assunto quase exclusivo são ações e medidas do atual governo. Quase um terço desses oficiais é constituído por generais que “sustentam o bolsonarismo”. Com sua vivência como jornalista na área militar, Godoy fez um paralelo entre os atuais influenciadores digitais e os “guerreiros ideológicos” da época da ditadura 64-85 que promoviam reuniões no Clube Militar, no Rio. Como exemplo de “guerreiro ideológico”, ele citou o general Dale Coutinho, que foi um dos expoentes da chamada Linha Dura.

+ Uma das intervenções mais didáticas e serenas coube ao coronel da reserva Eduardo Pimentel. Abordando a intervenção dos militares na política, ele afirmou: “O partido militar dificulta o estado democrático de direito”. Segundo ele, o informal PM (partido militar) tem o que todos os partidos têm: memória histórica, pautas corporativas e base eleitoral. Falta-lhe apenas legalizar-se. Será possível?

+ Decano da Faculdade de Sociologia da UFPR, Ricardo Costa de Oliveira fez a mais longa e contundente palestra da live. Baseado em estudos genealógicos, afirmou que, ao contrário do que se diz, são poucos os militares (oficiais) egressos das classes populares. Os militares de altas patentes fazem parte das elites desde os tempos coloniais e, tal como os juizes e os políticos, possuem visões de mundo conservadoras. Ele deu alguns exemplos. O atual vive-presidente, general Mourão, é filho de general. Augusto Heleno, filho de almirante. Os generais Villas Boas e Etchegoyen, ambos oriundos de famílias militares, uniram-se recentemente para golpear a democracia. Essa visão conservadora é perpetuada pelas escolas militares.

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Para entender a polêmica do “furo no teto” e o Auxílio Brasil

O mais provável é que o governo emita divida para bancar o Auxílio

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O presidente Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes vão usar dinheiro do orçamento (receitas acima do esperado) ou vão emitir dívida, um dos dois, para bancar o Auxílio Brasil, substituto do Bolsa Família. O novo benefício social prevê pagamento mensal de R$ 400, maior que o programa anterior, e vem sendo considerado uma jogada de Bolsonaro, que, em queda de popularidade, estaria pensando na eleição de 2022.

O Congresso pode autorizar o furo no teto. Vai fazê-lo. Afinal, o Centrão quer.

O mais provável é que o governo emita divida para bancar o Auxílio, não se sabe ao certo o que farão. O governo tem uma despesa que não consegue cobrir com receita de impostos. Então ele oferece títulos do governo (emite dívida), que pagam juros, para pessoas que têm dinheiro guardado e aceitam emprestar ao governo.

Problema

Existe um problema porque – com o Auxílio – ocorre o crowding out. Ou seja, esse dinheiro guardado, que poderia ser emprestado para pessoas e empresas privadas usarem de acordo com leis de mercado, passa a ser usado pelo governo. Os liberais não gostam disso porque o gasto do governo é menos eficiente. Fica menos dinheiro para ser usado pelo setor privado. Por exemplo: menos dinheiro para interessados em adquirir imóveis por financiamento.

Quando o governo aumenta sua dívida, faz crowding out = colocar um monte de gente para fora. É o termo para essa ação do governo, de tomar empréstimos no mercado, ter um déficit alto, ocupando um espaço que poderia ser usado pelo setor privado. Em vez de ser usado pelo setor privado, os recursos do setor privado são emprestados para o governo gastar, obviamente dentro das práticas de setor público, que não são as de mercado. É o que vai ocorrer agora…

Vão dar dinheiro para quem não fez por onde ganhar esse dinheiro. Mal comparando com um parêntese (é como Chaplin = arte desenvolvida dentro das regras de mercado versus Procultura, Lei Rouanet, LIC = crowding out. Depois de nove meses, é só ver o resultado: Hollywood x Ancine, Agência Nacional de Cinema).

Emitir dívida fura teto

De qualquer maneira, emitir dívida fura o teto de gastos, que é uma lei que prevê o limite de gastos do governo, independente de ter ou não verba de impostos, buscando controlar a dívida pública, que cresceu muito nos últimos anos. A lei do teto é para dar tempo de a receita crescer, o PIB crescer e, daqui a algum tempo, a relação dívida/PIB diminuir para um percentual mais baixo. Se não, quando a receita de impostos aumenta, o governo vai gastando, gastando, sem diminuir essa relação dívida pública/PIB.

Inflação mundial

Está ocorrendo inflação mundial por causa dos efeitos da pandemia. Houve redução da oferta mundial por causa das paralisações. Agora está acontecendo uma recuperação abrupta com reposição de estoques mundial, o que a produção está com dificuldade de atender. Por isso, aumento mundial de preços, falta de mão de obra em países desenvolvidos etc.

O dinheiro do Auxílio será todo gasto em consumo pelo povão. Vai aquecer a economia e sancionar os aumentos de preço. Mas não vai ser o que gerou a inflação. A inflação já está aí. Vai dar um empurrãozinho nessa inflação.

Imprimir dinheiro demais, um perigo!

O governo sempre está imprimindo algum dinheiro, mas eles têm que calibrar a quantidade emitida de acordo com a demanda do público por dinheiro. Se as pessoas querem mais dinheiro para gastar ou guardar como reserva, imprime. Se imprimir mais que isso, ocorre inflação. Se imprime de menos, deflação.

Nos EUA, como o dólar é a moeda de reserva mundial (todo o mundo quer dólares para guardar), eles podem imprimir muitos dólares. Mas eles também têm que calibrar a emissão com a demanda mundial por dólares, para manter o valor da moeda. Porque os que guardam dólar gostam dele justamente por isso: não perde valor por décadas. Pode-se guardar dólares no cofre como segurança. Para usar em uma emergência: mantém valor e é fácil de vender. Todo mundo aceita.

A hiperinflação ou superinflação ocorrem quando o governo não consegue pagar suas despesas com receitas de impostos ou emitindo dívida. Ele só consegue emitindo moeda. Então emite muito mais moeda, continuamente, para pagar as despesas, muito acima da demanda por moeda do público. O dinheiro do país se desvaloriza e perde a qualidade de moeda de reserva (todo mundo recebe e quer se desfazer do dinheiro o mais rápido possível). A moeda estrangeira (dólar, libra) vira a moeda de reserva preferida.

***

A política fiscal pode não afetar a economia tão fortemente como previsto pelo multiplicador. Um aumento nos gastos do governo causa um aumento nas taxas de juros. Uma alta da taxa de juros reduz os gastos com investimento. Essa redução na demanda, que é resultante de uma política fiscal que aumenta a taxa de juros, é chamada de efeito deslocamento (crowding-out). O efeito deslocamento tende a compensar os impactos que ocorrem na demanda agregada.

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Jefferson, o trágico, é internado em Bangu

Algo nele é excessivamente dramático, paradoxal, especialmente para uma pessoa que se vende como “machão”

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Notícia da rede: A presidente interina do PTB, Graciela Nienov, foi às redes neste domingo pedir orações para Roberto Jefferson. “O ex-deputado foi internado no hospital penitenciário do complexo de Gericinó, em Bangu”, informou ela. “Roberto Jefferson teve que ser internado no hospital do presídio, com quadro de febre alta (39°C), pressão baixa (09/5), taquicardia (110bpm), dor na palpação na região do fígado, acúmulo de líquido nas pernas”. Jefferson foi preso em 13 de agosto. Ordem do ministro Alexandre de Moraes, no inquérito que apura a atuação de uma milícia digital contra as instituições democráticas.

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Jefferson tem na personalidade traços marcantes de personagens trágicos.

Algo nele é excessivamente dramático, paradoxal, especialmente em uma pessoa que se vende como “machão”; não à toa, por certo, seu amor pelo canto e pelas árias, apesar das postagens de si mesmo empunhando escopetas pesadas.

Uma espécie de barbeiro de Sevilha, um fígaro que canta alto e empunha navalhas.

Parece uma alma que se sentiu ofendida por uma aspereza qualquer que o deixou sem saída para o íntimo, a não ser viver e morrer em conflito.

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51,2% dos brasileiros vacinados com duas doses

Quase 153 milhões de pessoas tomaram a primeira dose, o que representa 71,7% da população

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O Brasil alcançou neste sábado, 23, 109 milhões de pessoas vacinadas com a segunda dose ou a dose única de vacinas contra a Covid, de acordo com o consórcio de veículos de imprensa. 

Receberam duas doses ou a vacina de dose única 109.217.821 pessoas, ou 51,2% da população.

Quase 153 milhões de pessoas tomaram a primeira dose, o que representa 71,7% da população.

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