Ser mãe no Brasil. Por Samantha Rosa

Samantha Rosa*

Não esmorecer é uma luta diária, todas sabem que ser mãe não é tarefa fácil. O verdadeiro “jeitinho” brasileiro é dar jeito de criar os filhos, contra todas as adversidades. Ser mãe é se desdobrar, despedaçar em mil e refazer-se todos os dias, batalhando e correndo contra o tempo.

Samantha e e filhos

Sou uma “mãe solo”, mas isso no Brasil não é exceção, é quase a regra, pelo menos metade das mães que conheço se encaixam nesse perfil. Fico imaginando os tantos tipos de mães que existem e passaram por aqui.

Começo lembrando a mãe índia, com seu tacho, ensinando o indiozinho a produzir farinha de mandioca; depois a mãe sertaneja que caminha tantos quilômetros com um balde na cabeça para matar a sede dos seus filhos. Penso na mãe refugiada que só de estar aqui transmite o sentimento de alívio e paz a seus pequenos, na mãe escrava que deixava de amamentar os seus para saciar a fome do filho da sinhá. Imagino a mãe da lavoura levando seu filho para ensinar a hora certa da colheita. Mães babás, mães médicas, mães cantoras, mães faxineiras, mães prostitutas, mães portadoras de necessidades especiais, mães donas de casa, mães, mães, mães… Todas nós temos um pouco de cada.

Ser mãe no Brasil me faz pensar, também, que o Brasil é como uma mãe para seu povo. Ele acolhe filhos de todos os lugares, de todas as cores, miscigenações, crenças e credos. Acolhe a todos como uma mãe tão zelosa e generosa que por vezes sua morada se parece uma “casa da mãe Joana”.

Sobre ser difícil – Além da maternidade em si, com suas circunstâncias cansativas, ter coragem de ser uma mãe brasileira exige muito mais de você, no que se refere à educação, saúde, segurança, transporte, etc … Aqui quase nunca existem assentos disponíveis nos transportes públicos, mas sempre tem o colo ou o abraço aconchegante da mãe para encarar a viagem. Aqui também se espera longas horas por uma consulta de emergência (se for pediatra, mais ainda), mas sempre conseguimos aquelas receitinhas caseiras da vovó e muitas vezes funcionam. Aqui no Brasil, em certos lugares, até o lazer tem horário determinado. Frequentar uma pracinha, por exemplo. Quando escurece, pela falta de segurança, temos de voltar para casa. Conseguir uma creche comunitária também é uma sorte que nem todas têm. Ir às reuniões da escola, às vezes, pode causa até uma demissão.

Sobre ser mágico – Mas, tudo isso tem sua magia. Se você consegue se equilibrar nas finanças, ser mãe no Brasil torna-se uma tarefa mágica. Você pode levar seus filhos a conhecer as belas praias que existem por aqui e sentir a emoção deles vendo o mar pela primeira vez. Não precisa se preocupar com vulcões, terremotos e tsunamis. E você pode apresentar aos seus filhos os vários estilos musicais, criativos, dos brasileiros e se deliciar vendo eles se identificarem com alguns. Você sempre tem histórias para contar antes de dormir, algumas mirabolantes e maravilhosas, parte do nosso folclore como o saci, curupira, boto rosa, mula sem cabeça, negrinho do pastoreio, etc… Você tem o respaldo da sorte de ser uma mãe brasileira e tornar as coisas interessantes e mágicas.

Sobre ter orgulho – Lembro-me de um momento único, quando meus filhos tiveram a apresentação na escolinha em homenagem ao dia do índio. Não pude conter a emoção, ao vê-los representando os índios de uma maneira linda e encantadora. Meu orgulho foi lá em cima. Nada mais brasileiro e maternal do que isso!

Sobre ter esperança – A vida de uma mãe no Brasil requer esperança diária. Eu tenho esperança todos os dias de um futuro digno para meus filhos. Essa esperança se transforma em ações diárias, com lutas, batalhas e por vezes até uma guerra. Eu tenho esperança, a de que meus filhos são o futuro do Brasil. Porque sim, eu planto neles a semente da dignidade, da justiça, do respeito. Planto neles sentimentos de respeito às suas origens e de principalmente se orgulharem delas.

Falar sobre a vida de mãe no Brasil exigiria um capítulo enorme deste livro. Contudo, reitero que temos a sorte de ser filhas do país mais “mãe”, mais acolhedor do mundo. Além disso, temos um tempero extra para ajudar nessa jornada: a pimenta, o gingado e o axé que só a mãe brasileira tem.

Samantha Lindmann, estudante de biomedicina , apaixonada por escrever sobre tudo, pelos filhos e pela vida!

O texto foi publicado originalmente no livro Em Busca da Alma do Brasil, que teve como principal autor, além de organizador, o médico psiquiatra Montserrat Martins.

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