A mulher na janela. Por Déborah Schmidt

Programado para estrear em 2019, A Mulher na Janela passou por refilmagens após reações negativas do público em exibições testes e sofreu adiamentos por causa da pandemia. Distribuído pela Netflix, o filme estreia com a nítida impressão de que todos os problemas estão refletidos no seu resultado final.

Baseado no livro homônimo de A.J. Finn, o filme acompanha Anna Fox (Amy Adams), uma psicóloga infantil que vive confinada em casa, já que sofre de agorafobia, um transtorno de ansiedade que a impede de sair em público. Dentro de seu apartamento em Nova York, ela passa os dias bebendo vinho, assistindo a filmes antigos e observando seus vizinhos. Quando a família Russell se muda para o prédio da frente, ela passa a espionar o que seria a família perfeita, até testemunhar uma cena chocante.

Dirigido por Joe Wright e com o roteiro do ator, roteirista e dramaturgo Tracy Letts, o longa explora o ponto de vista de uma alcoólatra reclusa que passa o dia vigiando seus vizinhos.

Ao prometer um suspense psicológico, que foca em um suposto assassinato testemunhado pela protagonista, a produção falha ao desenvolver sua principal personagem. Ao assumir um desnecessário tom teatral, a narrativa erra ao não explorar o cotidiano solitário de Anna e sua condição psicológica.

A ideia principal é que o público questione o que está acontecendo e se o que Anna está vendo é real ou imaginação. Entretanto, esse caos mental nunca é aproveitado e o público apenas presencia os acontecimentos surgindo de forma apressada. Assim, por mais que seus acontecimentos sejam intrigantes, a trama vira uma grande bagunça. Outro grande destaque negativo é o de não desenvolver seus coadjuvantes.

Além de não aproveitar o ótimo elenco, prejudica o desenvolvimento da história, tirando boa parte da tensão do filme.

No aspecto técnico, a bela fotografia de Bruno Delbonnel explora muito bem a ambientação do apartamento, proporcionando momentos de angústia e claustrofobia. Infelizmente, a trilha sonora do sempre competente Danny Elfman é praticamente inexistente, visto que nunca se encaixa no ritmo do filme e nem sequer passa a ideia de ameaça constante.  

Uma das atrizes mais talentosas de Hollywood, Amy Adams brilha ao mostrar todas as nuances psicológicas e a confusão mental de Anna, ainda que o roteiro não contribua para um desenvolvimento mais denso de sua complexa personalidade. A atriz consegue salvar o filme do desastre completo. Aliás, ao seu lado está um elenco de apoio invejável, formado por Gary Oldman, Julianne Moore, Jennifer Jason Leigh, Wyatt Russell, Brian Tyree Henry e Anthony Mackie, porém todos são mal aproveitados e não ganham tempo suficiente em cena.  

Com uma referência logo no início ao clássico Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, A Mulher na Janela decepciona os fãs do gênero com uma trama superficial. Intrigante e problemático, vemos uma narrativa bagunçadaque nunca consegue desenvolver sua história.

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