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Cultura & diversão

Luca é sobre amizade e nostalgia

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Ambientado na Riviera Italiana, Luca acompanha o protagonista e seu novo amigo Alberto aproveitando o verão na costa italiana. Mas os dois guardam um segredo: eles na verdade são criaturas marinhas que assumem uma forma humana quando estão em terra.  

Lançado diretamente no streaming da Disney+, essa animação da Disney/Pixar conta uma jornada de autoconhecimento e liberdade, na estreia em longa-metragem do diretor italiano Enrico Casarosa. Assumidamente autobiográfico, Luca e Alberto são inspirados na infância do diretor e de seu amigo, também chamado Alberto, em Gênova, na Itália.  

Extremamente protegido pelos pais, Luca é um monstro marinho de 13 anos que tem medo da superfície por causa dos marinheiros que pescam no local. Um dia, ele conhece outro monstro marinho, Alberto, que vive sozinho em um farol velho na beira do mar e descobre que pode se transformar em ser humano ao sair da água. Ambos decidem se aventurar em busca de uma Vespa e acabam desenvolvendo uma forte amizade. No simpático vilarejo de Portorosso, eles conhecem uma garota da cidade, Giulia, e se juntam a ela em uma competição bem italiana, que consiste em nadar, comer massa e pedalar. A dupla, entretanto, está interessada no prêmio, que os possibilitaria comprar uma Vespa e conquistar a liberdade que tanto sonham.  

Diferente de suas animações mais recentes, Luca não traz nenhuma revolução à filmografia da Pixar. Ainda assim, a Pixar continua apresentando temas profundos como a descoberta pessoal e o amadurecimento. O contraponto entre a insegurança e a inocência de Luca com a coragem e a independência de Alberto, faz com que os personagens se tornem facilmente o mais novo par de amigos com um relacionamento genuíno, como o de Woody e Buzz, de Toy Story.  

Com uma impressionante riqueza de detalhes, a produção é primorosa técnica e visualmente, o que deve agradar tanto as crianças como os adultos. Aliando maestria técnica com uma narrativa simples, o filme possui humor na medida certa e emociona quando necessário.  

Com simplicidade, nostalgia e beleza, Luca é uma história de amizade e aventura dentro de um visual vibrante e encantador. Além disso, é uma carta de amor ao cinema italiano, Ennio Morricone e Hayao Miyazaki.

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    Déborah Schmidt é servidora pública formada em Administração/UFPel, amante da sétima arte e da boa música.

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    Cultura & diversão

    O crepúsculo da democracia

    “Dos Estados Unidos e Grã-Bretanha à Europa continental, Ásia e América do Sul, as democracias liberais estão em risco, enquanto o autoritarismo está em ascensão”

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    A historiadora e vencedora do Prêmio Pulitzer Anne Applebaum explica por que as elites democráticas de todo o mundo estão se voltando para o nacionalismo e o autoritarismo. Eleito o Livro do Ano pelo The Washigton Post e pelo The Financial Times.

    Fernando Nogueira da Costa, professor Titular na UNICAMP

    Anne Applebaum é vencedora do Pulitzer Prize com o livro intitulado “Crepúsculo da Democracia” (Twilight of Democracy – The Seductive Lure of Authoritarianism. Penguin Random House LLC, 2020).

    Norte-americana, ela se radicou na Polônia. Seu marido, no réveillon de 1999, era vice-ministro das Relações Exteriores do governo polonês, depois foi ministro da Defesa e das Relações Exteriores. A autora é ótima contadora de histórias políticas, vivenciadas pessoalmente. Sua narrativa é cativante. A mente humana aprecia boas estórias.

    Na festa do fim do milênio, os convidados acreditavam em democracia, no Estado de Direito e na Polônia. Como país-membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), estava em vias de ingressar na União Europeia, parte integrante da Europa moderna. Nos anos 90, lá, era esse o significado de estar “à direita”: os conservadores, os anticomunistas, os neoliberais – liberais pró-livre mercado sem os valores liberais clássicos de defesa dos direitos de minoria –, talvez “thatcheristas”.

    Naquele momento, com a Polônia na iminência de se integrar ao Ocidente, tinha-se a impressão de todos torcerem pelo mesmo time. Concordavam sobre a democracia, o caminho para a prosperidade, e o rumo tomado pela Nação.

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    Aquele momento passou. Decorridas quase duas décadas, aquelas pessoas mudam de calçada para evitar encontros. Cerca de metade dos convidados nunca mais falaria com a outra metade. Os estremecimentos são políticos. Hoje, a Polônia é uma das sociedades mais polarizadas da Europa – uma grave cisão divide não só o que costumava ser a direita polonesa, mas também a tradicional direita húngara, a direita italiana e ainda, com certas diferenças, a direita britânica e a direita norte-americana.

    Applebaum compara a situação atual com a anterior à II Guerra Mundial. A maioria dos amigos pertencentes à direita, um por um, foram atraídos pela ideologia fascista. Passaram a demonstrar convicção cega e arrogância ao deixar de se identificarem como europeus e passarem a se qualificar como “nacionalistas de sangue e solo”. Eles descambaram para o pensamento conspiratório ou se tornaram irrefletidamente rudes.

    Hoje vem ocorrendo transfiguração semelhante na Europa, onde Applebaum habita, e na Polônia, um país cuja cidadania obteve. Mesmo depois do colapso financeiro global de 2008, o país não passou por nenhuma recessão. A onda de refugiados, embora tenha atingido outros países europeus, não chegou lá. Na Polônia, não existem campos de migrantes, nem há terrorismo islâmico ou terrorismo de qualquer gênero.

    Os ideólogos ultranacionalistas, talvez não sejam todas pessoas tão bem-sucedidas quanto gostariam, mas não são gente pobre nem do meio rural, nem são, de modo algum, vítimas da transição política. Tampouco constituem uma subclasse empobrecida. Ao contrário, são pessoas instruídas, falam diversas línguas e viajam para o exterior.

    O que terá causado essa transfiguração? Alguns dos ex-amigos teriam sempre sido autoritários enrustidos? A explicação, infelizmente, é universal. Dadas as devidas circunstâncias, qualquer sociedade pode se voltar contra a democracia. Aliás, a julgar pela história, todas as sociedades acabarão por fazê-lo.

    Todos esses debates têm em seu cerne questões políticas fundamentais. A quem cabe definir uma Nação? E a quem, por conseguinte, cabe conduzir uma Nação?

    De acordo com a Psicologia Comportamental, cerca de um terço da população de qualquer país tem a chamada de predisposição autoritária. Favorece à homogeneidade e à ordem. Pode estar presente sem necessariamente se manifestar. Ao contrário dela, uma predisposição libertária, privilegiando a diversidade e a diferença, também pode estar presente silenciosamente em certo número de pessoas rebeldes.

    A definição de autoritarismo não é política e não é semelhante a conservadorismo. O autoritarismo apela, simplesmente, a pessoas incapazes de tolerar a complexidade: não há nada intrinsecamente “de esquerda” ou “de direita” neste instinto. É anti-pluralista. Suspeita de pessoas com ideias diferentes. É alérgico a debates acirrados.

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    Se os possuidores derivam sua política do marxismo ou do nacionalismo, isso é irrelevante. É um estado de espírito, não um conjunto de ideias.

    Mas os teóricos muitas vezes deixam de lado outro elemento crucial no declínio da democracia e na construção da autocracia. A mera existência de pessoas admiradoras dos populistas demagogos ou mais confortáveis ​​em ditaduras não explica totalmente por que os demagogos vencem.

    O ditador quer governar, mas como ele atinge aquela parte do público com o mesmo sentimento totalitário? O político iliberal quer minar os tribunais para se dar mais poder, mas como ele persuade os eleitores a aceitar essas mudanças?

    Nenhum autoritário contemporâneo pode ter sucesso sem os escritores, intelectuais, panfletários, blogueiros, spin doctor [assessor de político ou marqueteiro hábil em tornar a imagem deste aceitável ou simpática à opinião pública], produtores de programas de televisão e criadores de memes. Eles vendem sua imagem ao público.

    Os autoritários precisam das pessoas capazes de promover o golpe eleitoral populista. Mas também precisam de pessoas capazes de usar uma linguagem jurídica sofisticada, ou seja, pessoas com argumentos para violar a constituição ou distorcer a lei.

    Eles precisam de pessoas capazes de, via algoritmos encaminhados para os segmentos certos, dar voz às queixas, manipularem o descontentamento, canalizarem a raiva e o medo, propagandear uma Teoria da Conspiração e um futuro imaginário diferente. Eles precisam de membros da elite intelectual e culta. Esses cúmplices os ajudam a lançar um boicote midiático e financeiro contra o resto da elite intelectual e culta, mesmo se isso incluir seus colegas de universidade, seus colegas profissionais e seus ex-amigos.

    Designo essa nossa gente com a expressão casta dos sábios-intelectuais ou sacerdotes. Os dissidentes evangélicos constituem a casta dos sabidos-pastores. Todos somos, no fundo, pregadores de ideologia e/ou religião se não respeitarmos o método científico.

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    Pior, o Estado de Partido Único Iliberal, agora o desejado por todo populista, foi desenvolvido por Lenin. O fundador da União Soviética certamente será lembrado não apenas por suas crenças marxistas, mas como o inventor dessa forma duradoura de organização política. É o modelo adotado por muitos dos atuais autocratas do mundo.

    O Estado Iliberal não é uma filosofia marxista. É um mecanismo para manter o poder e funciona a favor de muitas ideologias. Funciona porque define quem pode ser a elite. Pertence à nomenclatura, isto é, está sujeito à nomeação para cargos políticos.

    Nas monarquias, o direito de governar era concedido à aristocracia. Ela se definia por códigos de educação e etiqueta. Nas democracias ocidentais modernas, o direito de governar seria garantido, em tese, por diferentes formas de competição: campanha e votação, testes de méritos para acesso ao ensino superior e ao serviço público, mercados livres para empreendedores com iniciativa particular.

    Antes, a maioria presumia a competição democrática ser a forma mais justa e eficiente de distribuir o poder. Os políticos mais competentes deviam governar. As instituições do Estado deviam ser ocupadas por pessoas qualificadas. As disputas entre elas deviam ocorrer em igualdade de condições para garantir um resultado justo.

    O Estado de Partido Único, adotado por Lenin, era baseado em valores diferentes. Ele derrubou a ordem aristocrática, mas não colocou um modelo competitivo em seu lugar.

    Não é apenas antidemocrático, também é anticompetitivo e antimeritocrático. Cargos em universidades, empregos de direitos civis e funções no governo e na indústria não vão para os mais trabalhadores ou mais capazes: vão para os mais leais.

    Os indivíduos avançam não mais por causa do talento pessoal, mas porque estão dispostos a se conformar às regras do Partido. Essas regras geralmente excluem a ex-elite governante e seus filhos. Favorecem, por exemplo, os filhos da classe trabalhadora ou da casta de militares. Acima de tudo, favorecem as pessoas capazes de professar abertamente a fé no Partido: são militantes fieis e seguidores acríticos do líder.

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    Ao contrário de uma oligarquia comum, o Estado de Partido Único permite a mobilidade ascendente: os verdadeiros crentes podem progredir. Essa é a fonte de atração do autoritarismo para pessoas ressentidas ou malsucedidas. Invariavelmente, substitui todos os talentos de primeira linha, independentemente de suas simpatias, por malucos e tolos, cuja falta de inteligência e criatividade é a garantia de sua lealdade.

    O populista desdenha a ideia de um Estado Neutro com funcionários apolíticos e uma mídia objetiva. Considera a liberdade de imprensa “um engano”. Zomba da liberdade de reunião e expressão. Considera a democracia parlamentar um meio para a supressão da classe trabalhadora ou de militares. A imprensa pode ser livre e as instituições públicas podem ser justas, apenas depois de serem controladas por castas de natureza ocupacional – por meio do Partido. O populismo de direita adotou esse legado leninista.

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    Noite passada em Soho. Por Déborah Schmidt

    Apostando na dualidade e na falsa nostalgia, Noite Passada em Soho é um thriller psicológico imperdível

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    Noite Passada em Soho acompanha a sonhadora Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem apaixonada por moda que decide deixar sua pequena cidade natal para estudar em Londres. Quando aluga um quarto no bairro do Soho, no entanto, ela começa a ter sonhos e visões de Sandie (Anya Taylor-Joy), uma aspirante a cantora que buscou a fama na Londres dos anos 1960 com a ajuda de Jack (Matt Smith), seu namorado e empresário.  

    O longa conta com a direção de Edgar Wright, que sempre aprimora seu estilo e a forma de contar histórias. Em sua ótima filmografia, as divertidas comédias inglesas recheadas de referências à cultura pop Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso, a adaptação de Scott Pilgrim Contra o Mundo e a ação moderna Em Ritmo de Fuga. Escrevendo o roteiro ao lado de Krysty Wilson-Cairns, indicada ao Oscar por 1917, Wright mostra porque é um dos cineastas mais promissores da atualidade, em sua obra mais madura e original.  

    Inspirado por clássicos do terror, como Dario Argento, o filme encanta pelo excelente trabalho visual. Com brilhantes holofotes da década de 60, a fotografia do sul-coreano Chung-hoon Chung aposta nas luzes neon para evocar o terror. Repleto de cenas impressionantes, realizadas através de coreografias e sem o uso de computação gráfica, o destaque vai para a primorosa sequência de dança que envolve os personagens de Anya Taylor-Joy, Thomasin McKenzie e Matt Smith. Com uma coreografia executada com perfeição pelo trio, vemos uma troca de lugares entre as duas, que se alternam durante a dança de forma imperceptível. Há também o uso fenomenal de espelhos, e, novamente, sem a utilização de recursos digitais, e sim, utilizando sets duplicados e espelhos que deslizam pelas câmeras, além da movimentação de Wright e de seu montador Paul Machliss. Como se não bastasse, a trilha sonora de Steven Price é simplesmente incrível. “You’re My World”, sucesso na voz de Cilla Black, serve de ambientação para a primeira visita de Ellie ao passado e “Downtown”, originalmente gravada por Petula Clark, ganha a surpreendente interpretação de Anya Taylor-Joy e marca o verdadeiro momento de conexão emocional entre Sandie e Ellie.  

    Com uma carismática dupla de protagonistas, Thomasin McKenzie acerta no tom doce de Eloise e Anya Taylor-Joy rouba a cena com uma presença hipnotizante. Infelizmente, o filme é o último papel da icônica Diana Rigg, para quem o filme é dedicado, e que faleceu antes de seu lançamento. A atriz é um dos grandes destaques, interpretando a proprietária do imóvel para o qual Ellie se muda. Também no elenco, o veterano Terence Stamp entrega uma performance poderosa de um personagem misterioso.  

    Apostando na dualidade e na falsa nostalgia, Noite Passada em Soho é um thriller psicológico imperdível.  

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    Parada da diversidade no Guarany: em tese, Johns Waynes são proibidos

    O release diz que participarão (sic) “drag queens, atores, bailarinos, cantores, rappers etc”

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    A prefeitura organizou a parada da diversidade sexual deste ano com um conceito hollywoodiano. “Red carpet”, diz o release. Tapete vermelho do Oscar.

    Como se os participantes fossem receber estatuetas por desempenhos no cinema.

    O percurso deste ano será curto: da porta do Teatro Guarany para dentro dele.

    O release diz que participarão “drag queens, atores, bailarinos, cantores, rappers etc”.

    “Johns Waynes”, em tese, são proibidos na parada da diversidade.

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