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Cultura & entretenimento

A beleza cerca de Montevideu. Por Marcos Macedo

“Chegamos na aduana uruguaia quando já anoitecia. Do lado de lá soprava um vento frio e limpo que quando senti pela primeira vez respirei fundo para encher os pulmões”

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Duas estudantes entraram na loja para reclamar.

– Nós viemos pedir pra tirar o pôster da vitrine.

Que pôster? Por quê?

– O da mulher. Ele nos ofende.

Era uma foto em preto e branco de uma mulher em pose sensual. A modelo estava parcialmente vestida; de costas nuas, mostrava a linha do seio e só. O resto era sugestão.

– É um modelo irreal e inatingível. Humilha mulheres de carne e osso como nós que passamos na calçada. Mas não é só a nós mulheres que faz mal. Quando uma criança vê uma imagem dessas ela cresce buscando um ideal impossível que vai fazer dela uma Mulher Adulta Infeliz! Bulímica, anoréxica e neurótica. Um objeto miserável do mundo machista patriarcal.

Ok. Escondam a Vênus de Milo no depósito do Louvre, arranquem as páginas dos livros de arte com majas desnudas. As belas: sumam com elas. A beleza: esqueçam três milênios de platonismo e elogio do ideal.

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A melhor definição de beleza encontrei em uma estante estreita de uma pequena livraria em Montevideu. Os livros não tinham muita ordem e estavam uns sobre os outros, então era preciso pegar um por um para ver do que tratavam. “El libro de las preguntas”, encontrei no fundo de uma pilha. Neruda tem um livro com esse título, mas esse era outro livro de outro autor. “Que es la belleza? La belleza es la promesa de felicidad.” Guardei essa linda resposta na cabeça até hoje. É uma citação de Stendhal. E é também puro Platão.

***

Meu pai veio me ver dias atrás.

– Estou indo para o Uruguai depois do almoço. Vem junto – convidou.

Há dez anos ele não aparecia, desde que pedi para ele não vir mais a minha casa. Ele vinha no meio da noite quando todos estavam dormindo e entrava no quarto do meu filho para ver o neto. Meu filho tinha dois anos e acordava assustado com a visita daquele estranho de madrugada. Acordava e chorava desesperado.

Agora, depois de tantos anos, meu pai está de volta. Como de costume no meio da noite.

– Estás morando em Montevideu, pai?

– Cerca de Montevideu.

Fui com ele. Tínhamos tanto o que falar. Até o Chuí não seria suficiente para ouvir como era a vida cerca de Montevideu e para eu contar tudo que tinha acontecido em dez anos, mesmo eu falando aos borbotões. Muita água passou debaixo da ponte. Minha vida mudou muito.

Montevideu

– Pai, eu sinto como se estivesse remando num barco furado.

As brigas, as acusações, a falta de dinheiro. Eu precisava desabafar e chorar e finalmente encontrei com quem. Foi o que fiz. Me desmanchei.

– Calma. Tu estás dando o melhor de ti. Estás fazendo tudo pelo melhor. Isso é o que importa. Tu estás cansado. A única coisa que precisas é de descanso. Cerca de Montevideu… – ele continuou, contando alegremente das caminhadas nos campos, dos mates à tardinha, das mil e uma maneiras que eu tinha de descansar cerca de Montevideu.

– Meu filho – disse ele -, pra enxergar melhor é preciso tomar distância dos problemas.

Chegamos na aduana uruguaia quando já anoitecia. Do lado de lá soprava um vento frio e limpo que quando senti pela primeira vez respirei fundo para encher os pulmões com o cheiro da noite escura e dos bosques de pinheiros de Santa Tereza quilômetros à nossa frente.

– Quando tu eras pequeno – meu pai falou antes de descer do carro – tua mãe te dava banho e depois te sentava no meu colo pra eu segurar as tuas mãos e te aquecer. Lembras disso?

Sim. Sim. Mil vezes sim! O colo do meu pai. Como esquecer? O colo do meu pai: o carinho e a confiança; a palavra certa na hora certa; o incentivo; a fé na gente; minhas mãozinhas gordinhas e geladas dentro das mãos grandes e quentinhas do meu pai.

Ao lado do prédio decrépito e mal iluminado da aduana, sozinho dentro do carro, eu choro e sinto como se estivesse finalmente me curando de uma doença há muito incubada no peito. A dor de não ter com quem falar de verdade, o mal da falta de intimidade, de falar e ser mal compreendido ou maliciado. O peso de estar sempre errado e ser sempre o culpado. De se esforçar ao máximo e nunca ser o suficiente.

Depois de alguns minutos meu pai voltou com os documentos carimbados. — Tudo ok. Hora de atravessar — disse já dentro do carro.

Mas eu não podia ir junto. Tinha que voltar.

– Pai, meu filho me espera. Eu preciso voltar. Com sorte eu consigo uma carona e chego antes da meia noite. Adeus, pai! A Deus, meu pai!

E foi isso. Não atravessei a fronteira. Fiquei do lado de cá e vi o carro acelerar na estrada reta e negra e sumir do lado de lá quando cruzou com um carro que vinha do sul.

O que é a beleza? Não sei dizer o que ela é. Sei o que é paz no coração. Eu a entrevi quando era criança, depois do banho, sentado no colo do meu pai… A paz…

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Cultura & entretenimento

Missão russa gravou o primeiro filme de ficção fora do planeta

Atriz e diretor passaram 12 dias na Estação Espacial Internacional

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Já regressaram à Terra a atriz e o diretor de cinema russos que viajaram até a Estação Espacial Internacional. Depois de 12 dias, eles regressaram com uma missão cumprida: gravar o primeiro filme no espaço.

A atriz Yulia Peresild e o diretor Klim Shipenko decolaram, no último dia 5, para a Estação Espacial Internacional, na nave russa Soyuz, com o cosmonauta Anton Shkaplerov, um veterano em três missões espaciais.

A Soyuz MS-19 decolou e pousou na estação de lançamento espacial russa em Baikonur, Cazaquistão.

O filme foi intitulado Challenge (Desafio, em inglês), no qual uma cirurgiã interpretada por Peresild viaja para a estação espacial para salvar um tripulante que sofre um problema cardíaco.

Numa conferência de imprensa antes do voo, na segunda-feira (4), Peresild e Shipenko reconheceram que foi um desafio adaptarem-se à disciplina rígida e às exigências rigorosas durante o treinamento do voo.

Nave Luna-25

O voo da equipe cinematográfica aconteceu no mesmo dia em que a Rússia anunciou o adiamento do lançamento da nave Luna-25 para o polo sul da Lua até julho de 2022.

A Rússia inicialmente queria enviar o Luna-25 em outubro deste ano, mas em agosto atrasou a missão para maio de 2022 para permitir mais tempo para realizar testes adicionais no equipamento de bordo.

* Com informações da RTP – Rádio e Televisão de Portugal

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Cultura & entretenimento

A velha senhora. Por Eduardo Affonso

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Costumava cruzar, toda manhã, com um casal que também parecia gostar de acordar cedo e dar uma volta.

Ela, bem velhinha. Ele, velhíssimo.

Caminhavam lentos, de mãos dadas — ele, amparado na fragilidade dela; ela, sustentada pela debilidade dele.

Não vou negar que uma névoa de inveja se insinuasse por dentro de mim.

Estavam lúcidos, ambos. Andavam no mesmo ritmo e pareciam estar conversando o tempo todo. Ainda não haviam se cansado um do outro, ainda tinham o que dizer naquelas longuíssimas caminhadas (longas no tempo que levavam, não na distância percorrida).

Muito brancos, os dois. Sempre de calças compridas, camisas de mangas compridas, tênis, chapéu. Mãos e rosto rescendiam a protetor solar.

Vi-os algumas vezes sentados nos bancos que há ao longo da calçada, talvez tomando fôlego, talvez tomando sol, talvez se sentando apenas porque é para isso que servem os bancos.

Reduzi o passo uma vez, curioso para saber do que falavam.

Em vão: falavam em alemão.

Um dia, pela primeira vez, a vi sozinha.

Silenciosa.

Não amparava mais: vinha ela própria se amparando numa bengala.

Não soube o que houve com ele.

Foi quando a inveja deu lugar à compaixão. Por ela estar agora só, sem ter em quem se apoiar no caso de uma queda, tendo que responder ela mesma às perguntas que fizesse, e se indagar que perguntas ele faria.

Passei a acompanhá-la à distância, reduzindo o passo e refreando os cachorros, anjo da guarda improvisado para o caso de uma raiz de amendoeira lhe tirar o equilíbrio, uma pedra solta no piso a levar ao chão, um ladrão lhe vir arrancar a bolsa que trazia apertada ao corpo.

Emparelhei com ela algumas vezes. Arrisquei um “Bom dia! ”, envergonhado de um “Guten Morgen” vir a iniciar uma conversa que eu não conseguisse levar adiante. Ela me respondeu em português perfeito, com um sorriso nos olhos e nos lábios e na voz.

Os “bons dias” se sucederam, sem que eu tivesse coragem de perguntar quem era ela, que histórias guardava, em que pensava, se não queria dividir comigo “eine Tasse Kaffee”. Se não podia me deixar gozar com ela de um pouco da lucidez que se esvaiu da minha mãe, se me permitiria cuidar dela cinco minutos por dia e ter com ela as conversas que emudeceram quando minha mãe perdeu a voz, o sorriso, o olhar.

Encontrei-a com frequência — sozinha — na padaria. Uma média de café com leite, um pão com manteiga mastigado lentamente com as gengivas.

A padaria fechou.

Como numa foto que desbota com o tempo, a senhora de olhos claros, pele clara, moletom, bengala, chapéu e passos suaves, também se apagou das minhas vistas, dos meus passeios matinais.

Passeio agora, sozinho, com os cachorros. Sozinho, não: com todas as perguntas que queria ter feito, todos os sorrisos que poderia ter-lhe dado, todas as histórias que jamais ouvirei.

Ela nunca soube que me protegia da solidão.

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Cultura & entretenimento

Sete ao Entardecer Festival traz novas apresentações na segunda

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A Prefeitura de Pelotas informa que segue, na próxima segunda-feira (18), o Sete ao Entardecer Festival 2021, projeto vinculado à Secretaria de Cultura (Secult).

As apresentações virtuais ocorrem às segundas-feiras, nos canais do youtube da Secult Pelotas (www.youtube.com/secultpelotas) e do Sete ao Entardecer (www.youtube.com/seteaoentardecer), a partir das 19h, com duas atrações por dia. Nesta segunda os shows serão com Brenda Billmann e Asafe Costa, seguidos pela banda Matudarí. 

Conheça os artistas

19h

– Brenda Billmann e Asafe Costa

O contato de Brenda Billmann com a música vem desde criança, tendo participado do coral do colégio em que estudava. Com o decorrer do tempo, começou a cantar em eventos na cidade e também em festivais de música nativista. Participou de festivais de coral fora do estado.

Hoje estuda Música Popular na UFPel, tendo grande paixão pela MPB, Bossa Nova e Jazz – estilos que formam sua identidade musical. 

Asafe Costa toca desde seus 8 anos e dá aulas de violão. Toca em bares da cidade de Pelotas, eventos particulares e casamentos. Participou no Projeto Prata da Casa 2019 e no Sete Ao Entardecer Festival 2020.1

9h30

– MatudaríMatudarí é uma banda independente que busca resgatar, com músicas autorais, as raízes da música brasileira. Surgiu em 2012 e, desde essa data, vem criando composições que mesclam diferentes ritmos e sonoridades.

O nome “Matudarí” é a junção de duas palavras: Mato do Ari – que se tornou símbolo de resistência na cultura do Laranjal. História de um homem que, ao ser retirado de onde morou como caseiro durante anos acabou por cometer suicídio como um ato político de quem perdeu a voz contra o sistema. Ari foi um dos personagens reais que conviveu e hoje permeia o imaginário que constrói a Matudarí.

Donato, um velho sábio, conselheiro e amigo, também foi motivo de inspiração. Enquanto serviu à aeronáutica, adquiriu uma grave doença que, segundo os médicos, não tinha cura e, por isso, foi abandonado em um leito. Se vendo nessa situação, resolveu fugir, se resguardar e buscar sua cura. Foi assim que chegou a Pelotas e montou seu acampamento no Laranjal.

Estudou Fitoterapia para produzir seus próprios remédios e prolongou sua vida por décadas. Antes de falecer deixou uma poesia que posteriormente foi musicada pela banda recebendo o nome de “Nato do Mato”. Em 2016, a banda gravou com o grupo de Rap Causo Beats, também do Laranjal, o disco “Rap Com Banda”, onde foram feitas releituras de suas rimas em versões instrumentalizadas. Atualmente, está em processo de produção de músicas autorais que serão lançadas em 2021, e vão fazer parte do primeiro disco próprio: Um canto do Mato.

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