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Especial

O demolidor. Por Marcos Macedo

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Conto.

Foi arrastando a perna e com a barba por fazer que o senhor Gille entrou na sala de espera do médico. Quando descobriu que eu gostava de coisas antigas, olhou-me com ar solene e anunciou, escandindo as palavras:

– Eu demoli o prédio mais bonito de Pelotas.

– ?

– O Perry – explicou o senhor Gille. E completou, dessa vez pausadamente para tornar ainda mais claro: – Eu – demoli – o – Perry. Na 15 de Novembro, ao lado da galeria.

Eu conhecia por fotos antigas o edifício de três andares, com belas colunas. O senhor Gille viu que agora sim podia prosseguir.

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– E não só o Perry – disse. – Demoli o Bule Monstro, a Livraria do Globo e a casa do Antenor Larrosa; o Cine Apolo, a Confeitaria Brasil e o palacete do doutor Pereirinha. E concluiu, num tom forçado de modéstia:

– Pra falar a verdade, demoli a cidade inteira. Em seguida puxou o lenço do bolso e assoou o nariz. Estava gripado. Esse tempo úmido é cruel com os velhos, pensei enquanto o senhor Gille se recuperava.

– Tu gostas mesmo dessas coisas? Pois vou te contar… Eu tinha uma firma de demolições… A primeira coisa nesse ramo, contou o senhor Gille, a primeiríssima coisa antes mesmo de liberar o pessoal para trabalhar, é mostrar a casa para homens entendidos e atentos, que em seu tempo o senhor Gille pessoalmente guiava um de cada vez por todas as salas e aposentos, em silêncio interrompido apenas se lhe pedissem informações sobre o material usado na construção.

“Sim, é mármore italiano”, respondia o senhor Gille, ou então (sempre havia muita madeira nobre): “É Pinho de Riga, naturalmente. Da Finlândia, o senhor sabe. Não preciso dizer, o senhor sabe”.

A demolição só podia começar depois da avaliação desses homens. O senhor Gille lembrou o nome de vários deles; muitos eu vi já velhos. Eram pessoas conhecidas e respeitadas na cidade, colecionadores particulares, donos de antiquários e marceneiros, que compravam material de demolição para decorar a casa, abastecer suas lojas ou transformar a madeira em móveis finos para serem vendidos em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Eram os clientes do senhor Gille. Corriam uns na frente dos outros para arrematar as melhores peças.

Demolição tem a ver com desmontagem, e não com destruição. Eu nunca tinha pensado nisso. É preciso retirar cada peça com cuidado para não estragar nada e reaproveitar o máximo. É um serviço de especialistas. Melhor dizendo: é um negócio de especialistas. 

– Três seis – chamaram a senha do senhor Gille.

Ele mancou até a recepção e apresentou seus documentos para a secretária do consultório. Depois, puxando a perna estropiada, voltou para a cadeira de espera, sentou-se novamente e falou:

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– Certa vez demoli uma casa que precisava ser demolida – e contou a história aterradora de duas velhinhas, tia e sobrinha, que moravam sozinhas em um casarão na Marechal Deodoro.

A tia sofria dores horríveis por causa de uma doença terminal. A sobrinha que lhe cuidava, esgotada com o prolongamento da enfermidade, resolveu matá-la. Tentou de várias formas. Primeiro, com remédios; não conseguiu. Depois, por estrangulamento; também não conseguiu. Finalmente sufocou a tia com uma almofada. Quando viu que a tia não respirava mais e estava morta, a sobrinha se enforcou com a corda de secar roupa. Demoraram dois dias para entrar na casa e descobrir as duas. Em cima da mesa da sala de jantar encontraram um bilhete da sobrinha se justificando. Quis poupar a si e a tia de mais sofrimento inútil.

Depois dessa tragédia, a família decidiu vender a casa. Os novos donos, por sua vez, chamaram o senhor Gille para demolir tudo.

– Ninguém mais vai querer morar aqui – disseram.

Sim. Não havia dúvida. A casa precisava ser demolida. 

Para o senhor Gille, aquele era um trabalho igual aos outros. Os clientes, como de costume, farejaram a demolição e vieram do mesmo jeito calado de sempre, disputando entre si os adornos de ferro, os vidros bisotê das aberturas e os mármores da escada de entrada.

Tudo corria bem até que um ajudante de obra, um grandalhão chamado Bartora, sonhou que as velhinhas continuavam na casa e não queriam a demolição. Assustado, passou a jogar água benta pelos cantos. A situação piorou quando o grandalhão começou a espalhar a história do sonho entre os operários.

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Era hora de dar um basta. O senhor Gille chamou o grandalhão Bartora. Olhando-o firme nos olhos, o senhor Gille disse com indignação:

– Como é que um cara desse tamanho pode ter medo de fantasma?

O Bartora ficou calado.

– Só o que me faltava era alguém pra acreditar em sonho. Sonhos! Que bobageira!

No dia seguinte, o senhor Gille mandou destelhar a casa inteira. A luz do dia entrou e clareou os cantos escuros e sinistros. Foi um santo remédio. O Bartora não sonhou mais e esqueceram por um tempo as velhinhas. Enquanto esperávamos o médico, o senhor Gille seguiu contando:

Depois disso, nós demolimos muitas outras lojas, residências, prédios antigos e nunca aconteceu nada. O Bartora falava que nós tínhamos mexido com o outro mundo e que íamos ser punidos. Andava ensimesmado, cheio de culpa e crendices, como se tivesse feito alguma coisa errada, e, em toda casa que entrávamos pra fazer o serviço, ele queria saber quem tinha morado lá, onde eram os quartos, a sala, que fim tinham levado as pessoas do lugar, quem tinha construído, por quê, quando, como. Um dia eu não aguentei e disse pra ele: “o que interessa isso? Quem morou aqui já está bem longe e muito melhor que nós. Se por algum motivo que não nos interessa entregou a casa pra demolição é porque não se importa mais com nada. Deixa de ser bobo. Olha os nossos clientes: eles não querem saber de nada disso”.

Quando terminamos de demolir o palacete do doutor Pereirinha – só restava de pé a fachada; era um casarão lindo na esquina da 15 – eu resolvi que era hora de dar uma lição no grandalhão.

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“Bartora”, chamei lá de cima da fachada (eram uns 8 metros de altura), “me alcança a tua Monareta”.

Sem entender o motivo, ele e um outro subiram a bicicleta numa corda.

“Vocês querem ver eu andar de Monareta em cima dessa parede de um lado até o outro?”, gritei pro pessoal no chão.

“Seu Gille, não faça isso”, respondeu o medroso do Bartora. “O senhor vai quebrar o pescoço”.

Lá de cima eu vi o medo nos olhos do Bartora. Vi os pensamentos dele tomando forma: “é hoje que os inconformados e descontentes vão se vingar do seu Gille! As duas velhinhas vão empurrar o seu Gille lá de cima, ele vai cair e vai se quebrar todo!”

Foi o pavor no rosto do Bartora que me encheu de coragem. Montei na Monareta e pedalei. Era uma casa antiga, as paredes eram largas e o topo da fachada era como uma trilha estreita à beira do abismo. Dei impulso na bicicleta e fui em frente. Me aproximava da esquina quando enxerguei areia espalhada no caminho. Eu vinha rápido demais, mal deu tempo pra reagir. É agora, pensei. Freei, o pneu da frente da bicicleta derrapou, bati o pé no cimento e consegui fazer a curva.

Quando cheguei no outro lado, joguei lá de cima a Monareta do Bartora. Ela caiu no chão com um barulho de ferro se batendo e amassando. Então eu gritei pra todo mundo ouvir: “cadê as velhas, Bartora? Cadê a vingança, a maldição?? Cadê os fantasmas que iam me pegar, seu maluco medroso?” Depois dessa nunca mais vi o Bartora. Deve ter se mudado de cidade. 

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A secretária chamou o senhor Gille antes de mim e ele entrou para ser atendido pelo médico. Enquanto aguardava minha vez, fiquei pensando na história toda: o Bartora, as velhinhas, os clientes do senhor Gille, o próprio senhor Gille e sua perna manca, a memória dos lares antigos perdida para sempre. Nascer, crescer, construir, morrer, demolir: é um círculo, o círculo do tempo, sobre o qual nos é permitido dar uma única volta, e depois desaparecer. Senti que ele, o tempo, era meu inimigo e me sufocava. Desejei detê-lo. Era nostalgia o que eu sentia.

Enquanto eu ouvia a aventura do senhor Gille pedalando a Monareta no topo da fachada, cheguei a pensar que ele tinha caído na curva da parede e machucara a perna no acidente. Achei que as velhinhas tinham se vingado. Teria saído barato, afinal era uma queda de mais de 8 metros. Poderia ter quebrado o pescoço.

Quando o senhor Gille voltou do atendimento, eu continuava esperando. Levantei-me para as despedidas.– Então hoje eu conheci o homem que demoliu o prédio mais bonito de Pelotas – falei, apertando sua mão.

Isso que eu disse não lhe caiu bem. Acho que a nostalgia tinha contaminado o senhor Gille também. Ou então as notícias do médico não tinham sido boas. Ele me olhou firme nos olhos (como deve ter feito com o grandalhão Bartora quando ele estava com medo dos fantasmas das velhinhas), largou minha mão com frouxidão e foi-se embora num silêncio murcho.

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O evento mais recorrente na vida do Trapiche

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Prefeitura informa que o Trapiche do Laranjal foi requalificado (foto).

Eis o evento mais recorrente na vida do nosso trapiche: ser recuperado com dinheiro privado da construção civil.

Trata-se de um evento de calendário: a cada bloco de meses, alguém aparece para bancar a obra, uma boa nova sempre estimada pela prefeitura.

O corte da fita no dia da inauguração é uma metáfora reversa. Na verdade, ao passar a tesoura, os parceiros na serial empreitada estreitam os laços entre si.

É compreensível a serialidade da obra. Muitos projetos na fila.

Dessa feita, não houve a animação de pandeiros nem churrasco.

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Trapiche do Laranjal

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Covid mata quatro pessoas e contamina 31 nas últimas 24 horas

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Quatro pessoas morreram e 31 foram contaminadas pela covid nas últimas 24 horas.

Três mulheres, 62, 67, 78, um homem de 71.

Pelotas chega a 1.256 mortes pela doença.

512 pessoas isoladas.

37 pessoas estão internadas, 40,7% de ocupação dos 91 leitos disponíveis.

14 em UTI, 35,9% de ocupação dos 39 leitos disponíveis.

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23 em enfermaria, 44,2% de ocupação dos leitos disponíveis.

95,4% da população vacinável tomaram a primeira dose. 80,7%, tomaram a segunda dose; 44,1%, a terceira.

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Taxa de luz a caminho em Pelotas

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A prefeita Paula Mascarenhas vai apresentar aos vereadores da base do governo, na manhã de segunda (6), um projeto do Executivo que propõe a instituição da Contribuição de Iluminação Pública (Cosip).

A nova taxa municipal seria de 10% sobre a tarifa paga hoje.

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