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Cultura e diversão

Confissões de um cadáver adiado, novo romance, em gestação, de Luiz Carlos Freitas

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O escritor e jornalista Luiz Carlos Freitas está produzindo um novo romance: Confissões de um cadáver adiado. Abaixo, um trecho do livro e outras informações sobre o autor e seu trabalho. Material fornecido pela Fábrica de literatura.

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“Mal havia completado 15, matei meu pai. Velei o corpo e a culpa durante quatro décadas, sepultei ambos no dia em que finalizei 55 anos. O peso se tornara insustentável perante o diagnóstico de câncer recorrente no estômago, primário ou secundário no pâncreas, no baço, necrose safada no fígado, recebido do médico de fala mansa, excessivamente franco, brutalmente impiedoso, inapelavelmente direto. E reto. Resignado, pereci no ato, aceitei a única herança paterna, entranhada nas células, me repassada por vingança daquele filho da puta, responsável por me trazer ao mundo sem consentimento prévio, artífice dos meus desgostos, cicatrizes e deformações, semeador em campo fértil à germinação de flores do mal, similares às de Baudelaire. À brotação da ambiguidade de crime e castigo, semelhante ao mergulho aos confins da alma humana experimentado por Dostoiévski – filho outro da paternidade irrefletida, geradora de gente bizarra, não raro perigosa, se não a si, decerto à sociedade. A revelação crua, endurecida pela insensibilidade fortalecida com o sangue, o desalento e a aflição dos sentenciados à morte, me pegou no contrapé, me abateu, pipoquei, tremi, temi o pior, na mente desfilou parada de dores e horrores.”

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Da Fábrica de literatura:

O trecho inicial do “Confissões de um cadáver adiado”, em gestação na “fábrica de literatura” do jornalista e escritor pelotense Luiz Carlos Freitas, é para os fortes, destinado aos que apreciam obras profundas, sombrias – um estudo da alma, aos moldes dos autores russos, notadamente Dostoiévski. O título foi “pinçado” de um poema de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, mestre em reduzir o homem a sua verdadeira dimensão.

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“O livro é uma autoficção, na qual me desnudo, revelo períodos da infância, da adolescência e da idade adulta, com ênfase na superação de grave enfermidade enfrentada e superada em 2011 e 2012”, Freitas esclarece, acrescentando que o título remete às dificuldades, dores e horrores enfrentados pela espécie humana, sem deixar de acreditar na redenção da humanidade.

Luiz Carlos Freitas

Enquanto trabalha no novo livro, Freitas faz contatos e recebe propostas. Assinou contrato com a editora portuguesa Ases da Literatura, por exemplo, cedendo os direitos autorais do romance “MoriMundo”, originalmente editado em 2011 pela Editora Livraria Mundial. A nova versão da obra foi publicada em meados de novembro, com lançamento internacional.

“Entendo que, depois de publicado, o livro é dono de si mesmo e não temos mais ascendência sobre ele. Devemos deixá-lo seguir o seu caminho e chegar ao destino final – o leitor – esteja onde estiver, no Brasil, em Portugal, em Angola, na Índia, num condomínio de luxo ou numa casa de periferia. O importante é que deixe marcas e auxilie no aperfeiçoamento da sociedade, na busca da tolerância, da solidariedade, da fraternidade e da igualdade”.

Responsável pela coluna política “Entrelinhas”, publicada durante sete anos no Diário Popular, desde o início do ano Freitas passou a se dedicar exclusivamente à literatura e anuncia para 2022 a publicação do livro “Homo Perturbatus” na França (publicado em 2018 e lançado na Bienal Internacional do Livro de São Paulo naquele ano). Segundo ele, a obra está em fase de tradução, na editora, em Paris, com lançamento previsto para o segundo semestre do ano que vem. “Essa é a expectativa, embora tudo esteja se movendo devagar em função da Covid-19 – e não é para menos, diante da tragédia que se abateu sobre o mundo. Sem deixar de lamentar as vidas perdidas e fazendo a nossa parte, temos de ser otimistas, acreditar que a epidemia será controlada, remetendo a civilização a um novo ciclo, menos materialista e individualista, conforme  defendo no livro ‘Homo Perturbatus’.”

“MoriMundo” está à venda na Livraria Mundial (Pelotas). E mais:

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Também podem ser encontrado na Amazon em Espanha, Inglaterra, Alemanha, Itália, EUA e França. 

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Trecho do MoriMundo:

“Tanto no Paraíso quanto no Limbo, sobretudo no Inferno, passarinhos de asas coloridas e cantos melodiosos já não existiam, exceto pardais, pombas e urubus, mas esses não contam. Não cantam. Arrulham, piam, crocitam. E a plumagem deles era escura, às vezes cinza, marrom ou bege, geralmente preta. Tanto no Paraíso quanto no Limbo, sobretudo no Inferno, não se via borboletas esvoaçando, abelhas zumbindo e cigarras cantando. Tampouco grilos estrilando, vaga-lumes iluminando, rãs coaxando. Os ratos e baratas, aranhas e morcegos, estes sim subsistiram, predadores que são. Não sobrou quase nada, tanto no Paraíso quanto no Limbo, sobretudo no inferno. Raras árvores, rios e lagos, gramados e jardins. Tudo era cinza, triste e monótono. E o calor, torturante. Insuportável! Durante o dia, envolta por névoa espessa, a cidade fervia, espumava, presa em si mesma, manietada pelo aço, o cimento e o vidro. Tanto no Paraíso quanto no Limbo, sobretudo no Inferno, desfilavam multidões suarentas, tensas e caladas, como se formigas entontecidas. À noite, o frio dominava e a paisagem mudava. Praticamente desertas, as ruas se transformavam em território de sombras furtivas, apressadas e silenciosas. A metrópole se autodevorara, sucumbira à superpopulação, à degradação e à poluição, exceto no Paraíso, onde se tentava recomeçar um novo ciclo, marcado pela exclusão, elitizado, apesar de fadado ao fracasso, pois um dia também seria tragado pelo redemoinho do tempo, pelas hostes indignadas e ensandecidas.”

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Trecho do Homo Perturbatus:

“Trajano equilibrou-se entre dois mundos por anos e anos sem conta. Tornou-se exemplo vivo do maniqueísmo que grassa em sucessivas civilizações, desde que inventaram Deus. Do ponto de vista externo, era o Mal encarnado, alguém que negava a existência dos deuses: Deus-Todo-Poderoso; Deus-Money; Deus-Consumo; Deus-Cinismo: Deus-Intolerante; Deus-Ignorante e uma infinidade de divindades idolatradas e respeitadas, cujos preceitos são seguidos ovinamente pela maioria, com fortuitas e meritórias exceções. Do ponto de vista pessoal, fruto de personalidade diferente e ainda imaculada, por conta, segundo os outros, de anomalia – “um castigo” – inata, Trajano acreditava piamente, com a devoção e a convicção de beato inveterado, ser exemplo raro de uma classe humana em extinção, a exemplo do que ocorria com  determinadas espécies: tartarugas-marinhas e borboletas, bem-te-vis, beija-flores, peixes-gato e  amores-perfeitos, árvores-da-felicidade e peperômias, jatobás, jerivás e samambaiaçus. Não tinha dúvidas, representava o Bem, Dom Quixote feito gente de carne, osso e cérebro, com virtudes e defeitos, sim, mas humanista e idealista, do cabelo ao dedão do pé. Fiel às convicções íntimas, perseverou, e foi em frente, apreendendo e aprendendo! Ser cândido e confiante, sequer desconfiava, mil armadilhas o aguardavam estrategicamente armadas ao longo do caminho, nem lhe passava pela mente que mil e um deuses irados e malévolos o espreitavam a cada momento.”

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Cinema: King Richard, criando campeãs

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King Richard: Criando Campeãs é a cinebiografia de Richard Williams, pai das tenistas Venus e Serena Williams. Destinado a fazer de suas filhas futuras campeãs de tênis, Richard (Will Smith) utiliza métodos próprios e nada convencionais, em um plano feito especialmente para duas de suas cinco filhas, Serena (Demi Singleton) e Venus (Saniyya Sidney).  

Dirigido por Reinaldo Marcus Green e com o roteiro assinado por Zach Beylin, o longa é visto através da perspectiva do pai, em um drama familiar que mostra o protagonista lutando para oferecer as melhores condições para sua família, visão compartilhada com sua esposa, Oracene ‘Brandy’ Williams (Aunjanue Ellis). Eles desenvolveram uma rotina regrada e rígida, mas repleta de amor e harmonia familiar, com o objetivo de mantê-las longe das ruas e, consequentemente, das drogas. 

Richard é um homem negro tentando fazer suas filhas se destacarem em um esporte dominado por brancos ricos. Mesmo assim, ele continua persistente para tentar chamar a atenção de treinadores renomados, como Paul Cohen (Tony Goldwyn), treinador de John McEnroe e Pete Sampras, e Rick Macci (Jon Bernthal), treinador de Andy Roddick e Maria Sharapova e que, posteriormente, ganhou a fama ao treinar as irmãs Williams. 

Ainda nos anos 90, quando treinava as filhas, Richard disse que Venus seria número 1 do mundo, enquanto que Serena seria uma das maiores da história. Vamos aos fatos: Entre muitos títulos na carreira, Venus Williams foi 5 vezes campeã no lendário torneio de Wimbledon e foi a primeira afro-americana a liderar o ranking mundial.  Serena Williams já possui 23 títulos de Grand Slam e é uma das maiores atletas do esporte. E não é que ele acertou? 

Determinado, teimoso e até mesmo egoísta em algumas de suas convicções, a filosofia de Richard insiste em preservar o bem-estar de suas filhas para que não sejam exploradas e acabem ruindo como outras jovens atletas. No maior desempenho de sua carreira, Will Smith interpreta um dos personagens mais interessantes e complexos de sua filmografia, se destacando pela perfeição vocal e física, conseguindo passar toda a metodologia, determinação e inspiração do personagem. Com uma atuação intensa e poderosa, o Oscar nunca esteve tão perto. 

A fotografia de Robert Elswit, vencedor do Oscar por Sangue Negro, aposta nas cores quentes, e o desenho de produção e a direção de arte recriam a época com exatidão de detalhes, como a velha Kombi do pai, a casa da família, os cortes de cabelo e algumas roupas das jogadoras. Durante os créditos, vemos imagens reais e depoimentos da família Williams ao som de “Be Alive”, de Beyoncé. Uma pena que o filme tenha deixado de lado o início da carreira e todo o talento de Serena Williams. 

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Envolvente e emocionante, King Richard: Criando Campeãs trata da perseverança em tornar seus sonhos realidade.  

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A traição de Odessa. Por Vitor Bertini

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A HISTÓRIA DA SEXTA

Na Av. Roosevelt, em Porto Alegre, havia um açougue. Nos fundos do açougue havia um galinheiro. E no galinheiro havia Odessa, a galinha.

Todas as galinhas que por ali nasciam tinham destino certo: mortas, nuas, arrepiadas e penduradas dentro do balcão gelado de pernas para cima, menos Odessa.

Odessa era diferente. Bábel, o açougueiro, havia lhe dado o nome em homenagem à sua cidade natal – cidade, ele dizia, onde viveu seu ídolo Bénya Krik, o Rei, e de onde as pessoas partem quando podem. Ninguém sabia quem tinha sido Bénya Krik, nem onde ficava Odessa.

Certa tarde, a rotina da vizinhança foi quebrada e a gritaria denunciou o segredo dos privilégios de Odessa, a galinha nunca sacrificada. Odessa havia alçado vôo, conforme o destino de seu nome. Do chão do galinheiro, em vôo raso por sobre a cerca ganhara o telhado da casa que abrigava o açougue e agora, em um equilíbrio incerto, repousava nos fios da companhia de energia elétrica. Dalí, para a queda em cima do ônibus que atendia o bairro foi necessário apenas os gritos dos passantes.

Bábel ainda arrancava os cabelos e chorava sua dor quando o Linha 4, o velho Navegantes, apontou na Av. Roosevelt em seu trajeto de retorno trazendo de volta, sobre seu teto, altaneira como nunca, Odessa.

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A alegria dos que assistiam à cena deu lugar ao espanto quando Bábel, abraçando a galinha que sabia voar, cortou-lhe o pescoço.

O bairro, naquele dia, começou a saber como era Bénya Krik, o ídolo de Bábel.

Página de Vitor Bertini AQUI.

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Cultura e diversão

SOBRE AMIZADE, AMOR E DOENÇA. Por Janer Cristaldo

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Sábado passado, escrevi sobre o frívolo conceito de amizade que está se tornando usual em função das redes sociais. Se, durante séculos, amigo era um ser muito especial, hoje amigo é qualquer um. Nestes dias em que se fala de um milhão de amigos, a discussão merece mais algumas considerações.

Há uns bons dez anos, comentei L’Amicizia secondo i filosofi, de Massimo Baldini (Città Nuova, 1998), uma antologia de textos filosóficos sobre a amizade, com um ensaio do antólogo à guisa de prefácio. Trata da amizade em seu sentido mais nobre, e não da amizade irresponsável proposta por alguém que jamais vimos. Os filósofos, no caso, são aqueles que a história consagrou como tais, e não professores que os papagueiam e se julgam pensadores. A reflexão é oportuna, nestes dias em que a amizade muitas vezes passa a depender de uma visão de mundo uniforme.

Quem hoje tem 60 anos, sabe disso. Terá perdido amigos por escaramuças no Camboja ou Vietnã, por determinações de Moscou, Pequim ou Cuba, em suma, por eventos distantes que nada têm a ver com uma relação entre duas pessoas. O teórico desta perversão foi Sartre que, por questões de ideologia, rompeu laços com Camus. “A amizade, ela também, tende a ser totalitária” — disse um dia o agitador da Rive Gauche ao futuro prêmio Nobel — “urge o acordo em tudo ou a ruptura, e os sem-partido eles próprios se comportam como militantes de partidos imaginários”. É a versão xiita da amizade: ou você aceita minha ideologia, ou não podemos ser amigos.

Assim, com satisfação vejo que Aristóteles, na longínqua Atenas, distante no tempo e no espaço, desde há mais de dois mil anos concorda comigo. No livro oitavo da Ética a Nicômaco, afirma não ser possível ser amigo de muitos com perfeita amizade, como não é possível estar enamorado ao mesmo tempo de muitos. “Aqueles que têm muitos amigos e que tratam todos familiarmente, não parecem ser amigos de ninguém”. Para o estagirita, um milhão de amigos nem pensar.

Cícero, ciente das responsabilidades da amizade, recomenda atenção para que não comecemos a gostar de alguém que algum dia poderemos odiar. Amizade não é coisa para jovens, mas deve ser decidida quando o caráter está formado e a idade já é madura. Seneca, como bom estóico, acha que o sábio deve bastar-se a si mesmo. O que não impede que ele aceite com prazer um amigo que lhe seja vizinho. Para o pensador de Cordova, o sábio é impelido à amizade não “pelo interesse, mas por impulso natural”. Amizade que se funda no interesse é um “vilissimo affare”. A distância não tem o poder de prejudicar a amizade. É possível manter relações com amigos ausentes, por quanto tempo se quiser. Em verdade, a proximidade torna a amizade complicada. A amizade é sempre útil, enquanto o amor é muitas vezes absolutamente nocivo.

Abelardo acentua o caráter seletivo da amizade. “Ninguém será pobre se possuir tal tesouro, tão mais precioso quanto mais raro. Os irmãos são muitos, mas entre eles é raro um amigo; aqueles a natureza cria, mas estes só o afeto te concede”. Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, define: “é um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. No que vão duas restrições. Os amigos devem ser sensíveis, porque um monge, um solitário podem não ser maus e no entanto viver sem conhecer a amizade. E virtuosos, porque os maus têm apenas cúmplices. Em suma, só os homens virtuosos têm amigos. O que Abelardo está dizendo, no fundo, é que um mau-caráter não pode ser amigo de ninguém.

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Uma distinção mais lúcida vamos encontrar em Kierkegaard, para quem o cristianismo aboliu a amizade. Segundo o pensador dinamarquês, o amor humano e o valor da amizade pertencem ao paganismo. Pois o cristianismo celebra o amor ao próximo, o que é distinto. Para esta religião, só o amor a Deus e ao próximo são verdadeiros. O cristão deve aprender a desconfiar do amor profano e da amizade, pois a predileção da paixão é no fundo um ato de egoísmo. Entre o amigo e o próximo há diferenças incomensuráveis. A morte não pode extirpar o próximo. Se a morte leva um, a vida subitamente fornece um outro. A morte pode tomar de você um amigo, porque ao amar o amigo no fundo você a ele se une. Mas ao amar o próximo você se une com Deus, por isso a morte não pode tomar-lhe um próximo.

Para Nietzsche, a mulher é incapaz de amizade, conhece apenas o amor. Mas seus contemporâneos homens não percorreriam mais os sendeiros da amizade. Por dois motivos. Primeiro, porque o amor entre os sexos prevaleceu sobre a amizade. Segundo, porque o cristianismo substituiu o amigo pelo próximo. Para seu profeta, Zaratustra, “vosso amor ao próximo é vosso amor por vós mesmos. Fugis rumo ao próximo fugindo de vós mesmos. Não vos ensino o próximo, mas o amigo. Não aconselho o amor ao próximo. Aconselho o amor ao remoto”.

Sou avesso a isso que chamam de amor. Ou talvez avesso à palavrinha. Os filmes de Hollywood, que sempre terminavam com um indefectível “I love you”, vulgarizaram o tal de amor. Sem falar que, no fundo, é um sentimento que leva facilmente ao assassinato. Se você, leitora, um dia sentir que outro alguém a considera a única pessoa de sua vida, melhor sair de perto. De preferência, correndo. Há algumas décadas, surgiu uma novela na televisão brasileira intitulada “Quem ama não mata”. Solene besteira. Só mata quem ama. Ao sentir que perde o que julga ser único, o bruto raciocina: se não és minha, não serás de mais ninguém”. Daí a matar é um passo.

Prefiro a amizade, mesmo na relação com mulheres. Em algum momento do Quarteto da Alexandria, Lawrence Durrel dizia ser a amizade preferível ao amor porque mais duradoura. Verdade que amigos também perdemos, mas a ninguém ocorre matar alguém porque perdeu sua amizade. Amor é doença antiga, já diagnosticada pelos gregos. Assim narra Plutarco o caso de um jovem enfermo:

– Erasístrato percebeu que a presença de outras mulheres não produzia efeito algum nele. Mas quando Estratonice aparecia, só ou em companhia de Seleuco, para vê-lo, Erasístrato observava no jovem todos os sintomas famosos de Safo: sua voz mal se articulava. Seu rosto se ruborizava. Um suor súbito irrompia através de sua pele. Os batimentos do coração se faziam irregulares e violentos. Incapaz de tolerar o excesso de sua própria paixão, ele tombava em estado de desmaio, de prostração, de palidez.

Quando Antíoco – pois assim se chamava o enfermo – recebeu Estratonice como presente de Seleuco, seu pai, desapareceram os sintomas da doença. Que talvez tenha contagiado Seleuco, pois afinal era o marido de Estratonice. Mas isto já é outra história.

Eram bons observadores, os gregos. O tal de amor é gostoso quando o experimentamos. Mas ridículo quando visto com certa distância. Amor, diria, é coisa para jovens. Jovem tendo sido, é claro que fui acometido pelo mal. (O pior é que às vezes tem recidiva). Uma vez adulto, optei pela amizade.

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Que tampouco dura a vida toda. Diria que perdi dois excelentes amigos de longa data. Um, porque recebeu o título de Dr. pela USP. Outro, porque não gostou de crônica que escrevi sobre a teoria da relatividade. Que se vai fazer? Conto outra hora.

Publicado originalmente em 2014.

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