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Cultura e diversão

SOBRE AMIZADE, AMOR E DOENÇA. Por Janer Cristaldo

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Sábado passado, escrevi sobre o frívolo conceito de amizade que está se tornando usual em função das redes sociais. Se, durante séculos, amigo era um ser muito especial, hoje amigo é qualquer um. Nestes dias em que se fala de um milhão de amigos, a discussão merece mais algumas considerações.

Há uns bons dez anos, comentei L’Amicizia secondo i filosofi, de Massimo Baldini (Città Nuova, 1998), uma antologia de textos filosóficos sobre a amizade, com um ensaio do antólogo à guisa de prefácio. Trata da amizade em seu sentido mais nobre, e não da amizade irresponsável proposta por alguém que jamais vimos. Os filósofos, no caso, são aqueles que a história consagrou como tais, e não professores que os papagueiam e se julgam pensadores. A reflexão é oportuna, nestes dias em que a amizade muitas vezes passa a depender de uma visão de mundo uniforme.

Quem hoje tem 60 anos, sabe disso. Terá perdido amigos por escaramuças no Camboja ou Vietnã, por determinações de Moscou, Pequim ou Cuba, em suma, por eventos distantes que nada têm a ver com uma relação entre duas pessoas. O teórico desta perversão foi Sartre que, por questões de ideologia, rompeu laços com Camus. “A amizade, ela também, tende a ser totalitária” — disse um dia o agitador da Rive Gauche ao futuro prêmio Nobel — “urge o acordo em tudo ou a ruptura, e os sem-partido eles próprios se comportam como militantes de partidos imaginários”. É a versão xiita da amizade: ou você aceita minha ideologia, ou não podemos ser amigos.

Assim, com satisfação vejo que Aristóteles, na longínqua Atenas, distante no tempo e no espaço, desde há mais de dois mil anos concorda comigo. No livro oitavo da Ética a Nicômaco, afirma não ser possível ser amigo de muitos com perfeita amizade, como não é possível estar enamorado ao mesmo tempo de muitos. “Aqueles que têm muitos amigos e que tratam todos familiarmente, não parecem ser amigos de ninguém”. Para o estagirita, um milhão de amigos nem pensar.

Cícero, ciente das responsabilidades da amizade, recomenda atenção para que não comecemos a gostar de alguém que algum dia poderemos odiar. Amizade não é coisa para jovens, mas deve ser decidida quando o caráter está formado e a idade já é madura. Seneca, como bom estóico, acha que o sábio deve bastar-se a si mesmo. O que não impede que ele aceite com prazer um amigo que lhe seja vizinho. Para o pensador de Cordova, o sábio é impelido à amizade não “pelo interesse, mas por impulso natural”. Amizade que se funda no interesse é um “vilissimo affare”. A distância não tem o poder de prejudicar a amizade. É possível manter relações com amigos ausentes, por quanto tempo se quiser. Em verdade, a proximidade torna a amizade complicada. A amizade é sempre útil, enquanto o amor é muitas vezes absolutamente nocivo.

Abelardo acentua o caráter seletivo da amizade. “Ninguém será pobre se possuir tal tesouro, tão mais precioso quanto mais raro. Os irmãos são muitos, mas entre eles é raro um amigo; aqueles a natureza cria, mas estes só o afeto te concede”. Voltaire, em seu Dicionário Filosófico, define: “é um contrato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas. No que vão duas restrições. Os amigos devem ser sensíveis, porque um monge, um solitário podem não ser maus e no entanto viver sem conhecer a amizade. E virtuosos, porque os maus têm apenas cúmplices. Em suma, só os homens virtuosos têm amigos. O que Abelardo está dizendo, no fundo, é que um mau-caráter não pode ser amigo de ninguém.

Uma distinção mais lúcida vamos encontrar em Kierkegaard, para quem o cristianismo aboliu a amizade. Segundo o pensador dinamarquês, o amor humano e o valor da amizade pertencem ao paganismo. Pois o cristianismo celebra o amor ao próximo, o que é distinto. Para esta religião, só o amor a Deus e ao próximo são verdadeiros. O cristão deve aprender a desconfiar do amor profano e da amizade, pois a predileção da paixão é no fundo um ato de egoísmo. Entre o amigo e o próximo há diferenças incomensuráveis. A morte não pode extirpar o próximo. Se a morte leva um, a vida subitamente fornece um outro. A morte pode tomar de você um amigo, porque ao amar o amigo no fundo você a ele se une. Mas ao amar o próximo você se une com Deus, por isso a morte não pode tomar-lhe um próximo.

Para Nietzsche, a mulher é incapaz de amizade, conhece apenas o amor. Mas seus contemporâneos homens não percorreriam mais os sendeiros da amizade. Por dois motivos. Primeiro, porque o amor entre os sexos prevaleceu sobre a amizade. Segundo, porque o cristianismo substituiu o amigo pelo próximo. Para seu profeta, Zaratustra, “vosso amor ao próximo é vosso amor por vós mesmos. Fugis rumo ao próximo fugindo de vós mesmos. Não vos ensino o próximo, mas o amigo. Não aconselho o amor ao próximo. Aconselho o amor ao remoto”.

Sou avesso a isso que chamam de amor. Ou talvez avesso à palavrinha. Os filmes de Hollywood, que sempre terminavam com um indefectível “I love you”, vulgarizaram o tal de amor. Sem falar que, no fundo, é um sentimento que leva facilmente ao assassinato. Se você, leitora, um dia sentir que outro alguém a considera a única pessoa de sua vida, melhor sair de perto. De preferência, correndo. Há algumas décadas, surgiu uma novela na televisão brasileira intitulada “Quem ama não mata”. Solene besteira. Só mata quem ama. Ao sentir que perde o que julga ser único, o bruto raciocina: se não és minha, não serás de mais ninguém”. Daí a matar é um passo.

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Prefiro a amizade, mesmo na relação com mulheres. Em algum momento do Quarteto da Alexandria, Lawrence Durrel dizia ser a amizade preferível ao amor porque mais duradoura. Verdade que amigos também perdemos, mas a ninguém ocorre matar alguém porque perdeu sua amizade. Amor é doença antiga, já diagnosticada pelos gregos. Assim narra Plutarco o caso de um jovem enfermo:

– Erasístrato percebeu que a presença de outras mulheres não produzia efeito algum nele. Mas quando Estratonice aparecia, só ou em companhia de Seleuco, para vê-lo, Erasístrato observava no jovem todos os sintomas famosos de Safo: sua voz mal se articulava. Seu rosto se ruborizava. Um suor súbito irrompia através de sua pele. Os batimentos do coração se faziam irregulares e violentos. Incapaz de tolerar o excesso de sua própria paixão, ele tombava em estado de desmaio, de prostração, de palidez.

Quando Antíoco – pois assim se chamava o enfermo – recebeu Estratonice como presente de Seleuco, seu pai, desapareceram os sintomas da doença. Que talvez tenha contagiado Seleuco, pois afinal era o marido de Estratonice. Mas isto já é outra história.

Eram bons observadores, os gregos. O tal de amor é gostoso quando o experimentamos. Mas ridículo quando visto com certa distância. Amor, diria, é coisa para jovens. Jovem tendo sido, é claro que fui acometido pelo mal. (O pior é que às vezes tem recidiva). Uma vez adulto, optei pela amizade.

Que tampouco dura a vida toda. Diria que perdi dois excelentes amigos de longa data. Um, porque recebeu o título de Dr. pela USP. Outro, porque não gostou de crônica que escrevi sobre a teoria da relatividade. Que se vai fazer? Conto outra hora.

Publicado originalmente em 2014.

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O homem do norte. Por Déborah Schmidt

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O Homem do Norte segue a história de vingança do príncipe Amleth (Alexander Skarsgård) que, quando criança, testemunhou seu pai, o rei Aurvandil War-Raven (Ethan Hawke), ser brutalmente assassinado por seu irmão, Fjölnir The Brotherless (Claes Bang), que ainda sequestrou sua mãe, a rainha Gudrún (Nicole Kidman). Vinte anos depois ele retorna determinado a salvar sua mãe, vingar seu pai e matar seu tio.

Um dos diretores mais interessantes da atualidade, Robert Eggers se destacou logo com seus primeiros filmes, os excelentes A Bruxa (2015) e O Farol (2019), duas produções de terror aclamadas. Para seu próximo projeto, o cineasta saiu de sua zona de conforto e embarcou em uma trama de ação e aventura, em uma ambiciosa saga viking. O roteiro de Eggers e Sjón é baseado na lenda de Amleth, conhecida como inspiração para a criação da clássica peça Hamlet, de William Shakespeare. O longa explora uma história típica dos nórdicos antigos, acertando no drama familiar e na jornada de vingança.  

Como o protagonista, Alexander Skarsgård demonstra toda sua entrega (física, principalmente) ao viver a versão adulta do guerreiro Amleth. Revelada em A Bruxa, a talentosa Anya Taylor-Joy tem um papel coadjuvante como Olga, mas rouba a cena com seu magnetismo e por estar ligada aos elementos místicos do longa, assim como os personagens de Willem Dafoe e Björk.

Visualmente espetacular, a direção de fotografia de Jarin Blaschke, que trabalhou com Eggers em seus dois filmes anteriores, se destaca pela composição de ambientes naturais. Se tratando de um épico viking, a produção aposta em cenas de lutas com violência e selvageria, e também mostra autenticidade e fidelidade na impressionante recriação do visual e dos costumes vikings.  

O Homem do Norte detalha com perfeição uma saga viking, em uma história de vingança e brutalidade que flerta com o misticismo. Um espetáculo artístico e grandioso.  

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Cultura e diversão

Cuco. Por Vitor Bertini

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No meio do campus universitário, o centro do mundo. No centro do mundo, uma cafeteria.

A cafeteria da faculdade de arquitetura era ponto obrigatório para estudantes de todos os cursos: pela suposta qualidade do café – única que dizia ter grãos de origem, pela temperatura da cerveja, pelas conversas interdisciplinares e, forçado reconhecer, pela beleza das alunas.

– Todas as tribos passam por aqui – explicava Antonela, Antonela Matteo, enquanto apresentava as dependências da escola para uma caloura, filha de amigos da família. Depois, à tardinha, em horário de casa cheia, devidamente instalada com duas colegas em uma das mesas, ainda com a novata à tiracolo, sofisticou o discurso:

– Acolher bem é reconhecer o outro… e a melhor arquitetura faz isto! – Ensinou, elevando o tom de voz e exemplificando, com um giro de queixo empinado, o que queria dizer.

Na mesa ao lado, um grupo de estudantes de geologia misturava cervejas com placas tectônicas. Entre eles, Eduardo. Formando, veterano em ambientes bem mais rústicos, Eduardo ouviu embevecido os conceitos sobre a melhor arquitetura, e se encantou pelo queixo empinado.

Foi o aplauso das amigas aos ensinamentos de Antonela quem deu a deixa que Eduardo precisava: aplaudiu junto, arrastou a cadeira até a mesa das arquitetas e fez uma provocação qualquer sobre estética tempos geológicos.

Um ano de trocas conceituais, cervejas em qualquer temperatura e risadas com aplausos, resultou em uma cerimônia simples, repleta de amigos, na orgulhosa casa reformada – o primeiro projeto de Antonela.

– Somos cosmopolitas e acolhemos o outro – declarou a noiva, toda sorrisos, festejando a presença de todos.

Anos depois, triste, com voz frágil, Antonela repetia a frase:

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– Somos cosmopolitas e devemos acolher o outro – falou, iniciando as tratativas sobre a separação.
– Espero que consigamos levar isto até o fim sem brigar – devolveu Eduardo, olhando para o chão.
– Por favor… – murmurou a esposa, indo buscar dois copos d’água.

Casal de poucas posses e muitas lembranças, as divisões seguiram a harmonia buscada pela arquitetura sob o complacente silêncio de tempos geológicos:

– Fica bem assim pra você? – Perguntou a arquiteta, enxugando uma lágrima, depois da leitura de um detalhado rol de bens e seus respectivos destinos.
– Fica, fica sim – murmurou o geólogo, ainda cabisbaixo. – Você só esqueceu de incluir o relógio da sala. Mas, sem galho, foi mamãe quem nos deu; eu fico com o cuco – ponderou Eduardo.
– Eduardo, o cuco está no nicho projetado especialmente para ele. Sem o cuco, aquele nicho não faz sentido. Não interessa quem nos deu… 
–  O cuco era de mamãe; eu levo o cuco.
– Eduardoo cuco é o centro estético do meu projeto!
– Antonelase é por isso, o cuco marca a porra do tempo geológico da minha mãe– gritou Eduardo, batendo os calcanhares e a porta.

As duas petições de Ação de Divórcio Litigioso foram entregues no Foro da Cidade no mesmo dia, quase na mesma hora.

Para visitar a página de Vitor – AQUI.

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Cultura e diversão

Exposição AGO, de Felipe Caldas, começa dia 5

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O Projeto de Extensão A SALA – Ações de produção e difusão cultural convida para a exposição AGÔ, de Felipe Caldas. Agô, em iorubá, é um pedido de permissão para momentos de entrada, saída, passagem, além de proteção ou perdão, conforme o contexto.

Felipe Caldas pede assim licença para ocupar, de forma simbólica e matérica, o espaço da Galeria A Sala, na exposição que marca o retorno às atividades presenciais após o período de restrições causadas pela pandemia.

Trazendo uma reflexão sobre as condições que nos levam a recorrer às mais variadas crenças (sejam elas religiosas, de ordem política, ou outras) para buscar um refúgio, um alento, uma orientação, a instalação recobre o piso da galeria com mais de meia tonelada de carvão – elemento simbólico de proteção. O artista convoca o público a interagir com esse elemento, ao mesmo tempo em que provoca um questionamento sobre aquilo que acreditamos.

Abertura:

05/05/2022, das 17h às 20h.

Período de visitação:

06/05 à 17/06, de segunda à sexta das 8h às 22h.

Endereço: Galeria A Sala, Centro de Artes UFPel, sala 111 (acesso pela Álvaro Chaves, 65)

Coordenação: Profa. Dra. Laura Cattani

Realização: equipe do projeto de extensão A SALA – Ações de produção e difusão cultural: Barbara Calixto dos Santos, Eduardo Soares Devens, Fernanda Oberg de Miranda, Gabrielli Mourige Barbosa Nazario, Jesiel Rocha Lofhagen, Katiane Letícia Ferreira da Silva e Yuki Ynagaki Escate Zarate, com o apoio de André Gustavo de Campos e Pedro Augusto dos Santos Navarro.

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Foto: Rodrigo Marroni

Projeto Gráfico: Yuki Zarate

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