A história da pensão de ex-governador a Eduardo Leite, sendo paga sem que a decisão de pagar tivesse sido publicada no Diário Oficial do Estado, lembra uma história do livro A República, de Platão: a história do Anel de Giges.
Um homem (Giges) encontra em uma fenda na terra, aberta após um terremoto, um anel. Giges põe o anel e, como efeito, torna-se invisível. Ele era um pastor pobre. Com o anel no dedo, agora invisível, ele entra no castelo, seduz a rainha, trama com ela a deposição do rei e assume o lugar deste. Platão procura pensar na seguinte questão: Se pudesse ser invisível, o homem seria justo? Ou o homem aparenta ser justo porque é visível?
No século XX, cientistas analisaram duas experiências, que se relacionam com o Anel de Giges.
Na primeira experiência, instalaram, em uma sala, uma geladeira contendo garrafas de água. Quem a bebesse, deveria marcar o consumo da vez em um caderno. Os cientistas constataram que, quando havia outras pessoas na sala, quem se servia da água anotava o consumo. A sala tinha um espelho, colocado para testar o comportamento da pessoa quando estivesse sozinha: vendo-se refletida no espelho, a pessoa também anotava seu consumo (sentindo-se vigiada, mesmo que visualmente por si mesma, a pessoa se sentia compelida a anotar o consumo). Numa etapa final, agora sem o espelho na sala, a pessoa sozinha não anotava o consumo.
Na segunda experiência, analisaram o comportamento de uma colônia de morcegos. À noite, eles deixavam a caverna para se alimentar do sangue de animais. O fato de que nem todos conseguiam obter sangue colocava um problema. Então, os morcegos que o haviam conseguido regurgitavam um pouco do sangue na boca dos que não tinham conseguido, obedecendo a seguinte ordem de prioridade: primeiro, movidos pelo nepotismo, depois, pelo altruísmo.
As primeiras bocas em que regurgitavam eram dos parentes genéticos, começando pelos morceguinhos-filhos, para garantir a perpetuação da linhagem. Os segundos a receber sangue regurgitado, depois dos parentes, eram morcegos de outras linhagens que, em outras ocasiões, os haviam suprido quando eles não haviam conseguido o alimento. Os cientistas notaram que o altruísmo aparecia como retribuição, destinado a ampliar as possibilidades de sobrevivência da própria linhagem.
Por fim, perceberam que havia morcegos que paravam de obter sangue, apenas o recebiam, cessando a retribuição. Morcegos trapaceiros. Flagrados, estes despertavam a antipatia da colônia, uma reação transmitida em séculos de evolução biológica, equivalente, nos humanos, a sentimentos de raiva contra quem deixa de pensar no coletivo e passa a pensar só em si.
Cientistas acreditam que sentimentos morais como raiva, repulsa, gratidão, lealdade evoluíram junto do altruísmo recíproco. Quando o morcego na sua vez não retribui o alimento, os outros morcegos registram em sua memória e o excluem de futuras trocas.
Não se sabe por quê a decisão de pagar pensão ao ex-governador não foi dada a conhecimento público no Diário Oficial. Mesmo que tenha sido um esquecimento, o efeito foi ruim. Enquanto a pensão ficou invisível, a boa imagem do pensionista esteve preservada. Ao ser descoberta, vem, compreensivelmente, provocando reações ainda mais negativas do que o pagamento de pensão por si só causaria.
Como não foi comunicada, mas sim descoberta, os gaúchos podem se perguntar: Eduardo Leite usou o anel de Giges outras vezes? Como o morcego do experimento, é um trapaceiro? Em vez de ser altruísta, ele apenas finge altruísmo? São questões que, na circunstância em que os fatos se deram, surgem naturalmente na cabeça do eleitor.
Raiva é justamente o sentimento que domina os comentários nas redes sociais sobre a pensão de Eduardo Leite. Nesse momento, boa parte dos eleitores estão com raiva porque sentem-se trapaceados. Pensam que Eduardo Leite não é um político tão preocupado com o bem-estar dos gaúchos; que apenas finge ser.
A pergunta na cabeça dos gaúchos é: Eduardo Leite usou o anel de Giges outras vezes?
* No filme O Senhor dos Anéis (foto), há referências ao Anel de Giges. Ao colocar os anéis, personagens ficam invisíveis.

