Ano 1956. O maior ícone de Pelotas, indiscutivelmente, é o Carnaval. Já foi considerado o 3° maior Carnaval de rua do Brasil, atrás apenas do Rio de Janeiro e do Recife.
Pelotas ficou conhecida em todo o Brasil não por causa da sua indústria, ou dos seus doces, ou por causa das faculdades. Ficou conhecida nacionalmente por causa do seu Carnaval.
Do ponto de vista sociológico, é forçoso reconhecer que o Carnaval é um dos raros eventos em todo o Mundo em que as diferenças sociais são reduzidas a zero.
O Carnaval de rua de Pelotas apresenta duas fases distintas: uma, no início do século XX, entre as duas guerras; a outra, após 1950 (e até 1970, mais ou menos). É esta fase, a meu ver, que melhor representa o Carnaval de rua que competia com o do Recife e que ficou famoso nacionalmente.
1 – O Carnaval de rua não tinha arquibancadas. E por que não tinha?
Porque não era um Carnaval para ser “assistido”. Era um Carnaval “participativo”. O Carnaval era do povo e não para o povo. O povo – todo o povo – participava do Carnaval. Só não ia para o Carnaval quem estava doente e de cama. (Lembra? Atrás do trio elétrico só não sai quem já morreu!)
Nota: O verdadeiro Carnaval de Pelotas, o das referências, só existiu enquanto o Carnaval foi na Rua XV.
As casas comerciais da Rua XV, da Floriano e da Andrade Neves, naquilo que é chamado “Centro”, alugavam as suas calçadas. As da XV para a colocação de cadeiras. Cada um levava de casa as suas cadeiras. E as casas comerciais se responsabilizavam em colocar e retirar diariamente. As cadeiras da Casa Americana, em frente ao Aquário, eram só para os ricos, pelo preço.
Essa proximidade do povo nas calçadas com os que brincavam na rua permitia uma interação ativa, cantando junto; jogando confete e serpentina… e até água suja.
As meninas subiam nas cadeiras e, como ficavam num nível superior à rua, isso facilitava lançar o confete e a serpentina. Sem contar que ficavam em maior evidência…
Pouco se jogava lança-perfume. Como era cara, era guardada para ser usada nos bailes, nos salões.
Um dado interessante: Nas cadeiras, não se consumia bebida alcoólica. A bebida comum era o refrigerante, vendido pelos ambulantes. Quem ia para o Carnaval não ia para beber. Álcool só com aqueles que brincavam na rua. Mesmo assim, não se via ninguém com uma garrafa de bebida na mão. Era proibido. E a fiscalização, rigorosa.
Quem quisesse tomar uma pinga tinha que beber em um bar. Mas havia alguns que cheiravam lança perfume no lenço, o que era facilmente identificável, porque não se aguentavam em pé. Não havia brigas. O policiamento era muito bom e não permitia qualquer tipo de atrito. E a turma do “deixa-disso” também não deixava. “Carnaval é pra brincar, não pra brigar”.
Se algum arruaceiro bêbado resolvesse iniciar uma confusão, era logo preso pela Polícia e levado para a Delegacia, onde ficava até a quarta-feira de Cinzas. Na quarta feira de manhã as pessoas se aglomeravam na frente da Delegacia para vaiar e aplaudir os arruaceiros que eram soltos. Sem os efeitos do álcool e fantasiados de mulher, muito pintados, em um dia útil, passavam grande vergonha. Esse castigo tinha finalidade educativa, além de livrar o Carnaval dos arruaceiros.
O período do Carnaval em Pelotas significava uma fase de mudanças de comportamento. As donas de casa sabiam que não podiam contar com as suas funcionárias domésticas. As raras famílias cujo patriarca não gostava de Carnaval saíam de Pelotas, porque não aguentavam a ebulição geral. As idosas carolas faziam “retiro”, que era um recolhimento espiritual da Igreja Católica, porque consideravam o Carnaval “obra do Demônio”. A Igreja Católica incentivava o “retiro” nas suas missas.
2 – Era tradicional os homens se vestirem de mulher. As prostitutas (todas as da cidade) se vestiam de homem. 90% das mulheres vestidas de homem no Carnaval eram prostitutas, e todos sabiam disso. Os homens não tinham a preocupação de esconder o rosto, pelo contrário.
Como todos os homens se pintavam como mulher, e de forma exagerada, até faziam questão de mostrar a cara (e exibiam as pernas cabeludas). As mulheres, pelo contrário, faziam questão de esconder o rosto com máscaras (afinal, eram prostitutas!); geralmente um saco de pano com uma abertura para a boca e outra para os olhos.
É sabido que as prostitutas de Pelotas só não “trabalham” em duas ocasiões: no Carnaval e na Sexta-Feira Santa.
Os travestis se aproveitavam da ocasião para desfilarem. Todos. Não ficava um travesti em casa. E eles gostavam de se mostrar bem escandalosos. Afinal, era Carnaval. Os travestis se vestiam com roupas de mulher, de preferência bem curtas e grudadas no corpo, para ressaltar as formas. Usavam peruca de mulher e muita pintura no rosto. Quanto mais exagerado melhor. E por isso não podiam usar máscaras. Gostavam de andar bem devagarinho, passeando, rebolando, mexendo com quem cruzavam, em grupos de três ou quatro.
As fantasias, principalmente as de “sujo”, escondiam as classes sociais, o que permitia uma total integração social. Fantasiar-se de “sujo” significava usar as piores roupas que tivesse em casa.
Os filhos de famílias da classe média e alta usavam as roupas das suas irmãs, de qualidade muito melhor.
Como na parte da tarde não havia desfile de blocos e ranchos, o povo tomava conta totalmente da rua, indo e vindo, brincando e mexendo com todo mundo que estava sentado. Isso proporcionava uma participação total.
Alguns levavam instrumentos musicais e iam cantando marchinhas. Dois ou três instrumentos era o suficiente para atrair uma meia dúzia de foliões vestidos de “sujo”, e estava formado um bloquinho, cantando.
Quando dois bloquinhos se cruzavam, um subindo e o outro descendo a rua, cantando marchinhas diferentes, ninguém ligava. Fazia parte do “espírito de Carnaval”.
Eventualmente, surgia um “conjunto musical” organizado: 5 a 7 instrumentos, vocal com duas vozes, todos com roupas iguais, que, devagarinho, iam cantando e descendo a rua; depois, subiam.
Alguns foliões, que ficaram conhecidos porque saíam da mesma forma todos os anos, eram adeptos do “Bloco do Eu Sozinho”. Se divertiam sozinhos, com fantasia ou não. Havia o que tocava violino em uma lata de inseticida, com três cordas (e saía som!); o que dançava com uma boneca de pano de mais ou menos 1,60m, feita com tecido preto para imitar uma negra, e que dançava agarrando a boneca pela cintura; o cinegrafista, que fingia filmar o Carnaval com um tripé e um caixão de madeira e uma lente como filmadora; o palhaço, com suas roupas características, a cara pintada de branco, uma bola vermelha no nariz e uma peruca laranja, mexendo com as crianças; e por aí vai… O importante era participar…
Não se viam mendigos no espaço do Carnaval. Dizia-se que também eles participavam como foliões.
Mas a nota mais marcante do Carnaval de rua de Pelotas era a animação. Não se via ninguém passeando; ninguém assumia o passo de “passeio”. Bastava alguém pisar no leito da rua e já assumia o passo de “marchinha”; aquele passo que acompanha as marchinhas. Olhando-se por cima das cabeças – um mar de cabeças – a rua totalmente tomada pelo povo, a sensação era de que a empolgação era total e ininterrupta. A multidão tomava conta da rua.
3 – O “Corso”
O Corso ocorria na parte da tarde, porque não havia desfiles oficiais. Por sua própria natureza, o corso era uma brincadeira exclusiva das “elites”, que possuíam carros ou que podiam pagar seu aluguel nos dias de carnaval.
No Brasil, teve início no Rio de Janeiro, na primeira década do século XX, e logo copiado por diversas cidades no Brasil. Pelotas se orgulhava de copiar o Carnaval do Rio de Janeiro e queria ser considerada o segundo Carnaval do Brasil.
O Corso exigia carros abertos (os famosos Fordecos 1924/1928), de capota arriada, para que a integração dos ocupantes com os foliões da rua se desse de forma mais ampla. O Corso de carro fechado não tinha graça.
As moças, fantasiadas, sentavam na capota arriada dos fordecos e alegravam o Carnaval, cantando e jogando confete e serpentina.
As cortes do Diamantinos, Brilhantes e Clube Comercial, as princesinhas e suas cortes, também saíam em corso, um carro atrás do outro. O Corso permitia que as classes diferenciadas se sentissem participando “por dentro” do Carnaval, sem se misturar com a massa de foliões, protegidas que estavam pelo automóvel.
No Corso os carros desciam a Rua XV a 5 km por hora, um atrás do outro. Andavam e paravam; andavam e paravam…
4 – O Bloco dos “Acanhados”
O Comandante do Exército, sensível à importância do Carnaval para o povo (e entendendo que soldado também é povo), permitia que a Banda Oficial do Exército desfilasse no domingo de manhã, fantasiados de “empregadinha doméstica”, de saiote bem curtinho, sutiã e touca na cabeça; todos muito pintados de mulher (e não tiravam o bigode!).
O Comandante também permitia que usassem os instrumentos da banda do Exército, inclusive os instrumentos de sopro, o que dava uma qualidade muito superior à banda, muito aguardada pelo povo.
O Bloco passava e atrás dele seguiam todos os que ainda estavam fantasiados de “sujo” (afinal já era de manhã!). Quem não estava fantasiado só aplaudia.
5 –O Redondo. é o entorno do chafariz das Nereidas, no centro da Praça Cel. Pedro Osório. Como é um Carnaval muito especial, foi tratado em capítulo à parte.
Rua XV
6 – O Carnaval da Noite (na rua)
De noite, as características do Carnaval eram outras. Havia uma programação para os três dias da semana. Uma noite saíam os Blocos; outra noite saíam os Ranchos; e na terça-feira de Carnaval era o dia do concurso das Escolas de Samba (Academia, Fica, Gal. Osório, Gal. Telles).
No entanto, entre um desfile e outro o povo tomava conta da rua. E ficava lotado como se fosse à tarde. Os Blocos e Ranchos eram formados por gente muito humilde: os brancos muito pobres e os mulatos; quase não havia negros. A simplicidade das suas fantasias revelava essa pobreza.
O bloco mais famoso e que deixou história em Pelotas foi o da “Girafa da Cerquinha”. Deve ter sido fundado entre as décadas de ’30 e ’40. O bloco tinha até uma marchinha própria, que era cantada pelos seus integrantes e pelos foliões:
“Girafa, Girafa, Girafa, oi / Essa girafa da Cerquinha está maluca / Ainda não é hora do batente / E ela fica impertinente / Acordando toda gente/ “.
Todas as crianças sabiam cantar essa marchinha.
As Escolas de Samba, pelo contrário, eram compostas basicamente por negros; quase não havia brancos. Isso se devia à forte identificação dos negros de Pelotas com as escolas de samba. Essa identificação gerava uma vinculação tal às Escolas que explica a ausência dos negros nos Blocos e Ranchos.
Esse movimento dos negros, em Pelotas, e essa união, foi uma reação ao forte racismo que dominava Pelotas até por volta de 1950. As escolas mais famosas eram a Gal. Teles, a Gal. Osório e a Academia do Samba.
Essas escolas tinham uma torcida como se fossem clubes de futebol. O fanatismo era o mesmo. Quando qualquer uma delas entrava na Rua XV os seus torcedores pulavam e vibravam como se fosse um gol no futebol.
Indiscutivelmente, a Academia tinha um lugar especial no coração dos pelotenses. Desde o seu início, em 1949, procurou ser uma escola diferenciada.
A sua fantasia de desfile no Carnaval eram luvas brancas, uma bengala e uma cartola. Graças a esse deslumbre foi campeã do Carnaval em 1953.
A Academia tinha até um grito de guerra, que levantava o povo. Ô / Ô, Ô, Ô / Ô, Ô, Ô / A Academia chegou /. Num Carnaval – não lembro qual – a Academia foi além. Entrou na XV cantando: “Mangueira o teu cenário é uma beleza / Que a natureza criou, ô, ô / O morro com seus barracões de zinco / Quando amanhece que esplendor / todo mundo te conhece ao longe / Com o som dos teus tamborins e o rufar do teu tambor / Chegou, ô, ô, ô / ô, ô, ô / A Academia chegou /”
Nesse momento mágico do Carnaval, todos aqueles negros que desfilavam nas suas Escolas viviam um sonho; deixavam de ser pedreiros, funileiros, carregadores portuários, desempregados e se transformavam em “passistas”.
A empolgação dos negros e negras, desfilando em suas Escolas de Samba, não tem similar na sociedade branca.
Não havia hora para voltar para casa. Em princípio, era na madrugada, mas havia gente que ia para casa só de manhã, com o dia claro. Não era raro, de manhã, encontrar-se um grupinho voltando para casa, alguns muito bêbados, ainda cantando.
7 – Os carros alegóricos
O carros alegóricos só saíam à noite. Eram uma contribuição dos clubes sociais ao brilho do Carnaval, porque proporcionavam um verdadeiro desfile de obras arquitetônicas sobre rodas.
Como os carros eram sobre rodas, a tração era animal. Bois puxavam os carros, duas, três juntas de bois, o que trazia o inconveniente de sujarem a rua. Mas depois que os carros passavam, vinha a limpeza pública atrás se encarregando de limpar.
Clubes sociais como o Diamantinos e o Brilhantes procuravam mostrar na rua XV a criatividade dos seus artesãos na confecção dos carros, que eram verdadeiras obras de arte, todo iluminados. Rapazes e moças sobre os carros, fantasiados, compunham o tema do carro. Em alguns carros os elementos se mexiam, tinham movimento, como em um em que as flores se fechavam e, quando abriam, surgiam ciganos fantasiados. Em outro, um moinho holandês, cujas pás se moviam, apresentava rapazes e moças fantasiados de holandeses.
Havia uma limitação de altura máxima dos carros, por causa dos fios da rede elétrica. Mas mesmo procurando cumprir o regulamento, alguns clubes excediam a altura máxima, o que os obrigava a terem auxiliares, que saíam junto aos carros com um pau comprido com uma trava, para levantar os fios na hora da passagem do carro.
8 – O Carnaval dos pobres e negros
Nas calçadas, a Mal. Floriano e a Andrade Neves eram os locais de concentração dos pobres e negros, por motivos óbvios: não por racismo, mas porque eles não tinham dinheiro para pagar o aluguel das cadeiras da XV.
Na Floriano as casas comerciais colocavam bancos nas calçadas (copiando a ideia das cadeiras da XV) e alugavam os assentos para os três dias de Carnaval.
Esse dado era o suficiente para fazer uma nova segregação: os que tinham alguma condição financeira e os que não tinham nenhuma. Não havia discriminação “racial”. Quem não podia pagar o aluguel, assistia o Carnaval de pé mesmo. Mas ninguém deixava de participar por não ter dinheiro.
Por mais pobre que fosse a família, era um motivo de orgulho fantasiar os seus filhos pequenos. Todas as crianças, por mais pobres que fossem, usavam fantasia. E pelo menos um saquinho de confete era possível comprar. Este foi um elemento importante para a manutenção da tradição do Carnaval de rua em Pelotas.
Calculava-se que dois terços da população de Pelotas participavam de alguma forma do Carnaval.
9 – O Domingo da Pinhata
O Domingo da Pinhata de Pelotas não encontra correspondência em nenhum lugar do Brasil e em nenhum país do Mundo. Só existe em Pelotas. É considerado o melhor dia do Carnaval.
Originalmente tem origem na religião católica, mas apenas pelo termo “Pinhata”, que é uma festa realizada no primeiro domingo da Quaresma. A única semelhança é esta: ser realizada no primeiro domingo da Quaresma, e por isso mesmo condenada pela igreja católica de Pelotas.
Pelotas faz Carnaval em plena Quaresma! Um horror para a Igreja. Mas nem por isso os católicos de Pelotas deixavam de comparecer.
A cidade inteira saía pra rua. Todos brincavam. Desfilavam os blocos, os ranchos e todas as Escolas de Samba. E ressalte-se: em agradecimento, em louvor, ao que receberam do povo nos quatro dias de Carnaval (em Pelotas não são três).
O povo na rua cantava, num grito só: “É hoje só. Amanhã não tem mais!” / “É hoje só. Amanhã não tem mais!”
(*) Luiz Carlos Marques Pinheiro nasceu em Pelotas, em 12/01/1940, onde estudou nos colégios São Francisco e Pelotense. Em 1961, foi trabalhar em São Paulo, onde se casou alguns anos depois com Suzana do Couto Rosa Pinheiro, tendo duas filhas: Beatriz e Izabel (na foto, com o pai). Formou-se em Direito na Faculdade São Francisco, desempenhando atividades profissionais em várias empresas, destacando-se o Banco Bandeirantes, onde foi diretor de marketing. Faleceu em São Paulo, em 16/12/2021. Embora morando há 60 anos fora, ele adorava Pelotas e tinha um blog sobre a cidade.
Da redação:Conheci Luiz Carlos Marques Pinheiro há uns 10 anos. Ele me disse que escrevia crônicas sobre Pelotas, memórias do tempo em que viveu aqui. Na época, já há quase 50 anos morando em São Paulo capital, ele não esquecia Pelotas, para aqui sempre viajava para rever parentes e mergulhar na atmosfera da cidade. Amava sua terra Natal. Nesta semana, um primo dele, Francisco de Paula Marques Rodrigues, me contou que Luiz havia falecido e deixara um acervo de crônicas sobre a cidade – que ele, Francisco, considerava que merecia ser mais amplamente divulgado. Interessei-me em publicar, o que, com autorização de Francisco e das filhas de Luiz, farei semanalmente, uma crônica por vez. (RSA)
O escritor e jornalista Luiz Carlos Freitas autografa na próxima quinta-feira (30), a partir das 18, na Livraria Mundial, seu novo romance: Confissões de um cadáver adiado. Freitas mergulhou no trabalho durante um ano até bater o ponto final.
O romance tem como ponto de partida e chegada a própria vida do autor, que sobreviveu a uma sentença que parecia de morte.
O prefácio fala por si:
Realidade e ficção na hora da morte Amém!
Sou filho do povo pobre e escravizado, a literatura me libertou e salvou. Perambulei por aqui e ali, encontrei guarida, força e sobrevivência financeira no jornalismo, oásis e alegria no ofício de escrever romances de cunho social, em paralelo, nas horas roubadas ao lazer e ao convívio familiar. Escrever me bastava, ser famoso e ganhar dinheiro não me atraia – expulsar fantasmas íntimos era o objetivo. Até que, no final de abril de 2011, ocorreu o que eu previa desde quando perdi meu pai, em 1973, aos 43 anos, vitimado por câncer no estômago e metástase no fígado.
Eu trabalhava na conclusão do romance MoriMundo e, em função de desconforto gástrico, fui me consultar. Desconfiança do médico, endoscopia, diagnóstico de enfermidade anunciada: tumor maligno de 2,5 cm (a mesma doença paterna) no Piloro (parte do estômago). Solução? Cirurgia. Pra ontem! Fui operado dia 13 de maio de 2011. Tudo certo! Extraíram o tumor e parte do estômago – deram-me como curado. Milagrosamente. Sem metástases. Tirei o prêmio da Mega Sena. Hurras! Vivas! Safei-me. Em julho dispensei o auxílio-saúde do INSS, voltei ao trabalho e à conclusão do MoriMundo, com a responsa de retornar a consultar-me com o oncologista em novembro, já com a tomografia em mãos.
Terminei o livro e o publiquei em setembro daquele ano. Ufa! Em novembro fiz a “Tomo” e me apresentei ao médico, pacificado, tranquilo, sem nada a temer. Choque! De alta voltagem! O cara leu o laudo do exame e me disse na lata: Problemas! Novo tumor no estômago, outro no pâncreas, um terceiro no baço e necrose no fígado. Puta… Balancei. No pâncreas! Tremi, me senti mal, meu mundo caiu, pensei: É o fim, prezado Freitas. Deu pra ti, camarada! O que temia há 40 anos se tornou realidade. Dei um tempo. Recuperei-me. E perguntei ao oncologista: Quanto tempo de vida? Entre seis meses e dois anos! Respondeu na hora, insensível e habituado às dores alheias. O que devo fazer? Extirpar os tumores por meio de cirurgia, a fim, talvez, de prolongar a vida, respondeu: Tchau e benção!
Dei entrada ao hospital dia 1º de janeiro de 2012, com cirurgia marcada para a manhã seguinte. No íntimo se digladiavam a esperança, a desesperança, o medo e um vago sentimento de aceitação do inevitável. Fiquei novehoras na mesa de cirurgia. Extraíram o tumor e o que restava do estômago, a cauda e a cabeça do pâncreas, o baço, e rasparam a necrose do fígado. Acordei e percebi que continuava no mundo dos vivos. Por pouco tempo. Deu rolo. Intercorrências nas cirurgias. Abriram-me mais cinco vezes consecutivas e instalaram um dreno no fígado para filtrar o excesso de bílis. Fui indo, dois, três dias… Bactéria estava à toa na vida e decidiu infectar-me.
Peguei infecção hospitalar das bravas. Dê-lhe litros de antibiótico e parará. A coisa piorou, choque séptico, falência de órgãos múltiplos… Adeus mundo! Quinze dias em coma! Caixão e sepultura prontos, família conformada, médicos nem aí para mais um caso perdido (aqui é força de expressão, “licença poética”). Acordei! Vi três rostos em forma de santa – não lembro a ordem: minha mãe, minha companheira, minha irmã caçula. Acordei do coma para espanto geral – milagre! –, permaneci três meses no hospital, perdi 30 quilos, voltei pra casa – milagre! A enfermidade foi superada, estou limpo há 11 anos e 25 dias, completados hoje, 26 de setembro de 2023. Não tenho estômago, partes do pâncreas, o baço, a vesícula, a aparência e a energia de outrora…
Nesses quase 12 anos de recuperação física e mental, ganhei sobrevida, 15 quilos (meu peso oscila entre 52 e 55 Kg), paz, tranquilidade, tempo para escrever, certa lucidez, aposentadoria por invalidez, uma coluna política três vezes por semana no centenário Diário Popular (desde 2014 até dezembro de 2020), e uma vida praticamente normal – sem sequelas graves. Ainda que sobre mim paire a sombra do medo da recidiva. Entre 2014 e 2015 escrevi o romance Homo Perturbatus, publicado em 2016, reeditei Amáveis inimigos íntimos, em 2017, Odeio muito tudo isso, em 2019, e publiquei o romance Ninguém em 2020. Enquanto isso, Confissões de um cadáver adiado maturava na mente e no espírito, à minha revelia, esperando o momento certo para vir à luz. Comecei a escrevê-lo em maio de 2022, após necessária visita à aldeia Campelo, no Norte de Portugal, onde nasceram meus avôs paternos. Concluí a obra em março de 2023. Foi doloroso reabrir velhas feridas, descobrir outras, furtivas. Às vezes, chorava e lamentava meus erros, geralmente a melancolia, a nostalgia e a culpa ditaram o ritmo e as palavras. Fui em frente!
Confissões de um cadáver adiado não é um manual de superação da enfermidade – longe disso. Mas é testemunho inequívoco de que o diagnóstico de câncer – mesmo os considerados irremediáveis – já não é sinônimo de finitude. Tampouco tem a pretensão de “colonizar” o outro, como diz Saramago. O objetivo da obra é compartilhar experiências, plantar esperança, mostrar a ambiguidade, a imperfeição e a mesquinhez do ser. Há outros. Diversos. Descubra-os!
Samuel (Samuel Theis) é encontrado morto na neve do lado de fora do chalé isolado onde morava com sua esposa Sandra (Sandra Hüller), uma escritora alemã, e seu filho Daniel (Milo Machado Graner), de 11 anos, com deficiência visual. A investigação conclui se tratar de uma “morte suspeita”, pois é impossível saber ao certo se ele tirou a própria vida ou se foi assassinado. Sandra é indiciada e acompanhamos seu julgamento que expõe o relacionamento do casal. Entre o julgamento e a vida familiar, as dúvidas pesam sobre a relação da mãe com seu filho.
Com um começo instigante, Anatomia de uma Queda coloca dúvidas na cabeça do espectador: Samuel caiu acidentalmente do chalé ou cometeu suicídio? Ou será que foi empurrado por Sandra? Ao longo de 2h e meia, o filme desenvolve sua narrativa sem pressa e de forma complexa, focada nos diálogos. A primeira parte explora a investigação e a reconstituição da morte de Samuel, enquanto que na segunda temos o julgamento, com Sandra suspeita e acusada do assassinato do marido, tendo que provar sua inocência com ajuda de Maître Vincent Renzi (Swann Arlaud).
A diretora Justine Triet acerta em cheio ao trabalhar com diferentes versões, sem nunca apresentar uma verdade definitiva e nem respostas prontas. O roteiro de Triet e Arthur Harari, seu marido na vida real, foi uma colaboração perfeita ao explorar a intimidade do casal e a relação, muitas vezes abusiva, entre eles.
Em uma das grandes atuações do ano, Sandra Hüller tem uma performance poderosa. Falando em inglês, com dificuldade em francês e sem poder falar em sua língua materna, ela passa por todas as nuances de sua personagem e, ao lado do jovem Milo Machado Graner, conferem à narrativa uma profundidade impressionante.
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e forte candidato ao Oscar, Anatomia de uma Queda é um angustiante estudo de personagens que desvenda as complexidades das relações humanas.