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Cultura e entretenimento

Pelotas, Minha Cidade. Por Luiz Carlos Marques Pinheiro

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Conheci Luiz Carlos Marques Pinheiro mais ou menos há 10 anos. Ele me contou que escrevia crônicas sobre Pelotas, memórias do tempo que viveu aqui. Já há quase 50 anos morando em São Paulo, não esquecia Pelotas. Viajava sempre para cá. Um primo de Luiz, Francisco de Paula Marques Rodrigues, me contou que ele havia falecido e deixara um acervo de crônicas sobre a cidade que, na opinião dele, merecia ser mais amplamente divulgado. Interessei-me em publicar na forma original, conforme as memórias dele, memórias de décadas passadas (RSA)

Outros textos de Luiz Carlos Marques Pinheiro

Luiz Carlos e esposa

Pelotas minha cidade /
lugar onde eu nasci /
ando nos braços do mundo /
mas sempre volto pra ti!
(Kleiton e Kledir)

Ano 2013. Eu tenho escrito muitas crônicas sobre Pelotas. Sempre com o mesmo objetivo: deixar material de pesquisa para os historiadores no futuro. Eu escolho como temas apenas aqueles das décadas de ’40 e ’50, não-registrados na Internet.

O que já está na Internet o pesquisador vai lá e copia. O meu objetivo é permitir que daqui há vinte ou trinta anos um acadêmico em Pelotas – e os há tantos – possa escrever sobre a Pelotas das décadas de ’40 e ’50, e encontre material para pesquisar. Como era viver em Pelotas nessas duas décadas?

Para fechar o circuito, eu pedi a um primo em Pelotas que me criasse um site na Internet, onde eu pudese deixar registradas as minhas crônicas. E foi o que fiz. Agora já posso morrer em paz. O material está em aberto para quem quiser pesquisar.

Eu já estou com setenta e três anos. Quando eu vou a Pelotas e pergunto pelos meus colegas de colégio, e fico sabendo que já estão quase todos mortos, eu fico impressionado como se morre cedo em Pelotas. O meu melhor amigo em Pelotas era o Fernando Delanoy. Já morreram o velho Delanoy, a sua esposa e os três filhos que moravam em Pelotas, inclusive o Fernando.

Como eu só escrevo sobre aquilo que não está registrado na Internet, se eu morresse antes de fazer este registro Pelotas ficaria sem memória, e sem material de pesquisa, principalmente da década de ’40.

Eu tenho um carinho muito grande com essas duas décadas porque foram as décadas em que eu morei em Pelotas. No início de 1960 eu vim para São Paulo, onde estou até hoje (…mas sempre volto pra ti…).

Eu quero ver se consigo transmitir aos pelotenses que hoje estão na faixa dos quarenta anos ou menos, através desta crônica, como era difícil a vida em Pelotas nessa época, principalmente na década de ’40. Uma Pelotas que eles nem fazem idéia que existiu.

Quando eu nasci, em 1940, o meu pai era funcionário da Prefeitura, lotado no Colégio Pelotense, onde era secretário do Diretor Vicente Rochedo, que, depois, virou um grande amigo pessoal meu.

O salário era baixíssimo, não permitia nem que meu pai alugasse uma casa. Morávamos, os três, meu pai, minha mãe e eu, em um quarto, em uma pensão, familiar na Andrade Neves, acho que esquina com Voluntários. Em 1943 nasceu a minha irmã, e passamos a ser quatro num quarto.

A bem da verdade – e é preciso que os pelotenses de hoje saibam disso – Pelotas nessa época era uma cidade que, embora com cem mil habitantes, eram todos de uma classe média das mais baixas possível. É claro que havia uma meia dúzia de ricos, mas já tinham sido mais de quarenta, empobrecidos que foram pelas dificuldades de vida.

Já casado, e eu nascido, meu pai fez concurso para o Banco do Brasil, foi aprovado, e nomeado para uma agência no Rio de Janeiro, no bairro da Tijuca.

Ficamos dois anos no Rio e meu pai conseguiu, através de velhos amigos de família, ser transferido de volta para Pelotas.

A viagem de volta, uma tragédia. Nove dias de navio, do Rio até Rio Grande. À noite, nenhuma luz podia ser acesa no navio, por medo da aviação alemã (era 1943, em plena II Guerra Mundial). De dia, dentro do navio, uma tensão constante, pelo risco de ser atacado por um submarino alemão.

“En passant”. Em 1942 tinha sido afundado o paquete Baependi. Segundo a Wikipédia:“O paquete Baependi (Baependy) foi um navio brasileiro de carga e de passageiros, afundado, na noite do dia 15 de agosto de 1942, pelo submarino alemão U-507, no litoral do estado de Sergipe. Foi o décimo-sexto navio brasileiro a ser atacado (o décimo-quinto naquele ano), e o seu torpedamento consistiu, até então, na maior tragédia brasileira na Segunda Guerra Mundial, com 270 mortos, sendo superado nessa estatística apenas pelo afundamento do cruzador Bahia, em 1945, no qual morreram cerca de 340 homens”.

Voltamos para a mesma casa de pensão na Andrade Neves. A única lembrança que eu tenho dessa casa eu já tinha quatro anos. É a de um aleijado, que também morava ali, e que não tinha as duas pernas. Ele se locomovia através de dois banquinhos de madeira, almofadados, passando de um pro outro, sucessivamente.

A dor ensina a gemer …

Mesmo como funcionário do Banco do Brasil, o meu pai só teve condições de alugar uma casa, na Mal.Deodoro, perto da Capitão Cícero, em 1945, depois de seis anos de casado, quando eu já tinha cinco anos. Nós pegamos todo o período da II Guerra Mundial morando em pensão, em Pelotas e no Rio de Janeiro.

Como era difícil a vida nessa época! O dinheiro, menor que a necessidade. Havia racionamento de tudo por causa da guerra. Filas enormes para se comprar qualquer coisa, porque quase toda a produção de alimentos era encaminhada para alimentar os exércitos aliados na Europa, no chamado “esforço de guerra”.

Tudo era feito com muito sacrifício…

Estranhamente eu não encontro na Internet – e aqui fica um aviso aos historiadores de Pelotas – nenhuma descrição sobre as conseqüências da II Guerra Mundial em Pelotas. O único texto que faz alguma referência é meu mesmo, chamado “A Carestia” (publicado no Amigos de Pelotas). A minha alfabetização foi feita pela minha mãe, me ensinando a desenhar as letras. Com cinco anos eu já conseguia escrever bilhetes para as minhas tias. A minha mãe ia dizendo as letras, uma a uma, e eu as ia desenhando…

Ao lado da casa que o meu pai alugou na Mal.Deodoro morava um casal, com um casal de filhos. A menina, que já estava no ginasial, se condoeu da minha situação de semi-analfabeto e me alfabetizou.

Clélia Guedes, eu gostaria que você pudesse estar me lendo agora, para ver o tamanho da minha gratidão.

Com cinco anos de idade, o meu sonho de consumo era ter uma bicicleta de três rodas (o termo triciclo não existia). Nunca tive essa bicicleta…

Na quadra em que morávamos provavelmente nenhum guri teve uma bicicleta de três rodas, porque, se tivesse, eu teria andado nela. A vida era difícil para todos…

Mas hoje, quando eu recordo isso, eu lembro também que a gente tinha empregada, e que dormia em casa. Ora, pra ter empregada, em 1945, com muito pouco dinheiro, era necessário que as empregas domésticas ganhassem também o mínimo dos mínimos. A vida era muito difícil para todos…

O raciocínio naquela época era que uma empregada em casa significava uma boca a mais pra comer. E eu chego a lembrar da minha mãe, comentando com as minhas tias quando iam lá em casa: …E como comem!!!

Imaginem o nível de necessidade da classe média-baixa de Pelotas nessa época…

Essa situação não era só na minha casa. O meu pai era ”Funcionário do Banco do Brasil”, o que era um baita atestado. Imaginem o resto…

Não obstante as dificuldades financeiras do povo, Pelotas permaneceu, durante toda a década de ’40, como a 2ª maior economia do Estado, somente atrás de Porto Alegre, graças ao tamanho da sua população.

Brinquedos, ninguém tinha. Se brincava na rua, de pular corda ou de “pega”, aquela brincadeira em que um esconde o rosto, conta até dez, e tem que pegar algum dos outros, que saíam correndo.

Para ajudar a passar o tempo, a gente jogava bolinha de gude no quintal de casa, que era de terra.

O refrigerador e o geleiro. Geladeira elétrica não existia; era refrigerador, assim chamado porque não gelava, só refrigerava. Era um móvel de mais ou menos 1,40 m por 0,60 m, de madeira muito grossa, forrada de zinco. Duas portas, uma em cima e uma em baixo. Na parte de cima se guardava o gelo, em pedaços grandes, protegido por serragem, envolto em saco de estopa, e depois em jornal, para conservar o gelo por mais tempo. A serragem era comprada em sacos, nas serrarias.

Na parte de baixo se guardava, talvez, um ou dois litros de leite, uma garrafa de água, um pote de manteiga e mais uma ou duas vasilhas.

Era preciso fazer uma combinação com o geleiro, que passava todos os dias em uma carroça com cavalo. Combinava o preço, e se o gelo era fornecido todos os dias, ou dia sim, dia não. O geleiro, ao passar, não avisava ninguém; deixava o gelo na calçada e seguia em frente. Quem quisesse que retirasse o seu gelo da calçada e levasse para dentro, antes que derretesse.

O ventilador e os fresteiros. No alto-verão era impossível viver sem um ventilador. O meu pai comprou um, o único em casa. De mesa, metálico, bom tamanho das pás (consideradas até grandes), giratório, marca GE. Esse ventilador ele manteve pelo resto da vida.

Quando estavam na copa fazendo uma refeição, o ventilador estava lá. A minha mãe gostava de dormir depois do almoço, e lá no quarto estava o ventilador. No jantar, já estava na copa novamente. E à noite ia para o dormitório do meu pai e da minha mãe. 9 hs.da noite e eles já estavam deitados. O meu pai escutando rádio, luz apagada, e o ventilador ligado.

O meu quarto era o da frente, com janela para a rua. No alto verão o meu pai abria uma fresta de uns vinte centímetros na janela que dava para a rua, para sair o ar quente e melhorar a temperatura do quarto. Lembrem-se que só havia um ventilador na casa. Estávamos em 1945.

Essa prática de deixar uma fresta na janela da rua era muito usada nessa época por muitas casas. Algumas deixavam a janela completamente escancarada. Esse fato gerou uma nova prática em Pelotas: os “fresteiros”.

Os fresteiros eram verdadeiros cafajestes, que saíam à rua na madrugada, a olharem para dentro dos quartos, pelas frestas, na tentativa de ver alguma coisa. Eram poucos e apontados na rua pelos meninos.

– Fogão a gás, nem pensar! embora houvesse fogão a gás no Brasil desde os anos ’30, e Pelotas tivesse um gasômetro por 70 anos, implantado na zona do Porto no Porto, desde 1875. A solução era o fogão a lenha, de ferro. Eu acredito que o fogão a lenha era usado, nessa época, em todas as casas de Pelotas. O fogão a lenha exigia uma “técnica” toda especial para ser pilotado. Mas as mulheres da época não se apertavam.

Era constituído de uma chapa grande de ferro, com quatro bocas, cada uma delas com uns quatro aros. As bocas eram administradas uma a uma. Tirando todos os aros de uma determinada boca, o fogo ficava totalmente aberto naquela boca. À medida em que os aros iam retornando, a boca ia se fechando, diminuindo a intensidade do fogo, até fechar totalmente com a colocação da última, que era uma tampinha.

A lenha também tinha segredo. Úmida, não queima. Era comum colocar algumas “achinhas” (esse era o nome que se dava à lenha) no forno, enquanto se cozinhava, para secar totalmente. A colocação das achinhas para acender o fogão também tinha segredo. Se mal colocadas custavam a pegar fogo e, quando pegava, demorava muito para queimar. Com a técnica certa, pegava fogo logo, e logo já estavam queimando.

À noite, o forno era usado para secar os sapatos úmidos da rua, mas somente depois que ficava morno.

A chapa quente do fogão também era usada para manter quente a água de uma chaleira; para passar um bife; para fazer uma torrada.

O ferro elétrico já existia no Brasil desde o início do séc.XX, mas em Pelotas, não. Em Pelotas o ferro era a carvão. Era uma outra atividade que exigia uma boa técnica. Se não soubesse aquecer direito, ou ficava muito frio, e não passava direito a roupa, ou ficava muito quente, e chamuscava a roupa.

As brasas eram feitas à parte, geralmente num fogareiro de carvão, e depois passadas para o ferro.

– O fogareiro de carvão era um auxiliar do fogão. Era de ferro. Se colocava carvão, um pouco de álcool e tocava fogo. O carvão ia queimando, até virar brasa. Não compensava aquecer o fogão para fazer um chá para as visitas. Fazia no fogareiro de carvão.

As donas de casa e as empregadas dominavam todas essas técnicas.

A lenha e o carvão era fácil de comprar, porque qualquer armazém vendia. Era um grande negócio para eles, porque o consumo era muito grande, o ano inteiro.

Em 1947, o meu pai comprou o seu 1º carro. Um Ford Modelo “A” americano, preto, capota de lona, ano 1929. Só que o meu pai comprou o seu primeiro carro já quando tinha 33 anos, casado e com dois filhos, e “Funcionário do Banco do Brasil”…

A primeira vez que eu sentei em um banco de automóvel eu tinha sete anos de idade. Rapazes de hoje, essa era a Pelotas da minha época…

Mas o meu pai, com33 anos, não sabia dirigir. Foi aprender depois de ter comprado o carro. O carro só rodava, praticamente, nos domingos à tarde. Durante a semana o meu pai trabalhava. Dirigir à noite ele tinha medo. Nos domingos de manhã ele ia à missa na Catedral, a pé.

Nessa época, o único passeio mais longo que se podia fazer de carro era passar a tarde de sábado, ou domingo, na Cascata, para tomar um café alemão. Ou ir até ao Fragata, no domingo à tarde, visitar os meus avós.

O outro passeio, apenas teórico, era ir até ao Laranjal. O Laranjal era, todo ele, uma única propriedade privada, do velho Assumpção. Ao morrer, as terras foram divididas entre os herdeiros, cabendo a cada um uma fazenda. Para se ir até ao Laranjal era preciso conhecer o proprietário de uma das fazendas e pedir um “passe” para passar pela porteira da sua fazenda.

A que nós íamos era a do Dr.Ferreirinha, médico, casado com uma Assumpção, que o meu pai conhecia porque ele era médico do convênio com o Banco do Brasil.

Só que até chegar à porteira da fazenda era preciso cruzar o São Gonçalo de balsa (e suportar a fila!) e pegar uns oito quilômetros de estrada de areia solta, fofa, com uma camada de uns trinta centímetros. Caminhão, passava. Mas, automóvel, dava trabalho, e às vezes ficava preso na areia. A Prefeitura, para ajudar, às vezes mandava passar a patrola na estrada, afastando a areia para as laterais, deixando o leito da estrada na parte mais firme.

Dava tanto trabalho que quase ninguém queria ir…

Nessa época o meu pai não se atrevia a dirigir até o Cassino. Mas eu não tiro a razão dele. Não só tinha que atravessar uma outra balsa (e suportar uma fila!!!), como a estrada até Rio Grande também era um baita areião.

Em 1948, o meu pai alugou uma casa do meu avô na Gonçalves Chaves, perto do cine Apolo.

Essa casa, no início, foi um problema para nós. Tinha sido uma pensão de mulheres, que sairam para que nós entrássemos. Os marinheiros chegavam no Porto e, na madrugada, queriam entrar na casa. Estavam acostumados… Como não conseguiam, enfiavam o pé no portão de ferro de entrada do jardim e gritavam nomes que a gente não entendia, mas adivinhava.

A vizinhança era toda de classe média-baixa, salvo raras exceções. Nosso vizinho de frente era um tenente dos bombeiros. O vizinho à esquerda eram duas famílias de portugueses, marceneiros, que moravam juntas. A marcenaria fiava nos fundos da casa. No meio da quadra, tinha uma casa velha bem recuada, que não dava para se ver por causa de uns caramanchões enormes na frente. Ali moravam duas famílias de negros, que faziam sessões de macumba, pelo menos duas vezes por mês. A gente só escutava os batuques.

Na esquina à direita tinha um bar, e nos fundos desse bar era a sede de um clube de várzea, onde eu jogava futebol no Juvenil, e jogava ping-pong todas as noites, até às 9 hs., quando o meu pai ia me chamar. Era a minha única distração em Pelotas, até aos 16 anos, quando eu passei a freqüentar o Centro.

A irmã mais nova da minha mãe, casada com um sujeito muito rico, de família tradicional de Pelotas, me conseguiu uma matrícula no Colégio São Francisco, que também era na Gonçalves Chaves, só que uns oitocentos metros adiante. No São Francisco eu comecei em 1948, no 3º Ano, e fiz 3º e 4º. A alfabetização feita pela Clélia tinha sido perfeita. Não tive nenhuma dificuldade em acompanhar a classe.

Só então tomei conhecimento, pela primeira vez na vida, de uma outra realidade de Pelotas, que eu desconhecia. Quase todos os meus colegas de classe, meninos e meninas, cada um deles vinha de uma família tradicional. Muitos deles, ricos. Um deles, a família tinha motorista particular, de uniforme e quepi. Num Hudson preto, ia nos buscar no colégio. Fiz muito boas amizades.

A vida em casa tinha melhorado um pouquinho; provavelmente o salário tinha melhorado. Em 1948 já não havia escassez em Pelotas. Mas o salário ainda era contado. Muitas e muitas noites eu via o meu pai sentado na copa, anotando em um papel branco pequeno as despesas do mês; depois, somava tudo e comentava com a minha mãe. Ele sabia todas as despesas de cabeça. Isso era facilitado porque a verba para a rubrica “despesas extraordinárias” era ZERO.

Eu acho que só comecei a ganhar mesada semanal depois dos 11 anos. Até então a minha mesada era o dinheiro do cinema, uma vez por semana, na matinée de domingo.

A casa era antiga, com todos os defeitos de uma casa antiga. Eram três quartos e um banheiro. Não tinha chuveiro elétrico. A água era aquecida num cilindro preso à parede do banheiro, em cima da banheira. Em sua parte superior era o depósito de água a ser aquecida. Na parte inferior se enchia de jornal e tocava fogo. Essa era a única água “quente” disponível para um banho. No inverno a gente passava apertado.

Mas a gente tinha um truque. Colocava álcool em uma baciinha de alumínio e tocava fogo. Havia uma pequena explosão, e o banheiro logo ficava quentinho. O banheiro da empregada era dentro de casa, mas só tinha o vaso e um chuveiro, que não era elétrico; o banheiro não tinha pia. A minha mãe dizia que a empregada podia muito bem, de manhã, lavar o rosto no tanque, do lado de fora da casa. Ah, minha mãe!

No quintal a minha mãe criava galinhas. Ela sabia que não tinha despesas com a alimentação delas (porque aproveitava os restos da refeição) e ainda fazia economia deixando de comprar ovos. Os ovos, a gente comia, ou eram postos pra chocar. E de quebra ainda se comia um franguinho, de vez em quando. Mas “frango”, porque as frangas viravam galinhas. Quem conheceu a minha mãe sabe muito bem como era a sua cabeça!

Das galinhas e frangos que se matava durante o ano, as penas eram lavadas, secadas ao sol e ensacadas. Iam virar coberta de pena e travesseiros. Em 1950 eu me matriculei no Curso de Admissão do Colégio Pelotense, onde fiquei até o 3º Científico. A década de ’50 foi um pouco mais leve. Já se podia respirar…

(*) Luiz Carlos Marques Pinheiro nasceu em Pelotas, em 12/01/1940, onde estudou nos colégios São Francisco e Pelotense. Em 1961, foi trabalhar em São Paulo, onde se casou alguns anos depois com Suzana do Couto Rosa Pinheiro, tendo duas filhas: Beatriz e Izabel (na foto, com o pai). Formou-se em Direito na Faculdade São Francisco, desempenhando atividades profissionais em várias empresas, destacando-se o Banco Bandeirantes, onde foi diretor de marketing. Faleceu em São Paulo, em 16/12/2021. Embora morando há 60 anos fora, ele adorava Pelotas e tinha um blog sobre a cidade.

Cultura e entretenimento

Napoleão, o filme, é belo de ver, mas tem montagem confusa. Por Déborah Schmidt

Com duas horas e meia, já foi anunciado um corte do diretor com 4 horas de duração que será exibido no streaming, o que explica os cortes na edição

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Napoleão passa por diferentes décadas da vida de Napoleão Bonaparte (Joaquin Phoenix), na turbulenta França após o fim da monarquia. Sua rápida e implacável ascensão a imperador é vista através de seu conturbado relacionamento com Josephine (Vanessa Kirby), sua esposa e verdadeiro amor.

Vindo do nada como um oficial de artilharia do exército francês durante a Revolução Francesa, o filme retrata sua jornada, até ser derrotado e exilado na ilha de Santa Helena. O longa retrata diversos momentos históricos, como a decapitação de Maria Antonieta até a invasão do Egito, quando permitiu que seus exércitos utilizassem as pirâmides de Giza como alvo para treino de pontaria.

Dirigido por Ridley Scott, responsável por produções inesquecíveis ao longo de quase 50 anos de carreira como Alien – O 8° Passageiro (1979), Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), um dos meus filmes favoritos, Thelma & Louise (1991), Gladiador (2000), O Gângster (2007), Perdido em Marte (2015), O Último Duelo (2021) e muitos outros. O diretor constrói épicos como poucos, com grandiosas e impressionantes cenas de batalha. Em Napoleão, a ascensão e queda de Bonaparte nos altos escalões do governo francês é intercalada por importantes conflitos como o cerco de Toulon, as invasões à Rússia e a investida contra os ingleses em Waterloo.

O roteiro de David Scarpa traz um protagonista nostálgico, constantemente avaliador da própria vida, narrador de cartas sentimentais e dependente emocionalmente da esposa. Tecnicamente excelente, a fotografia de Dariusz Wolski aposta em sequências que enfatizam paisagens belíssimas e no vermelho-sangue das batalhas. Porém, o filme dilui as competentes cenas de ação em uma montagem confusa, que apresenta a vida de Napoleão de forma apressada e sem o devido contexto.

Com duas horas e meia, já foi anunciado um corte do diretor com 4 horas de duração que será exibido no streaming, o que explica os cortes na edição. Aliás, a trama foi bastante criticada no que diz respeito aos dados históricos retratados no filme, no entanto, a precisão histórica não pareceu uma preocupação para Ridley Scott. Prefiro deixar essa questão para os historiadores, meu assunto aqui é apenas o cinema.

Entre glória e fracasso, Joaquin Phoenix apresenta um homem falho e humano, que, entre estratégias brilhantes contra britânicos e russos, encontrou na esposa o relacionamento que assombrou sua vida. Afinal, o fato de Josephine não conseguir lhe dar um filho, um símbolo da continuidade de um império, desempenhou um papel fundamental na relação entre os dois. A química entre Phoenix e Vanessa Kirby é perfeita, com a atriz roubando a cena e sendo um dos grandes destaques da produção.

“França, exército e Josephine”, foram as últimas palavras proferidas por Napoleão Bonaparte antes de morrer. Possivelmente, as únicas três coisas que amou na vida. O filme faz questão de trazer essa passagem ao término de Napoleão, resumindo a produção nessas três palavras.

Em cartaz, Napoleão retrata o líder e estrategista militar com um olhar nostálgico e humanizado e, portanto, com falhas. Um épico que merece ser visto, preferencialmente, no cinema.

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Cultura e entretenimento

Luiz Carlos Freitas lança novo romance: Confissões de um cadáver adiado

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O escritor e jornalista Luiz Carlos Freitas autografa na próxima quinta-feira (30), a partir das 18, na Livraria Mundial, seu novo romance: Confissões de um cadáver adiado. Freitas mergulhou no trabalho durante um ano até bater o ponto final.

O romance tem como ponto de partida e chegada a própria vida do autor, que sobreviveu a uma sentença que parecia de morte.

O prefácio fala por si:

Realidade e ficção na hora da morte Amém!

Sou filho do povo pobre e escravizado, a literatura me libertou e salvou. Perambulei por aqui e ali, encontrei guarida, força e sobrevivência financeira no jornalismo, oásis e alegria no ofício de escrever romances de cunho social, em paralelo, nas horas roubadas ao lazer e ao convívio familiar. Escrever me bastava, ser famoso e ganhar dinheiro não me atraia – expulsar fantasmas íntimos era o objetivo. Até que, no final de abril de 2011, ocorreu o que eu previa desde quando perdi meu pai, em 1973, aos 43 anos, vitimado por câncer no estômago e metástase no fígado.

Eu trabalhava na conclusão do romance MoriMundo e, em função de desconforto gástrico, fui me consultar. Desconfiança do médico, endoscopia, diagnóstico de enfermidade anunciada: tumor maligno de 2,5 cm (a mesma doença paterna) no Piloro (parte do estômago). Solução? Cirurgia. Pra ontem! Fui operado dia 13 de maio de 2011. Tudo certo! Extraíram o tumor e parte do estômago – deram-me como curado. Milagrosamente. Sem metástases. Tirei o prêmio da Mega Sena. Hurras! Vivas! Safei-me. Em julho dispensei o auxílio-saúde do INSS, voltei ao trabalho e à conclusão do MoriMundo, com a responsa de retornar a consultar-me com o oncologista em novembro, já com a tomografia em mãos.

Terminei o livro e o publiquei em setembro daquele ano. Ufa! Em novembro fiz a “Tomo” e me apresentei ao médico, pacificado, tranquilo, sem nada a temer. Choque! De alta voltagem! O cara leu o laudo do exame e me disse na lata: Problemas! Novo tumor no estômago, outro no pâncreas, um terceiro no baço e necrose no fígado. Puta… Balancei. No pâncreas! Tremi, me senti mal, meu mundo caiu, pensei: É o fim, prezado Freitas. Deu pra ti, camarada! O que temia há 40 anos se tornou realidade. Dei um tempo. Recuperei-me. E perguntei ao oncologista: Quanto tempo de vida? Entre seis meses e dois anos! Respondeu na hora, insensível e habituado às dores alheias. O que devo fazer? Extirpar os tumores por meio de cirurgia, a fim, talvez, de prolongar a vida, respondeu: Tchau e benção!

Dei entrada ao hospital dia 1º de janeiro de 2012, com cirurgia marcada para a manhã seguinte. No íntimo se digladiavam a esperança, a desesperança, o medo e um vago sentimento de aceitação do inevitável. Fiquei novehoras na mesa de cirurgia. Extraíram o tumor e o que restava do estômago, a cauda e a cabeça do pâncreas, o baço, e rasparam a necrose do fígado. Acordei e percebi que continuava no mundo dos vivos. Por pouco tempo. Deu rolo. Intercorrências nas cirurgias. Abriram-me mais cinco vezes consecutivas e instalaram um dreno no fígado para filtrar o excesso de bílis. Fui indo, dois, três dias… Bactéria estava à toa na vida e decidiu infectar-me.

Peguei infecção hospitalar das bravas. Dê-lhe litros de antibiótico e parará. A coisa piorou, choque séptico, falência de órgãos múltiplos… Adeus mundo! Quinze dias em coma! Caixão e sepultura prontos, família conformada, médicos nem aí para mais um caso perdido (aqui é força de expressão, “licença poética”). Acordei! Vi três rostos em forma de santa – não lembro a ordem: minha mãe, minha companheira, minha irmã caçula. Acordei do coma para espanto geral – milagre! –, permaneci três meses no hospital, perdi 30 quilos, voltei pra casa – milagre! A enfermidade foi superada, estou limpo  há 11 anos e 25 dias, completados hoje, 26 de setembro de 2023. Não tenho estômago, partes do pâncreas, o baço, a vesícula, a aparência e a energia de outrora…

Nesses quase 12 anos de recuperação física e mental, ganhei sobrevida, 15 quilos (meu peso oscila entre 52 e 55 Kg), paz, tranquilidade, tempo para escrever, certa lucidez, aposentadoria por invalidez, uma coluna política três vezes por semana no centenário Diário Popular (desde 2014 até dezembro de 2020), e uma vida praticamente normal – sem sequelas graves. Ainda que sobre mim paire a sombra do medo da recidiva. Entre 2014 e 2015 escrevi o romance Homo Perturbatus, publicado em 2016, reeditei Amáveis inimigos íntimos, em 2017, Odeio muito tudo isso, em 2019, e publiquei o romance Ninguém em 2020. Enquanto isso, Confissões de um cadáver adiado maturava na mente e no espírito, à minha revelia, esperando o momento certo para vir à luz. Comecei a escrevê-lo em maio de 2022, após necessária visita à aldeia Campelo, no Norte de Portugal, onde nasceram meus avôs paternos. Concluí a obra em março de 2023. Foi doloroso reabrir velhas feridas, descobrir outras, furtivas. Às vezes, chorava e lamentava meus erros, geralmente a melancolia, a nostalgia e a culpa ditaram o ritmo e as palavras. Fui em frente!

Confissões de um cadáver adiado não é um manual de superação da enfermidade – longe disso. Mas é testemunho inequívoco de que o diagnóstico de câncer – mesmo os considerados irremediáveis – já não é sinônimo de finitude. Tampouco tem a pretensão de “colonizar” o outro, como diz Saramago. O objetivo da obra é compartilhar experiências, plantar esperança, mostrar a ambiguidade, a imperfeição e a mesquinhez do ser. Há outros. Diversos.  Descubra-os!

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