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Depois da caçada. Por Déborah Schmidt

Alma Imhoff (Julia Roberts) é uma professora universitária casada com Frederick (Michael Sthulbarg). Após um evento em sua casa, Alma é procurada por Maggie (Ayo Edebiri), uma de suas alunas, que acusa Hank (Andrew Garfield), seu colega de departamento, de abusar dela depois que ele a levou para casa.

Quando sua aluna prodígio faz uma denúncia grave contra o seu amigo e colega de profissão e pede ajuda para defendê-la, Alma ainda precisa lidar com uma acusação feita por Hank. Confrontada pelos dois lados, a protagonista precisa decidir como agir enquanto protege seus próprios segredos.

Depois da Caçada começa de maneira morna e bastante verborrágica, com cenas em que os personagens falam e discutem longamente sobre diversos temas que, na verdade, não chegam a lugar nenhum. Ambientado no hostil e refinado Instituto de Filosofia da Universidade de Yale, o longa aposta em discussões éticas e intelectuais, porém, é interessante como a narrativa faz com que o espectador questione o retrato de Maggie como uma mulher jovem, preta e queer. Enquanto isso, o branco, hétero e galanteador Hank acredita ser injustiçado, já que Maggie ainda é herdeira de uma grande fortuna.

Emendando um filme por ano desde 2017, o diretor italiano Luca Guadagnino continua explorando as complicadas relações pessoais, com seus personagens envolvidos em uma complexa rede de sentimentos e desejos. O roteiro, escrito pela também atriz Nora Garrett, acerta em criar ótimos diálogos, que geram momentos de puro embate entre os personagens. A trama usa a acusação de assédio como ponto de partida para um debate mais amplo sobre moralidade, hipocrisia e a cultura do cancelamento, sob o ponto de vista das complexas dinâmicas de poder na sociedade atual.

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Sem exibir o carisma do qual já estamos acostumados, Julia Roberts interpreta Alma com a frieza de uma mulher que é levada ao limite e pelo medo de lidar com seu passado. Revelação da série The Bear, Ayo Edebiri também se destaca como a estudante Maggie, que questiona o mundo ao seu redor ao mesmo tempo em que busca reconhecimento dele. Deixando de lado os personagens dóceis e íntegros, Andrew Garfield vive um personagem que apresenta defeitos em seu caráter, escondidos pelo seu jeito simpático de lidar com as pessoas. Ainda no elenco, o sempre ótimo Michael Stuhlbarg (dono de um dos meus discursos favoritos em Me Chame Pelo Seu Nome) é um psiquiatra excêntrico na superfície, e que cria o contraponto perfeito para Alma, e Chlöe Sevigny é a psiquiatra Kim Sayers, amiga de Alma.

Colaboradores de Guadagnino em Rivais (2024) e Queer (2024), os geniais Trent Reznor e Atticus Ross, integrantes do Nine Inch Nails, apresentam uma trilha sonora com canções brasileiras como “Lígia”, de Tom Jobim, e “É Preciso Perdoar”, com Caetano Veloso. Melodramática, a trilha aposta em sons pontuais, como um tique-taque, e a substituição de sons ambientes, confundindo o espectador e dificultando a distinção entre a música e a ambientação.

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Com um elenco impecável, Depois da Caçada explora a moralidade complexa de seus personagens e estimula o debate de temáticas controversas, porém, não é provocativo ou ousado o suficiente.

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