Casa de Dinamite marca o aguardado retorno da diretora Kathryn Bigelow após oito anos sem lançamentos. Primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção, por Guerra ao Terror (2008), a cineasta continua atenta às tensões do mundo contemporâneo.
O longa acompanha as reações do governo norte-americano após a iminência de um ataque por um míssil não identificado. A partir daí, inicia-se uma corrida contra o tempo para descobrir o responsável e decidir como responder. A trama não se preocupa em apontar culpados, mas em observar como o sistema reage diante do caos.
Em um tom quase documental, a narrativa segue três perspectivas diferentes diante da ameaça: a Sala de Situação, na figura da capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson), o comando militar, e por fim, a do próprio presidente (Idris Elba). A diretora consegue imprimir um senso de urgência palpável, principalmente no início, quando o filme mergulha na tensão dos profissionais que lidam com informações incompletas e decisões que podem mudar o destino de milhões de pessoas.
O roteiro de Noah Oppenheim utiliza muito bem o recurso da repetição de eventos sob diferentes pontos de vista, com detalhes e diálogos ganhando significado mais adiante, quando vistos por outro ângulo. O que torna o longa ainda mais interessante é o equilíbrio entre o realismo, como um thriller de ação, com reflexão política. De fato, o filme não busca conforto, e sim inquietação e, justamente, na recusa em apontar vilões. Embora países como Rússia, Coreia do Norte e China sejam citados, o filme não os transforma em antagonistas.
Com a competência de sempre, Rebecca Ferguson assume o protagonismo na primeira parte, sustentando o filme durante os momentos mais intensos, porém, à medida que o filme avança e muda de perspectiva, o impacto inicial diminui. A estrutura da narrativa é inteligente, mas inevitavelmente a primeira é a mais forte. Quando a narrativa passa para as demais camadas, o senso de novidade se perde, mesmo com ótimos atores como Tracy Letts e Jared Harris em cena.
A câmera nervosa e a montagem acelerada de Kirk Baxter, vencedor do Oscar por A Rede Social (2011) e Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2012), reforçam ainda mais a urgência e a tensão do momento. Um cronômetro em tela que marca cerca de 19 minutos até o impacto da míssil, aumenta a sensação de desespero coletivo. A fotografia de Barry Ackroyd, colaborador frequente de Bigelow, ajuda a criar a sensação angustiante de um colapso interno.
O final abrupto e, certamente intencional, vai ser frustrante para a grande maioria dos espectadores que aguardavam uma conclusão mais clara. Pode parecer contraditório que um filme que começa com uma energia explosiva e ritmo frenético termine de forma mais contemplativa. Pessoalmente, gostei da forma como o filme é encerrado, deixando o público com a sensação de urgência e impotência que construiu desde o início. Como disse anteriormente, não é um filme que busca o conforto.
Produção da Netflix, Casa de Dinamite é um filme que provoca mais do que explica, e que prova por que Kathryn Bigelow continua sendo uma das diretoras mais corajosas e relevantes de sua geração.


