Em Foi Apenas um Acidente, após ficar à deriva na estrada com sua família, Eghbal (Ebrahim Azizi) pára em uma oficina no meio do nada, de propriedade de Vahid (Vahid Mobasseri), que logo o reconhece, devido a uma prótese na perna, como o oficial que o torturou na prisão. Determinado a se vingar, o mecânico busca ajuda de outros prisioneiros para tentar descobrir se o homem é realmente o agressor.
O longa reúne personagens marcados por experiências brutais, que nunca são mostradas na tela: a fotógrafa de casamentos Shiva (Mariam Afshari), o casal de noivos às vésperas do casamento e que estava no meio de seu ensaio fotográfico, Ali (Majid Panahi) e Golrokh (Hadis Pakbaten), e o furioso Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr). Eles se unem a Vahid para confirmar a identidade do carrasco e, no fim das contas, decidir sobre o que fazer com ele.
O filme é dirigido e roteirizado pelo cineasta iraniano Jafar Panahi, que concebeu o projeto a partir das suas próprias vivências, do tempo que ficou preso por ser considerado um inimigo do Estado apenas por questionar as atitudes do governo. Um dos diretores mais audaciosos e premiados do cinema contemporâneo, com obras como Táxi Teerã (Urso de Ouro, 2015) e O Círculo (Leão de Ouro, 2000), Panahi vem de um período de prisão e greve de fome em protesto contra o regime fundamentalista islâmico de seu país. Recentemente, foi condenado a um ano de prisão e proibido de viajar durante dois anos, por “atividades de propaganda” contra a nação. Gravado de forma clandestina, Foi Apenas um Acidente é um ato de resistência, de um diretor que denuncia com a sua arte.
Boa parte das cenas se passa dentro de veículos ou em meio ao deserto, em uma paisagem árida e simbólica que ecoa com a moral de um país em ruínas. Independente da identidade do homem que pode (ou não) ser responsável por tanto sofrimento nos personagens, o filme demonstra, de forma visceral, como marcas deixadas pela violência criou raízes profundas na vida daquelas pessoas. No entanto, o diretor opta por mesclar drama com humor, principalmente com Vahid, naturalmente tragicômico e com uma energia que oscila entre a frustração de sua vida atual com um dilema moral que o impede de ir até as últimas consequências. Os demais surgem aos poucos e revelam a mesma dualidade: enquanto tentam seguir com suas vidas, embora atormentados pelos fantasmas do passado, há um buraco enorme deixado pela tortura e pelo isolamento.
Precisamente cruel, a cena final é capaz de criar um nó na garganta no espectador, em um dos melhores filmes dos últimos tempos e que deve ser um dos destaques do Oscar (o filme representa a França na cerimônia). Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, Foi Apenas um Acidente propõe uma reflexão sobre os limites morais da vingança e a repressão política.
- Foto de divulgação do estúdio


