Hamnet: A Vida Antes de Hamlet apresenta o romance entre Agnes (Jessie Buckley) e Will (Paul Mescal). Juntos, eles constroem uma bela família, junto com a filha mais velha, Susanna (Bodhi Rae Breathnach), e os gêmeos Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes). Mas quando uma doença causa tragédia, o luto parece ser a inspiração para uma das maiores obras da literatura.
Após vencer o Oscar por Nomadland (2020) e a recepção dividida em sua estreia na Marvel com o fraco Eternos (2021), a diretora Chloé Zhao retorna a um território que parece dialogar muito mais com sua sensibilidade.
A adaptação do romance de Maggie O’Farrell não está interessada no gênio da literatura, mas sim na família e, sobretudo, na figura de Agnes, que se torna o verdadeiro centro emocional da narrativa. Na realidade, o filme não faz muita questão de tentar ser uma cinebiografia de William Shakespeare, tanto que seu nome completo só é dito pela primeira vez no terceiro ato do filme.
Através de Agnes, a história ganha elementos sobrenaturais, em virtude de sua habilidade de ter visões do futuro e conhecimentos de cura, graças a uma conexão muito profunda com a floresta. Hamnet é todo sob o olhar dela, e Shakespeare está ali como marido, pai, muitas vezes ausente, e como alguém dividido entre a necessidade de criar e a incapacidade de permanecer. Com isso, Agnes ocupa o lugar de protagonista e dos temas que o filme realmente quer explorar, como a maternidade atravessada pelo medo, pela responsabilidade e, mais tarde, pela perda.
Além do belíssimo visual e do roteiro tocante, o elenco impressiona. A sempre extraordinária Jessie Buckley já garantiu seu Oscar com uma atuação arrebatadora e que cresce em silêncio, em olhares, em gritos e em pequenos gestos. As suas reações durante a sequência final no teatro certamente ficarão marcadas na história do cinema.
Ao seu lado, Paul Mescal está igualmente impecável, reafirmando por que é um dos atores mais requisitados do momento, e sua ausência entre os indicados ao Oscar é revoltante.
Jacobi Jupe, no papel de Hamnet, conquista pela naturalidade e pelo impacto que consegue causar mesmo com pouco tempo em cena. O filme acertou em cheio na escolha de Noah Jupe, irmão de Jacobi, para viver Hamlet no teatro, gesto que reforça a imersão emocional da narrativa. Destaque também para a ótima Emily Watson, que surge como Mary, a mãe de Will.
Visualmente lindo como sua história, a produção valoriza a luz natural e os espaços abertos, com a direção de fotografia de Lukasz Zal, indicado ao Oscar por Guerra Fria (2019). Além disso, as cores acompanham o estado emocional dos personagens, e o figurino ajuda a contar essa trajetória, especialmente com Agnes, em um excelente trabalho da figurinista Malgosia Turzanska. A discreta trilha sonora de Max Richter deixa momentos dolorosos ainda mais intensos.
Com 8 indicações ao Oscar, Hamnet: A Vida antes de Hamlet fecha a trio dos favoritos ao Oscar de melhor filme ao lado de Uma Batalha Após a Outra e Pecadores. Um filme que se destaca pela delicadeza e pela forma como transforma o luto em algo quase palpável. Profundamente sensível e emocionante.

