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A melancolia de ‘O diabo’

O diabo veste Prada 2 me pareceu desnecessário. Se o primeiro filme é perfeito, fechado a vácuo, o segundo é selado com bolhas de ar. É um filme visto com saudade, mas que nos decepciona pela nostalgia de um momento impossível de reviver. Foi bom rever a turma?

Foi. Gostei de rever Stanley Tucci (Nigel), o simpático ator com cara de amendoim, e, claro, as atrizes. Porém, achei triste ver a destruição das lembranças do filme original, por conta inclusive do envelhecimento real das protagonistas, em especial o de Anne Hathaway (Andrea), assistente de Meryl Streep, a implacável Miranda. Cadê aquele frescor da Hathaway de 20 anos atrás? Ela simbolizava o desejo da moça antiga de ‘subir ao altar’.

O tempo passa pra todos, óbvio. Mas, em matéria de cinema, uma coisa é rodar uma sequência pouco tempo depois do primeiro filme, como ocorreu com O poderoso chefão II, com os atores com idades próximas das de quando atuaram no I. Outra é rodá-la 20 anos depois, com os atores bem mais velhos. Fica uma sensação desagradável de algo que estava intacto e se quebrou. Senti o mesmo quando vi o filme francês Um homem, uma mulher 20 anos depois: melancolia.

Quando O diabo 1 foi lançado, em 2006, a internet e as redes sociais não tinham o poder de hoje. Revistas impressas de moda, como Harper’s Bazaar e Vogue, ainda eram templos sagrados, mesclando em suas páginas fotografias e artigos sobre moda com ficção de alta qualidade — textos de Virgínia Woolf, F. Scott Fitzgerald, Tom Wolfe, Truman Capote e outros.

Já neste 2026, depois que há muito as redes começaram a abocanhar a maior parte das verbas publicitárias, as revistas impressas se viram sob ameaça não só como negócios, mas como símbolos da progressão cultural que transformava em arte vestimentas e acessórios. Tais revistas ainda existem, mas não mais com a autoridade personificada na figura da Miranda do primeiro filme, não mais com o glamour de antes.

É da erosão desse mundo que trata O diabo 2, ao denunciar a decadência dos altares estéticos a que se havia chegado pelo refino das experiências sensoriais — ruína esta causada pela ditadura do clique na internet, como diz o filme: a tirania da massa, sempre acrítica, sem identidade. O que antes era uma referência cultural sólida, fruto de cabeças cultas, deixou de ser. Perdeu-se na vulgaridade ignorante do clique digital, que, sobrepondo-se àquelas cabeças, passou a ditar as abordagens editoriais, com anuência dos donos do negócio. Em vez de fechar as portas, rebaixe-se a qualidade, em favor do senso comum.

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Mesmo que tente mascarar a situação difícil que vive, invocando sua garbosa presença, Miranda, obrigada a descer do altar para salvar sua posição, tornou-se uma mulher “comum”. Uma ex-rigorosa mulher tentando sobreviver em um ambiente que já não domina; um cenário em que a revista que dirige (Runway/Vogue) deixou de ser vista como o vértice do bom gosto na moda e na arte, o que é triste de ver para quem ama a exigência, o belo. Vem acontecendo por todo lado na vida real. “Terei apenas mais alguns anos”, Miranda diz para a Hathaway, dentro da limusine, sabendo que não durará no mercado.

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