Crônica
Mantenho na estante um livro único entre outros.
Foi escrito por um homem que trabalhou boa parte da vida no mundo do boxe, fez das atividades nesse universo seu ganha-pão.
Menino, ouvia pelo rádio com o pai as transmissões de lutas em ginásios e cassinos. O Madison Square Garden era para ele o Olimpo. Numa noite entrou no Madison com o pai, viu ao vivo os contendores trocando golpes e se fascinou pela atmosfera.
Já passado dos 40 anos de idade, Jerry Boyd entrou na arena do boxe como lutador. Pela sua idade, a carreira de boxeador não foi longe. Porém, magnetizado, não conseguiu se afastar.
Tornou-se assim o “homem dos cortes”, o sujeito que fica no corner e, entre os rounds, sobe ao ringue com a missão de estancar o sangue de outros lutadores. Era um “branquelo” em meio a uma maioria de negros. Um branquelo de barba branca.
Nas horas vagas, Jerry escrevia contos. Sempre histórias do mundo do boxe. Relatos criados com base nas cargas emocionais de boxeadores e de outras pessoas desse meio esportivo. Também dava massagens em lutadores.
Jerry tentou ter seus contos publicados em livro, mas eles eram recusados. Perto dos 70 anos, ele se contentara em estancar sangue e a ser lido em revistas, quando encaixava uma história. Uma dessas revistas caiu nas mãos de um agente literário.
O homem procurou Jerry, pediu mais contos, convenceu-se de seu valor literário, buscou um editor e conseguiu fechar um contrato de publicação para seu autor.
Finalmente o homem dos cortes viu seu primeiro livro impresso. Chamou-se Million Dollar Baby.
Pouco depois, Clint Eastwood comprou os direitos autorais da obra e rodou um filme baseado no conto-título do livro. E, simplesmente, no Oscar de 2005, o trabalho venceu os prêmios de melhor filme, direção, atriz principal e ator coadjuvante. No Brasil, o trabalho recebeu o título de Menina de Ouro.
É uma história pesada a do filme. A personagem central, uma boxeadora jovem, luta para se impor sobre a miséria emocional. No subúrbio, a família a desprezava, ria de suas ambições, sempre a desmerecê-la e pôr para baixo. Eastwood faz o treinador, um substituto paterno para a menina de ouro.
Durante as filmagens, Jerry tinha duas preocupações: impedir que os produtores modificassem o final trágico de sua história e receber o pagamento dos direitos autorais. Estava velho.
O destino, porém, pregou-lhe uma peça.
Ele morreu pouco depois das filmagens, perdendo de saborear o dinheiro pelos direitos de uso da obra e o estrondoso sucesso do filme. Poderia ter estado na cerimônia do Oscar, ser aplaudido e reconhecido mundialmente. Mas não foi assim.
1, 2, 3, 4, 5, 6…
Jerry se levantou no último segundo da contagem, meio grogue, e o juiz decidiu que era tarde. Conservo esse livro como a uma relíquia. O homem dos cortes, quem diria, era um escritor. Dos bons. Escrevendo, era um lutador nos intervalos dos assaltos: sentado em seu banquinho no corner, buscando forças no ar.
Este texto está no meu livro Onde tudo isso vai parar (foto abaixo), um dos três finalistas do Prêmio Açorianos de Literatura de 2025. Disponível na Livraria Mundial.
