DIGGER joga todas as fichas em Tom Cruise

Digger acompanha o homem mais poderoso do mundo, o barão do petróleo Digger Rockwell (Tom Cruise), que, após provocar um desastre ambiental de proporções globais, começa uma missão para reparar os danos que ele mesmo causou e provar que é o salvador da humanidade.

O filme mistura drama épico com comédia satírica para refletir sobre a responsabilidade e os impactos da ambição desenfreada.

Sob a direção do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, Digger é uma bagunça. Porém, por incrível que pareça, são nos excessos que o longa sobrevive e, principalmente, em virtude da presença magnética de um dos maiores astros do cinema.

A narrativa apela para a falta de sutileza e parece subestimar a inteligência do espectador em vez de construir um humor ácido e refinado. Em mais de duas horas de duração, precisamos abraçar esse caos que explora temas como emergência climática, geopolítica, capitalismo, populismo e tantos outros sem a mínima coesão.

O roteiro de Iñárritu, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone (parceiros de longa data do diretor e ganhadores do Oscar de melhor roteiro original por Birdman) e Sabina Berman é uma ambiciosa sátira que quer falar sobre tudo. De fato, temos um filme absurdo e cheio de ideias. Algumas delas funcionam. Outras não.

Dentre todas as críticas, o filme tem um destaque unânime e incontestável: Tom Cruise. Completamente entregue a um personagem estranho e exagerado, vemos o ator irreconhecível, coberto por próteses e muita maquiagem, em um protagonista bastante caricato em alguns momentos e mais contido em outros.

Cruise está simplesmente brilhante e fica clara a dedicação do ator ao papel e, claro, à campanha para o Oscar. Além do astro, compõem o elenco um talentoso time de coadjuvantes, em um dos melhores elencos do ano. Riz Ahmed rouba a cena como um cientista, em um interessante contraponto racional com o protagonista, John Goodman como o caricato e cômico presidente dos Estados Unidos, além de Sandra Hüller, Emma D’Arcy, Michael Stuhlbarg e Jesse Plemons.

Iñárritu repete a parceria com o premiado diretor de fotografia de Birdman e O Regresso, Emmanuel Lubezki, e o resultado é uma cinematografia grandiosa e ousada , criando uma atmosfera visual sufocante e realista. O diretor encontra no formato da narrativa algo que faltou ao seu filme anterior, o sonolento Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades.

A trama aposta na metalinguagem, com o diretor utilizando com primor a estética teatral de Bardo e Birdman. Não há dúvidas que Iñárritu é sempre fantástico quando larga a comédia e mergulha em sequências surreais, e esse exagero acaba sendo parte da linguagem e dos melhores momentos de Digger.

Nem mesmo Tom Cruise conseguiu salvar Digger, que caminha para se tornar um dos maiores fracassos de bilheteria do ano. Com um orçamento estimado entre US$ 135 milhões e US$ 180 milhões, a produção arrecadou apenas US$ 20 milhões globalmente em seu primeiro fim de semana em cartaz. Com isso, o filme corre o risco de registrar um dos maiores prejuízos da história recente de Hollywood. O resultado marcou a pior abertura de um filme protagonizado por Tom Cruise em 19 anos, superando o recorde negativo de Leões e Cordeiros.

Irregular, Digger não acerta, mas provoca, diverte e consegue ser interessante justamente em sua ambição e descontrole ao misturar sátira política, desastre ambiental e comédia absurda. É um filme que aposta no carisma e no talento de um dos maiores astros de Hollywood e na personalidade de um diretor autoral.