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Opinião

A pensão do ex-governador e o Anel de Giges

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A história da pensão de ex-governador a Eduardo Leite, sendo paga sem que a decisão de pagar tivesse sido publicada no Diário Oficial do Estado, lembra uma história do livro A República, de Platão: a história do Anel de Giges.

Um homem (Giges) encontra em uma fenda na terra, aberta após um terremoto, um anel. Giges põe o anel e, como efeito, torna-se invisível. Ele era um pastor pobre. Com o anel no dedo, agora invisível, ele entra no castelo, seduz a rainha, trama com ela a deposição do rei e assume o lugar deste. Platão procura pensar na seguinte questão: Se pudesse ser invisível, o homem seria justo? Ou o homem aparenta ser justo porque é visível?

No século XX, cientistas analisaram duas experiências, que se relacionam com o Anel de Giges.

Na primeira experiência, instalaram, em uma sala, uma geladeira contendo garrafas de água. Quem a bebesse, deveria marcar o consumo da vez em um caderno. Os cientistas constataram que, quando havia outras pessoas na sala, quem se servia da água anotava o consumo. A sala tinha um espelho, colocado para testar o comportamento da pessoa quando estivesse sozinha: vendo-se refletida no espelho, a pessoa também anotava seu consumo (sentindo-se vigiada, mesmo que visualmente por si mesma, a pessoa se sentia compelida a anotar o consumo). Numa etapa final, agora sem o espelho na sala, a pessoa sozinha não anotava o consumo.

Na segunda experiência, analisaram o comportamento de uma colônia de morcegos. À noite, eles deixavam a caverna para se alimentar do sangue de animais. O fato de que nem todos conseguiam obter sangue colocava um problema. Então, os morcegos que o haviam conseguido regurgitavam um pouco do sangue na boca dos que não tinham conseguido, obedecendo a seguinte ordem de prioridade: primeiro, movidos pelo nepotismo, depois, pelo altruísmo.

As primeiras bocas em que regurgitavam eram dos parentes genéticos, começando pelos morceguinhos-filhos, para garantir a perpetuação da linhagem. Os segundos a receber sangue regurgitado, depois dos parentes, eram morcegos de outras linhagens que, em outras ocasiões, os haviam suprido quando eles não haviam conseguido o alimento. Os cientistas notaram que o altruísmo aparecia como retribuição, destinado a ampliar as possibilidades de sobrevivência da própria linhagem.

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Por fim, perceberam que havia morcegos que paravam de obter sangue, apenas o recebiam, cessando a retribuição. Morcegos trapaceiros. Flagrados, estes despertavam a antipatia da colônia, uma reação transmitida em séculos de evolução biológica, equivalente, nos humanos, a sentimentos de raiva contra quem deixa de pensar no coletivo e passa a pensar só em si.

Cientistas acreditam que sentimentos morais como raiva, repulsa, gratidão, lealdade evoluíram junto do altruísmo recíproco. Quando o morcego na sua vez não retribui o alimento, os outros morcegos registram em sua memória e o excluem de futuras trocas.

Não se sabe por quê a decisão de pagar pensão ao ex-governador não foi dada a conhecimento público no Diário Oficial. Mesmo que tenha sido um esquecimento, o efeito foi ruim. Enquanto a pensão ficou invisível, a boa imagem do pensionista esteve preservada. Ao ser descoberta, vem, compreensivelmente, provocando reações ainda mais negativas do que o pagamento de pensão por si só causaria.

Como não foi comunicada, mas sim descoberta, os gaúchos podem se perguntar: Eduardo Leite usou o anel de Giges outras vezes? Como o morcego do experimento, é um trapaceiro? Em vez de ser altruísta, ele apenas finge altruísmo? São questões que, na circunstância em que os fatos se deram, surgem naturalmente na cabeça do eleitor.

Raiva é justamente o sentimento que domina os comentários nas redes sociais sobre a pensão de Eduardo Leite. Nesse momento, boa parte dos eleitores estão com raiva porque sentem-se trapaceados. Pensam que Eduardo Leite não é um político tão preocupado com o bem-estar dos gaúchos; que apenas finge ser.

A pergunta na cabeça dos gaúchos é: Eduardo Leite usou o anel de Giges outras vezes?

* No filme O Senhor dos Anéis (foto), há referências ao Anel de Giges. Ao colocar os anéis, personagens ficam invisíveis.

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Jornalista e escritor. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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1 Comment

1 Comment

  1. Gerson Schulz

    26/06/22 at 22:58

    Parabéns pelo ótimo texto. Sou professor de filosofia e um cotidianista, e seu texto conseguiu realizar aquilo que eu defendo: a relação da filosofia com o cotidiano. Excelente análise.

Brasil e mundo

A política millenial de Eduardo tem um quê de Bonaparte

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Eduardo Leite é um Bonaparte tropical. É jovem, é destemido, é autoconfiante, e, preenchendo o quesito tropical, toca pandeiro.

Em sua campanha militar para levar a toda a Europa os ideais da Revolução Francesa, Bonaparte só foi parado quando invadiu a Rússia. Queimadas as plantações, evacuadas Moscou e outras cidades, 90% das tropas napoleônicas que adentraram a terra russa morreram de fome e frio na retirada, como planejaram os russos com aquelas ações. Foi o início do fim de Bonaparte.

Até ser parado pelos conselheiros do PSD, Leite vinha triunfando em batalhas e arregimentando apoiadores. Primeiro, como prefeito de Pelotas. Depois, como governador em dois mandatos, um deles em curso. Com histórico assim, era natural que se fortificasse nele a antiga ambição de se tornar presidente do Brasil. Virou uma fixação.

Hegel escreveu que Napoleão encarnava o avanço da história. Para ele Napoleão encarnava a Anima Mundi (a “Alma do Mundo”) por levar em frente valores que “movem o mundo”. Já Leite se considerava (ra) ungido para “romper a polarização” e unificar os brasileiros.

Quando, apesar do 1% nas pesquisas, insistiu em se ver como o líder capaz de conduzir o Brasil a um tempo dourado de conciliação e progresso, ele acrescentou outra semelhança com o general francês — a determinação de não ceder a impeditivos formais que obstaculizassem sua pretensão.

Napoleão derrubou o diretório no golpe do 18 Brumário, após o qual foi nomeado Primeiro-Consul. Já Leite, se não chegou a derrubar ninguém, deu declarações que induziam à escolha do próprio nome a candidato do PSD ao Planalto, em clara campanha pessoal, avançando sobre os ritos deliberatórios e chegando a fustigar em público o companheiro Ronaldo Caiado, igualmente cotado para concorrer à presidência pelo PSD. Depois não se conformou ao ser preterido.

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Comunicada a predileção por Caiado, Leite não o cumprimentou, declarou-se “desencantado” e lamentou “a estratégia do partido”. Depois amenizou os próprios ardores e saudou o colega — por tardio, porém, não desanuviou o mal-estar causado por sua frustração.

O mesmo ocorrera em 2022, quando ainda estava no PSDB e foi derrotado por João Dória nas prévias ao Planalto. Inconformada, a ala de Leite questionou o resultado, alegando que “Dória tinha alta rejeição e não conseguia crescer nas pesquisas.” Essa reação abriu uma crise no partido, a ponto de Dória desistir do pleito.

Eduardo quer ser presidente. Neste 2026, como em 2022, faltou combinar com os russos.

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Cultura e entretenimento

Devoradores de estrelas. Por Déborah Schmidt

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Devoradores de Estrelas acompanha a jornada do professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling). Um dia, ele acorda sozinho em uma nave a anos-luz da Terra, sem qualquer lembrança de como foi parar ali. Aos poucos, as lembranças retornam e ele relembra que foi recrutado por uma organização mundial para integrar o “Projeto Fim do Mundo”, uma missão enviada para descobrir por que o Sol está morrendo. A partir daí, o personagem precisa usar seus conhecimentos científicos para evitar a extinção da humanidade até encontrar uma amizade inesperada em um alienígena misterioso que viajou anos-luz para salvar sua própria espécie do mesmo destino.

Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos por animações como Tá Chovendo Hambúrguer (2009) e Uma Aventura Lego (2014), além da produção dos aclamados Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018) e Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (2023), Devoradores de Estrelas mostra a maturidade da dupla em um projeto que aposta na emoção e no espetáculo visual.

Baseado no romance homônimo de Andy Weir, o roteiro de Drew Goddard, indicado ao Oscar por Perdido em Marte (2015), encontra um equilíbrio interessante entre o didatismo da ciência e o entretenimento. A montagem alterna sequências no passado e no presente, usando flashbacks para contextualizar a missão e revelar as decisões que levaram o protagonista até ali. São nessas passagens que conhecemos Eva Stratt (Sandra Hüller), líder do Projeto e disposta a sacrificar o que for necessário para garantir a sobrevivência da Terra.

A produção não é mais um filme cientifico sobre salvar o planeta, mas sim uma história que encontra sua força na construção de uma amizade inusitada e profundamente humana. O grande diferencial da narrativa está em Rocky, um extraterrestre feito de pedra que, mesmo sem uma linguagem convencional, desenvolve uma comunicação única com Ryland, auxiliada por um sistema criado pelo protagonista, algo parecido com o de Stephen Hawking e que ganha uma opção com a voz de ninguém menos que Meryl Streep. A relação entre Grace e Rocky é o coração do filme, em uma amizade construída aos poucos, que permite explorar temas como empatia e altruísmo.

Com carisma e um ótimo timing cômico, o filme prova, mais uma vez, que Ryan Gosling é capaz de sustentar uma superprodução praticamente sozinho. A capacidade do ator em transmitir vulnerabilidade e humanidade é um dos grandes destaques de sua atuação e sua quarta indicação ao Oscar está quase garantida. Mesmo com pouco tempo em cena, a brilhante atriz alemã Sandra Hüller rouba a cena, em especial com um karaokê memorável ao som de “Sign of the Times”, de Harry Styles.

O filme aposta em movimentos de câmera que reforçam a sensação de desorientação e solidão no espaço. A fotografia de Greig Fraser é, literalmente, um espetáculo, com uma cinematografia que prioriza cenários reais e efeitos práticos sempre que possível, em sua maioria sem o uso de efeitos especiais, construindo fisicamente a nave e usando marionetes avançadas para o alienígena Rocky. A épica e excelente trilha sonora de Daniel Pemberton utiliza toques de melancolia, com um belíssimo final ao som de “Two of Us”, dos Beatles.

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Devoradores de Estrelas é uma ficção científica que abraça sentimentos universais como solidão e esperança em uma experiência cinematográfica deslumbrante. Sem dúvidas, o grande filme do ano até agora. E que será lembrado durante todo o ano.

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Brasil e mundo

Política atinge saúde mental do brasileiro

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Um dia alguém terá de estudar o impacto que as decisões do STF e demais poderes produzem sobre a saúde mental dos brasileiros.

Não é uma afirmação de efeito. É séria.

Certamente a sociedade é atingida pelos reflexos daquelas decisões, por seu caráter ilógico. É como viver nos pesadelos de um romance de Kafka.

Uma das nossas canções já dizia nos anos 80: “Tua piscina está cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos”. E, com isso, foi na mosca.

A Lava Jato injetou um sentimento de esperança no país.

Pois, como se sabe, destruíram a LJ.

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Destroem tudo, passam por cima de qualquer sentido lógico.

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Brasil e mundo

A mistura de “arte” e poder

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Arte e política renderam um livro clássico. Publicado em 1936, e baseado em um caso real, o romance Mephisto, do alemão Klaus Mann, conta a história de um ator que adere ao Nazismo.

Determinado a ascender na carreira, ele abandona seus princípios morais e sua integridade como artista.

Muitos artistas recebem dinheiro de governos para realizar obras que agradam ao poder, em troca de benefícios semelhantes aos do personagem central de Mephisto. Mesmo que tenhamos afeição por eles, é aceitável que o façam?

Creio que a resposta seja óbvia. Não é aceitável. Por uma razão simples. Um artista que troca favores com um governo radicalmente ideologizado perde algo mais do que sua alma. Perde o respeito pelo público.

Como é subsidiado pelo poder, já não se importa nem mesmo com a qualidade do aplauso, porque está pago de antemão. Tendo ou não valor artístico, fracassando ou não na bilheteria, não importará.

Nós temos essa ideia romântica de que artistas são pessoas do “bem”. São e não são. Porque no fim, como todos, também eles precisam pagar as contas.

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O problema é quando quem paga a conta é o governo. Quando isso ocorre, a tendência é de que haja cooptação política do artista. Daí em diante suas obras continuarão a ser financiadas pelo Estado, mesmo que não agradem o público, como confessa a presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata de Almeida Magalhães (vídeo abaixo).

Agora relembro um caso que ocorreu a um artista do nosso tempo quando se “engajou”.

A comparação não é perfeita, já que ele se fez à custa do próprio talento. Mas serve como exemplo do equívoco do engajamento político, por uma razão que resume tudo: o engajamento empobrece o artista, por aquém da realidade, sempre mais complexa do que aquele pretende, levando a entendimentos falsos que podem se tornar frustrantes aos seguidores e até perigosos aos artistas.

Numa cena de documentário sobre John Lennon, o músico e Yoko Ono, de pijamas na cama de um quarto de hotel no Canadá, recebem artistas e simpatizantes para “um protesto pacífico e cantante em favor da paz no mundo”. Estava megalomaníaco.

Como os discos dos Beatles e dele próprio vendiam como coca-cola, nessa altura rico, além de casado com uma filha de banqueiro de Tóquio, podia bancar seus luxos e caprichos.

Entre outros visitantes, apareceu lá um cartunista: Al Capp, um homem mais velho, de uns 50 anos. Homem vivido, sem ilusões, com os pés plantados na realidade.

Capp questionou o ato político do casal, perguntando o que Lennon podia fazer pela paz mundial sentado numa cama. Lennon não gostou. Bateram boca.

Capp disse a Lennon que ele não lhe “fazia a cabeça”, que os artistas que admirava eram outros, e foi saindo, enquanto Lennon reclamava: “ele não deveria estar aqui”, e, debochando, cantarolava de improviso algo com o nome de Capp para desmerecê-lo.

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O cartunista reagiu: “Não deveria estar aqui, por quê? Você convidou a todos para vir. Sou seu convidado”.

A recusa do cartunista a embarcar na canoa de Lennon, como todas as recusas, me fez pensar. Mesmo que me desagrade, sempre penso que em toda recusa há algo que merece atenção. E havia.

Anos depois Lennon cantou “the dream is over”. Ao menos foi sincero. Enfim aceitara o que, sendo sensível como era, no fundo sempre soube, apenas não admitia. Que a paz é uma quimera.

Então um fã o esperou em frente de casa e o matou.

Foto devulgação/ Klaus Maria Brandauer fez o papel do ator que adere ao Nazismo na versão cinematográfica de Mephisto.

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Cultura e entretenimento

O ousado e sem personalidade ‘A noiva!’ Por Déborah Schmidt

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Ambientado na Chicago da década de 1930, A Noiva! acompanha a história de Ida (Jessie Buckley), uma jovem assassinada que ganha vida novamente. O que ela não imaginava é que seria trazida de volta à vida por Frankenstein (Christian Bale), que, após um século de solidão, anseia por companhia e pede a ajuda da Dra. Euphronious (Annette Bening). Os dois, então, trazem-na de volta à vida e, assim, nasce uma nova criatura: a Noiva. Logo, a jovem descobre um mundo marcado por obsessões e violência, além de se envolver em um romance selvagem e explosivo.

Após uma excelente estreia na direção com A Filha Perdida (2021), a atriz Maggie Gyllenhaal resolve não apenas revisitar um clássico, mas ressignificar a icônica personagem criada por Mary Shelley. A diretora, e também autora do roteiro, não tem medo de mexer em algo que o público já conhece, e nem de assumir um discurso sobre identidade e pertencimento. O longa quer tanto deixar claro o que está dizendo que acaba se repetindo, diminuindo seu impacto. Ainda assim, é impossível ignorar o quanto a proposta é instigante. A metalinguagem funciona bem no começo, com Jessie Buckley interpretando Mary Shelley, Ida e Penny ao mesmo tempo, com criadora e criatura dividindo a mesma mente.

Buscando sua própria identidade, o filme é uma mistura de estilos. A produção passeia pelo drama existencial, romance gótico e denúncia social, além de ter a impressão de que, em alguns momentos, estamos assistindo a um road movie ou até musical de Hollywood. Ao fim, A Noiva! não encontra sua identidade, pois parece que estamos assistindo filmes diferentes disputando o mesmo espaço.

Se há algo que sustenta o filme e que é inegavelmente seu maior triunfo são as atuações de Jessie Buckley e Christian Bale. A vencedora do Oscar entrega uma performance impressionante, no papel de uma mulher frágil e forte, que não sabe quem foi, mas que sente que sabe quem quer ser. A atriz domina as cenas sem esforço. Já Christian Bale equilibra intensidade e carisma. Seu Frankenstein começa contido, quase introspectivo, e aos poucos abraça o caos com uma energia magnética. A química entre os dois culmina em uma marcante sequência de dança, onde o filme encontra sua síntese perfeita entre estranheza e liberdade. Entre os coadjuvantes, a contribuição de nomes de peso como Annette Bening, Penélope Cruz e Peter Sarsgaard, como uma dupla de detetives, e Jake Gyllenhaal como um popular astro de cinema.

Quando o filme abraça o exagero, o caos e o gótico, ele ganha força. A ambientação nos anos 30 cria um contraste interessante entre o conservadorismo da época e a energia anárquica da protagonista. A fotografia de Lawrence Sher, indicado ao Oscar por Coringa (2019), reforça esse embate visual. Visualmente intenso e estimulante, o caos estético que dialoga com o processo interno da protagonista conta com o design de produção de Karen Murphy, indicada ao Oscar por Elvis (2022), que passeia por diferentes cidades como Chicago, Nova York e Cataratas do Niágara. Além disso, temos a densa trilha sonora da islandesa Hildur Guðnadóttir, vencedora do Oscar por Coringa (2019), e o figurino da lendária Sandy Powell, três vezes vencedora do Oscar, que mistura o horror gótico com uma energia punk rock da época.

Corajoso e ambicioso, porém irregular, A Noiva! atesta a visão de sua diretora, em um filme ousado e sem personalidade.

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Brasil e mundo

O filme mais humano e equilibrado sobre a ditadura no Brasil

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Dentre os filmes sobre o período da ditadura militar no Brasil, o de que gosto é O que é isso, companheiro?, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira. A obra concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, mas não ganhou.

Dirigido por Bruno Barreto, ele conta o que se passou nos quatro dias do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio. O sequestro, realizado por guerrilheiros, ocorreu em 4 de setembro de 1969 e terminou com a libertação de Elbrick, a fuga dos sequestradores e a sua captura por agentes da repressão.

Barreto narra a história com equilíbrio, sem tomar parte ideológica, situando os envolvidos nas circunstâncias da época. Narra o que ocorreu com imparcialidade, modelando os personagens para além do maniqueísmo mocinhos vs bandidos — inclusive porque os gurerrilheiros pertenciam a organizações que pretendiam implantar sua própria ditadura, como admitiu Gabeira.

Abalxo alguns exemplos do tratamento dado pelo diretor.

Numa das cenas, o embaixador acha que será morto e, assustado, defeca. Envergonhado, conta o que ocorreu. O guerrilheiro de vigília o consola, depois o guia pelo braço até o banheiro, para que se lave. Sozinho na privada, Elbrick chora. Não é a encarnação do demônio americano. É apenas um homem.

Noutra cena, um dos torturadores do regime, um sujeito com a mulher grávida, tem problemas de consciência e, sufocado pela culpa, confessa à mulher o que vem fazendo nos porões da ditadura e o mal que isso lhe faz. Ele se sente perturbado por torturar. Mas, sendo funcionário de estado, e preocupado em manter o emprego e a família, prestes a crescer, ele tortura (e se tortura por torturar).

Outro exemplo: no revezamento da vigília de Elbrick no cativeiro, os sequestradores entravam no quarto com um capuz parecido com máscaras antigas de Carnaval, com dois furos para os olhos. Máscaras escuras, de carrascos. No filme, o personagem de Gabeira faz diferente.

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Ele acha que Elbrick não merece reter a visão de um mascarado com o revólver pousado no regaço, sentado numa cadeira. Por isso, na sua vez de vigília, oferece ao embaixador uns óculos com o espaço das lentes coberto com uma proteção preta. Pousado o apetrecho, este faz do cativo literalmente um cego. E então Gabeira retira a sua máscara e conversa com Elbrick.

Gabeira vê Elbrick, que não pode ver o primeiro e identificá-lo, mas ao menos não é obrigado a olhar para um “monstro”. Esse tipo de elegância é talvez o máximo das possibilidades humanas, a coisa mais valiosa que se possa almejar entre as pessoas. Em situações de desvantagem alheia, tratar os outros com humanidade.

Elbrick acabou libertado em troca da soltura de outros guerrilheiros. Ele falou bem dos sequestradores e o governo americano o levou de volta aos Estados Unidos e o aposentou. Preso, torturado e banido do país, Gabeira só voltaria ao Brasil nove anos depois, com a anistia. No retorno, foi deputado federal por três mandatos, cansou (concluiu que “não valia o esforço”) e voltou a ser jornalista.

Em seus comentários na Globo, é hoje um velhinho simpático e tranquilo. Às vezes sua gata Renata atrapalha suas entradas ao vivo, caminhando em frente da câmera. Noutro dia, Renata o arranhou e ele a afastou com um safanão, um gesto instintivo de defesa.

Quando Gabeira ainda era deputado, a filha de Elbrick veio ao Brasil se encontrar com ele, querendo conhecer melhor o pai. Saber quem ele foi nos dias em que esteve cativo. Amigavelmente, os dois conversaram.

Proibido pelo Departamento de Estado de entrar na América, Gabeira, embora tenha tentado, nunca pôde pisar nos Estados Unidos.

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Cultura e entretenimento

O agente secreto não mereceu o Oscar

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O agente secreto saiu da cerimônia do Oscar sem estatuetas. O filme tem algumas qualidades, sobretudo e sem súvida na formação de elenco. Mas não merecia ganhar Oscar.

Em 14 de janeiro passado, eu havia estranhado que tivesse ganhado até mesmo o Globo de Ouro de Melhor filme (veja aqui)

Na forma, filme como filme, me pareceu uma obra estranha.

Além do mais, filme engajado ideologicamente tende a perder complexidade humana, como ocorreu com O agente.

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Opinião

Prefeitura pelotense trabalha para “melhorar sua imagem”

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O governo Marroni, do PT, tem trabalhado neste momento para melhorar sua imagem, percebida internamente como “aquém de suas realizações”.

A ideia básica é a de que precisa melhorar sua comunicação com a sociedade a partir da busca de uma “identidade” — de uma marca que reflita a gestão e a expresse em sua máxima potencialidade.

A busca de uma marca para um produto é mais fácil, desde que esse seja percebido como um produto que valha a pena ser consumido.

Já encontrar uma marca para um governo é mais difícil porque um governo não é um produto. Depende de muitas variáveis, sobretudo de mentes pensantes e capazes, o que – pelas acomodações políticas em cargos – nem sempre ocorre.

Por experiência individual, minha percepção é de que o governo Marroni é composto em parte por secretários medrosos da imprensa, o que não ajuda na busca por uma imagem que seja “boa”. Como se, falando ao jornalista, fossem denunciar alguma debilidade para o cargo que ocupam.

Como se temessem ver exposta sua falta de domínio sobre as áreas pelas quais deveriam responder prontamente. O mesmo vale para a liderança do governo na Câmara. A impressão que fica é de que operam para esconder algo.

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Um governo composto por prossionais de qualidade ajudaria muito. Eu diria que isto seria o alicerce. Sem essa estrutura, será difícil melhorar a imagem. Mais do que imagem, melhorar um governo.

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Brasil e mundo

AINDA NÃO VI TUDO. Por Paulo Gastal Neto

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Paulo Gastal Neto*

Quem nunca ouviu a expressão: ainda não vi tudo. Ela nos remonta inúmeros períodos da vida em diversas situações. No Brasil ela se encaixa muito bem na política. As constantes trocas de partidos por parte dos políticos, a propagação de novas agremiações (já são 30 registrados do TSE), as surpreendentes nomeações de ministros, secretários e dirigentes de estatais ou autarquias feitas entre adversários ferrenhos que se abraçam; antigos inimigos em poses amistosas exibindo sorrisos falsos; cargos na pauta em troca de favores entre opostos, enfim uma gama de ainda não vi tudo” nos batem à porta diariamente. E tudo, verdade seja dita, nos três níveis de administração: municipal, estadual e federal.

Mas o “ainda não vi tudo” de hoje vai para o espetáculo caricato, bestial e talvez ofensivo a legislação eleitoral, assistido por milhões de brasileiros no carnaval deste ano: o samba enredo da Escola Acadêmicos de Niterói. Esse “ainda não vi tudo” supera – até o momento – qualquer outra passagem da política brasileira recente. Até então não tínhamos visto tamanha bajulação, manifestação de servilismo e imensa reunião de lacaios sambando ao som de um enredo que contou a trajetória do presidente brasileiro, possível candidato à reeleição em pleito que acontece, coincidentemente, este ano.

Segundo a sinopse do enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, cerca de 3.000 integrantes abordaram a infância pobre do presidente, chegando até a terceira eleição presidencial, com destaque para o período em que Lula foi líder sindical. O número 13, o do partido nos processos eleitorais, aparece no samba-enredo encomendado, dizendo que a viagem de Lula, sua mãe e os irmãos para São Paulo levou “13 noites e 13 dias”.

Quem assiste sem paixões à crise moral do STF, a financeira envolvendo o Banco Master e nomes proeminentes da Nação, o roubo aos velhinhos do INSS e agora o samba enredo da escola de Niterói, percebe facilmente que o Brasil assume publicamente que está vivendo um “vazio de referências”. E isso não é um fato novo, porém tem ganhado contornos dramáticos nos últimos anos, onde a estética individual do ser e a política se fundem em espetáculos patéticos que cruzam a linha do aceitável. As redes sociais escancaram isso de forma muito didática: políticos, parlamentares, detentores de cargos públicos, tornaram-se ‘palhaços’ da sociedade, perderam a sobriedade, a liturgia, a racionalidade em troca de uma animação patética que chega a ser constrangedora. Uma espécie de “vergonha alheia” colaborando sobremaneira para o nosso “ainda não vi tudo” diário.

O nosso país parece atravessar um período de anomia social, onde as regras e normas se desintegram, quase provocando uma falta de referência na ordem social. Quando as instituições — sejam elas políticas, jurídicas e até mesmo as culturais — deixam de ser vistas como bússolas, o resultado é quase um estado de perplexidade coletiva.

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O desfile da Acadêmicos de Niterói serve como um adicional a essa crise. O Carnaval sempre foi o espaço da transgressão, mas há uma diferença entre a sátira política saudável e o escárnio que fere a sensibilidade da população. Podemos ir além: a agressão se faz também aos meios que apoiam o presidente Lula: Os petistas aliados conscientes percebem que o radicalismo estético afasta a esquerda dos seus propósitos. O sentimento de “ataque à boa vontade do povo” surge quando o cidadão percebe que os recursos públicos estão sendo usados para ridicularizar suas crenças, inclusive a sua religião, ao invés de de elevar sua condição de vida. A verdadeira decadência não está apenas no ato em si, mas na indiferença dos políticos diante do constrangimento de quem realmente sustenta o país.

Um país que perde a capacidade de se indignar com a falta de ética, mas se exaure em brigas de narrativas, corre o risco de transformar a política em uma eterna “escola de samba” onde o enredo é a própria desconstrução da identidade nacional, tipo “ainda não vi tudo”!

*Radialista e editor do http://www.pelotas13horas.com.br

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Cultura e entretenimento

Hamnet, a vida antes de Hamlet: crítica. (Por Déborah Schmidt)

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Hamnet: A Vida Antes de Hamlet apresenta o romance entre Agnes (Jessie Buckley) e Will (Paul Mescal). Juntos, eles constroem uma bela família, junto com a filha mais velha, Susanna (Bodhi Rae Breathnach), e os gêmeos Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes). Mas quando uma doença causa tragédia, o luto parece ser a inspiração para uma das maiores obras da literatura.

Após vencer o Oscar por Nomadland (2020) e a recepção dividida em sua estreia na Marvel com o fraco Eternos (2021), a diretora Chloé Zhao retorna a um território que parece dialogar muito mais com sua sensibilidade. A adaptação do romance de Maggie O’Farrell não está interessada no gênio da literatura, mas sim na família e, sobretudo, na figura de Agnes, que se torna o verdadeiro centro emocional da narrativa. Na realidade, o filme não faz muita questão de tentar ser uma cinebiografia de William Shakespeare, tanto que seu nome completo só é dito pela primeira vez no terceiro ato do filme.

Através de Agnes, a história ganha elementos sobrenaturais, em virtude de sua habilidade de ter visões do futuro e conhecimentos de cura, graças a uma conexão muito profunda com a floresta. Hamnet é todo sob o olhar dela, e Shakespeare está ali como marido, pai, muitas vezes ausente, e como alguém dividido entre a necessidade de criar e a incapacidade de permanecer. Com isso, Agnes ocupa o lugar de protagonista e dos temas que o filme realmente quer explorar, como a maternidade atravessada pelo medo, pela responsabilidade e, mais tarde, pela perda.

Além do belíssimo visual e do roteiro tocante, o elenco impressiona. A sempre extraordinária Jessie Buckley já garantiu seu Oscar com uma atuação arrebatadora e que cresce em silêncio, em olhares, em gritos e em pequenos gestos. As suas reações durante a sequência final no teatro certamente ficarão marcadas na história do cinema. Ao seu lado, Paul Mescal está igualmente impecável, reafirmando por que é um dos atores mais requisitados do momento, e sua ausência entre os indicados ao Oscar é revoltante. Jacobi Jupe, no papel de Hamnet, conquista pela naturalidade e pelo impacto que consegue causar mesmo com pouco tempo em cena. O filme acertou em cheio na escolha de Noah Jupe, irmão de Jacobi, para viver Hamlet no teatro, gesto que reforça a imersão emocional da narrativa. Destaque também para a ótima Emily Watson, que surge como Mary, a mãe de Will.

Visualmente lindo como sua história, a produção valoriza a luz natural e os espaços abertos, com a direção de fotografia de Lukasz Zal, indicado ao Oscar por Guerra Fria (2019). Além disso, as cores acompanham o estado emocional dos personagens, e o figurino ajuda a contar essa trajetória, especialmente com Agnes, em um excelente trabalho da figurinista Malgosia Turzanska. A discreta trilha sonora de Max Richter deixa momentos dolorosos ainda mais intensos.

Com 8 indicações ao Oscar, Hamnet: A Vida antes de Hamlet fecha a trio dos favoritos ao Oscar de melhor filme ao lado de Uma Batalha Após a Outra e Pecadores. Um filme que se destaca pela delicadeza e pela forma como transforma o luto em algo quase palpável. Profundamente sensível e emocionante.

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