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Cultura e entretenimento

“Eu preciso saber que fiz uma coisa certa na vida”

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“Eu preciso saber que fiz uma coisa certa na vida”, diz o personagem de Brendan Fraser, em A baleia.

Papel, enredo e falas calharam para o sentimento pessoal do ator, e ontem, após décadas de carreira mediana, nos últimos anos em queda livre, ele ganhou o primeiro Oscar por uma interpretação.

Deu tudo de si, e aconteceu: foi retribuído. Tudo se encaixou.

Tocantes. A reabilitação. O agradecimento aos que acreditaram nele. As lágrimas e os aplausos.

Eis a magia e a beleza da criação artística. Quando acontece o encaixe, arrebata. É irresistível !

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Jornalista e escritor. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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Cultura e entretenimento

Primeira montagem do filme “A passagem” será exibida em evento público no mês de aniversário de Pedro Osório

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Material enviado pelos realizadores da obra

Para aproveitar a celebração dos 67 anos da cidade e matar a curiosidade dos moradores, a
TOKADOKOELHO Filmes resolveu exibir a montagem preliminar do longa-metragem A PASSAGEM, que é o estágio em que o filme se aproxima do seu resultado final, masa ainda sem a trilha sonora e a mixagem definitiva de som.

“Não se trata de um lançamento. É apenas uma pré-estreia, pois muitas mudanças significativas ainda podem ocorrer antes do lançamento oficial do filme”, explica o diretor e roteirista da obra, Manoel Soares Magalhães. As cenas que começaram a ser gravadas em março do ano passado e se estenderam ao longo de nove meses em Pedro Osório, Cerrito e Piratini, estão montadas. A obra já passou pelo processo de graduação de cor e agora está na etapa de criação da trilha sonora que será assinada pelo músico Sérgio Rojas, compositor prestigiado do cinema latino-americano.

A PASSAGEM é um drama de ficção, em que o inspirado poeta português Fernando Pessoa, conhecido por seus inúmeros heterônimos é atraído ao extremo sul do Brasil para uma missão de resgate que ele desconhece. Em uma viagem ao futuro, Pessoa se depara com personagens e lugares familiares que povoam suas memórias; e sua poesia magistral serve de narrativa para reencontros transcendentais, além do tempo e do espaço terrenos.
O personagem e sua figura emblemática, de terno escuro, óculos e chapéu, transita pelas belíssimas paisagens do Escudo Riograndense, região cortada pela bacia do Rio Piratini, importante referência de fronteira entre as coroas de Portugal e Espanha, no século XVIII.
O elenco é quase todo de Pelotas. Fernando Pessoa é interpretado pelo ator estreante Alexander Nogueira. Em sua visita inesperada, o poeta é conduzido pelas circunstâncias até a Estação Olimpo, onde deve encontrar-se com Ofélia, uma romântica fã de seus poemas, interpretada pela atriz Roberta Pires.

Ofélia é filha do rústico estancieiro Dom Alberto, que vive um pesado drama familiar. A interpretação é do experiente ator Chico Meirelles. Ele também é pai da pequena Maria Madalena, interpretada pela talentosa Marília Ribeiro, de 7 anos, moradora de Pedro Osório e uma das revelações do filme.

Com a ajuda de anjos, Fernando Pessoa descobre a força que sua poesia possui para melhorar os pensamentos e os sentimentos de quem está a sua volta. Um dos anjos da trama, Bernardo, é interpretado pelo ator Charlie Rayné. Complementam o elenco, as atrizes Catarina Rassier, Elisa Vergara, Thuany Brito e os atores Raí Cunha,
Felipe Borges e Murilo Satte Alam.

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PRÉ-ESTREIA
Drama ficcional, longa-metragem
A PASSAGEM
11/04/2026 SÁBADO 21h
SESSÃO ABERTA E GRATUITA
Local: Salão Paroquial de Pedro Osório
Rua Júlio de Castilhos, 86 – Centro

MANOEL: AMOR PELO TEXTO E A PINTURA

O roteirista e diretor Manoel Soares Magalhães também marcou presença em cena. O personagem dele, Dr. Vicente Guedes é um pintor e médico que aparece em duas épocas distintas da trama. É tradição no cinema que diretores façam pequenas participações nos próprios filmes que dirigem. Alfred Hitchcock, Martin Scorsese, Steven Spielberg, Quentin Tarantino, M. Night Shyamalan, entre outros, aparecem em segundo plano em alguns de seus projetos. As pinturas em acrílico no estilo Naiff que estão no filme, também são criações de Manoel, um múltiplo artista.

O jornalista e escritor é autor de seis obras literárias. Seu último trabalho como roteirista premiado foi o curta-metragem A Última Morada de João Simões Lopes Neto. A obra participou de mais de 40 festivais nacionais e internacionais de curta-metragem, e ganhou prêmios. Os mais significativos foram a “Menção Honrosa”, no Latino & Native American Film Festival (LANAFF), na cidade de New Haven, Connecticut, USA. Destaca-se, também a participação do curta no Kalakari Film Festival, em Dewas, na Índia, um dos mais importantes eventos no gênero naquele país. No Brasil, o curta arrebatou prêmios no International
Monthly Awards Rima, festival realizado no Rio de Janeiro, em 2021. O roteirista Manoel Soares Magalhães ficou com o prêmio de melhor roteiro. O protagonista Vagner Vargas, que interpretou Simões, ganhou o prêmio de melhor ator. Consta ainda no elenco o experiente ator de novelas e cinema, Clemente Viscaino. A obra também foi agraciada com o melhor figurino

MARCELO: PAIXÃO PELA FOTOGRAFIA

O filme A PASSAGEM está sendo produzido pela TokaDoKoelho Filmes, produtora gaúcha de
conteúdo audiovisual. Tem à frente o jornalista e fotógrafo Marcelo Silva Coelho que acumula 36 anos de experiência em TV, como apresentador, repórter, editor de imagem e texto. Trabalhou em redes de televisão do Rio de Janeiro, entre elas a TV Record, onde gravou conteúdo jornalístico para os programas Repórter Record, Câmera Record e Domingo Espetacular, por 14 anos.

Paralelamente, o jornalista atua como filmmaker e diretor artístico de documentários, vídeos institucionais e cobertura de eventos. No Rio Grande do Sul, Marcelo Coelho produziu reportagens e séries jornalísticas para o SBT que foram agraciadas pelo Prêmio ARI. Após a pandemia, o jornalista decidiu investir em duas paixões antigas: A fotografia e o cinema. A PASSAGEM é seu primeiro trabalho em dramaturgia.

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“O telejornalismo me trouxe ótimos professores de texto, observação dos fatos e aplicação de
sensibilidades. Colegas cinegrafistas e fotógrafos me ensinaram como olhar o mundo e guardar as imagens mais belas e úteis, tão necessárias para contar boas histórias”, resume o o filmmaker.

Na foto Alexandro Nogueira e Roberta Pires. Foto/divulgação do filme

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Brasil e mundo

Promotoria de Justiça abre inquérito para apurar tratamento desumano no BBB

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O Ministério Público Federal (MPF) determinou a instauração de um inquérito civil para investigar possíveis práticas de tortura e tratamentos desumanos ou degradantes no programa Big Brother Brasil 26. A decisão, assinada pelo procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, fundamenta-se em representações que apontam riscos à integridade física e psicológica dos participantes da atual edição do reality show.

O procedimento teve origem após relatos de episódios convulsivos vivenciados pelo participante Henri Castelli durante uma prova de resistência. O representante da denúncia alega que as condições impostas pela produção expõem a saúde dos envolvidos a riscos desnecessários, citando exemplos de edições anteriores e casos recentes, como o do participante Breno, que ficou “exilado”, em uma área externa da casa. Segundo o documento, submeter indivíduos a situações perigosas para gerar entretenimento pode representar uma afronta direta à dignidade humana.

Um dos pontos centrais da investigação é a dinâmica do “Quarto Branco”. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) enviou uma “Carta Aberta” ao MPF manifestando indignação com o quadro, afirmando que a metodologia utilizada guarda semelhança com práticas de tortura empregadas durante a ditadura civil-militar brasileira.

De acordo com o documento da CEMDP, uma participante chegou a desmaiar em janeiro de 2026, após permanecer mais de 100 horas em reclusão. O relato detalha que ela teria sido obrigada a ficar de pé em um pedestal de diâmetro ínfimo, técnica descrita como similar às utilizadas em regimes ditatoriais latino-americanos para infligir sofrimento.

Em sua fundamentação, o procurador da República destaca que a liberdade de produção das emissoras de TV não constitui um “salvo-conduto” para violar direitos fundamentais. Como concessionárias de serviço público, as emissoras devem respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família, conforme estabelecido no artigo 221 da Constituição Federal.

O MPF ressalta que a vedação à tortura e ao tratamento degradante é um preceito constitucional absoluto que deve ser zelado por todas as esferas de governo. Para o órgão, a normalização do sofrimento alheio como forma de espetáculo é incompatível com os objetivos fundamentais da República de construir uma sociedade justa e solidária.

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Em resposta prévia constante nos autos, a TV Globo alegou que oferece acompanhamento médico permanente, com suporte de UTI móvel e protocolos de encaminhamento hospitalar. Sobre Henri Castelli, a emissora afirmou que o participante recebeu o atendimento necessário e foi levado a unidades de saúde externas em duas ocasiões.

Como diligência inicial do inquérito, o MPF solicitou que a TV Globo preste informações detalhadas sobre os questionamentos levantados pela Comissão de Mortos e Desaparecidos. 

Foto divulgação da Globo

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Cultura e entretenimento

Devoradores de estrelas. Por Déborah Schmidt

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Devoradores de Estrelas acompanha a jornada do professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling). Um dia, ele acorda sozinho em uma nave a anos-luz da Terra, sem qualquer lembrança de como foi parar ali. Aos poucos, as lembranças retornam e ele relembra que foi recrutado por uma organização mundial para integrar o “Projeto Fim do Mundo”, uma missão enviada para descobrir por que o Sol está morrendo. A partir daí, o personagem precisa usar seus conhecimentos científicos para evitar a extinção da humanidade até encontrar uma amizade inesperada em um alienígena misterioso que viajou anos-luz para salvar sua própria espécie do mesmo destino.

Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos por animações como Tá Chovendo Hambúrguer (2009) e Uma Aventura Lego (2014), além da produção dos aclamados Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018) e Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (2023), Devoradores de Estrelas mostra a maturidade da dupla em um projeto que aposta na emoção e no espetáculo visual.

Baseado no romance homônimo de Andy Weir, o roteiro de Drew Goddard, indicado ao Oscar por Perdido em Marte (2015), encontra um equilíbrio interessante entre o didatismo da ciência e o entretenimento. A montagem alterna sequências no passado e no presente, usando flashbacks para contextualizar a missão e revelar as decisões que levaram o protagonista até ali. São nessas passagens que conhecemos Eva Stratt (Sandra Hüller), líder do Projeto e disposta a sacrificar o que for necessário para garantir a sobrevivência da Terra.

A produção não é mais um filme cientifico sobre salvar o planeta, mas sim uma história que encontra sua força na construção de uma amizade inusitada e profundamente humana. O grande diferencial da narrativa está em Rocky, um extraterrestre feito de pedra que, mesmo sem uma linguagem convencional, desenvolve uma comunicação única com Ryland, auxiliada por um sistema criado pelo protagonista, algo parecido com o de Stephen Hawking e que ganha uma opção com a voz de ninguém menos que Meryl Streep. A relação entre Grace e Rocky é o coração do filme, em uma amizade construída aos poucos, que permite explorar temas como empatia e altruísmo.

Com carisma e um ótimo timing cômico, o filme prova, mais uma vez, que Ryan Gosling é capaz de sustentar uma superprodução praticamente sozinho. A capacidade do ator em transmitir vulnerabilidade e humanidade é um dos grandes destaques de sua atuação e sua quarta indicação ao Oscar está quase garantida. Mesmo com pouco tempo em cena, a brilhante atriz alemã Sandra Hüller rouba a cena, em especial com um karaokê memorável ao som de “Sign of the Times”, de Harry Styles.

O filme aposta em movimentos de câmera que reforçam a sensação de desorientação e solidão no espaço. A fotografia de Greig Fraser é, literalmente, um espetáculo, com uma cinematografia que prioriza cenários reais e efeitos práticos sempre que possível, em sua maioria sem o uso de efeitos especiais, construindo fisicamente a nave e usando marionetes avançadas para o alienígena Rocky. A épica e excelente trilha sonora de Daniel Pemberton utiliza toques de melancolia, com um belíssimo final ao som de “Two of Us”, dos Beatles.

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Devoradores de Estrelas é uma ficção científica que abraça sentimentos universais como solidão e esperança em uma experiência cinematográfica deslumbrante. Sem dúvidas, o grande filme do ano até agora. E que será lembrado durante todo o ano.

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Brasil e mundo

A mistura de “arte” e poder

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Arte e política renderam um livro clássico. Publicado em 1936, e baseado em um caso real, o romance Mephisto, do alemão Klaus Mann, conta a história de um ator que adere ao Nazismo.

Determinado a ascender na carreira, ele abandona seus princípios morais e sua integridade como artista.

Muitos artistas recebem dinheiro de governos para realizar obras que agradam ao poder, em troca de benefícios semelhantes aos do personagem central de Mephisto. Mesmo que tenhamos afeição por eles, é aceitável que o façam?

Creio que a resposta seja óbvia. Não é aceitável. Por uma razão simples. Um artista que troca favores com um governo radicalmente ideologizado perde algo mais do que sua alma. Perde o respeito pelo público.

Como é subsidiado pelo poder, já não se importa nem mesmo com a qualidade do aplauso, porque está pago de antemão. Tendo ou não valor artístico, fracassando ou não na bilheteria, não importará.

Nós temos essa ideia romântica de que artistas são pessoas do “bem”. São e não são. Porque no fim, como todos, também eles precisam pagar as contas.

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O problema é quando quem paga a conta é o governo. Quando isso ocorre, a tendência é de que haja cooptação política do artista. Daí em diante suas obras continuarão a ser financiadas pelo Estado, mesmo que não agradem o público, como confessa a presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata de Almeida Magalhães (vídeo abaixo).

Agora relembro um caso que ocorreu a um artista do nosso tempo quando se “engajou”.

A comparação não é perfeita, já que ele se fez à custa do próprio talento. Mas serve como exemplo do equívoco do engajamento político, por uma razão que resume tudo: o engajamento empobrece o artista, por aquém da realidade, sempre mais complexa do que aquele pretende, levando a entendimentos falsos que podem se tornar frustrantes aos seguidores e até perigosos aos artistas.

Numa cena de documentário sobre John Lennon, o músico e Yoko Ono, de pijamas na cama de um quarto de hotel no Canadá, recebem artistas e simpatizantes para “um protesto pacífico e cantante em favor da paz no mundo”. Estava megalomaníaco.

Como os discos dos Beatles e dele próprio vendiam como coca-cola, nessa altura rico, além de casado com uma filha de banqueiro de Tóquio, podia bancar seus luxos e caprichos.

Entre outros visitantes, apareceu lá um cartunista: Al Capp, um homem mais velho, de uns 50 anos. Homem vivido, sem ilusões, com os pés plantados na realidade.

Capp questionou o ato político do casal, perguntando o que Lennon podia fazer pela paz mundial sentado numa cama. Lennon não gostou. Bateram boca.

Capp disse a Lennon que ele não lhe “fazia a cabeça”, que os artistas que admirava eram outros, e foi saindo, enquanto Lennon reclamava: “ele não deveria estar aqui”, e, debochando, cantarolava de improviso algo com o nome de Capp para desmerecê-lo.

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O cartunista reagiu: “Não deveria estar aqui, por quê? Você convidou a todos para vir. Sou seu convidado”.

A recusa do cartunista a embarcar na canoa de Lennon, como todas as recusas, me fez pensar. Mesmo que me desagrade, sempre penso que em toda recusa há algo que merece atenção. E havia.

Anos depois Lennon cantou “the dream is over”. Ao menos foi sincero. Enfim aceitara o que, sendo sensível como era, no fundo sempre soube, apenas não admitia. Que a paz é uma quimera.

Então um fã o esperou em frente de casa e o matou.

Foto devulgação/ Klaus Maria Brandauer fez o papel do ator que adere ao Nazismo na versão cinematográfica de Mephisto.

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Cultura e entretenimento

O ousado e sem personalidade ‘A noiva!’ Por Déborah Schmidt

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Ambientado na Chicago da década de 1930, A Noiva! acompanha a história de Ida (Jessie Buckley), uma jovem assassinada que ganha vida novamente. O que ela não imaginava é que seria trazida de volta à vida por Frankenstein (Christian Bale), que, após um século de solidão, anseia por companhia e pede a ajuda da Dra. Euphronious (Annette Bening). Os dois, então, trazem-na de volta à vida e, assim, nasce uma nova criatura: a Noiva. Logo, a jovem descobre um mundo marcado por obsessões e violência, além de se envolver em um romance selvagem e explosivo.

Após uma excelente estreia na direção com A Filha Perdida (2021), a atriz Maggie Gyllenhaal resolve não apenas revisitar um clássico, mas ressignificar a icônica personagem criada por Mary Shelley. A diretora, e também autora do roteiro, não tem medo de mexer em algo que o público já conhece, e nem de assumir um discurso sobre identidade e pertencimento. O longa quer tanto deixar claro o que está dizendo que acaba se repetindo, diminuindo seu impacto. Ainda assim, é impossível ignorar o quanto a proposta é instigante. A metalinguagem funciona bem no começo, com Jessie Buckley interpretando Mary Shelley, Ida e Penny ao mesmo tempo, com criadora e criatura dividindo a mesma mente.

Buscando sua própria identidade, o filme é uma mistura de estilos. A produção passeia pelo drama existencial, romance gótico e denúncia social, além de ter a impressão de que, em alguns momentos, estamos assistindo a um road movie ou até musical de Hollywood. Ao fim, A Noiva! não encontra sua identidade, pois parece que estamos assistindo filmes diferentes disputando o mesmo espaço.

Se há algo que sustenta o filme e que é inegavelmente seu maior triunfo são as atuações de Jessie Buckley e Christian Bale. A vencedora do Oscar entrega uma performance impressionante, no papel de uma mulher frágil e forte, que não sabe quem foi, mas que sente que sabe quem quer ser. A atriz domina as cenas sem esforço. Já Christian Bale equilibra intensidade e carisma. Seu Frankenstein começa contido, quase introspectivo, e aos poucos abraça o caos com uma energia magnética. A química entre os dois culmina em uma marcante sequência de dança, onde o filme encontra sua síntese perfeita entre estranheza e liberdade. Entre os coadjuvantes, a contribuição de nomes de peso como Annette Bening, Penélope Cruz e Peter Sarsgaard, como uma dupla de detetives, e Jake Gyllenhaal como um popular astro de cinema.

Quando o filme abraça o exagero, o caos e o gótico, ele ganha força. A ambientação nos anos 30 cria um contraste interessante entre o conservadorismo da época e a energia anárquica da protagonista. A fotografia de Lawrence Sher, indicado ao Oscar por Coringa (2019), reforça esse embate visual. Visualmente intenso e estimulante, o caos estético que dialoga com o processo interno da protagonista conta com o design de produção de Karen Murphy, indicada ao Oscar por Elvis (2022), que passeia por diferentes cidades como Chicago, Nova York e Cataratas do Niágara. Além disso, temos a densa trilha sonora da islandesa Hildur Guðnadóttir, vencedora do Oscar por Coringa (2019), e o figurino da lendária Sandy Powell, três vezes vencedora do Oscar, que mistura o horror gótico com uma energia punk rock da época.

Corajoso e ambicioso, porém irregular, A Noiva! atesta a visão de sua diretora, em um filme ousado e sem personalidade.

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Brasil e mundo

O filme mais humano e equilibrado sobre a ditadura no Brasil

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Dentre os filmes sobre o período da ditadura militar no Brasil, o de que gosto é O que é isso, companheiro?, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira. A obra concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, mas não ganhou.

Dirigido por Bruno Barreto, ele conta o que se passou nos quatro dias do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio. O sequestro, realizado por guerrilheiros, ocorreu em 4 de setembro de 1969 e terminou com a libertação de Elbrick, a fuga dos sequestradores e a sua captura por agentes da repressão.

Barreto narra a história com equilíbrio, sem tomar parte ideológica, situando os envolvidos nas circunstâncias da época. Narra o que ocorreu com imparcialidade, modelando os personagens para além do maniqueísmo mocinhos vs bandidos — inclusive porque os gurerrilheiros pertenciam a organizações que pretendiam implantar sua própria ditadura, como admitiu Gabeira.

Abalxo alguns exemplos do tratamento dado pelo diretor.

Numa das cenas, o embaixador acha que será morto e, assustado, defeca. Envergonhado, conta o que ocorreu. O guerrilheiro de vigília o consola, depois o guia pelo braço até o banheiro, para que se lave. Sozinho na privada, Elbrick chora. Não é a encarnação do demônio americano. É apenas um homem.

Noutra cena, um dos torturadores do regime, um sujeito com a mulher grávida, tem problemas de consciência e, sufocado pela culpa, confessa à mulher o que vem fazendo nos porões da ditadura e o mal que isso lhe faz. Ele se sente perturbado por torturar. Mas, sendo funcionário de estado, e preocupado em manter o emprego e a família, prestes a crescer, ele tortura (e se tortura por torturar).

Outro exemplo: no revezamento da vigília de Elbrick no cativeiro, os sequestradores entravam no quarto com um capuz parecido com máscaras antigas de Carnaval, com dois furos para os olhos. Máscaras escuras, de carrascos. No filme, o personagem de Gabeira faz diferente.

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Ele acha que Elbrick não merece reter a visão de um mascarado com o revólver pousado no regaço, sentado numa cadeira. Por isso, na sua vez de vigília, oferece ao embaixador uns óculos com o espaço das lentes coberto com uma proteção preta. Pousado o apetrecho, este faz do cativo literalmente um cego. E então Gabeira retira a sua máscara e conversa com Elbrick.

Gabeira vê Elbrick, que não pode ver o primeiro e identificá-lo, mas ao menos não é obrigado a olhar para um “monstro”. Esse tipo de elegância é talvez o máximo das possibilidades humanas, a coisa mais valiosa que se possa almejar entre as pessoas. Em situações de desvantagem alheia, tratar os outros com humanidade.

Elbrick acabou libertado em troca da soltura de outros guerrilheiros. Ele falou bem dos sequestradores e o governo americano o levou de volta aos Estados Unidos e o aposentou. Preso, torturado e banido do país, Gabeira só voltaria ao Brasil nove anos depois, com a anistia. No retorno, foi deputado federal por três mandatos, cansou (concluiu que “não valia o esforço”) e voltou a ser jornalista.

Em seus comentários na Globo, é hoje um velhinho simpático e tranquilo. Às vezes sua gata Renata atrapalha suas entradas ao vivo, caminhando em frente da câmera. Noutro dia, Renata o arranhou e ele a afastou com um safanão, um gesto instintivo de defesa.

Quando Gabeira ainda era deputado, a filha de Elbrick veio ao Brasil se encontrar com ele, querendo conhecer melhor o pai. Saber quem ele foi nos dias em que esteve cativo. Amigavelmente, os dois conversaram.

Proibido pelo Departamento de Estado de entrar na América, Gabeira, embora tenha tentado, nunca pôde pisar nos Estados Unidos.

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Cultura e entretenimento

O agente secreto não mereceu o Oscar

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O agente secreto saiu da cerimônia do Oscar sem estatuetas. O filme tem algumas qualidades, sobretudo e sem súvida na formação de elenco. Mas não merecia ganhar Oscar.

Em 14 de janeiro passado, eu havia estranhado que tivesse ganhado até mesmo o Globo de Ouro de Melhor filme (veja aqui)

Na forma, filme como filme, me pareceu uma obra estranha.

Além do mais, filme engajado ideologicamente tende a perder complexidade humana, como ocorreu com O agente.

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Brasil e mundo

“É nas crises que se ganha dinheiro”

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Fotos da hora: Mais um verão a caminho do fim

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Praia do Laranjal. (coleção Amigos de Pelotas).

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Valor sentimental. Por Déborah Schmidt

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Valor Sentimental retrata o relacionamento conturbado entre um pai e suas duas filhas. O carismático Gustav (Stellan Skarsgård) é o pai distante de Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) e é um renomado diretor de cinema que decide que seu próximo longa será o seu filme de retorno aos holofotes. Sabendo o quão pessoal e importante é o projeto, o cineasta oferece à Nora, uma bem-sucedida atriz de teatro, o papel principal da trama. Quando ela recusa a oferta, Gustav entrega a personagem para uma jovem estrela de Hollywood, Rachel Kemp (Elle Fanning). Assim, as irmãs precisam lidar com a relação complicada com o pai, enquanto a atriz americana se instala no centro dessa complexa dinâmica.

Quatro anos após a obra-prima A Pior Pessoa do MundoValor Sentimental marca o retorno de Joachim Trier a um território que ele conhece muito bem: o das relações familiares marcadas por silêncios e ressentimentos. Com o roteiro escrito ao lado de Eskil Vogt, colaborador de Trier em todos os seus filmes, o longa investiga o que realmente carrega valor emocional quando o tempo passa e as relações se desgastam.0

Com um roteiro que demonstra grande sensibilidade ao construir personagens complexos, cada um lidando com seus próprios ressentimentos, o elenco é o grande destaque, com nomes de peso como Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning e sua parceira recorrente, Renate Reinsve. Skarsgård está fantástico como um cineasta respeitado e um homem que sempre colocou a criação artística acima da vida familiar. Ele não é retratado como vilão, mas como alguém incapaz de separar vida e obra. O contraponto está em Nora, em mais uma atuação marcante de Renate Reinsve, que carrega uma resistência constante. Já Agnes, vivida por Inga Ibsdotter Lilleaas, ocupa um espaço mais conciliador, embora igualmente marcado por frustrações. A dinâmica entre as irmãs é construída com cuidado, revelando diferenças de temperamento sem recorrer a conflitos. Elle Fanning vive Rachel Kemp, uma atriz de Hollywood em busca de prestígio artístico. Inicialmente fascinada por trabalhar com Gustav, ela passa a perceber que está sendo colocada no lugar simbólico da filha, entendendo aos poucos a obsessão emocional que move o diretor.

Ao inserir um filme em processo dentro da própria narrativa, Joachim Trier insere o cinema como meio de aproximação e, ao mesmo tempo, como um obstáculo. Além disso, a casa onde a história se desenrola funciona quase como um personagem. É um espaço carregado de memória, onde o peso do passado se faz presente em cada canto.

Um drama profundamente humano, com um texto sensível e atuações impecáveis, Valor Sentimental reafirma Joachim Trier como um dos grandes nomes do cinema atual. Uma abordagem honesta sobre família e arte.

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