Escrever um livro é relativamente fácil. Uma frase depois da outra, no caso da ficção algum enredo, e está feito. Promover uma sessão de autógrafos também é fácil. Uns poucos convidados aparecem para nos dar seu abraço e pegar autógrafo. Difícil é que leiam o livro e o comentem. Acontece, mas é raro, o que sempre deixa no ar uma sensação de vazio. De tempo gasto em um esforço inútil.
Já tive ilusões, depois perdi. Durante a escritura dos meus dois únicos livros (uma coletânea de contos, crônicas, reportagens e artigos e um só de crônicas), pensei sempre que seriam não mais que um retrato meu a ser lido pelos meus netos, se é que um dia serei avô. Ao rebaixar expectativas, eu me senti melhor, coerente. Tive sorte: do primeiro livro, os 100 exemplares impressos foram todos adquiridos por pessoas gentis. Espero que o tenham lido e que tenham gostado. Já o segundo, não fiz sessão de autógrafos e vendeu quase nada.
Para quem gosta de escrever, tem algum talento para a coisa (e não dispõe de vitrine em veículos de comunicação no mínimo estaduais – o que costuma ajudar o autor), está cada vez mais difícil gastar tempo escrevendo. É preciso ter escrito um livro realmente original e superior (e que venda) para que tenha alguma possibilidade de êxito que vá além das fronteiras locais, de um pequeno círculo de pessoas. E que extrapole as confrarias midiáticas que se incensam mutuamente. Por isso e outras coisas, com poucas exceções, me restringi a ler os autores do meu gosto, os que vieram antes, inclusive porque eles já disseram tudo.
Dentre meus grandes escritores preferidos, o que mais admiro é Truman Capote (foto), de quem li e reli tudo. Dele, o colega Norman Mailer disse: “É o melhor escritor da minha geração, o que escreve as melhores frases”. E olha que Mailer era um gênio. Uma das frases de Capote: “Ela vestia um terno preto com várias correntes de ouro no pescoço e nos pulsos; a boca também estava carregada de ouro, mais parecia um investimento financeiro do que uma arcada dentária”.
A quem não leu, recomendo dele o romance-reportagem A sangue frio (432 págs. Cia das Letras). TC transformou um crime banal ocorrido no Kansas numa tragédia grega. É magnificamente narrado, sombria e artisticamente falando, e fez de Capote um homem rico, embora a um custo alto. TC levou seis anos pesquisando e escrevendo A sangue, e, quando o terminou, descreveu seu estado de ânimo: “Estou com os nervos em frangalhos, tenso como nove pianos recém-afinados”. Outra boa frase… Seu biógrafo, Gerald Clarke, registrou: “Capote nunca se recuperou desse livro”. Ao atingir o ápice, só restava a queda. Ele seguiu escrevendo, mas não muito, e nunca mais repetiu o milagre.

Eu me comparo com os grandes escritores (que pretensão) e me dou conta do óbvio: do quanto estou longe deles. Resta-me seguir humildemente me esforçando para que meu próximo trabalho tenha qualidade alta, se é que terei condições de fazê-lo. Já como leitor não tenho mais tempo pra gastar com um livro que não passe, digamos, de um bom presente de Natal para pessoas com problemas de insônia, como vi aos montes na feira do livro local, livros de autores que não entendem a diferença entre escrever, escrever bem e a verdadeira arte. Eu ‘sofro’ justamente por isso: porque sei a diferença.
* Caso alguém se interesse, há um filme sobre os seis anos em que Capote escreveu A sangue frio. Chama-se Capote, e o ator que o interpreta (Phillip Hoffman) ganhou Oscar pelo papel.