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Cultura

Escrever literatura é para os fortes

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Escrever um livro é relativamente fácil. Uma frase depois da outra, no caso da ficção algum enredo, e está feito. Promover uma sessão de autógrafos também é fácil. Uns poucos convidados aparecem para nos dar seu abraço e pegar autógrafo. Difícil é que leiam o livro e o comentem. Acontece, mas é raro, o que sempre deixa no ar uma sensação de vazio. De tempo gasto em um esforço inútil.

Já tive ilusões, depois perdi. Durante a escritura dos meus dois únicos livros (uma coletânea de contos, crônicas, reportagens e artigos e um só de crônicas), pensei sempre que seriam não mais que um retrato meu a ser lido pelos meus netos, se é que um dia serei avô. Ao rebaixar expectativas, eu me senti melhor, coerente. Tive sorte: do primeiro livro, os 100 exemplares impressos foram todos adquiridos por pessoas gentis. Espero que o tenham lido e que tenham gostado. Já o segundo, não fiz sessão de autógrafos e vendeu quase nada.

Para quem gosta de escrever, tem algum talento para a coisa (e não dispõe de vitrine em veículos de comunicação no mínimo estaduais – o que costuma ajudar o autor), está cada vez mais difícil gastar tempo escrevendo. É preciso ter escrito um livro realmente original e superior (e que venda) para que tenha alguma possibilidade de êxito que vá além das fronteiras locais, de um pequeno círculo de pessoas. E que extrapole as confrarias midiáticas que se incensam mutuamente. Por isso e outras coisas, com poucas exceções, me restringi a ler os autores do meu gosto, os que vieram antes, inclusive porque eles já disseram tudo.

Dentre meus grandes escritores preferidos, o que mais admiro é Truman Capote (foto), de quem li e reli tudo. Dele, o colega Norman Mailer disse: “É o melhor escritor da minha geração, o que escreve as melhores frases”. E olha que Mailer era um gênio. Uma das frases de Capote: “Ela vestia um terno preto com várias correntes de ouro no pescoço e nos pulsos; a boca também estava carregada de ouro, mais parecia um investimento financeiro do que uma arcada dentária”.

A quem não leu, recomendo dele o romance-reportagem A sangue frio (432 págs. Cia das Letras). TC transformou um crime banal ocorrido no Kansas numa tragédia grega. É magnificamente narrado, sombria e artisticamente falando, e fez de Capote um homem rico, embora a um custo alto. TC levou seis anos pesquisando e escrevendo A sangue, e, quando o terminou, descreveu seu estado de ânimo: “Estou com os nervos em frangalhos, tenso como nove pianos recém-afinados”. Outra boa frase… Seu biógrafo, Gerald Clarke, registrou: “Capote nunca se recuperou desse livro”. Ao atingir o ápice, só restava a queda. Ele seguiu escrevendo, mas não muito, e nunca mais repetiu o milagre.

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Eu me comparo com os grandes escritores (que pretensão) e me dou conta do óbvio: do quanto estou longe deles. Resta-me seguir humildemente me esforçando para que meu próximo trabalho tenha qualidade alta, se é que terei condições de fazê-lo. Já como leitor não tenho mais tempo pra gastar com um livro que não passe, digamos, de um bom presente de Natal para pessoas com problemas de insônia, como vi aos montes na feira do livro local, livros de autores que não entendem a diferença entre escrever, escrever bem e a verdadeira arte. Eu ‘sofro’ justamente por isso: porque sei a diferença.

* Caso alguém se interesse, há um filme sobre os seis anos em que Capote escreveu A sangue frio. Chama-se Capote, e o ator que o interpreta (Phillip Hoffman) ganhou Oscar pelo papel.

Jornalista e escritor. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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Cultura

Apesar de dispensável, sequência O Diabo Veste Prada acerta na nostalgia

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Vinte anos após O Diabo Veste Prada, a continuação acompanha Andy Sachs (Anne Hathaway), que construiu uma carreira sólida e respeitada no jornalismo investigativo depois de deixar para trás os corredores implacáveis da revista Runway. Miranda Prestly (Meryl Streep), por sua vez, enfrenta um momento de mudanças na moda e no declínio da publicação tradicional de revistas.

Pressionada por investidores, anunciantes e um novo conselho administrativo, ela precisa provar que ainda é capaz de ditar tendências. Enquanto isso, Emily (Emily Blunt) é agora uma influente executiva na grife Dior.

Novamente sob a direção de David Frankel e com o roteiro de Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger, autora do livro original, O Diabo Veste Prada 2 resgata o carismático elenco do primeiro filme em uma trama que equilibra nostalgia e uma crítica afiada à desumanização corporativa dos dias atuais.

De forma esperta, a trama explora o mercado de trabalho jornalístico, artístico e publicitário, que passaram por mudanças nas últimas décadas. Em 2026, Andy representa um mercado jornalístico sucateado, tomado por demissões em massa e cortes de gastos, ao mesmo tempo em que lida com a transição para o digital.

Apesar de ser uma sequência dispensável, O Diabo Veste Prada 2 é um filme ciente do momento em que chega aos cinemas duas décadas depois do clássico que entregou mais um personagem icônico para Meryl Streep, colocou Anne Hathaway no patamar de estrela de cinema e apresentou Emily Blunt, que estava em um dos seus primeiros grandes papéis na telona.

Não posso esquecer de Stanley Tucci, que retorna como Nigel, o mentor de estilo e fiel braço direto de Miranda Prestly. Nigel é, sem dúvidas, o melhor personagem da franquia.

Entretanto, os novos personagens pouco têm a dizer e agregar à narrativa, embora tenham papel fundamental no desenrolar dos conflitos da história. São os casos de Lucy Liu, no papel de uma magnata reclusa, Kenneth Branagh, como o marido de Miranda, Justin Theroux, no papel do excêntrico milionário Benji Barnes, Patrick Brammall como o desnecessário interesse amoroso de Andy e Simone Ashley, como a estilosa e confiante Amari, a nova assistente de Miranda.

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Mantendo a ambientação sofisticada, em locações como Nova York, Milão e o Lago de Como, na Itália, O Diabo Veste Prada 2 acerta ao reunir o elenco original, equilibrando nostalgia com um olhar crítico sobre a era digital, a crise do jornalismo impresso e a inteligência artificial na moda.

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Cultura

Cinebiografia de Michael Jackson é eficiente, mas frustrante

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Cinebiografia sobre o “Rei do Pop”, Michael acompanha a infância de Michael Jackson (Juliano Valdi) começando sua carreira ao lado dos irmãos no Jackson 5, nos anos 1960, passando pelos primeiros passos na carreira solo (Jaafar Jackson), com o sucesso dos álbuns “Off the Wall” (1979) e “Thriller” (1982), até o auge da sua carreira na turnê do disco “Bad” (1988).

Dirigido pelo experiente Antoine Fuqua e roteirizado pelo três vezes indicado ao Oscar John Logan, Michael é claramente um filme feito para os fãs. O grande acerto da trama é tornar parte central da narrativa os conflitos entre Michael e seu pai Joe Jackson (Colman Domingo), colocado como o grande vilão da história. Existe um destaque necessário para a intimidade do cantor fora dos palcos, com esses ciclos de abusos físicos e psicológicos causados pelo pai, enquanto o protagonista cresce cheio de traumas (o filme explora sua identificação com Peter Pan), obcecado por perfeição e em busca de liberdade para fazer suas próprias escolhas.

É uma construção de um mito eficiente, mas também muito problemática. Isso fica ainda mais evidente considerando que as acusações de abuso infantil contra o cantor estariam no filme, mas ficaram de fora por problemas legais e, consequentemente, todo final foi alterado, com a produção passando por refilmagens. Diante de uma figura tão emblemática, havia conflitos familiares e fragilidades pessoais suficientes para um retrato mais aprofundado. Neste caso, a presença dos irmãos, fundamentais na sua formação artística e emocional, passam pelo longa sem qualquer desenvolvimento (Janet Jackson não autorizou sua participação e sequer é mencionada), assim como o produtor Quincy Jones, fundamental para a sua carreira.

Ao priorizar a cronologia e a reconstrução de momentos icônicos, a edição erra ao funcionar apenas como um mero registro dos feitos do artista dentro do recorte temporal escolhido. Com isso, a trama apresenta muitos pulos na narrativa, sem nenhum contexto. Questões mais pessoais ao artista, como sua obsessão estética e o caso de vitiligo, também são mencionados, mas nunca trabalhados. É uma cinebiografia que dedica pouquíssimo tempo a realmente mostrar a vida do protagonista.

Sem dúvidas, o maior destaque do filme são as atuações e as caracterizações de Juliano Valdi, Jaafar Jackson e Colman Domingo. O talentoso e intenso Juliano está ótimo interpretando a infância nos Jackson 5, e Jaafar, sobrinho de Michael Jackson, vive a sua fase adulta com perfeição e muita naturalidade, nunca parecendo que se trata de uma imitação. Ele passou por uma preparação extrema nos bastidores, nos fazendo realmente acreditar que se trata de Michael Jackson ao reproduzir de maneira impressionante seus trejeitos, coreografias e voz. Jaafar Jackson prova que foi a escolha perfeita para interpretar Michael Jackson no cinema. Duas vezes indicado os Oscar, o sempre excelente Colman Domingo impõe naturalmente uma presença dominante em cena como Joe Jackson, conseguindo passar toda ameaça com suas atitudes controladoras apenas pelo olhar. Enquanto isso, os outros personagens coadjuvantes servem mais como suporte para Michael, como sua mãe Katherine Jackson (Nia Long), seu empresário John Branca (Miles Teller), seu segurança Bill Bray (KeiLyn Durrel Jones) e o produtor Quincy Jones (Kendrick Sampson).

As sequências musicais foram perfeitamente recriadas pelo filme, funcionando especialmente para um público mais saudosista. Ouvir as grandes músicas de sua carreira no cinema é uma experiência por si só, e assistir as recriações de apresentações e videoclipes, como “Billie Jean” no aniversário de 25 anos da Motown em 1983, o último show do Jackson 5 na “Victory Tour” em 1984, a união de gangues rivais para o clipe de “Beat It” e o icônico “Thriller”, filmado no mesmo cemitério e com Jaafar Jackson usando a mesma jaqueta que Michael Jackson usou, é simplesmente de arrepiar. São esses momentos que vão conquistar o público. Certamente me conquistaram

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Um espetáculo frustrante, Michael entrega fortes atuações e momentos nostálgicos que vão empolgar e emocionar os fãs, mergulhando em apresentações cheias de energia e a recriação de momentos icônicos da sua carreira.

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Cultura

O ousado e desconfortável ‘Drama’

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Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) estão prestes a se casar. Porém, em uma conversa descontraída com o casal de padrinhos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie), uma terrível revelação sobre o passado de Emma vem à tona. O chocante segredo fará Charlie questionar o quanto ele realmente conhece a pessoa com quem vai se casar.

O Drama é o tipo de filme que, quanto menos souber, melhor. Ao apresentar a história do casal partindo do primeiro encontro, o segredo revelado na trama afeta profundamente a semana do casamento e a percepção que Charlie tem de Emma. A narrativa aposta no quanto a desconfiança e a quebra de expectativa podem causar uma fragilidade e uma ruptura nos relacionamentos, questionando se as pessoas podem ser definidas por seus piores momentos.

Com direção e roteiro de Kristoffer Borgli, o filme foge dos clichês dos romances tradicionais, transitando com naturalidade entre a comédia e o drama, explorando humor ácido ao abordar um tema bastante sensível, principalmente para a sociedade americana.

O grande destaque é, sem dúvidas, a química entre Zendaya e Robert Pattinson, transmitindo perfeitamente a tensão de um relacionamento que desmorona. A dupla está acompanhada de um bom grupo de coadjuvantes, liderado por Alana Haim e Mamoudou Athie, que vivem os melhores amigos e padrinhos do casal, fundamentais para o desenrolar da narrativa.

Ousado, surpreendente e, muitas vezes, desconfortável, O Drama tem uma dupla de protagonistas excelentes, uma reviravolta intensa e, claro, muito drama.

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Brasil e mundo

Promotoria de Justiça abre inquérito para apurar tratamento desumano no BBB

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O Ministério Público Federal (MPF) determinou a instauração de um inquérito civil para investigar possíveis práticas de tortura e tratamentos desumanos ou degradantes no programa Big Brother Brasil 26. A decisão, assinada pelo procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, fundamenta-se em representações que apontam riscos à integridade física e psicológica dos participantes da atual edição do reality show.

O procedimento teve origem após relatos de episódios convulsivos vivenciados pelo participante Henri Castelli durante uma prova de resistência. O representante da denúncia alega que as condições impostas pela produção expõem a saúde dos envolvidos a riscos desnecessários, citando exemplos de edições anteriores e casos recentes, como o do participante Breno, que ficou “exilado”, em uma área externa da casa. Segundo o documento, submeter indivíduos a situações perigosas para gerar entretenimento pode representar uma afronta direta à dignidade humana.

Um dos pontos centrais da investigação é a dinâmica do “Quarto Branco”. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) enviou uma “Carta Aberta” ao MPF manifestando indignação com o quadro, afirmando que a metodologia utilizada guarda semelhança com práticas de tortura empregadas durante a ditadura civil-militar brasileira.

De acordo com o documento da CEMDP, uma participante chegou a desmaiar em janeiro de 2026, após permanecer mais de 100 horas em reclusão. O relato detalha que ela teria sido obrigada a ficar de pé em um pedestal de diâmetro ínfimo, técnica descrita como similar às utilizadas em regimes ditatoriais latino-americanos para infligir sofrimento.

Em sua fundamentação, o procurador da República destaca que a liberdade de produção das emissoras de TV não constitui um “salvo-conduto” para violar direitos fundamentais. Como concessionárias de serviço público, as emissoras devem respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família, conforme estabelecido no artigo 221 da Constituição Federal.

O MPF ressalta que a vedação à tortura e ao tratamento degradante é um preceito constitucional absoluto que deve ser zelado por todas as esferas de governo. Para o órgão, a normalização do sofrimento alheio como forma de espetáculo é incompatível com os objetivos fundamentais da República de construir uma sociedade justa e solidária.

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Em resposta prévia constante nos autos, a TV Globo alegou que oferece acompanhamento médico permanente, com suporte de UTI móvel e protocolos de encaminhamento hospitalar. Sobre Henri Castelli, a emissora afirmou que o participante recebeu o atendimento necessário e foi levado a unidades de saúde externas em duas ocasiões.

Como diligência inicial do inquérito, o MPF solicitou que a TV Globo preste informações detalhadas sobre os questionamentos levantados pela Comissão de Mortos e Desaparecidos. 

Foto divulgação da Globo

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Cultura

Devoradores de estrelas. Por Déborah Schmidt

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Devoradores de Estrelas acompanha a jornada do professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling). Um dia, ele acorda sozinho em uma nave a anos-luz da Terra, sem qualquer lembrança de como foi parar ali. Aos poucos, as lembranças retornam e ele relembra que foi recrutado por uma organização mundial para integrar o “Projeto Fim do Mundo”, uma missão enviada para descobrir por que o Sol está morrendo. A partir daí, o personagem precisa usar seus conhecimentos científicos para evitar a extinção da humanidade até encontrar uma amizade inesperada em um alienígena misterioso que viajou anos-luz para salvar sua própria espécie do mesmo destino.

Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos por animações como Tá Chovendo Hambúrguer (2009) e Uma Aventura Lego (2014), além da produção dos aclamados Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018) e Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (2023), Devoradores de Estrelas mostra a maturidade da dupla em um projeto que aposta na emoção e no espetáculo visual.

Baseado no romance homônimo de Andy Weir, o roteiro de Drew Goddard, indicado ao Oscar por Perdido em Marte (2015), encontra um equilíbrio interessante entre o didatismo da ciência e o entretenimento. A montagem alterna sequências no passado e no presente, usando flashbacks para contextualizar a missão e revelar as decisões que levaram o protagonista até ali. São nessas passagens que conhecemos Eva Stratt (Sandra Hüller), líder do Projeto e disposta a sacrificar o que for necessário para garantir a sobrevivência da Terra.

A produção não é mais um filme cientifico sobre salvar o planeta, mas sim uma história que encontra sua força na construção de uma amizade inusitada e profundamente humana. O grande diferencial da narrativa está em Rocky, um extraterrestre feito de pedra que, mesmo sem uma linguagem convencional, desenvolve uma comunicação única com Ryland, auxiliada por um sistema criado pelo protagonista, algo parecido com o de Stephen Hawking e que ganha uma opção com a voz de ninguém menos que Meryl Streep. A relação entre Grace e Rocky é o coração do filme, em uma amizade construída aos poucos, que permite explorar temas como empatia e altruísmo.

Com carisma e um ótimo timing cômico, o filme prova, mais uma vez, que Ryan Gosling é capaz de sustentar uma superprodução praticamente sozinho. A capacidade do ator em transmitir vulnerabilidade e humanidade é um dos grandes destaques de sua atuação e sua quarta indicação ao Oscar está quase garantida. Mesmo com pouco tempo em cena, a brilhante atriz alemã Sandra Hüller rouba a cena, em especial com um karaokê memorável ao som de “Sign of the Times”, de Harry Styles.

O filme aposta em movimentos de câmera que reforçam a sensação de desorientação e solidão no espaço. A fotografia de Greig Fraser é, literalmente, um espetáculo, com uma cinematografia que prioriza cenários reais e efeitos práticos sempre que possível, em sua maioria sem o uso de efeitos especiais, construindo fisicamente a nave e usando marionetes avançadas para o alienígena Rocky. A épica e excelente trilha sonora de Daniel Pemberton utiliza toques de melancolia, com um belíssimo final ao som de “Two of Us”, dos Beatles.

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Devoradores de Estrelas é uma ficção científica que abraça sentimentos universais como solidão e esperança em uma experiência cinematográfica deslumbrante. Sem dúvidas, o grande filme do ano até agora. E que será lembrado durante todo o ano.

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Brasil e mundo

A mistura de “arte” e poder

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Arte e política renderam um livro clássico. Publicado em 1936, e baseado em um caso real, o romance Mephisto, do alemão Klaus Mann, conta a história de um ator que adere ao Nazismo.

Determinado a ascender na carreira, ele abandona seus princípios morais e sua integridade como artista.

Muitos artistas recebem dinheiro de governos para realizar obras que agradam ao poder, em troca de benefícios semelhantes aos do personagem central de Mephisto. Mesmo que tenhamos afeição por eles, é aceitável que o façam?

Creio que a resposta seja óbvia. Não é aceitável. Por uma razão simples. Um artista que troca favores com um governo radicalmente ideologizado perde algo mais do que sua alma. Perde o respeito pelo público.

Como é subsidiado pelo poder, já não se importa nem mesmo com a qualidade do aplauso, porque está pago de antemão. Tendo ou não valor artístico, fracassando ou não na bilheteria, não importará.

Nós temos essa ideia romântica de que artistas são pessoas do “bem”. São e não são. Porque no fim, como todos, também eles precisam pagar as contas.

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O problema é quando quem paga a conta é o governo. Quando isso ocorre, a tendência é de que haja cooptação política do artista. Daí em diante suas obras continuarão a ser financiadas pelo Estado, mesmo que não agradem o público, como confessa a presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata de Almeida Magalhães (vídeo abaixo).

Agora relembro um caso que ocorreu a um artista do nosso tempo quando se “engajou”.

A comparação não é perfeita, já que ele se fez à custa do próprio talento. Mas serve como exemplo do equívoco do engajamento político, por uma razão que resume tudo: o engajamento empobrece o artista, por aquém da realidade, sempre mais complexa do que aquele pretende, levando a entendimentos falsos que podem se tornar frustrantes aos seguidores e até perigosos aos artistas.

Numa cena de documentário sobre John Lennon, o músico e Yoko Ono, de pijamas na cama de um quarto de hotel no Canadá, recebem artistas e simpatizantes para “um protesto pacífico e cantante em favor da paz no mundo”. Estava megalomaníaco.

Como os discos dos Beatles e dele próprio vendiam como coca-cola, nessa altura rico, além de casado com uma filha de banqueiro de Tóquio, podia bancar seus luxos e caprichos.

Entre outros visitantes, apareceu lá um cartunista: Al Capp, um homem mais velho, de uns 50 anos. Homem vivido, sem ilusões, com os pés plantados na realidade.

Capp questionou o ato político do casal, perguntando o que Lennon podia fazer pela paz mundial sentado numa cama. Lennon não gostou. Bateram boca.

Capp disse a Lennon que ele não lhe “fazia a cabeça”, que os artistas que admirava eram outros, e foi saindo, enquanto Lennon reclamava: “ele não deveria estar aqui”, e, debochando, cantarolava de improviso algo com o nome de Capp para desmerecê-lo.

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O cartunista reagiu: “Não deveria estar aqui, por quê? Você convidou a todos para vir. Sou seu convidado”.

A recusa do cartunista a embarcar na canoa de Lennon, como todas as recusas, me fez pensar. Mesmo que me desagrade, sempre penso que em toda recusa há algo que merece atenção. E havia.

Anos depois Lennon cantou “the dream is over”. Ao menos foi sincero. Enfim aceitara o que, sendo sensível como era, no fundo sempre soube, apenas não admitia. Que a paz é uma quimera.

Então um fã o esperou em frente de casa e o matou.

Foto devulgação/ Klaus Maria Brandauer fez o papel do ator que adere ao Nazismo na versão cinematográfica de Mephisto.

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Cultura

O ousado e sem personalidade ‘A noiva!’ Por Déborah Schmidt

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Ambientado na Chicago da década de 1930, A Noiva! acompanha a história de Ida (Jessie Buckley), uma jovem assassinada que ganha vida novamente. O que ela não imaginava é que seria trazida de volta à vida por Frankenstein (Christian Bale), que, após um século de solidão, anseia por companhia e pede a ajuda da Dra. Euphronious (Annette Bening). Os dois, então, trazem-na de volta à vida e, assim, nasce uma nova criatura: a Noiva. Logo, a jovem descobre um mundo marcado por obsessões e violência, além de se envolver em um romance selvagem e explosivo.

Após uma excelente estreia na direção com A Filha Perdida (2021), a atriz Maggie Gyllenhaal resolve não apenas revisitar um clássico, mas ressignificar a icônica personagem criada por Mary Shelley. A diretora, e também autora do roteiro, não tem medo de mexer em algo que o público já conhece, e nem de assumir um discurso sobre identidade e pertencimento.

O longa quer tanto deixar claro o que está dizendo que acaba se repetindo, diminuindo seu impacto. Ainda assim, é impossível ignorar o quanto a proposta é instigante. A metalinguagem funciona bem no começo, com Jessie Buckley interpretando Mary Shelley, Ida e Penny ao mesmo tempo, com criadora e criatura dividindo a mesma mente.

Buscando sua própria identidade, o filme é uma mistura de estilos. A produção passeia pelo drama existencial, romance gótico e denúncia social, além de ter a impressão de que, em alguns momentos, estamos assistindo a um road movie ou até musical de Hollywood. Ao fim, A Noiva! não encontra sua identidade, pois parece que estamos assistindo filmes diferentes disputando o mesmo espaço.

Se há algo que sustenta o filme e que é inegavelmente seu maior triunfo são as atuações de Jessie Buckley e Christian Bale. A vencedora do Oscar entrega uma performance impressionante, no papel de uma mulher frágil e forte, que não sabe quem foi, mas que sente que sabe quem quer ser. A atriz domina as cenas sem esforço. Já Christian Bale equilibra intensidade e carisma. Seu Frankenstein começa contido, quase introspectivo, e aos poucos abraça o caos com uma energia magnética.

A química entre os dois culmina em uma marcante sequência de dança, onde o filme encontra sua síntese perfeita entre estranheza e liberdade. Entre os coadjuvantes, a contribuição de nomes de peso como Annette Bening, Penélope Cruz e Peter Sarsgaard, como uma dupla de detetives, e Jake Gyllenhaal como um popular astro de cinema.

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Quando o filme abraça o exagero, o caos e o gótico, ele ganha força. A ambientação nos anos 30 cria um contraste interessante entre o conservadorismo da época e a energia anárquica da protagonista. A fotografia de Lawrence Sher, indicado ao Oscar por Coringa (2019), reforça esse embate visual. Visualmente intenso e estimulante, o caos estético que dialoga com o processo interno da protagonista conta com o design de produção de Karen Murphy, indicada ao Oscar por Elvis (2022), que passeia por diferentes cidades como Chicago, Nova York e Cataratas do Niágara. Além disso, temos a densa trilha sonora da islandesa Hildur Guðnadóttir, vencedora do Oscar por Coringa (2019), e o figurino da lendária Sandy Powell, três vezes vencedora do Oscar, que mistura o horror gótico com uma energia punk rock da época.

Corajoso e ambicioso, porém irregular, A Noiva! atesta a visão de sua diretora, em um filme ousado e sem personalidade.

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Brasil e mundo

O filme mais humano e equilibrado sobre a ditadura no Brasil

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Dentre os filmes sobre o período da ditadura militar no Brasil, o de que gosto é O que é isso, companheiro?, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira. A obra concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, mas não ganhou.

Dirigido por Bruno Barreto, ele conta o que se passou nos quatro dias do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio. O sequestro, realizado por guerrilheiros, ocorreu em 4 de setembro de 1969 e terminou com a libertação de Elbrick, a fuga dos sequestradores e a sua captura por agentes da repressão.

Barreto narra a história com equilíbrio, sem tomar parte ideológica, situando os envolvidos nas circunstâncias da época. Narra o que ocorreu com imparcialidade, modelando os personagens para além do maniqueísmo mocinhos vs bandidos — inclusive porque os gurerrilheiros pertenciam a organizações que pretendiam implantar sua própria ditadura, como admitiu Gabeira.

Abalxo alguns exemplos do tratamento dado pelo diretor.

Numa das cenas, o embaixador acha que será morto e, assustado, defeca. Envergonhado, conta o que ocorreu. O guerrilheiro de vigília o consola, depois o guia pelo braço até o banheiro, para que se lave. Sozinho na privada, Elbrick chora. Não é a encarnação do demônio americano. É apenas um homem.

Noutra cena, um dos torturadores do regime, um sujeito com a mulher grávida, tem problemas de consciência e, sufocado pela culpa, confessa à mulher o que vem fazendo nos porões da ditadura e o mal que isso lhe faz. Ele se sente perturbado por torturar. Mas, sendo funcionário de estado, e preocupado em manter o emprego e a família, prestes a crescer, ele tortura (e se tortura por torturar).

Outro exemplo: no revezamento da vigília de Elbrick no cativeiro, os sequestradores entravam no quarto com um capuz parecido com máscaras antigas de Carnaval, com dois furos para os olhos. Máscaras escuras, de carrascos. No filme, o personagem de Gabeira faz diferente.

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Ele acha que Elbrick não merece reter a visão de um mascarado com o revólver pousado no regaço, sentado numa cadeira. Por isso, na sua vez de vigília, oferece ao embaixador uns óculos com o espaço das lentes coberto com uma proteção preta. Pousado o apetrecho, este faz do cativo literalmente um cego. E então Gabeira retira a sua máscara e conversa com Elbrick.

Gabeira vê Elbrick, que não pode ver o primeiro e identificá-lo, mas ao menos não é obrigado a olhar para um “monstro”. Esse tipo de elegância é talvez o máximo das possibilidades humanas, a coisa mais valiosa que se possa almejar entre as pessoas. Em situações de desvantagem alheia, tratar os outros com humanidade.

Elbrick acabou libertado em troca da soltura de outros guerrilheiros. Ele falou bem dos sequestradores e o governo americano o levou de volta aos Estados Unidos e o aposentou. Preso, torturado e banido do país, Gabeira só voltaria ao Brasil nove anos depois, com a anistia. No retorno, foi deputado federal por três mandatos, cansou (concluiu que “não valia o esforço”) e voltou a ser jornalista.

Em seus comentários na Globo, é hoje um velhinho simpático e tranquilo. Às vezes sua gata Renata atrapalha suas entradas ao vivo, caminhando em frente da câmera. Noutro dia, Renata o arranhou e ele a afastou com um safanão, um gesto instintivo de defesa.

Quando Gabeira ainda era deputado, a filha de Elbrick veio ao Brasil se encontrar com ele, querendo conhecer melhor o pai. Saber quem ele foi nos dias em que esteve cativo. Amigavelmente, os dois conversaram.

Proibido pelo Departamento de Estado de entrar na América, Gabeira, embora tenha tentado, nunca pôde pisar nos Estados Unidos.

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Cultura

O agente secreto não mereceu o Oscar

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O agente secreto saiu da cerimônia do Oscar sem estatuetas. O filme tem algumas qualidades, sobretudo e sem súvida na formação de elenco. Mas não merecia ganhar Oscar.

Em 14 de janeiro passado, eu havia estranhado que tivesse ganhado até mesmo o Globo de Ouro de Melhor filme (veja aqui)

Na forma, filme como filme, me pareceu uma obra estranha.

Além do mais, filme engajado ideologicamente tende a perder complexidade humana, como ocorreu com O agente.

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Cultura

Fotos da hora: Mais um verão a caminho do fim

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Praia do Laranjal. (coleção Amigos de Pelotas).

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