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A mistura de “arte” e poder

Arte e política renderam um livro clássico. Publicado em 1936, e baseado em um caso real, o romance Mephisto, do alemão Klaus Mann, conta a história de um ator que adere ao Nazismo.

Determinado a ascender na carreira, ele abandona seus princípios morais e sua integridade como artista.

Muitos artistas recebem dinheiro de governos para realizar obras que agradam ao poder, em troca de benefícios semelhantes aos do personagem central de Mephisto. Mesmo que tenhamos afeição por eles, é aceitável que o façam?

Creio que a resposta seja óbvia. Não é aceitável. Por uma razão simples. Um artista que troca favores com um governo radicalmente ideologizado perde algo mais do que sua alma. Perde o respeito pelo público.

Como é subsidiado pelo poder, já não se importa nem mesmo com a qualidade do aplauso, porque está pago de antemão. Tendo ou não valor artístico, fracassando ou não na bilheteria, não importará.

Nós temos essa ideia romântica de que artistas são pessoas do “bem”. São e não são. Porque no fim, como todos, também eles precisam pagar as contas.

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O problema é quando quem paga a conta é o governo. Quando isso ocorre, a tendência é de que haja cooptação política do artista. Daí em diante suas obras continuarão a ser financiadas pelo Estado, mesmo que não agradem o público, como confessa a presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata de Almeida Magalhães (vídeo abaixo).

Agora relembro um caso que ocorreu a um artista do nosso tempo quando se “engajou”.

A comparação não é perfeita, já que ele se fez à custa do próprio talento. Mas serve como exemplo do equívoco do engajamento político, por uma razão que resume tudo: o engajamento empobrece o artista, por aquém da realidade, sempre mais complexa do que aquele pretende, levando a entendimentos falsos que podem se tornar frustrantes aos seguidores e até perigosos aos artistas.

Numa cena de documentário sobre John Lennon, o músico e Yoko Ono, de pijamas na cama de um quarto de hotel no Canadá, recebem artistas e simpatizantes para “um protesto pacífico e cantante em favor da paz no mundo”. Estava megalomaníaco.

Como os discos dos Beatles e dele próprio vendiam como coca-cola, nessa altura rico, além de casado com uma filha de banqueiro de Tóquio, podia bancar seus luxos e caprichos.

Entre outros visitantes, apareceu lá um cartunista: Al Capp, um homem mais velho, de uns 50 anos. Homem vivido, sem ilusões, com os pés plantados na realidade.

Capp questionou o ato político do casal, perguntando o que Lennon podia fazer pela paz mundial sentado numa cama. Lennon não gostou. Bateram boca.

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Capp disse a Lennon que ele não lhe “fazia a cabeça”, que os artistas que admirava eram outros, e foi saindo, enquanto Lennon reclamava: “ele não deveria estar aqui”, e, debochando, cantarolava de improviso algo com o nome de Capp para desmerecê-lo.

O cartunista reagiu: “Não deveria estar aqui, por quê? Você convidou a todos para vir. Sou seu convidado”.

A recusa do cartunista a embarcar na canoa de Lennon, como todas as recusas, me fez pensar. Mesmo que me desagrade, sempre penso que em toda recusa há algo que merece atenção. E havia.

Anos depois Lennon cantou “the dream is over”. Ao menos foi sincero. Enfim aceitara o que, sendo sensível como era, no fundo sempre soube, apenas não admitia. Que a paz é uma quimera.

Então um fã o esperou em frente de casa e o matou.

Foto devulgação/ Klaus Maria Brandauer fez o papel do ator que adere ao Nazismo na versão cinematográfica de Mephisto.

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