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Descarte

Cardboard donation box with clothes inside

Às vezes tenho o impulso de desabarrotar meus armários, meu guarda-roupas. Enfim, abrir grandes áreas de respiro — livrar-me de tudo o que já não preciso, conservar comigo só os objetos essenciais. Sempre é uma batalha. No meu caso pelo menos, na hora do descarte, muitas vezes desisto de descartar. Ou então consigo descartar a metade, a outra metade fica para depois.

Os objetos pessoais mais difíceis de me desprender são certos filmes e livros, por uma razão moral. O dvd do filme Cinema Paradiso e o romance Sidarta, de Hesse, por exemplo. Lá atrás, quando eu tinha 20 e depois 30 anos, seus conteúdos me ajudaram quando precisei sentir que não estava sozinho em meus sentimentos.

Para ter ideia do quanto esses “objetos” foram importantes pra mim, quando me dispunha a emprestar o dvd do Paradiso para alguém ver, e a pessoa não se interessava, eu costumava pensar que ela era totalmente imbecil. Por isso, mesmo feitos um de plástico, outro de papel, e com seus conteúdos agora acessíveis em meio digital, lamentei antes de depositá-los na caixa para Doação.

Entretanto, enquanto descartava, notei que me custava desprender inclusive de guardados de uso utilitário. Coisas como um par de mocassins deformados pelo uso ou uma armação de óculos ressecada ou um reles peso de papel lascado. Objetos assim, enfurnados há anos, dos quais nem lembrava mais. Por que hesitei então?

Logo relembrei do óbvio: nada é tão desprovido que prescinda de significado. Cada coisa, mesmo a mais simples, reflete identificações guarnecidas pelo inconsciente, ativa recordações temporais e suscita lembranças produzidas pela imaginação.

Aquele mocassim Guido, do melhor fabricante argentino, eu o comprei numa viagem a Buenos Aires, logo após a Guerra das Malvinas, quando, aliás, o inverno era mais rigoroso do que agora. Aqueles óculos me foram presenteados pela minha ex-mulher, quando as coisas ainda iam bem entre nós: óculos de aros robustos da Company, uma firma carioca que não existe mais. Já aquele peso de papel, por incrível que pareça, eu o achei na rua, peso da cor azul. Pousado em minha antiga mesa de trabalho de mármore branco, ele parecia um pequeno lago gelado.

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Entre hesitações segui com meu descarte. De 22 pares de sapatos, restaram comigo cerca de dez; na verdade, onze, pois desisti de doar um. Sigo gostando de mocassins, mas não devo mais usar sapatos de saltos baixos, não por tantas horas, muito menos em percursos maiores. Por recomendação médica, entrei na fase de usar tênis (um só) com macias entressolas espessas, o que não é ruim. Além de aliviar a pressão dos passos em minha coluna, eles me fazem cerca de cinco centímetros mais alto, o que mal nenhum tem feito. Ao contrário.

Ultimamente voltei ao descarte de objetos, porém não meus. Descarte de herdados de meus pais, escolhas deles. Há dois meses, após a morte do meu pai, precisei enfrentar esse momento.

Depois de reter comigo alguns itens de valor monetário e emocional, eu me vi diante de restos sem serventia, porém gravados na memória desde a infância. Alguns móveis arruinados, tapetes de tão gastos que seus motivos apagaram, biscuits rachados, tralhas há muito refugadas para um pequeno depósito nos fundos da casa. Uma destruída gaiolinha enferrujada, com passarinhos de mentira, se demorou um tempo maior em minhas mãos. Mas fui em frente.

Despejei tudo em um container, sentindo um misto de derrota, alívio, culpa, tristeza e traição. A cada despejo eu me vi despojando até mesmo da sensação de pertencer a uma linhagem familiar, solto no ar como uma pipa de fio partido.

Para o velório do meu pai, eu o vesti com meu melhor e único terno, meu melhor sapato, minhas melhores camisa e gravata, e, durante a cerimônia, flagrei-me magnetizado pela visão dos pés dele — os sapatos, a presilha de fivela e a lingueta do pé direito ligeiramente torta — com a impressão de que no caixão ele era eu e de que eu era ele. Ainda agora, em momentos inesperados, essa visão me volta. Ele era um homem de bom gosto, e eu quis honrá-lo em sua última viagem.

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