Há situações na vida, encruzilhadas morais, em que definimos quem somos. Nossos vereadores vivem um momento assim, diante da proposição do vereador Paulo Coitinho para que a Câmara vote e aprove a concessão de um vale-alimentação a ele e aos demais 20 colegas — vale de R$ 906 para quem já ganha R$ 18,7 mil de salário todo mês.
Com um salário desses, 800% mais alto do que ganha a média dos pelotenses, é espantoso que queiram ainda abocanhar um vale-refeição, a não ser que estejam passando fome, o que claramente não é o caso. Mesmo o mais magro do grupo não exibe sinais de atrofia muscular, fadiga extrema ou queda na imunidade.
O único sinal que se nota é de coragem. É preciso possuir a bravura de um camelo, capaz de atravessar o deserto com um copo de água no estômago, onde outros diriam peito, para propor o citado projeto numa cidade pobre como Pelotas. Basta ver os tristes indicadores do IBGE.
Segundo Coitinho, 15 dos 21 colegas já deram apoio ao projeto, e, entre eles, aparecem até vereadores de primeiro mandato que prometiam ser uma renovação moral. A principal função de um político é decepcionar. Mas não precisavam chegar tão longe — por um vale-refeição.
Se é preciso coragem para propor tal matéria, muito mais bravura demonstrou uma mulher, minoria como gênero na Câmara local e na política em geral.
Fernanda Miranda, do Psol, foi a única vereadora a protestar contra a aberração de se levar em frente a ideia do vale. Sua manifestação no púlpito se espalhou pelas redes sociais, onde provocou reações e fez aflorar indignação, vinda de pessoas de todos os matizes ideológicos.
Esperava-se que outros a repetissem. Três colegas ao menos que erguessem suas vozes, e a indignação cresceria, e, talvez, a proposta fosse derrubada. Mas não.
No episódio, Fernanda continua a única a não decepcionar, a única a merecer aplausos por combater a ida da matéria à votação. Também a única a deixar claro que não está pensando em gravar vídeos diversionistas para as redes, destinados a tentar que a eventual aprovação ao projeto (com anuência ou omissão) logo seja esquecida. Não precisará disso, pois sua posição está clara de antemão.
Por isso, ela merece, mais do que nossos aplausos, toda a nossa consideração.

