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Opinião

Proposta de vale-alimentação para vereadores é um absurdo

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A proposta de aprovação de um vale-alimentação de R$ 906 para cada vereador pelotense, apresentada pelo colega de Câmara Paulo Coitinho (Cidadania), é um tapa na cara da sociedade, especialmente quando se analisa a diferença da remuneração dos vereadores em relação aos salários dos pelotenses, de maioria pobre.

A diferença entre os salários que os vereadores ganham (sem o vale) e o que ganham os pelotenses já é mais do que grande (veja abaixo). Logo, aprovar mais vale-alimentação é um absurdo inexplicável, apesar de a proposta vir recebendo apoio de vereadores da chamada esquerda à chamada direita, que, neste caso, se unem.

Hoje um vereador ganha de salário R$ 18.742. O presidente da Casa ganha mais, 28.144,36. Já o rendimento médio mensal domiciliar per capita (por pessoa de uma familia pelotense) fica entre R$ 1.500 e R$ 1.700, dinheiro ganho em trabalho informal. Por sua vez, a remuneração média dos trabalhadores com carteira assinada fica em torno de R$ 2.750. Logo, aprovar aquele vale-alimentaçao é chocante.

Vale dizer que, além de tudo, grande parte da população pelotense é dependente do Bolsa Família. Cerca de 14,6% da população depende do auxílio, mais de 19.500 famílias. E mais: cerca de 4% da população está desempregada.

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Opinião

Parabéns, Fernanda Miranda

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Há situações na vida, encruzilhadas morais, em que definimos quem somos. Nossos vereadores vivem um momento assim, diante da proposição do vereador Paulo Coitinho para que a Câmara vote e aprove a concessão de um vale-alimentação a ele e aos demais 20 colegas — vale de R$ 906 para quem já ganha R$ 18,7 mil de salário todo mês.

Com um salário desses, 800% mais alto do que ganha a média dos pelotenses, é espantoso que queiram ainda abocanhar um vale-refeição, a não ser que estejam passando fome, o que claramente não é o caso. Mesmo o mais magro do grupo não exibe sinais de atrofia muscular, fadiga extrema ou queda na imunidade.

O único sinal que se nota é de coragem. É preciso possuir a bravura de um camelo, capaz de atravessar o deserto com um copo de água no estômago, onde outros diriam peito, para propor o citado projeto numa cidade pobre como Pelotas. Basta ver os tristes indicadores do IBGE.

Segundo Coitinho, 15 dos 21 colegas já deram apoio ao projeto, e, entre eles, aparecem até vereadores de primeiro mandato que prometiam ser uma renovação moral. A principal função de um político é decepcionar. Mas não precisavam chegar tão longe — por um vale-refeição.

Se é preciso coragem para propor tal matéria, muito mais bravura demonstrou uma mulher, minoria como gênero na Câmara local e na política em geral.

Fernanda Miranda, do Psol, foi a única vereadora a protestar contra a aberração de se levar em frente a ideia do vale. Sua manifestação no púlpito se espalhou pelas redes sociais, onde provocou reações e fez aflorar indignação, vinda de pessoas de todos os matizes ideológicos.

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Esperava-se que outros a repetissem. Três colegas ao menos que erguessem suas vozes, e a indignação cresceria, e, talvez, a proposta fosse derrubada. Mas não.

No episódio, Fernanda continua a única a não decepcionar, a única a merecer aplausos por combater a ida da matéria à votação. Também a única a deixar claro que não está pensando em gravar vídeos diversionistas para as redes, destinados a tentar que a eventual aprovação ao projeto (com anuência ou omissão) logo seja esquecida. Não precisará disso, pois sua posição está clara de antemão.

Por isso, ela merece, mais do que nossos aplausos, toda a nossa consideração.

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Cultura

A melancolia de ‘O diabo’

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O diabo veste Prada 2 me pareceu desnecessário. Se o primeiro filme é perfeito, fechado a vácuo, o segundo é selado com bolhas de ar. É um filme visto com saudade, mas que nos decepciona pela nostalgia de um momento impossível de reviver. Foi bom rever a turma?

Foi. Gostei de rever Stanley Tucci (Nigel), o simpático ator com cara de amendoim, e, claro, as atrizes. Porém, achei triste ver a destruição das lembranças do filme original, por conta inclusive do envelhecimento real das protagonistas, em especial o de Anne Hathaway (Andrea), assistente de Meryl Streep, a implacável Miranda. Cadê aquele frescor da Hathaway de 20 anos atrás? Ela simbolizava o desejo da moça antiga de ‘subir ao altar’.

O tempo passa pra todos, óbvio. Mas, em matéria de cinema, uma coisa é rodar uma sequência pouco tempo depois do primeiro filme, como ocorreu com O poderoso chefão II, com os atores com idades próximas das de quando atuaram no I. Outra é rodá-la 20 anos depois, com os atores bem mais velhos. Fica uma sensação desagradável de algo que estava intacto e se quebrou. Senti o mesmo quando vi o filme francês Um homem, uma mulher 20 anos depois: melancolia.

Quando O diabo 1 foi lançado, em 2006, a internet e as redes sociais não tinham o poder de hoje. Revistas impressas de moda, como Harper’s Bazaar e Vogue, ainda eram templos sagrados, mesclando em suas páginas fotografias e artigos sobre moda com ficção de alta qualidade — textos de Virgínia Woolf, F. Scott Fitzgerald, Tom Wolfe, Truman Capote e outros.

Já neste 2026, depois que há muito as redes começaram a abocanhar a maior parte das verbas publicitárias, as revistas impressas se viram sob ameaça não só como negócios, mas como símbolos da progressão cultural que transformava em arte vestimentas e acessórios. Tais revistas ainda existem, mas não mais com a autoridade personificada na figura da Miranda do primeiro filme, não mais com o glamour de antes.

É da erosão desse mundo que trata O diabo 2, ao denunciar a decadência dos altares estéticos a que se havia chegado pelo refino das experiências sensoriais — ruína esta causada pela ditadura do clique na internet, como diz o filme: a tirania da massa, sempre acrítica, sem identidade. O que antes era uma referência cultural sólida, fruto de cabeças cultas, deixou de ser. Perdeu-se na vulgaridade ignorante do clique digital, que, sobrepondo-se àquelas cabeças, passou a ditar as abordagens editoriais, com anuência dos donos do negócio. Em vez de fechar as portas, rebaixe-se a qualidade, em favor do senso comum.

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Mesmo que tente mascarar a situação difícil que vive, invocando sua garbosa presença, Miranda, obrigada a descer do altar para salvar sua posição, tornou-se uma mulher “comum”. Uma ex-rigorosa mulher tentando sobreviver em um ambiente que já não domina; um cenário em que a revista que dirige (Runway/Vogue) deixou de ser vista como o vértice do bom gosto na moda e na arte, o que é triste de ver para quem ama a exigência, o belo. Vem acontecendo por todo lado na vida real. “Terei apenas mais alguns anos”, Miranda diz para a Hathaway, dentro da limusine, sabendo que não durará no mercado.

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Cultura

Apesar de dispensável, sequência O Diabo Veste Prada acerta na nostalgia

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Vinte anos após O Diabo Veste Prada, a continuação acompanha Andy Sachs (Anne Hathaway), que construiu uma carreira sólida e respeitada no jornalismo investigativo depois de deixar para trás os corredores implacáveis da revista Runway. Miranda Prestly (Meryl Streep), por sua vez, enfrenta um momento de mudanças na moda e no declínio da publicação tradicional de revistas.

Pressionada por investidores, anunciantes e um novo conselho administrativo, ela precisa provar que ainda é capaz de ditar tendências. Enquanto isso, Emily (Emily Blunt) é agora uma influente executiva na grife Dior.

Novamente sob a direção de David Frankel e com o roteiro de Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger, autora do livro original, O Diabo Veste Prada 2 resgata o carismático elenco do primeiro filme em uma trama que equilibra nostalgia e uma crítica afiada à desumanização corporativa dos dias atuais.

De forma esperta, a trama explora o mercado de trabalho jornalístico, artístico e publicitário, que passaram por mudanças nas últimas décadas. Em 2026, Andy representa um mercado jornalístico sucateado, tomado por demissões em massa e cortes de gastos, ao mesmo tempo em que lida com a transição para o digital.

Apesar de ser uma sequência dispensável, O Diabo Veste Prada 2 é um filme ciente do momento em que chega aos cinemas duas décadas depois do clássico que entregou mais um personagem icônico para Meryl Streep, colocou Anne Hathaway no patamar de estrela de cinema e apresentou Emily Blunt, que estava em um dos seus primeiros grandes papéis na telona.

Não posso esquecer de Stanley Tucci, que retorna como Nigel, o mentor de estilo e fiel braço direto de Miranda Prestly. Nigel é, sem dúvidas, o melhor personagem da franquia.

Entretanto, os novos personagens pouco têm a dizer e agregar à narrativa, embora tenham papel fundamental no desenrolar dos conflitos da história. São os casos de Lucy Liu, no papel de uma magnata reclusa, Kenneth Branagh, como o marido de Miranda, Justin Theroux, no papel do excêntrico milionário Benji Barnes, Patrick Brammall como o desnecessário interesse amoroso de Andy e Simone Ashley, como a estilosa e confiante Amari, a nova assistente de Miranda.

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Mantendo a ambientação sofisticada, em locações como Nova York, Milão e o Lago de Como, na Itália, O Diabo Veste Prada 2 acerta ao reunir o elenco original, equilibrando nostalgia com um olhar crítico sobre a era digital, a crise do jornalismo impresso e a inteligência artificial na moda.

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Cultura

Cinebiografia de Michael Jackson é eficiente, mas frustrante

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Cinebiografia sobre o “Rei do Pop”, Michael acompanha a infância de Michael Jackson (Juliano Valdi) começando sua carreira ao lado dos irmãos no Jackson 5, nos anos 1960, passando pelos primeiros passos na carreira solo (Jaafar Jackson), com o sucesso dos álbuns “Off the Wall” (1979) e “Thriller” (1982), até o auge da sua carreira na turnê do disco “Bad” (1988).

Dirigido pelo experiente Antoine Fuqua e roteirizado pelo três vezes indicado ao Oscar John Logan, Michael é claramente um filme feito para os fãs. O grande acerto da trama é tornar parte central da narrativa os conflitos entre Michael e seu pai Joe Jackson (Colman Domingo), colocado como o grande vilão da história. Existe um destaque necessário para a intimidade do cantor fora dos palcos, com esses ciclos de abusos físicos e psicológicos causados pelo pai, enquanto o protagonista cresce cheio de traumas (o filme explora sua identificação com Peter Pan), obcecado por perfeição e em busca de liberdade para fazer suas próprias escolhas.

É uma construção de um mito eficiente, mas também muito problemática. Isso fica ainda mais evidente considerando que as acusações de abuso infantil contra o cantor estariam no filme, mas ficaram de fora por problemas legais e, consequentemente, todo final foi alterado, com a produção passando por refilmagens. Diante de uma figura tão emblemática, havia conflitos familiares e fragilidades pessoais suficientes para um retrato mais aprofundado. Neste caso, a presença dos irmãos, fundamentais na sua formação artística e emocional, passam pelo longa sem qualquer desenvolvimento (Janet Jackson não autorizou sua participação e sequer é mencionada), assim como o produtor Quincy Jones, fundamental para a sua carreira.

Ao priorizar a cronologia e a reconstrução de momentos icônicos, a edição erra ao funcionar apenas como um mero registro dos feitos do artista dentro do recorte temporal escolhido. Com isso, a trama apresenta muitos pulos na narrativa, sem nenhum contexto. Questões mais pessoais ao artista, como sua obsessão estética e o caso de vitiligo, também são mencionados, mas nunca trabalhados. É uma cinebiografia que dedica pouquíssimo tempo a realmente mostrar a vida do protagonista.

Sem dúvidas, o maior destaque do filme são as atuações e as caracterizações de Juliano Valdi, Jaafar Jackson e Colman Domingo. O talentoso e intenso Juliano está ótimo interpretando a infância nos Jackson 5, e Jaafar, sobrinho de Michael Jackson, vive a sua fase adulta com perfeição e muita naturalidade, nunca parecendo que se trata de uma imitação. Ele passou por uma preparação extrema nos bastidores, nos fazendo realmente acreditar que se trata de Michael Jackson ao reproduzir de maneira impressionante seus trejeitos, coreografias e voz. Jaafar Jackson prova que foi a escolha perfeita para interpretar Michael Jackson no cinema. Duas vezes indicado os Oscar, o sempre excelente Colman Domingo impõe naturalmente uma presença dominante em cena como Joe Jackson, conseguindo passar toda ameaça com suas atitudes controladoras apenas pelo olhar. Enquanto isso, os outros personagens coadjuvantes servem mais como suporte para Michael, como sua mãe Katherine Jackson (Nia Long), seu empresário John Branca (Miles Teller), seu segurança Bill Bray (KeiLyn Durrel Jones) e o produtor Quincy Jones (Kendrick Sampson).

As sequências musicais foram perfeitamente recriadas pelo filme, funcionando especialmente para um público mais saudosista. Ouvir as grandes músicas de sua carreira no cinema é uma experiência por si só, e assistir as recriações de apresentações e videoclipes, como “Billie Jean” no aniversário de 25 anos da Motown em 1983, o último show do Jackson 5 na “Victory Tour” em 1984, a união de gangues rivais para o clipe de “Beat It” e o icônico “Thriller”, filmado no mesmo cemitério e com Jaafar Jackson usando a mesma jaqueta que Michael Jackson usou, é simplesmente de arrepiar. São esses momentos que vão conquistar o público. Certamente me conquistaram

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Um espetáculo frustrante, Michael entrega fortes atuações e momentos nostálgicos que vão empolgar e emocionar os fãs, mergulhando em apresentações cheias de energia e a recriação de momentos icônicos da sua carreira.

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Brasil e mundo

A política millenial de Eduardo tem um quê de Bonaparte

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Eduardo Leite é um Bonaparte tropical. É jovem, é destemido, é autoconfiante, e, preenchendo o quesito tropical, toca pandeiro.

Em sua campanha militar para levar a toda a Europa os ideais da Revolução Francesa, Bonaparte só foi parado quando invadiu a Rússia. Queimadas as plantações, evacuadas Moscou e outras cidades, 90% das tropas napoleônicas que adentraram a terra russa morreram de fome e frio na retirada, como planejaram os russos com aquelas ações. Foi o início do fim de Bonaparte.

Até ser parado pelos conselheiros do PSD, Leite vinha triunfando em batalhas e arregimentando apoiadores. Primeiro, como prefeito de Pelotas. Depois, como governador em dois mandatos, um deles em curso. Com histórico assim, era natural que se fortificasse nele a antiga ambição de se tornar presidente do Brasil. Virou uma fixação.

Hegel escreveu que Napoleão encarnava o avanço da história. Para ele Napoleão encarnava a Anima Mundi (a “Alma do Mundo”) por levar em frente valores que “movem o mundo”. Já Leite se considerava (ra) ungido para “romper a polarização” e unificar os brasileiros.

Quando, apesar do 1% nas pesquisas, insistiu em se ver como o líder capaz de conduzir o Brasil a um tempo dourado de conciliação e progresso, ele acrescentou outra semelhança com o general francês — a determinação de não ceder a impeditivos formais que obstaculizassem sua pretensão.

Napoleão derrubou o diretório no golpe do 18 Brumário, após o qual foi nomeado Primeiro-Consul. Já Leite, se não chegou a derrubar ninguém, deu declarações que induziam à escolha do próprio nome a candidato do PSD ao Planalto, em clara campanha pessoal, avançando sobre os ritos deliberatórios e chegando a fustigar em público o companheiro Ronaldo Caiado, igualmente cotado para concorrer à presidência pelo PSD. Depois não se conformou ao ser preterido.

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Comunicada a predileção por Caiado, Leite não o cumprimentou, declarou-se “desencantado” e lamentou “a estratégia do partido”. Depois amenizou os próprios ardores e saudou o colega — por tardio, porém, não desanuviou o mal-estar causado por sua frustração.

O mesmo ocorrera em 2022, quando ainda estava no PSDB e foi derrotado por João Dória nas prévias ao Planalto. Inconformada, a ala de Leite questionou o resultado, alegando que “Dória tinha alta rejeição e não conseguia crescer nas pesquisas.” Essa reação abriu uma crise no partido, a ponto de Dória desistir do pleito.

Eduardo quer ser presidente. Neste 2026, como em 2022, faltou combinar com os russos.

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Brasil e mundo

A mistura de “arte” e poder

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Arte e política renderam um livro clássico. Publicado em 1936, e baseado em um caso real, o romance Mephisto, do alemão Klaus Mann, conta a história de um ator que adere ao Nazismo.

Determinado a ascender na carreira, ele abandona seus princípios morais e sua integridade como artista.

Muitos artistas recebem dinheiro de governos para realizar obras que agradam ao poder, em troca de benefícios semelhantes aos do personagem central de Mephisto. Mesmo que tenhamos afeição por eles, é aceitável que o façam?

Creio que a resposta seja óbvia. Não é aceitável. Por uma razão simples. Um artista que troca favores com um governo radicalmente ideologizado perde algo mais do que sua alma. Perde o respeito pelo público.

Como é subsidiado pelo poder, já não se importa nem mesmo com a qualidade do aplauso, porque está pago de antemão. Tendo ou não valor artístico, fracassando ou não na bilheteria, não importará.

Nós temos essa ideia romântica de que artistas são pessoas do “bem”. São e não são. Porque no fim, como todos, também eles precisam pagar as contas.

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O problema é quando quem paga a conta é o governo. Quando isso ocorre, a tendência é de que haja cooptação política do artista. Daí em diante suas obras continuarão a ser financiadas pelo Estado, mesmo que não agradem o público, como confessa a presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata de Almeida Magalhães (vídeo abaixo).

Agora relembro um caso que ocorreu a um artista do nosso tempo quando se “engajou”.

A comparação não é perfeita, já que ele se fez à custa do próprio talento. Mas serve como exemplo do equívoco do engajamento político, por uma razão que resume tudo: o engajamento empobrece o artista, por aquém da realidade, sempre mais complexa do que aquele pretende, levando a entendimentos falsos que podem se tornar frustrantes aos seguidores e até perigosos aos artistas.

Numa cena de documentário sobre John Lennon, o músico e Yoko Ono, de pijamas na cama de um quarto de hotel no Canadá, recebem artistas e simpatizantes para “um protesto pacífico e cantante em favor da paz no mundo”. Estava megalomaníaco.

Como os discos dos Beatles e dele próprio vendiam como coca-cola, nessa altura rico, além de casado com uma filha de banqueiro de Tóquio, podia bancar seus luxos e caprichos.

Entre outros visitantes, apareceu lá um cartunista: Al Capp, um homem mais velho, de uns 50 anos. Homem vivido, sem ilusões, com os pés plantados na realidade.

Capp questionou o ato político do casal, perguntando o que Lennon podia fazer pela paz mundial sentado numa cama. Lennon não gostou. Bateram boca.

Capp disse a Lennon que ele não lhe “fazia a cabeça”, que os artistas que admirava eram outros, e foi saindo, enquanto Lennon reclamava: “ele não deveria estar aqui”, e, debochando, cantarolava de improviso algo com o nome de Capp para desmerecê-lo.

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O cartunista reagiu: “Não deveria estar aqui, por quê? Você convidou a todos para vir. Sou seu convidado”.

A recusa do cartunista a embarcar na canoa de Lennon, como todas as recusas, me fez pensar. Mesmo que me desagrade, sempre penso que em toda recusa há algo que merece atenção. E havia.

Anos depois Lennon cantou “the dream is over”. Ao menos foi sincero. Enfim aceitara o que, sendo sensível como era, no fundo sempre soube, apenas não admitia. Que a paz é uma quimera.

Então um fã o esperou em frente de casa e o matou.

Foto devulgação/ Klaus Maria Brandauer fez o papel do ator que adere ao Nazismo na versão cinematográfica de Mephisto.

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Brasil e mundo

O filme mais humano e equilibrado sobre a ditadura no Brasil

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Dentre os filmes sobre o período da ditadura militar no Brasil, o de que gosto é O que é isso, companheiro?, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira. A obra concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, mas não ganhou.

Dirigido por Bruno Barreto, ele conta o que se passou nos quatro dias do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio. A ação, realizada por guerrilheiros, ocorreu em 4 de setembro de 1969 e terminou com a libertação de Elbrick, a fuga dos sequestradores e a sua captura por agentes da repressão.

Barreto narra a história com equilíbrio, sem tomar parte ideológica, situando os envolvidos nas circunstâncias da época, modelando para além do maniqueísmo mocinhos vs bandidos — inclusive porque os gurerrilheiros pertenciam a organizações que pretendiam implantar sua própria ditadura, como admitiu Gabeira.

Abalxo alguns exemplos do tratamento dado pelo diretor.

Numa das cenas, o embaixador acha que será morto e, assustado, defeca. Envergonhado, conta o que ocorreu. O guerrilheiro de vigília o guia pelo braço até o banheiro, para que se lave. Sozinho na privada, Elbrick chora. Não é a encarnação do demônio americano. É apenas um homem.

Noutra cena, um dos torturadores do regime, um sujeito com a mulher grávida, tem problemas de consciência e, sufocado pela culpa, confessa à mulher o que vem fazendo nos porões da ditadura. Ele se sente perturbado por torturar. Mas, sendo funcionário de estado, e preocupado em manter o emprego e a família, prestes a crescer, ele tortura (e se tortura por torturar).

Outro exemplo: no revezamento da vigília de Elbrick no cativeiro, os sequestradores entravam no quarto com um capuz parecido com máscaras antigas de Carnaval, com dois furos para os olhos. Máscaras escuras, de carrascos. No filme, o personagem de Gabeira, assim como outros, acha que Elbrick não merece reter a visão de um mascarado com o revólver pousado no regaço. Por isso oferece ao embaixador uns óculos com o espaço das lentes coberto com uma proteção preta. Pousado o apetrecho, este faz do cativo literalmente um cego. Gabeira vê Elbrick, que não pode identificá-lo, mas ao menos não é obrigado a olhar para um “monstro”. Esse tipo de elegância é talvez o máximo das possibilidades humanas, a coisa mais valiosa que se possa almejar entre as pessoas. Em situações de desvantagem alheia, tratar os outros com humanidade.

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Elbrick acabou libertado em troca da soltura de outros guerrilheiros. Ele falou bem dos sequestradores e o governo americano o levou de volta aos Estados Unidos e o aposentou. Preso, torturado e banido do país, Gabeira só voltaria ao Brasil nove anos depois, com a anistia. No retorno, foi deputado federal por três mandatos, cansou (concluiu que “não valia o esforço”) e voltou a ser jornalista. Em seus comentários na Globo, é hoje um velhinho simpático e tranquilo. Às vezes sua gata Renata atrapalha suas entradas ao vivo, caminhando em frente da câmera. Noutro dia, Renata o arranhou e ele a afastou com um safanão, um gesto instintivo de defesa.

Quando Gabeira ainda era deputado, a filha de Elbrick veio ao Brasil se encontrar com ele, querendo conhecer melhor o pai. Saber quem este foi nos dias em que esteve cativo. Amigavelmente, os dois conversaram.

Proibido pelo Departamento de Estado de entrar na América, Gabeira, embora tenha tentado, nunca pôde pisar nos Estados Unidos.

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Cultura

O agente secreto não mereceu o Oscar

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O agente secreto saiu da cerimônia do Oscar sem estatuetas. O filme tem algumas qualidades, sobretudo e sem súvida na formação de elenco. Mas não merecia ganhar Oscar.

Em 14 de janeiro passado, eu havia estranhado que tivesse ganhado até mesmo o Globo de Ouro de Melhor filme (veja aqui)

Na forma, filme como filme, me pareceu uma obra estranha.

Além do mais, filme engajado ideologicamente tende a perder complexidade humana, como ocorreu com O agente.

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Opinião

Prefeitura pelotense trabalha para “melhorar sua imagem”

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O governo Marroni, do PT, tem trabalhado neste momento para melhorar sua imagem, percebida internamente como “aquém de suas realizações”.

A ideia básica é a de que precisa melhorar sua comunicação com a sociedade a partir da busca de uma “identidade” — de uma marca que reflita a gestão e a expresse em sua máxima potencialidade.

A busca de uma marca para um produto é mais fácil, desde que esse seja percebido como um produto que valha a pena ser consumido.

Já encontrar uma marca para um governo é mais difícil porque um governo não é um produto. Depende de muitas variáveis, sobretudo de mentes pensantes e capazes, o que – pelas acomodações políticas em cargos – nem sempre ocorre.

Por experiência individual, minha percepção é de que o governo Marroni é composto em parte por secretários medrosos da imprensa, o que não ajuda na busca por uma imagem que seja “boa”. Como se, falando ao jornalista, fossem denunciar alguma debilidade para o cargo que ocupam.

Como se temessem ver exposta sua falta de domínio sobre as áreas pelas quais deveriam responder prontamente. O mesmo vale para a liderança do governo na Câmara. A impressão que fica é de que operam para esconder algo.

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Um governo composto por prossionais de qualidade ajudaria muito. Eu diria que isto seria o alicerce. Sem essa estrutura, será difícil melhorar a imagem. Mais do que imagem, melhorar um governo.

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Brasil e mundo

AINDA NÃO VI TUDO. Por Paulo Gastal Neto

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Paulo Gastal Neto*

Quem nunca ouviu a expressão: ainda não vi tudo. Ela nos remonta inúmeros períodos da vida em diversas situações. No Brasil ela se encaixa muito bem na política. As constantes trocas de partidos por parte dos políticos, a propagação de novas agremiações (já são 30 registrados do TSE), as surpreendentes nomeações de ministros, secretários e dirigentes de estatais ou autarquias feitas entre adversários ferrenhos que se abraçam; antigos inimigos em poses amistosas exibindo sorrisos falsos; cargos na pauta em troca de favores entre opostos, enfim uma gama de ainda não vi tudo” nos batem à porta diariamente. E tudo, verdade seja dita, nos três níveis de administração: municipal, estadual e federal.

Mas o “ainda não vi tudo” de hoje vai para o espetáculo caricato, bestial e talvez ofensivo a legislação eleitoral, assistido por milhões de brasileiros no carnaval deste ano: o samba enredo da Escola Acadêmicos de Niterói. Esse “ainda não vi tudo” supera – até o momento – qualquer outra passagem da política brasileira recente. Até então não tínhamos visto tamanha bajulação, manifestação de servilismo e imensa reunião de lacaios sambando ao som de um enredo que contou a trajetória do presidente brasileiro, possível candidato à reeleição em pleito que acontece, coincidentemente, este ano.

Segundo a sinopse do enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, cerca de 3.000 integrantes abordaram a infância pobre do presidente, chegando até a terceira eleição presidencial, com destaque para o período em que Lula foi líder sindical. O número 13, o do partido nos processos eleitorais, aparece no samba-enredo encomendado, dizendo que a viagem de Lula, sua mãe e os irmãos para São Paulo levou “13 noites e 13 dias”.

Quem assiste sem paixões à crise moral do STF, a financeira envolvendo o Banco Master e nomes proeminentes da Nação, o roubo aos velhinhos do INSS e agora o samba enredo da escola de Niterói, percebe facilmente que o Brasil assume publicamente que está vivendo um “vazio de referências”. E isso não é um fato novo, porém tem ganhado contornos dramáticos nos últimos anos, onde a estética individual do ser e a política se fundem em espetáculos patéticos que cruzam a linha do aceitável. As redes sociais escancaram isso de forma muito didática: políticos, parlamentares, detentores de cargos públicos, tornaram-se ‘palhaços’ da sociedade, perderam a sobriedade, a liturgia, a racionalidade em troca de uma animação patética que chega a ser constrangedora. Uma espécie de “vergonha alheia” colaborando sobremaneira para o nosso “ainda não vi tudo” diário.

O nosso país parece atravessar um período de anomia social, onde as regras e normas se desintegram, quase provocando uma falta de referência na ordem social. Quando as instituições — sejam elas políticas, jurídicas e até mesmo as culturais — deixam de ser vistas como bússolas, o resultado é quase um estado de perplexidade coletiva.

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O desfile da Acadêmicos de Niterói serve como um adicional a essa crise. O Carnaval sempre foi o espaço da transgressão, mas há uma diferença entre a sátira política saudável e o escárnio que fere a sensibilidade da população. Podemos ir além: a agressão se faz também aos meios que apoiam o presidente Lula: Os petistas aliados conscientes percebem que o radicalismo estético afasta a esquerda dos seus propósitos. O sentimento de “ataque à boa vontade do povo” surge quando o cidadão percebe que os recursos públicos estão sendo usados para ridicularizar suas crenças, inclusive a sua religião, ao invés de de elevar sua condição de vida. A verdadeira decadência não está apenas no ato em si, mas na indiferença dos políticos diante do constrangimento de quem realmente sustenta o país.

Um país que perde a capacidade de se indignar com a falta de ética, mas se exaure em brigas de narrativas, corre o risco de transformar a política em uma eterna “escola de samba” onde o enredo é a própria desconstrução da identidade nacional, tipo “ainda não vi tudo”!

*Radialista e editor do http://www.pelotas13horas.com.br

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