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Opinião

PARECE INACREDITÁVEL, E É…

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Atualizada às 18h57

A prefeitura informou hoje que vai contratar uma empresa para lhe dar “assessoria técnica, visando aprimorar o trabalho de zeladoria (limpeza, roçado e conservação)”, feito por outra empresa, a Sersul.

A nova empresa, diz a pref., produzirá “um mapeamento ‘minucioso’ das áreas onde os serviços de zeladoria são necessários, para orientar a Sersul”.

Menos mal que pretendem um mapeamento “minucioso” e não um mapeamento “por alto”, se não o caso seria ainda mais complicado.

De qualquer modo, não era para tanto.

Bastaria ao pessoal da pref., até mesmo ao prefeito, dar umas voltas de carro para identificar as áreas carentes de limpeza. Por sinal, que papel tem, afinal, a secretaria de serviços urbanos?

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Além disso, os gestores públicos acumulam conhecimentos dos temas da cidade e os transmitem em transições de governo.

Aquelas voltas de carro e esses conhecimentos resolveriam. E poupariam dinheiro público.

O Brasil está tão cheio desses absurdos, desses estranhos gastos, que já quase ninguém presta muita atenção.

PS: além do mais, é impossível medir áreas que necessitam de zeladoria, por meio de georeferenciamento (aferidas em imagens de satélite), como a prefeitura pretende. Será sempre um dado impreciso. Georeferenciar a cidade igualmente não faz sentido. Geograficamente, Pelotas não mudou como se quer fazer crer.

Pra que georefenciar o que já se sabe?

Jornalista. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar (finalista do Prêmio Açorianos/2026) e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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Opinião

Adeus aos amigos

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Em algum lugar li que a política mobiliza o que há de pior nas pessoas. Não é preciso ser um Leonardo de Vinci para constatar isso. Basta ir a uma simples reunião de condomínio, especialmente em dia de eleição de síndico, quando todas as fofocas e maledicências chegam ao cume e fazem você se lembrar da erupção do Krakatoa, em 1887.

Há esse lado terrível, em que as máscaras dão as caras. Mas, se houver senso de humor, ao menos no fórum predial podemos até achar tudo muito divertido, desde que a lava não nos leve ao hospital de queimados.

O problema é quando a discussão extrapola o edifício, onde a proximidade dos moradores exige trato às palavras, antes que a vizinha viúva de meia-idade se engalfinhe com o solteirão do segundo andar. Quando extrapola e alcança a política partidária, o confronto é certo, os dias se tornam rudes.

Nesta altura da minha vida, à reunião de condomínio eu só vou se a chaminé da churrasqueira estiver obstruída e eu precisar dela para o churrasco do meu aniversário. O mesmo digo da política partidária.

Agora eu só entro no debate se sentir que preciso, mesmo assim quase sempre em termos civilizados, pra tentar não perder a razão e não ficar escravo do ódio. Um artigo com uma pitada de ironia aqui, outra ali, e vamos tocando a vida.

Mesmo que eu não seja o ceguinho das esmolas, estou ficando velho para absorver certos comportamentos.

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Me faz mal, por exemplo, ver alguns de meus amigos de juventude, gente que admirava Truffaut e Morricone, agora declarando apoio a candidatos com um passado de fazer corar John Dillinger no Além. E mais: babando como dobermanns raivosos contra os oponentes do seu fofo bandido de estimação.

Onde foram parar a sensibilidade e o discernimento dos velhos tempos? Eles não são o Scooby-doo, mas vale perguntar: Cadê vocês?

Dizem que a polarização política afasta amigos e familiares. Pois ando achando que não é ela que afasta.

Venho achando que no fundo eu e aqueles meus amigos (e até familiares) nunca estivemos juntos de verdade, que nunca houve uma real afinidade entre nós. A radicalização nos posicionamentos apenas relevou diferenças pregressas.

Venho achando que, quando éramos jovens, próximos e felizes, o que nos unia não era mais do que uma cortina de fumaça para encobrir o medo de sermos sozinhos. Pois a passagem do tempo parece fazer isso: ela afasta as pessoas, às vezes para nunca mais. Vem acontecendo comigo, e é um tanto triste de perceber.

* Cena do filme Jules e Jim, de Truffaut

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Brasil e mundo

MORAES, A HYBRIS E O STF

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Medieval town crier holding a brass bell in a foggy village alley

Esta terça (15) tem tudo para ser um momento histórico. As pessoas que não perderam o bom-senso nem se deixaram levar por razões ideológicas entendem que Alexandre de Moraes precisa ser investigado. Ele abusou.

Ditadores são assim. Sempre chega o dia em que produzem ódio na população. Mesmo que não caia de seu poder, Moraes estará maculado para sempre.

Leprosos da Idade Média eram obrigados a portar sinos e tocá-los para avisar as pessoas de que estavam passando, para que pudessem saber e se afastar (imagem). Algo semelhante, com sinal inverso, ocorre com os ministros do STF, que já não podem sair à rua sem serem alvo de desprezo.

Os gregos tinham uma palavra para o que ocorreu e ocorre a Moraes e às demais figuras da república: hybris ou a arrogância quando transpõe os limites permitidos aos humanos. De repente ficou claro o que era evidente.

Há muitos anos, e mesmo fora do âmbito do inquérito das fake news, os abusos e contradições do STF eram claros. Uma hora formavam raciocínio para decidir uma questão, noutra hora, outro raciocínio para a mesma questão.

Se os ministros falharem, quem sabe, como compensação, algumas das garotas de programa não se apresentam para contar novidades. Ia ser divertido vê-las abrindo intimidades, sob os refletores de uma imprensa que de repente acordou de um sono que parecia o da Bela Adormecida, eterno.

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Brasil e mundo

A suruba de Vorcaro e as mulheres

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A revelação da festa patrocinada por Vorcaro, a que compareceram 120 garotas de programa e 20 autoridades masculinas da república, suscitou interpretações malandras e sagazes.

A mais tola, certamente destinada a eleitores carentes de neurônios, veio de uma candidata ao Senado aparentemente suscetível às causas das mulheres. Digo “aparentemente”, pois o argumento da postulante não para de pé. Nem mesmo de lado.

Ela se disse “escandalizada” com o que classifica de “engrenagem de poder que ‘explora’ sexualmente as mulheres”, e pergunta: “Que tipo de homens precisa participar de uma festa em que 120 mulheres (novinhas) estarão disponíveis para apenas 20 deles?”

É uma colocação estranha porque desconsidera o óbvio: o livre arbítrio das mulheres em questão. O tema das mulheres é sempre sensível, e com razão. Mas não se pode vitimizá-las pelos motivos errados, sobretudo quando elas não se consideram vítimas.

Mulheres adultas fazem o que querem com seus corpos (essa autonomia não é uma das lutas pelas quais a esquerda se bate?). Não é crime dispor do próprio corpo. E, como diria la belle de jour, ninguém tem nada que ver com isso.

Que tipo de homem precisa participar da festa? – a candidata pergunta. Ora, todo aquele que quiser e puder. De preferência sem recorrer ao patrocínio de um banqueiro corrupto, eis aqui o problema. Tirando isso, é viver e deixar viver, do mesmo modo que faz qualquer mulher quando contrata um amante de uma página de acompanhantes.

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A esquerda costuma torcer o nariz para a iniciativa privada. Com algum humor, poderiamos dizer que se trata disso, mas não é o caso. É puro cálculo eleitoral. Outra vez: cálculo intencionalmente burro, pra seduzir eleitores burros.

A mais inteligente observação sobre a suruba (palavra feia, mas clara) veio de um intelectual afiado, não lembro agora do nome.

Ele disse que a verdadeira prostituição foi dos homens públicos que participaram da festa, às custas do banqueiro corrupto. Eles é que se prostituíram. Devendo não se vender, se venderam.

Enquanto transavam, não faziam amor. Estupravam a república.

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Cultura

Farmando aura

Parece uma manifestação sem sentido, mas, no que é humano, por mais absurdo que soe, sentido sempre há. E não se restringe a uma faixa etária

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Ainda não entendi totalmente o que seja farmar aura. Sei é que deve ser grave, pois vem arrepiando os cabelos até de senhoras que os prendem com laquê.

Uma delas, com ares de professora aposentada, foi ao Instagram protestar contra a nova onda adolescente.

“Sinto vergonha alheia, VER-GO-NHA! Onde estão os pais? Que será do futuro dos nossos jovens?”

Enquanto falava, ela sacudia verticalmente a cabeça com tal veemência que seu topete armado subia e descia repetidamente. “Mas onde é que estamos?”

Até aqui o entendimento pleno do fenômeno de farmar aura é precipitado. Será preciso esperar um pouco mais.

Pelo que li ontem, seria um modo de adquirir reputação por meio de movimentos corporais repetitivos, alguns mais, outros menos criativos.

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Já hoje vi que tais movimentos não precisam ser convulsionados. Embora repetidos, podem incluir passos de capoeira, saltos ornamentais. Cada adolescente encontra sua própria forma de farmar sua aura. De firmar seu carisma.

Cada geração cria uma moda nova.

Nunca se sabe exatamente quando ela surge. Pode a pessoa que a criou nem se dar conta de que o fez. De repente alguém vê, percebe naquilo uma conexão emocional e a coisa explode.

Há mais ou menos um ano, muito antes da atual onda de farmar aura, vi nas redes um vídeo de um garoto oriental que pode, por que não, ter sido um estopim do farmar aura. Um sinal do que estava por vir. Em tempos virais, vai-se saber.

No que me pareceu uma rave, o garoto faz repetitivos e graciosos movimentos diante de uma garota mais alta e pouco mais velha do que ele. Está interessado nela, mas a garota se conserva imóvel, indiferente a ele. Mesmo assim o garoto prossegue em seus movimentos, seguro de impressionar. Do mesmo modo, agora, em geral são meninos que se movem para farmar aura.

Pois farmar aura pode ser, inclusive, isso: um tipo de dança, comum na natureza, em que o macho demonstra habilidades para seduzir a fêmea, como faz o pavão com suas trêmulas penas; agora, porém, com o sentido mais amplo de mostrar simbolicamente ao mundo — um mundo em que as oportunidades parecem raras para a maioria dos jovens — que eles “são alguém”. Que merecem atenção.

Parece uma manifestação sem sentido, mas, no que é humano, por mais absurdo que soe, sentido sempre há. E não se restringe a uma faixa etária.

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Se olharmos em volta, há gente de todas as idades farmando aura. Saltando de um pé pro outro, o candidato Flávio Bolsonaro, com sua dancinha nos comícios, farma aura.

De chapéu Panamá, andando de um lado pro outro e fazendo uso do automático discurso do “nós contra eles”, Lula insiste em farmar aura. Está meio cansativo, mas ele insiste. Trump, este é professor de farmar aura, e não só pela dancinha.

Até a professora citada, com sua indignação, farma aura, como atesta, subindo e descendo nervoso, seu duro topete repintado de louro.

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Cultura

DIA D, novo filme de Spielberg, emociona quando ‘mergulha no drama humano’

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Retornando a uma temática que rendeu filmes como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), E.T.: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005), o diretor Steven Spielberg retoma a parceria com o roteirista David Koepp, de Jurassic Park: Parque dos Dinossauros (1993), em uma trama de ficção científica e fantasia épica.

Ao longo de quase duas horas e meia, Dia D apresenta um especialista em segurança cibernética, Dr. Daniel Kellner (Josh O’Connor), que junto com colegas liderados pelo idealista Hugo Wakefield (Colman Domingo), roubou arquivos confidenciais do governo dos Estados Unidos para torná-los públicos, e uma meteorologista da TV, Margaret Fairchild (Emily Blunt), que descobrem uma conspiração do governo para encobrir evidências sobre a vida alienígena e seu contato com a humanidade. Eles partem em uma missão perigosa contra o líder corporativo Noah Scanlon (Colin Firth) para finalmente revelar as provas e a verdade para bilhões de pessoas.

Especialista em blockbusters, poucos diretores entendem a indústria cinematográfica de Hollywood como Steven Spielberg. Ao longo de sua inigualável carreira, uma das temáticas que mais lhe fascina é a do contato extraterrestre, entregando produções que se tornaram clássicos do cinema, mas também ajudando a moldar o imaginário sobre os alienígenas na cultura pop. Sua visão otimista retrata os alienígenas como pacíficos e não ameaças invasoras, com exceção de Guerra dos Mundos, onde reimaginou a clássica invasão alienígena do livro de H.G. Wells. Aqui, o cineasta reflete sobre teorias governamentais e a verdade sobre a vida extraterrestre. Aliás, Spielberg já revelou em entrevistas que acredita fortemente que a humanidade não está sozinha no universo.

Dia D é um filme que se pode dividir em duas partes. A primeira metade mostra uma trama misteriosa e arrastada, enquanto que a segunda é frenética, com muita ação e movimento, bem ao estilo do diretor. O roteiro escrito por Spielberg e Koepp passeia com facilidade por diferentes gêneros, como thriller de espionagem, ficção científica, suspense, ação, drama social e até comédia. O longa constrói um jogo de gato e rato cheio de tensão, mas, por vezes existe um excesso de informações e correria na narrativa, porém o diretor conduz tudo de forma dinâmica, desenvolvendo seus personagens durante uma corrida conta o tempo e entrando em profundos embates filosóficos, religiosos e morais.

Com a melhor atuação de sua carreira, Emily Blunt entrega uma atuação inspirada, guiada pela força do olhar (sempre fundamental e impactante na filmografia de Spielberg). Sua personagem serve como condutora dos mistérios e conspirações da trama ao lado do personagem de Josh O’Connor, o responsável por montar um quebra-cabeça que explica o propósito de seus personagens para o público enquanto eles abraçam a busca pela verdade. O’Connor faz um sólido trabalho, dividindo boa parte das cenas com os ótimos Colman Domingo e Eve Hewson. Como vilão, Colin Firth interpreta com uma dose certa de caricatura, representando uma das críticas mais diretas do filme sobre o vilão corporativo e a arrogância institucional.

Com uma amizade de 50 anos com Steven Spielberg e uma parceria que rendeu 30 filmes (é a colaboração mais duradoura e bem-sucedida da história do cinema), o compositor John Williams entrega uma trilha sonora grandiosa, apesar de contida, trazendo emoção na medida certa. Ao lado do diretor desde A Lista de Schindler (1993), a fotografia de Janusz Kaminski evidencia a luz que, como sempre no cinema de Spielberg, tem uma função quase espiritual. Ela atravessa janelas, invade corredores e pulsa em dispositivos alienígenas.

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No retorno ao gênero que o definiu como cineasta, Dia D traz Steven Spielberg de volta ao cinema de blockbuster, conduzindo como um maestro cenas de ação implacáveis e toda a tensão e suspense de conspirações e mistérios de ficção científica. Ao mesmo tempo, emociona quando mergulha no drama humano.

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Cultura

‘Sonhos de trem’ é um filme sensível e impactante. Por Déborrah Schmidt

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Robert Grainier (Joel Edgerton) é um lenhador que trabalha na construção de ferrovias no início do século XX nas florestas densas do oeste americano. Por conta do trabalho, ele passa longos períodos afastado de sua esposa, Gladys (Felicity Jones), e da filha recém-nascida. Após uma tragédia familiar, Grainier enfrenta a solidão e o luto e precisa se adaptar a esse novo ambiente.

Adaptação do livro de Denis Johnson, Sonhos de Trem tem o roteiro de Greg Kwedar e a direção de Clint Bentley. Ambos trabalharam juntos no ótimo Sing Sing (2023), porém em funções contrárias. O longa poderia facilmente apelar para a melancolia, mas prefere discutir temas delicados como memória, perda, passagem do tempo e a contemplação da vida de um homem marcado pela dor. Sonhos de Trem pode ser lento, mas é justamente nesse ritmo que ele encontra sua profundidade. E nos arrebata de forma surpreendente.

Entregando a melhor performance de sua carreira, Joel Edgerton está brilhante e completamente entregue à complexidade de seu personagem. Carregada de dor, arrependimento e solidão, sua atuação transmite muito dizendo pouco. Ainda em cena, ótimos coadjuvantes como a excelente Felicity Jones, como a amorosa esposa do protagonista, o cativante Arn Peeples, vivido por William H. Macy, e Kerry Condon, que mesmo com pouco tempo de tela oferece a ele a esperança que mais precisa, além da narração de Will Patton.

Simplesmente de tirar o fôlego, a fotografia do brasileiro Adolpho Veloso é poesia em forma de quadro. Cabines iluminadas à vela, florestas densas e noites profundas realçam a solidão e, somado a tudo isso, a trilha sonora de Bryce Dessner intensifica a emoção de cada cena.

Visualmente e emocionalmente deslumbrante, Sonhos de Trem é sensível e impactante. Disponível na Netflix, é, sem dúvidas, um dos filmes mais extraordinários do ano.

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Cultura

O melancólico e belíssimo Frankestein. Por Déborah Schmidt

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Com mais de 60 adaptações para o cinema, o clássico do terror de Mary Shelley ganha uma nova versão pela mente do brilhante Guillermo del Toro. Com uma assinatura narrativa conhecida pela mistura entre a fantasia e o terror, monstros humanizados e uma estética visual marcante, a paixão pelo gótico e pelo realismo fantástico permeiam as produções do diretor mexicano. Aliás, seu primeiro filme, Cronos (1992), é uma grande referência ao trabalho de Mary Shelley, em uma filmografia que ainda incluiu a obra-prima O Labirinto do Fauno (2006) e os vencedores do Oscar A Forma da Água (2017) e Pinóquio (2022).

Frankenstein acompanha o brilhante, mas egocêntrico cientista Victor Frankenstein (Oscar Isaac), que dá vida a uma criatura monstruosa (Jacob Elordi) em um experimento que acaba levando à destruição do criador e de sua trágica criação.

Del Toro divide a estrutura do filme em duas partes. Além de um prelúdio, temos pontos de vista completamente distintos entre o criador e a criatura e, com isso, Oscar Isaac e Jacob Elordi dividem o protagonismo de suas jornadas. É interessante notar que essa versão foge da história de horror e explora muito mais o drama emocional dos personagens, em temas como abandono, culpa e redenção. Se na obra original a criatura é violenta, aqui ela é retratada de forma mais empática, em uma mudança que impacta diretamente na narrativa e nos relacionamentos, como com Elizabeth (Mia Goth), a noiva do irmão mais novo de Victor. Ainda no elenco, vemos Heinrich Harlander (Christoph Waltz), um rico negociante de armas e patrono das artes que concorda em financiar os experimentos do Dr. Frankenstein. Em tempo: Mia Goth ainda é vista em cena com outra personagem, Claire Frankenstein, a falecida mãe do protagonista.

Tecnicamente grandioso, a caracterização do monstro também impressiona, principalmente por não trazer parafusos na cabeça e optar pelo realismo a partir da mistura de partes de corpos diferentes. Como sempre, sou suspeita para falar do magnífico Alexander Desplat. Sua trilha sonora é uma combinação de lirismo e emoção, transmitindo toda a beleza da tragédia criada por Mary Shelley.

Com 2 horas e meia de duração, a sensação que fica é que dava para encurtar a trama em, no mínimo, meia hora. É como se a paixão do cineasta pelo projeto o impedisse de cortar excessos desnecessários, que acabaram prejudicando o ritmo e tornando o filme cansativo em sua metade final.

Melancólico, o Frankenstein de Guillermo del Toro é belíssimo e, apesar de alguns deslizes, mergulha no universo do personagem pelo olhar de um dos grandes mestres do gênero.

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Cultura

O agente secreto é o grande filme brasileiro do ano e merece Oscar. Por Déborah Schmidt

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Ambientado no Brasil de 1977, O Agente Secreto apresenta Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia que foge de um passado violento e tenta recomeçar a vida em Recife, durante o Carnaval. No entanto, ele descobre que a capital pernambucana não é o refúgio que esperava e se torna alvo de uma perseguição, ao mesmo tempo em que tenta recuperar registros sobre a sua mãe e planeja reencontrar seu filho.

Em seu sexto longa, o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho continua abordando temas recorrentes em sua filmografia, como memória e identidade. Assim como em seu filme anterior, o ótimo documentário Retratos Fantasmas (2023), a sétima arte também é uma personagem à parte. Tendo o tradicional Cinema São Luiz como cenário, a produção ainda traz referências a clássicos do cinema, como Tubarão (1975) e A Profecia (1976).

A trama, dividida em capítulos, aborda assuntos como repressão, vigilância e a busca pela memória, além de fazer paralelos diretos e indiretos com o presente. Um exemplo disso é uma menção ao caso do menino Miguel, de 5 anos, que morreu ao cair do nono andar de um prédio de luxo em Recife em 2020. Como de costume, o cineasta explora com carinho a sua terra natal, trazendo elementos culturais e folclóricos, como a curiosa lenda da “perna cabeluda”. Um dos destaques do longa é justamente essa mistura entre o real e o absurdo, combinando questões que fazem parte da nossa sociedade em uma mistura de gêneros que vai do thriller político ao drama familiar, com doses de humor.

Com um roteiro excelente, Kleber Mendonça Filho enaltece o poder da memória ao evidenciar a importância da investigação e dos pesquisadores para que eventos e personagens, ainda que fictícios, não sejam esquecidos. Não posso deixar de mencionar a forma fantástica como o diretor homenageia a Recife dos anos 70, afinal, são poucos os cineastas atuais que conseguem trabalhar tão bem os espaços urbanos. Aqui, a cidade é uma obra viva, cheia de personalidade, histórias e folclores, tornando-se parte essencial da narrativa.

Com chances reais de uma indicação ao Oscar, o sempre versátil e talentoso Wagner Moura faz um ótimo trabalho ao criar um protagonista cativante, com uma presença em cena simplesmente magnética. Sua atuação é sutil, densa e cheia de nuances, marcada por silêncios, gestos contidos e olhares que prendem a atenção do espectador. Entretanto, quem rouba é cena é a brilhante Tânia Maria, atriz potiguar de 78 anos que interpreta Dona Sebastiana, que recebe Marcelo na cidade. Com um humor perspicaz, a personagem é autêntica e a responsável pelo toque de solidariedade e acolhimento na árdua trajetória do protagonista. Ainda no elenco, temos Maria Fernanda Cândido, Udo Kier, Gabriel Leone, Hermila Guedes, a atriz angolana Isabél Zuaa e Alice Carvalho.

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Tecnicamente perfeito, o filme capricha no visual setentista, recriado com equipamentos de câmera vintage e filmes fotográficos analógicos para recriar a estética da época. O primoroso design de produção de Thales Junqueira, parceiro de Mendonça Filho em Bacurau (2019) e Aquarius (2016), reconstrói a época nos mínimos detalhes. Parte fundamental da construção da trama, a trilha sonora é um retrato da cultura brasileira, com nomes como Waldik Soriano, Lula Côrtes & Zé Ramalho, Angela Maria, Orquestra Nelson Ferreira e a Banda de Pífanos de Caruaru, além de Chicago, com a belíssima “If You Leave Me Now”, Donna Summer e “Guerra e Pace, Pollo e Brace”, do maestro Ennio Morricone.

Mesmo com uma filmografia impecável, O Agente Secreto é, sem dúvidas, o grande filme da carreira de Kleber Mendonça Filho. Representante do Brasil no Oscar deste ano, O Agente Secreto recebeu dois prêmios no Festival de Cannes (ator e direção) e coloca Recife no centro de uma narrativa que combina suspense, drama e crítica social no Brasil dos anos 1970. Imperdível, um dos melhores do ano!

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Cultura

Escrever literatura é para os fortes

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Escrever um livro é relativamente fácil. Uma frase depois da outra, no caso da ficção algum enredo, e está feito. Promover uma sessão de autógrafos também é fácil. Uns poucos convidados aparecem para nos dar seu abraço e pegar autógrafo. Difícil é que leiam o livro e o comentem. Acontece, mas é raro, o que sempre deixa no ar uma sensação de vazio. De tempo gasto em um esforço inútil.

Já tive ilusões, depois perdi. Durante a escritura dos meus dois únicos livros (uma coletânea de contos, crônicas, reportagens e artigos e um só de crônicas), pensei sempre que seriam não mais que um retrato meu a ser lido pelos meus netos, se é que um dia serei avô. Ao rebaixar expectativas, eu me senti melhor, coerente. Tive sorte: do primeiro livro, os 100 exemplares impressos foram todos adquiridos por pessoas gentis. Espero que o tenham lido e que tenham gostado. Já o segundo, não fiz sessão de autógrafos e vendeu quase nada.

Para quem gosta de escrever, tem algum talento para a coisa (e não dispõe de vitrine em veículos de comunicação no mínimo estaduais – o que costuma ajudar o autor), está cada vez mais difícil gastar tempo escrevendo. É preciso ter escrito um livro realmente original e superior (e que venda) para que tenha alguma possibilidade de êxito que vá além das fronteiras locais, de um pequeno círculo de pessoas. E que extrapole as confrarias midiáticas que se incensam mutuamente. Por isso e outras coisas, com poucas exceções, me restringi a ler os autores do meu gosto, os que vieram antes, inclusive porque eles já disseram tudo.

Dentre meus grandes escritores preferidos, o que mais admiro é Truman Capote (foto), de quem li e reli tudo. Dele, o colega Norman Mailer disse: “É o melhor escritor da minha geração, o que escreve as melhores frases”. E olha que Mailer era um gênio. Uma das frases de Capote: “Ela vestia um terno preto com várias correntes de ouro no pescoço e nos pulsos; a boca também estava carregada de ouro, mais parecia um investimento financeiro do que uma arcada dentária”.

A quem não leu, recomendo dele o romance-reportagem A sangue frio (432 págs. Cia das Letras). TC transformou um crime banal ocorrido no Kansas numa tragédia grega. É magnificamente narrado, sombria e artisticamente falando, e fez de Capote um homem rico, embora a um custo alto. TC levou seis anos pesquisando e escrevendo A sangue, e, quando o terminou, descreveu seu estado de ânimo: “Estou com os nervos em frangalhos, tenso como nove pianos recém-afinados”. Outra boa frase… Seu biógrafo, Gerald Clarke, registrou: “Capote nunca se recuperou desse livro”. Ao atingir o ápice, só restava a queda. Ele seguiu escrevendo, mas não muito, e nunca mais repetiu o milagre.

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Eu me comparo com os grandes escritores (que pretensão) e me dou conta do óbvio: do quanto estou longe deles. Resta-me seguir humildemente me esforçando para que meu próximo trabalho tenha qualidade alta, se é que terei condições de fazê-lo. Já como leitor não tenho mais tempo pra gastar com um livro que não passe, digamos, de um bom presente de Natal para pessoas com problemas de insônia, como vi aos montes na feira do livro local, livros de autores que não entendem a diferença entre escrever, escrever bem e a verdadeira arte. Eu ‘sofro’ justamente por isso: porque sei a diferença.

* Caso alguém se interesse, há um filme sobre os seis anos em que Capote escreveu A sangue frio. Chama-se Capote, e o ator que o interpreta (Phillip Hoffman) ganhou Oscar pelo papel.

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Cultura

Casa de dinamite provoca mais do que explica. Por Débora Schmidt

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Casa de Dinamite marca o aguardado retorno da diretora Kathryn Bigelow após oito anos sem lançamentos. Primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção, por Guerra ao Terror (2008), a cineasta continua atenta às tensões do mundo contemporâneo.

O longa acompanha as reações do governo norte-americano após a iminência de um ataque por um míssil não identificado. A partir daí, inicia-se uma corrida contra o tempo para descobrir o responsável e decidir como responder. A trama não se preocupa em apontar culpados, mas em observar como o sistema reage diante do caos.

Em um tom quase documental, a narrativa segue três perspectivas diferentes diante da ameaça: a Sala de Situação, na figura da capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson), o comando militar, e por fim, a do próprio presidente (Idris Elba). A diretora consegue imprimir um senso de urgência palpável, principalmente no início, quando o filme mergulha na tensão dos profissionais que lidam com informações incompletas e decisões que podem mudar o destino de milhões de pessoas.

O roteiro de Noah Oppenheim utiliza muito bem o recurso da repetição de eventos sob diferentes pontos de vista, com detalhes e diálogos ganhando significado mais adiante, quando vistos por outro ângulo. O que torna o longa ainda mais interessante é o equilíbrio entre o realismo, como um thriller de ação, com reflexão política. De fato, o filme não busca conforto, e sim inquietação e, justamente, na recusa em apontar vilões. Embora países como Rússia, Coreia do Norte e China sejam citados, o filme não os transforma em antagonistas.

Com a competência de sempre, Rebecca Ferguson assume o protagonismo na primeira parte, sustentando o filme durante os momentos mais intensos, porém, à medida que o filme avança e muda de perspectiva, o impacto inicial diminui. A estrutura da narrativa é inteligente, mas inevitavelmente a primeira é a mais forte. Quando a narrativa passa para as demais camadas, o senso de novidade se perde, mesmo com ótimos atores como Tracy Letts e Jared Harris em cena.

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A câmera nervosa e a montagem acelerada de Kirk Baxter, vencedor do Oscar por A Rede Social (2011) e Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2012), reforçam ainda mais a urgência e a tensão do momento. Um cronômetro em tela que marca cerca de 19 minutos até o impacto da míssil, aumenta a sensação de desespero coletivo. A fotografia de Barry Ackroyd, colaborador frequente de Bigelow, ajuda a criar a sensação angustiante de um colapso interno.

O final abrupto e, certamente intencional, vai ser frustrante para a grande maioria dos espectadores que aguardavam uma conclusão mais clara.  Pode parecer contraditório que um filme que começa com uma energia explosiva e ritmo frenético termine de forma mais contemplativa. Pessoalmente, gostei da forma como o filme é encerrado, deixando o público com a sensação de urgência e impotência que construiu desde o início. Como disse anteriormente, não é um filme que busca o conforto.

Produção da Netflix, Casa de Dinamite é um filme que provoca mais do que explica, e que prova por que Kathryn Bigelow continua sendo uma das diretoras mais corajosas e relevantes de sua geração.

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