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Crônicas

Farmando aura

Parece uma manifestação sem sentido, mas, no que é humano, por mais absurdo que soe, sentido sempre há. E não se restringe a uma faixa etária

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Brightly colored peacock with elaborate tail feathers standing on a moss-covered branch in a glowing, enchanted forest at night.

Ainda não entendi totalmente o que seja farmar aura. Sei é que deve ser grave, pois vem arrepiando os cabelos até de senhoras que os prendem com laquê.

Com ares de professora aposentada, uma delas foi ao Instagram protestar contra a nova onda adolescente.

“Sinto vergonha alheia, VER-GO-NHA! Onde estão os pais? Que será do futuro dos nossos jovens?”

Enquanto falava, ela sacudia verticalmente a cabeça com tal veemência que seu topete armado subia e descia, subia e descia, repetidamente.

“Mas onde é que estamos?”

Até aqui o entendimento pleno do fenômeno de farmar aura é precipitado. Será preciso esperar um pouco mais.

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Pelo que li ontem, seria um modo de adquirir reputação por meio de movimentos corporais repetitivos, alguns mais, outros menos criativos.

Já hoje vi que tais movimentos não precisam ser convulsionados. Embora repetidos, podem incluir passos de capoeira, saltos ornamentais. Cada adolescente encontra sua própria forma de farmar sua aura. De firmar seu carisma.

Cada geração cria uma moda nova.

Nunca se sabe exatamente quando ela surge. Pode a pessoa que a criou nem se dar conta de que o fez. De repente alguém vê, percebe naquilo uma conexão emocional e a coisa explode.

Nunca se sabe exatamente onde surge uma moda. Pode a pessoa que a criou nem se dar conta de que o fez. De repente alguém vê, percebe naquilo uma conexão emocional e a coisa explode.

Há mais ou menos um ano, muito antes da atual onda de farmar aura, vi nas redes um vídeo de um garoto oriental que pode, por que não, ter sido o estopim do farmar aura. Em tempos virais, vai-se saber.

No que me pareceu uma rave, o garoto faz repetitivos e graciosos movimentos diante de uma garota mais alta e mais velha do que ele. A garota está parada, indiferente a ele. Mas o garoto prossegue em seus movimentos, seguro de seu objetivo de impressionar.

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Do mesmo modo, agora, em geral são meninos que se movem para farmar aura. Pois pode ser, inclusive, isso: um tipo de dança, comum na natureza, em que o macho demonstra habilidades para seduzir a fêmea, como faz o pavão com suas trêmulas penas; agora, porém, com o sentido mais amplo de mostrar ao mundo — um mundo em que as oportunidades parecem raras para a maioria dos jovens — que eles “são alguém”. Que merecem atenção.

Parece uma manifestação sem sentido, mas, no que é humano, por mais absurdo que soe, sentido sempre há. E não se restringe a uma faixa etária.

Se olharmos em volta, há gente de todas as idades tentando farmar aura. Saltando de um pé pro outro, o candidato Flávio Bolsonaro, com sua dancinha nos comícios, quer farmar aura.

De chapéu Panamá, andando de um lado pro outro e fazendo uso do automático discurso do “nós contra eles”, Lula continua tentando farmar aura. Está meio cansativo, mas ele teima em bater na mesma tecla. Trump, este é professor de farmar aura.

Até a professora citada, com sua tempestuosa indignação, farma aura, como atesta, subindo e descendo nervoso, seu topete repintado de louro.

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Jornalista. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar (finalista do Prêmio Açorianos/2026) e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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Crônicas

Descarte

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Às vezes tenho o impulso de desabarrotar meus armários, meu guarda-roupas. Enfim, abrir grandes áreas de respiro — livrar-me de tudo o que já não preciso, conservar comigo só os objetos essenciais. Sempre é uma batalha. No meu caso pelo menos, na hora do descarte, muitas vezes desisto de descartar. Ou então consigo descartar a metade, a outra metade fica para depois.

Os objetos pessoais mais difíceis de me desprender são certos filmes e livros, por uma razão moral. O dvd do filme Cinema Paradiso e o romance Sidarta, de Hesse, por exemplo. Lá atrás, quando eu tinha 20 e depois 30 anos, seus conteúdos me ajudaram quando precisei sentir que não estava sozinho em meus sentimentos.

Para ter ideia do quanto esses “objetos” foram importantes pra mim, quando me dispunha a emprestar o dvd do Paradiso para alguém ver, e a pessoa não se interessava, eu costumava pensar que ela era totalmente imbecil. Por isso, mesmo feitos um de plástico, outro de papel, e com seus conteúdos agora acessíveis em meio digital, lamentei antes de depositá-los na caixa para Doação.

Entretanto, enquanto descartava, notei que me custava desprender inclusive de guardados de uso utilitário. Coisas como um par de mocassins deformados pelo uso ou uma armação de óculos ressecada ou um reles peso de papel lascado. Objetos assim, enfurnados há anos, dos quais nem lembrava mais. Por que hesitei então?

Logo relembrei do óbvio: nada é tão desprovido que prescinda de significado. Cada coisa, mesmo a mais simples, reflete identificações guarnecidas pelo inconsciente, ativa recordações temporais e suscita lembranças produzidas pela imaginação.

Aquele mocassim Guido, do melhor fabricante argentino, eu o comprei numa viagem a Buenos Aires, logo após a Guerra das Malvinas, quando, aliás, o inverno era mais rigoroso do que agora. Aqueles óculos me foram presenteados pela minha ex-mulher, quando as coisas ainda iam bem entre nós: óculos de aros robustos da Company, uma firma carioca que não existe mais. Já aquele peso de papel, por incrível que pareça, eu o achei na rua, peso da cor azul. Pousado em minha antiga mesa de trabalho de mármore branco, ele parecia um pequeno lago gelado.

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Entre hesitações segui com meu descarte. De 22 pares de sapatos, restaram comigo cerca de dez; na verdade, onze, pois desisti de doar um. Sigo gostando de mocassins, mas não devo mais usar sapatos de saltos baixos, não por tantas horas, muito menos em percursos maiores. Por recomendação médica, entrei na fase de usar tênis (um só) com macias entressolas espessas, o que não é ruim. Além de aliviar a pressão dos passos em minha coluna, eles me fazem cerca de cinco centímetros mais alto, o que mal nenhum tem feito. Ao contrário.

Ultimamente voltei ao descarte de objetos, porém não meus. Descarte de herdados de meus pais, escolhas deles. Há dois meses, após a morte do meu pai, precisei enfrentar esse momento.

Depois de reter comigo alguns itens de valor monetário e emocional, eu me vi diante de restos sem serventia, porém gravados na memória desde a infância. Alguns móveis arruinados, tapetes de tão gastos que seus motivos apagaram, biscuits rachados, tralhas há muito refugadas para um pequeno depósito nos fundos da casa. Uma destruída gaiolinha enferrujada, com passarinhos de mentira, se demorou um tempo maior em minhas mãos. Mas fui em frente.

Despejei tudo em um container, sentindo um misto de derrota, alívio, culpa, tristeza e traição. A cada despejo eu me vi despojando até mesmo da sensação de pertencer a uma linhagem familiar, solto no ar como uma pipa de fio partido.

Para o velório do meu pai, eu o vesti com meu melhor e único terno, meu melhor sapato, minhas melhores camisa e gravata, e, durante a cerimônia, flagrei-me magnetizado pela visão dos pés dele — os sapatos, a presilha de fivela e a lingueta do pé direito ligeiramente torta — com a impressão de que no caixão ele era eu e de que eu era ele. Ainda agora, em momentos inesperados, essa visão me volta. Ele era um homem de bom gosto, e eu quis honrá-lo em sua última viagem.

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