Dois dedos de prosa sobre virologia e infecções. Por Renata Kotscho Velloso

Renata Kotscho Velloso, médica

Vírus é um bicho traiçoeiro. Na verdade a gente nem sabe se vírus é um “bicho” ou uma “coisa”. Isso porque, vírus não “vive” muito tempo fora de uma célula que não é dele, ele precisa “roubar” a célula de outro ser vivo para crescer e multiplicar.

O problema é que daí vem a força do vírus. Como ele vive dentro das nossas células é difícil matá-lo, sem nos matar junto.

Renata: “Fique em casa, se cuide e não dissemine notícias falsas”

Os antibióticos, que combatem essencialmente as bactérias, têm como alvo características das bactérias que são exclusivas delas, e que diferenciam as células bacterianas, das humanas. Os primeiros antibióticos que foram descobertos, como por exemplo a penicilina, tem como alvo a parede celular das bactérias, algo que as nossas células humanas não possuem.

Pois bem, vírus não é assim, porque ele “mora” dentro das nossas células.

Nosso organismo tem várias células de defesa, como os glóbulos brancos. Mas eles, em geral, só combatem células “estrangeiras”. Felizmente, temos também outros tipos de célula de defesa, como as chamadas “Natural Killers”, ou NKs, que são as minhas favoritas. São elas que combatem células cancerígenas ou infectadas por vírus.

Funciona mais ou menos assim, para ilustrar, não levem ao pé da letra, por favor. A célula NK bate na porta de outra célula e pede uma senha, se essa célula não apresenta um DNA igual ao seu, a célula NK tenta matá-la.

É devido ao trabalho delas que humanos (como eu, ou você) destruímos todos os dias células esquisitas que poderiam virar cancers, ou células infectadas por vírus.

Faça a sua parte. Fique em casa, se cuide e não dissemine notícias falsas

O problema, ou a doença, acontece quando as células infectadas com vírus, ou com câncer, crescem numa velocidade muito maior do que o nosso sistema de defesa consegue combater.

É por isso que, muito mais do que os antibióticos, as vacinas são a mais importante descoberta da medicina de todos os tempos (e eu espero realmente que essa desgraça toda tenha pelo menos o benefício de nos mostrar a importância delas). Porque elas criam anticorpos contra vírus quando eles estão fora das nossas células, e não tem muito outro jeito deles morrerem.

O remédio contra malária, que estão testando contra o coronavírus, pode ser eficiente, porque a malária, apesar de ser causada por um protozoário, o plasmódio, é um bicho que também se reproduz dentro das células humanas.

Só que, como a malária é uma “doença de país pobre”, ninguém dá muita atenção para ela, nem faz muita pesquisa. Por isso, o tratamento não só não é 100% eficaz, como causa muitos efeitos colaterais (meio parecido como uma quimioterapia, por assim dizer). Não dá pra ficar usando como se fosse xarope para tosse. Percebem? É muito arriscado, tóxico, pode matar ou deixar sequelas se usado de maneira incorreta.

Então, apesar de promissores, os estudos com medicação antimalárica para tratar o coronavírus são muito preliminares e precisam de mais dados. É uma esperança (que bom!!) mas nada mais do que isso.

Se fosse fácil fazer remédio ou vacina contra Corona, já teríamos exterminado outros vírus que estão aí faz tempo, como o HIV ou a Dengue.

Não é simples. Não tem cura milagrosa.

Por isso, a nossa maior arma no momento é diminuir a velocidade de transmissão da infecção para que as pessoas que ficarem doentes possam ter tratamento digno nos hospitais e, com isso, maiores chances de sobreviver.

Faça a sua parte. Fique em casa, se cuide e não dissemine notícias falsas.

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