Connect with us

Crônicas

Envelhecer

Publicado

on

Uma coisa que vem com a idade é o sentimento de compaixão. Pelos outros e por nós mesmos. De repente, nós nos encaramos no espelho por uma fração de tempo maior do que a habitual ou deparamos com alguém tentando atravessar a rua com passos claudicantes e sentimos a agulhada.

Tantas lutas travamos na nossa vida. Tantas vezes nos esforçamos para ter razão, e fizemos valê-la para nos levantar, e, no entanto, uma hora a piedade nos alcança. O desejo de baixar a guarda aparece. Sim, nós tínhamos razão em nossas lutas. Ocorre que, em dado momento, abdicamos de tê-la. Já não fazemos questão de “corrigir” a vida. Vamos ficando com o melhor das pessoas.

Dizem que a idade chega pelas pernas. Isso é adiante, nos últimos metros. A idade chega antes, com os arrependimentos. Chega quando as noites de sexta e de sábado já não são as mesmas. Quando os amigos vão se tornando restritos. Quando, tendo o que falar numa discussão, em vez disso, preferimos o silêncio. E se instala quando uma pequena bondade nos comove. Quando, enfim, uma piedade qualquer de nós mesmos e de outros passamos a sentir.

Já nossa morte, se temos a excêntrica ideia de imaginá-la, parece-nos uma ocorrência absurda, irreal. No entanto, um dia um estranho nos preparará, inanimados, para o nosso último evento social antes de desaparecermos para sempre. Eis um assunto aborrecido. Porém, não tão aborrecido como quando a síndica bate na nossa porta no fim de semana, escoltada por um pedreiro, para informar da urgência de consertar um vazamento na nossa unidade.

Que Deus me perdoe por dizer, mas a morte física, em comparação a outras mortes, não soa tão ruim. Ao menos nunca se viu ninguém pedindo para voltar. Duras são as humilhações dos que têm a sorte de envelhecer. É aí que o bicho pega, antes que os demais – que Deus me perdoe de novo – completem o serviço. Se até então a pessoa não aprendeu o que é um ser humano, daí em diante, com fartura de provas, aprenderá. Para não esquecer nem no Alzheimer.

Da nova edição do livro Onde tudo isso vai parar, finalista do Prêmio Açorianos. Publicado pela editora Bestiário/Lumina, de Porto Alegre.

Publicidade

Jornalista. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar (finalista do Prêmio Açorianos/2026) e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

Publicidade
Clique para comentar

Crônicas

Descarte

Publicado

on

Há cerca de um ano, de repente, senti o impulso de desabarrotar meus armários, meu guarda-roupas e meu campo de visão. Livrar-me de tudo o que já não precisava, conservar comigo só os objetos essenciais, abrir grandes áreas de respiro. Foi uma luta.

Em 90% dos casos a decisão de descartar prevaleceu. Porém, na hora do descarte, muitas vezes a mente ordenava uma coisa, o coração, outra. A mente queria se ver livre, o coração, não.

Os objetos pessoais mais difíceis de me desprender foram certos filmes e livros, por uma razão moral. O dvd do filme Cinema Paradiso e o romance Sidarta, de Hesse, por exemplo. Lá atrás, quando eu tinha 20 e depois 30 anos, seus conteúdos me ajudaram quando precisei sentir que não estava sozinho em meus sentimentos.

Para ter ideia do quanto esses “objetos” foram importantes pra mim, quando me dispunha a emprestar o dvd do Paradiso para alguém ver, e a pessoa não se interessava, eu costumava pensar que ela era totalmente imbecil. Por isso, mesmo feitos um de plástico, outro de papel, e com seus conteúdos agora acessíveis em meio digital, lamentei antes de depositá-los na caixa para Doação.

Entretanto, enquanto descartava, notei que me custava desprender inclusive de guardados de uso utilitário. Coisas como um par de mocassins deformados pelo uso ou uma armação de óculos ressecada ou um reles peso de papel lascado. Objetos assim, enfurnados há anos, dos quais nem lembrava mais. Por que hesitei então?

Logo relembrei do óbvio: nada é tão desprovido que prescinda de significado. Cada coisa, mesmo a mais simples, reflete identificações guarnecidas pelo inconsciente, ativa recordações temporais e suscita lembranças produzidas pela imaginação.

Publicidade

Aquele mocassim Guido, do melhor fabricante argentino, eu o comprei numa viagem a Buenos Aires, logo após a Guerra das Malvinas, quando, aliás, o inverno era mais rigoroso do que agora. Aqueles óculos me foram presenteados pela minha ex-mulher, quando as coisas ainda iam bem entre nós: óculos de aros robustos da Company, uma firma carioca que não existe mais. Já aquele peso de papel, por incrível que pareça, eu o achei na rua, peso da cor azul. Pousado em minha antiga mesa de trabalho de mármore branco, ele parecia um pequeno lago gelado.

Entre hesitações segui com meu descarte. De 22 pares de sapatos, restaram comigo cerca de dez; na verdade, onze, pois desisti de doar um. Sigo gostando de mocassins, mas não devo mais usar sapatos de saltos baixos, não por tantas horas, muito menos em percursos maiores. Por recomendação médica, entrei na fase de usar tênis (um só) com macias entressolas espessas, o que não é ruim. Além de aliviar a pressão dos passos em minha coluna, eles me fazem cerca de cinco centímetros mais alto, o que mal nenhum tem feito. Ao contrário.

Ultimamente voltei ao descarte de objetos, porém não meus. Descarte de herdados de meus pais, escolhas deles. Há dois meses, após a morte do meu pai, precisei enfrentar esse momento.

Depois de reter comigo alguns itens de valor monetário e emocional, eu me vi diante de restos sem serventia, porém gravados na memória desde a infância. Alguns móveis arruinados, tapetes de tão gastos que seus motivos apagaram, biscuits rachados, tralhas há muito refugadas para um pequeno depósito nos fundos da casa. Uma destruída gaiolinha enferrujada, com passarinhos de mentira, se demorou um tempo maior em minhas mãos. Mas fui em frente.

Despejei tudo em um container, sentindo um misto de derrota, alívio, culpa, tristeza e traição. A cada despejo eu me vi despojando até mesmo da sensação de pertencer a uma linhagem familiar, solto no ar como uma pipa de fio partido.

Para o velório do meu pai, eu o vesti com meu melhor e único terno, meu melhor sapato, minhas melhores camisa e gravata, e, durante a cerimônia, flagrei-me magnetizado pela visão dos pés dele — os sapatos, a presilha de fivela e a lingueta do pé direito ligeiramente torta — com a impressão de que no caixão ele era eu e de que eu era ele. Ainda agora, em momentos inesperados, essa visão me volta. Ele era um homem de bom gosto, e eu quis honrá-lo em sua última viagem.

Publicidade
Continue Reading

Em alta

Descubra mais sobre Amigos de Pelotas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading