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Opinião

A pensão do ex-governador e o Anel de Giges

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A história da pensão de ex-governador a Eduardo Leite, sendo paga sem que a decisão de pagar tivesse sido publicada no Diário Oficial do Estado, lembra uma história do livro A República, de Platão: a história do Anel de Giges.

Um homem (Giges) encontra em uma fenda na terra, aberta após um terremoto, um anel. Giges põe o anel e, como efeito, torna-se invisível. Ele era um pastor pobre. Com o anel no dedo, agora invisível, ele entra no castelo, seduz a rainha, trama com ela a deposição do rei e assume o lugar deste. Platão procura pensar na seguinte questão: Se pudesse ser invisível, o homem seria justo? Ou o homem aparenta ser justo porque é visível?

No século XX, cientistas analisaram duas experiências, que se relacionam com o Anel de Giges.

Na primeira experiência, instalaram, em uma sala, uma geladeira contendo garrafas de água. Quem a bebesse, deveria marcar o consumo da vez em um caderno. Os cientistas constataram que, quando havia outras pessoas na sala, quem se servia da água anotava o consumo. A sala tinha um espelho, colocado para testar o comportamento da pessoa quando estivesse sozinha: vendo-se refletida no espelho, a pessoa também anotava seu consumo (sentindo-se vigiada, mesmo que visualmente por si mesma, a pessoa se sentia compelida a anotar o consumo). Numa etapa final, agora sem o espelho na sala, a pessoa sozinha não anotava o consumo.

Na segunda experiência, analisaram o comportamento de uma colônia de morcegos. À noite, eles deixavam a caverna para se alimentar do sangue de animais. O fato de que nem todos conseguiam obter sangue colocava um problema. Então, os morcegos que o haviam conseguido regurgitavam um pouco do sangue na boca dos que não tinham conseguido, obedecendo a seguinte ordem de prioridade: primeiro, movidos pelo nepotismo, depois, pelo altruísmo.

As primeiras bocas em que regurgitavam eram dos parentes genéticos, começando pelos morceguinhos-filhos, para garantir a perpetuação da linhagem. Os segundos a receber sangue regurgitado, depois dos parentes, eram morcegos de outras linhagens que, em outras ocasiões, os haviam suprido quando eles não haviam conseguido o alimento. Os cientistas notaram que o altruísmo aparecia como retribuição, destinado a ampliar as possibilidades de sobrevivência da própria linhagem.

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Por fim, perceberam que havia morcegos que paravam de obter sangue, apenas o recebiam, cessando a retribuição. Morcegos trapaceiros. Flagrados, estes despertavam a antipatia da colônia, uma reação transmitida em séculos de evolução biológica, equivalente, nos humanos, a sentimentos de raiva contra quem deixa de pensar no coletivo e passa a pensar só em si.

Cientistas acreditam que sentimentos morais como raiva, repulsa, gratidão, lealdade evoluíram junto do altruísmo recíproco. Quando o morcego na sua vez não retribui o alimento, os outros morcegos registram em sua memória e o excluem de futuras trocas.

Não se sabe por quê a decisão de pagar pensão ao ex-governador não foi dada a conhecimento público no Diário Oficial. Mesmo que tenha sido um esquecimento, o efeito foi ruim. Enquanto a pensão ficou invisível, a boa imagem do pensionista esteve preservada. Ao ser descoberta, vem, compreensivelmente, provocando reações ainda mais negativas do que o pagamento de pensão por si só causaria.

Como não foi comunicada, mas sim descoberta, os gaúchos podem se perguntar: Eduardo Leite usou o anel de Giges outras vezes? Como o morcego do experimento, é um trapaceiro? Em vez de ser altruísta, ele apenas finge altruísmo? São questões que, na circunstância em que os fatos se deram, surgem naturalmente na cabeça do eleitor.

Raiva é justamente o sentimento que domina os comentários nas redes sociais sobre a pensão de Eduardo Leite. Nesse momento, boa parte dos eleitores estão com raiva porque sentem-se trapaceados. Pensam que Eduardo Leite não é um político tão preocupado com o bem-estar dos gaúchos; que apenas finge ser.

A pergunta na cabeça dos gaúchos é: Eduardo Leite usou o anel de Giges outras vezes?

* No filme O Senhor dos Anéis (foto), há referências ao Anel de Giges. Ao colocar os anéis, personagens ficam invisíveis.

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Jornalista. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar (finalista do Prêmio Açorianos/2026) e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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1 Comment

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  1. Gerson Schulz

    26/06/22 at 22:58

    Parabéns pelo ótimo texto. Sou professor de filosofia e um cotidianista, e seu texto conseguiu realizar aquilo que eu defendo: a relação da filosofia com o cotidiano. Excelente análise.

Opinião

PARECE INACREDITÁVEL, E É…

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Atualizada às 18h57

A prefeitura informou hoje que vai contratar uma empresa para lhe dar “assessoria técnica, visando aprimorar o trabalho de zeladoria (limpeza, roçado e conservação)”, feito por outra empresa, a Sersul.

A nova empresa, diz a pref., produzirá “um mapeamento ‘minucioso’ das áreas onde os serviços de zeladoria são necessários, para orientar a Sersul”.

Menos mal que pretendem um mapeamento “minucioso” e não um mapeamento “por alto”, se não o caso seria ainda mais complicado.

De qualquer modo, não era para tanto.

Bastaria ao pessoal da pref., até mesmo ao prefeito, dar umas voltas de carro para identificar as áreas carentes de limpeza. Por sinal, que papel tem, afinal, a secretaria de serviços urbanos?

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Além disso, os gestores públicos acumulam conhecimentos dos temas da cidade e os transmitem em transições de governo.

Aquelas voltas de carro e esses conhecimentos resolveriam. E poupariam dinheiro público.

O Brasil está tão cheio desses absurdos, desses estranhos gastos, que já quase ninguém presta muita atenção.

PS: além do mais, é impossível medir áreas que necessitam de zeladoria, por meio de georeferenciamento (aferidas em imagens de satélite), como a prefeitura pretende. Será sempre um dado impreciso. Georeferenciar a cidade igualmente não faz sentido. Geograficamente, Pelotas não mudou como se quer fazer crer.

Pra que georefenciar o que já se sabe?

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Cultura

“A Odisseia é um espetáculo cinematográfico como raras vezes vi”

Ao adaptar uma das maiores histórias de todos os tempos para o cinema, Christopher Nolan encontra equilíbrio entre o respeito à obra original e sua identidade como realizador

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O diretor Christopher Nolan adapta uma das histórias mais antigas da literatura ocidental, o poema épico da Grécia Antiga A Odisseia, de Homero. A trama acompanha Odisseu (Matt Damon), rei de Ítaca, em sua longa e perigosa jornada de volta para casa após o fim da Guerra de Troia. Ao longo de dez anos, o herói enfrenta criaturas mitológicas, deuses e inúmeros desafios enquanto tenta reencontrar sua esposa, Penélope (Anne Hathaway) e seu filho, Telêmaco (Tom Holland).

Filmado inteiramente com câmeras de película IMAX de 70mm, Nolan aposta na grandiosidade e no impacto visual e sonoro de A Odisseia. Além disso, a produção evitou o uso de computação gráfica e usou efeitos práticos, com bonecos gigantes, robôs animatrônicos, truques de perspectiva e locações reais distribuídas em seis países. Ou seja, o longa é, literalmente, impressionante.

Ainda que Odisseu enfrente a força da natureza e de criaturas mitológicas, é no fator humano que está o seu grande conflito. Os anos longe de casa tornaram o herói perdido, confuso em seus propósitos e sem saber como voltar para casa não só física, mas também mentalmente. Como de costume em sua filmografia, Christopher Nolan utiliza uma linha do tempo que viaja entre o presente e o passado a fim de amarrar uma narrativa não-linear. A montagem de Jennifer Lame, parceira do diretor desde Tenet (2020) e vencedora do Oscar por Oppenheimer (2023), aposta nas lembranças fragmentadas do protagonista.

Com quase 3 horas de duração, o aspecto mais interessante da adaptação está na forma como ela retrata a Guerra de Troia. Em vez de funcionar apenas como um ponto de partida da narrativa, o conflito permanece presente durante toda a jornada por meio das lembranças de Odisseu. É como se, para Odisseu, o conflito nunca terminou de fato. É uma reflexão poderosa, onde a trama utiliza Troia como uma ruptura definitiva na vida de seu protagonista, que regressa carregando cicatrizes invisíveis, assombrado pelas perdas e pelas decisões tomadas durante a guerra.

O elenco é, sem dúvidas, um dos grandes triunfos da produção. Cercado por algumas das maiores estrelas do cinema atual e vencedores do Oscar, onde cada ator compreende a dimensão de seu papel, sem abrir mão da emoção. Matt Damon faz um sólido trabalho como o protagonista, em dos melhores trabalhos de sua carreira e que deve garantir sua quarta indicação ao Oscar como ator, expressando toda a complexa gama de sentimentos de Odisseu.

Em uma potente performance, Anne Hathaway lida com a solidão de Penélope e o conflito de se manter fiel e esperançosa ou seguir em frente. Tom Holland e Robert Pattinson ganham destaque explorando os embates entre Telêmaco e Antínoo, com Pattinson em mais uma ótima atuação como o ambicioso e perigoso antagonista. Entre as melhores atuações do filme, destaco John Leguizamo, no retrato de resiliência e fé de Eumeu, o fiel criador de porcos de Odisseu e, especialmente, Samantha Morton, que dá vida à poderosa feiticeira Circe. Em uma marcante sequência, a atriz interpreta a feiticeira sem recorrer a trejeitos exagerados ou grandes demonstrações de poder.

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Não é surpresa nenhuma que A Odisseia é tecnicamente perfeito. A sensação que temos não é de apenas assistir à jornada de Odisseu, mas sim de embarcar nela junto com ele. A fotografia fria e melancólica assinada por Hoyte van Hoytema, colaborador de longa data de Nolan, torna-se ainda mais espetacular ao alcançar o feito inédito de gravar o longa-metragem inteiramente em câmeras IMAX, superando desafios como o peso e o barulho dos equipamentos, a curta autonomia de cada rolo de película e a logística de transporte. A imponente e poética trilha sonora de Ludwig Göransson, rumo ao seu quarto Oscar, evitou o uso de uma orquestra clássica. A equipe estudou a sonoridade da época e usou instrumentos reconstruídos da Grécia Antiga.

Ao adaptar uma das maiores histórias de todos os tempos para o cinema, Christopher Nolan encontra equilíbrio entre o respeito à obra original e sua identidade como realizador. A Odisseia é um espetáculo cinematográfico como raras vezes vi, e recomendo que assistam na maior tela possível. Mas, assistam!

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Brasil e mundo

Musk e suas previsões de um mundo novo em 10 anos

Nesse mundo novo, estamos sendo obrigados a inventar necessidades pra justificar o nosso trabalho. Mais ou menos como o barman que faz malabarismo com os copos pra se diferenciar

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Man in navy blazer holding a black mug at a wooden desk with a model rocket and TESLA sign in the background

Em entrevista, Elon Musk previu que, em dez anos, o trabalho humano será opcional, o dinheiro perderá relevância e a inteligência artificial criará uma era de abundância total.

“Robôs e sistemas inteligentes produzirão bens e serviços de forma tão rápida que o trabalho passará a ser uma escolha pessoal. Guardar dinheiro para o futuro deixará de fazer sentido prático, pois haverá acesso facilitado a recursos”. 

Talvez as previsões do americano não se confirmem em 10 anos, mas os sinais indicam que caminhamos naquele sentido. Já hoje o mundo tem parecido uma grande confusão.

É difícil decifrar o tempo vivendo nele, mas essa sensação tem a ver com o aumento da produtividade. Em séries antigas de tevê, como Jornada nas Estrelas e Perdidos no Espaço, os personagens não fazem trabalho braçal. Máquinas e robôs fazem tudo. É o que está acontecendo.

Nos últimos 10, 15 anos, a produtividade acelerou muito, assim como o desemprego. Tudo agora é virtual, no celular. Os bancos, os escritórios, dois exemplos, não têm mais quase funcionários.

A gente sabia que ia acontecer, como sabe que, logo ali, não se vai mais usar m gota de gasolina para mover veículos. De uma hora pra outra a mudança vem, o mundo vira do avesso e revoluciona a vida das pessoas.

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Antes a economia era estável, por quê? Porque tudo era essencial. Hoje, com a produtividade alta, a maioria das coisas deixou de ser essencial.

Agora compramos uma caneta por achá-la bonita, não porque precisamos dela. Roupas, a mesma coisa. Muitas coisas estão assim. Carros, tendo transporte de aplicativo, pra que comprar?

Quando há uma crise, a economia tranca porque 95% das coisas que compramos foi porque nos convenceram a comprar. Não são necessárias, e, ainda mais depois da pandemia, nos demos conta de que passamos muito bem sem elas.

Nesse mundo novo, estamos sendo obrigados a inventar necessidades pra justificar o nosso trabalho. Mais ou menos como o barman que faz malabarismo com os copos pra se diferenciar.

Se a economia tranca e resolvemos economizar, só compramos comida e água; é o que todo mundo faz. Então, a economia tem que ser muito mais bem administrada, para não ter esses solavancos.

Tudo mudou, e isso ficou mais claro nos últimos cinco anos. É como a água que vai batendo num castelo de areia, numa hora ele cai.

Nos próximos anos, vão ocorrer mais modificações.

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Estão tentando obter energia por fusão nuclear. Já estão conseguindo, falta controlar a reação, para poder concentrá-la.

Uma quantidade mínima de hidrogênio, elemento mais abundante no universo, se transforma numa quantidade colossal de energia, e limpa. Assim, uma pequena usina — instalada digamos em São Paulo — poderá fornecer energia para grandes regiões.

Quando controlarem o H, vão acabar as hidrelétricas, acabar a extração do petróleo para uso combustível. Petróleo poderá ser usado ainda, mas na petroquímica (nylon, plástico etc.).

Já estão fabricando em laboratório até alimentos ricos em proteína como substitutos da carne, e mais baratos. Daqui 20, 30 anos, áreas onde hoje se planta e há gado vão ficar pra vida selvagem. Vastas áreas serão devolvidas à natureza.

Outra coisa que vai evoluir, ainda mais, é a IA, ela sabe tudo. Pergunte à Alexa. Ela te responde tão rápido, que nem precisa pensar.

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Cultura

Farmando aura

Parece uma manifestação sem sentido, mas, no que é humano, por mais absurdo que soe, sentido sempre há. E não se restringe a uma faixa etária

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Ainda não entendi totalmente o que seja farmar aura. Sei é que deve ser grave, pois vem arrepiando os cabelos até de senhoras que os prendem com laquê.

Com ares de professora aposentada, uma delas foi ao Instagram protestar contra a nova onda adolescente.

“Sinto vergonha alheia, VER-GO-NHA! Onde estão os pais? Que será do futuro dos nossos jovens?”

Enquanto falava, ela sacudia verticalmente a cabeça com tal veemência que seu topete armado subia e descia repetidamente. “Mas onde é que estamos?”

Até aqui o entendimento pleno do fenômeno de farmar aura é precipitado. Será preciso esperar um pouco mais.

Pelo que li ontem, seria um modo de adquirir reputação por meio de movimentos corporais repetitivos, alguns mais, outros menos criativos.

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Já hoje vi que tais movimentos não precisam ser convulsionados. Embora repetidos, podem incluir passos de capoeira, saltos ornamentais. Cada adolescente encontra sua própria forma de farmar sua aura. De firmar seu carisma.

Cada geração cria uma moda nova.

Nunca se sabe exatamente quando ela surge. Pode a pessoa que a criou nem se dar conta de que o fez. De repente alguém vê, percebe naquilo uma conexão emocional e a coisa explode.

Há mais ou menos um ano, muito antes da atual onda de farmar aura, vi nas redes um vídeo de um garoto oriental que pode, por que não, ter sido um estopim do farmar aura. Um sinal do que estava por vir. Em tempos virais, vai-se saber.

No que me pareceu uma rave, o garoto faz repetitivos e graciosos movimentos diante de uma garota mais alta e pouco mais velha do que ele. Está interessado nela, mas a garota se conserva imóvel, indiferente a ele. Mesmo assim o garoto prossegue em seus movimentos, seguro de impressionar. Do mesmo modo, agora, em geral são meninos que se movem para farmar aura.

Pois farmar aura pode ser, inclusive, isso: um tipo de dança, comum na natureza, em que o macho demonstra habilidades para seduzir a fêmea, como faz o pavão com suas trêmulas penas; agora, porém, com o sentido mais amplo de mostrar simbolicamente ao mundo — um mundo em que as oportunidades parecem raras para a maioria dos jovens — que eles “são alguém”. Que merecem atenção.

Parece uma manifestação sem sentido, mas, no que é humano, por mais absurdo que soe, sentido sempre há. E não se restringe a uma faixa etária.

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Se olharmos em volta, há gente de todas as idades farmando aura. Saltando de um pé pro outro, o candidato Flávio Bolsonaro, com sua dancinha nos comícios, farma aura.

De chapéu Panamá, andando de um lado pro outro e fazendo uso do automático discurso do “nós contra eles”, Lula insiste em farmar aura. Está meio cansativo, mas ele insiste. Trump, este é professor de farmar aura, e não só pela dancinha.

Até a professora citada, com sua indignação, farma aura, como atesta, subindo e descendo nervoso, seu duro topete repintado de louro.

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Brasil e mundo

Urna digital x voto impresso. A experiência alemã

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A discussão sobre o voto impresso no Brasil é sempre rejeitada sumariamente pelos defensores das urnas eletrônicas. É de se perguntar o porquê.

O tema voltou à tona após notícias de que o candidato Flávio Bolsonaro as teria questionado, repetindo seu pai. Ele desmentiu as notícias. O caso é que, certos ou errados, todos têm o direito de questionar.

Valeria perguntar por que nossas cortes judiciais sequer admitem considerações que mereceriam no mínimo debate. Considerações acima das posições apaixonadas a favor e contra as urnas eletrônicas.

Valeria a pena, por exemplo, se debruçar sobre a experiência da Alemanha, uma democracia sólida.

Os alemães utilizam o voto impresso porque entendem que “todas as etapas de uma eleição devem ser públicas e compreensíveis a qualquer cidadão comum”.

Públicas e compreensíveis pelo cidadão. Eis o ponto.

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Os alemães até tentaram usar a urna eletrônica – como teste – numa região do país. Mas o Tribunal alemão terminou por proibir sua efetivação, confirmando seu entendimento de que, no modo digital, o eleitor não consegue verificar por si mesmo se seu voto foi computado corretamente pelo software da urna eletrônica.

Para os alemães, a urna eletrônica exige confiar sem ter certeza. Sempre será uma questão de fé. Fé de que não há algo errado.

No caso brasileiro, assim como no caso alemão, grande parte dos cidadãos não possui conhecimento de informática suficiente para afirmar que não pode ocorrer fraude. Têm de confiar no que falam.

Já da cédula de papel o cidadão tem conhecimento para afirmar que é difícil fraudar, que fraudes serão muito limitadas e não afetarão o resultado. O cidadão sabe que na apuração haverá um monte de gente contando, fiscalizando.

Ele sabe. Não precisa de fé.

Desse modo, o resultado acaba respaldado pelas pessoas que participam da apuração. E qualquer um pode participar, conhece pessoas que participaram e pode atestar que foi tudo ok.

Nunca discutem a experiência alemã, mas deveriam.

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Cultura

Um convite para pensar o amor, o desejo e o companheirismo

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Em O Convite, Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) são um casal que se vê preso à rotina do casamento. De última hora, Angela convida o casal Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), seus misteriosos vizinhos, para um jantar em seu apartamento. No entanto, o que começa como uma simples reunião entre amigos rapidamente toma rumos inesperados, e revela desejos reprimidos, segredos e novas perspectivas sobre o casamento.

Além de ser uma das protagonistas, Olivia Wilde também dirige o longa, o terceiro de sua filmografia. Embora tenha construído sua trajetória como atriz há mais de vinte anos, ela vem se consolidando como cineasta, onde procura dar vida a projetos que misturam humor, drama e análise das relações humanas. Sua carreira na direção iniciou com a divertida comédia adolescente Fora de Série (2019) e depois com o suspense psicológico Não Se Preocupe, Querida (2022).

Adaptação do filme espanhol As Pessoas do Andar de Cima (2020), de Cesc Gay, que, por sua vez, é baseada em uma peça de teatro, o roteiro assinado por Rashida Jones e Will McCormack faz uma análise bem-humorada das tensões que se acumulam no cotidiano de um casamento, abordando temas como falta de comunicação, intimidade e sexualidade. A narrativa transforma um simples jantar entre casais em uma aula de tensão e constrangimento hilário, onde os diálogos rápidos e sinceros expõem o desgaste dos relacionamentos.

Com um quarteto de atores simplesmente fantástico, temos Seth Rogen cada vez melhor como ator, entregando uma de suas melhores atuações com o inseguro Joe. Olivia Wilde vive a ansiosa Angela, em uma personagem vivida pela atriz e diretora com a intenção de homenagear Diane Keaton (o filme é dedicado a ela, que faleceu no ano passado, em uma mensagem antes dos créditos finais). Enquanto isso, Penélope Cruz e Edward Norton são responsáveis por reconfigurar totalmente a energia do filme. Os dois entram em cena como um casal seguro de si, com Penélope Cruz roubando a cena como uma mulher sedutora, inteligente e carismática, e Edward Norton como um personagem que não demonstra suas verdadeiras intenções

Delicado, caótico e divertido ao falar sobre relacionamentos, O Convite transforma um simples jantar (pelo menos, o convite para ele) em uma reflexão honesta sobre amor, desejo e companheirismo.

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Opinião

Uma tarefa hercúlea

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O promotor José Alexandre Zaquia Alan nomeou um conhecido meu, Victor Hugo Siqueira, para administrar um casarão em ruínas, erguido em 1871 a mando de um charqueador de nome Felisberto Braga, para ali este residir com a família. A tarefa de V. é salvar o imóvel da destruição total e, se possível, revivê-lo. Vai ter trabalho pesado.

Em seu interior, o imóvel, hoje interditado e pertencente ao Clube Comercial, acumula o que lembra os escombros de uma guerra. Como se tivesse sido bombardeado, o que, em sentido figurado, de fato foi.

O palacete original foi vendido ao Comercial 17 anos depois de sua inauguração. Foi vendido em 1888, coincidentemente no mesmo ano em que o Império decretou o fim da escravatura no Brasil. Como a riqueza dos charqueadores dependia do trabalho de africanos feitos escravos, manter o casarão provavelmente se tornou caro. Perdeu o sentido.

Admiro pessoas que encaram empreitadas à primeira vista impossíveis. Mas os sinais indicam que V. é capaz de fazer algo pelo prédio, alguma coisa.

Além de acumular funções relacionadas à cultura, como presidente de outro Clube, o Caixeiral, e como presidente da Casa de Cultura, alojada no Caixeiral, ele é simpático de um modo que até o mais azedo dos sujeitos gosta dele: o que sempre conta na hora de captar fundos para recuperar um patrimônio há muitos anos abandonado: restaurá-lo e atrair sócios dispostos a pagar mensalidades para usufruir de benefícios longe o bastante para sequer ser imaginados.

Na verdade, V. terá trabalhos de dois hércules operando 24 horas por dia em regime de cooperação. Mas é preciso ser otimista para acreditar na vida, e acho que V. é. Desejo-lhe toda a sorte do mundo. Muito mais sorte do que tiveram os escravos do período do charque. O chamado Período do Sal.

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Brasil e mundo

“Menino Ney”

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“Menino Ney” – como Neymar foi batizado pelo famoso narrador de olhos tão arregalados que parecem ver fantasmas – levou para a Copa nove relógios de sua coleção de joias de pulso. Uma fortuna em marcadores do tempo, alguns cravejados com pedras preciosas, no valor total de R$ 21 milhões.

Há pessoas que não gostam da impessoalidade dos quartos de hotéis, e, para amenizá-la, carregam consigo nas viagens pequenos objetos de suas casas que lhe deem, naqueles quartos, a sensação do aconchego do lar; por exemplo, um peso de papel, um conjunto de canetas e lápis, coisas assim. Pode ter sido esse o motivo de Neymar ter embalado seus relógios? Não parece ser o caso.

Pode ser que Ney tenha visto no gesto um tipo de amuleto. Pode tudo, e talvez só um psicanalista sensível pudesse decifrá-lo, a começar do apelido de “Menino Ney”, vendo nele a chave para a compreensão do paciente. Afinal, meninos estão sempre preocupados em se autoafirmar, provar seu poderio.

A questão interessante: mesmo já sendo rico, ele precisou posar diante de seu baú para ser fotografado e assim ser alegremente divulgado. Como se sua coleção fosse um símbolo de seu valor pessoal, apesar do que dissessem por estar no banco de reservas, pelo esquema de Ancelotti. Apesar de ser uma segunda opção onde já foi a primeira.

No fim das contas, com a seleção fora da Copa, o fato é que nosso antigo e talentoso herói teve pouco trabalho produtivo além de acertar o fuso horário de algumas de suas peças, quase todas, diga-se, de mau gosto, assim como sua atitude desafiadora diante do goleiro na hora da cobrança do pênalti.

Que dizer daquelas provocações verbais ao goleiro norueguês? (Onde quer que eu bata o pênalti? E coisas menos publicáveis) Que dizer daquele “comigo, não” (com os ‘outros’ – meus colegas, sim), dito ao mesmo goleiro, apontando-lhe o dedo? Que dizer daquele encontrão pelas costas no zagueiro rival? Que dizer daquele sorriso permanente de quem não pensa em nada além de si mesmo?

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Ney deu sempre a impressão de ser uma eterna criança. Mas talvez seja um engano. Talvez, para ele, aquele seu choro inesperado, no final do jogo e de sua participação em copas, tenha sido o começo de sua maturidade. Será?

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Opinião

Governo sumido

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O prefeito de Pelotas, Fernando Marroni, quase não aparece positivamente na imprensa e nas redes sociais: no caso destas, inclusive pela falta de traquejo com a linguagem moderna. Compare-se as reações nas redes dos vereadores com as reações nas redes do prefeito. O número das reações nas postagens dos primeiros supera as reações das postagens do segundo. Isso não é por acaso, nem tão importante. Mas é o reflexo de uma gestão apagada, lembrando a máxima de que segundo mandato de prefeito é pior do que o inicial. De sua boca faltam anúncios concretos e imediatos. Ao mesmo tempo, por repetitivo, perdeu poder de persuasão. Suas palavras não ecoam.

Hoje é criticado por todos os lados, inclusive, é claro, por vereadores pré-candidatos a deputados: como sempre, em ano de eleição estes soltam todos os cachorros na situação (chama-se Denúncias Veementes de Ocasião). O que mais desejam é deixar a cidade. Mudar para Porto Alegre e, se possível, para Brasília, onde o Sol é constante.

Pior para Marroni é que grande parte de seus críticos têm razão. Seu governo vive no apagão desde que tomou posse. Compare-se do começo até hoje. Não houve avanços visíveis na cidade. Tudo segue em passo igual, até pior, como se ele não tivesse assumido a gestão da cidade. Assumiu, mas de modo burocrático, sem a energia e as expectativas do primeiro mandato.

Três exemplos rápidos entre outros: a quantidade de moradores de rua cresce a ritmo indiano, sem que a Assistência Social enfrente o problema no ritmo necessário; a tal zeladoria, tão propalada na campanha eleitoral, é de uma precariedade de assombrar até os fantasmas; a situação da saúde, que inclusive padece da falta de leitos suficientes em pleno inverno, é exasperante.

A gestão atual não sobreviveria a um comparativo entre as promessas do candidato e suas “realizações”. Não resistiria a uma radiografia de sua estrutura. Os estrategistas do governo precisam rever sua atuação, se é que isso é possível no marasmo que parece ter congelado os administradores. Quando se fala em governo e desenvolvimento (uma miragem eterna por aqui), é preciso ter paciência para ser pelotense. Tudo piora quando o céu fica escuro e chove.

Foto/Ascom/prefeitura de Pelotas

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Cultura

DIA D, novo filme de Spielberg, emociona quando ‘mergulha no drama humano’

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Retornando a uma temática que rendeu filmes como Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), E.T.: O Extraterrestre (1982) e Guerra dos Mundos (2005), o diretor Steven Spielberg retoma a parceria com o roteirista David Koepp, de Jurassic Park: Parque dos Dinossauros (1993), em uma trama de ficção científica e fantasia épica.

Ao longo de quase duas horas e meia, Dia D apresenta um especialista em segurança cibernética, Dr. Daniel Kellner (Josh O’Connor), que junto com colegas liderados pelo idealista Hugo Wakefield (Colman Domingo), roubou arquivos confidenciais do governo dos Estados Unidos para torná-los públicos, e uma meteorologista da TV, Margaret Fairchild (Emily Blunt), que descobrem uma conspiração do governo para encobrir evidências sobre a vida alienígena e seu contato com a humanidade. Eles partem em uma missão perigosa contra o líder corporativo Noah Scanlon (Colin Firth) para finalmente revelar as provas e a verdade para bilhões de pessoas.

Especialista em blockbusters, poucos diretores entendem a indústria cinematográfica de Hollywood como Steven Spielberg. Ao longo de sua inigualável carreira, uma das temáticas que mais lhe fascina é a do contato extraterrestre, entregando produções que se tornaram clássicos do cinema, mas também ajudando a moldar o imaginário sobre os alienígenas na cultura pop. Sua visão otimista retrata os alienígenas como pacíficos e não ameaças invasoras, com exceção de Guerra dos Mundos, onde reimaginou a clássica invasão alienígena do livro de H.G. Wells. Aqui, o cineasta reflete sobre teorias governamentais e a verdade sobre a vida extraterrestre. Aliás, Spielberg já revelou em entrevistas que acredita fortemente que a humanidade não está sozinha no universo.

Dia D é um filme que se pode dividir em duas partes. A primeira metade mostra uma trama misteriosa e arrastada, enquanto que a segunda é frenética, com muita ação e movimento, bem ao estilo do diretor. O roteiro escrito por Spielberg e Koepp passeia com facilidade por diferentes gêneros, como thriller de espionagem, ficção científica, suspense, ação, drama social e até comédia. O longa constrói um jogo de gato e rato cheio de tensão, mas, por vezes existe um excesso de informações e correria na narrativa, porém o diretor conduz tudo de forma dinâmica, desenvolvendo seus personagens durante uma corrida conta o tempo e entrando em profundos embates filosóficos, religiosos e morais.

Com a melhor atuação de sua carreira, Emily Blunt entrega uma atuação inspirada, guiada pela força do olhar (sempre fundamental e impactante na filmografia de Spielberg). Sua personagem serve como condutora dos mistérios e conspirações da trama ao lado do personagem de Josh O’Connor, o responsável por montar um quebra-cabeça que explica o propósito de seus personagens para o público enquanto eles abraçam a busca pela verdade. O’Connor faz um sólido trabalho, dividindo boa parte das cenas com os ótimos Colman Domingo e Eve Hewson. Como vilão, Colin Firth interpreta com uma dose certa de caricatura, representando uma das críticas mais diretas do filme sobre o vilão corporativo e a arrogância institucional.

Com uma amizade de 50 anos com Steven Spielberg e uma parceria que rendeu 30 filmes (é a colaboração mais duradoura e bem-sucedida da história do cinema), o compositor John Williams entrega uma trilha sonora grandiosa, apesar de contida, trazendo emoção na medida certa. Ao lado do diretor desde A Lista de Schindler (1993), a fotografia de Janusz Kaminski evidencia a luz que, como sempre no cinema de Spielberg, tem uma função quase espiritual. Ela atravessa janelas, invade corredores e pulsa em dispositivos alienígenas.

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No retorno ao gênero que o definiu como cineasta, Dia D traz Steven Spielberg de volta ao cinema de blockbuster, conduzindo como um maestro cenas de ação implacáveis e toda a tensão e suspense de conspirações e mistérios de ficção científica. Ao mesmo tempo, emociona quando mergulha no drama humano.

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