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MEMÓRIA DE NATAL, um conto de Truman Capote

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Imagine certa manhã em fins de novembro. Certa manhã num começo de inverno há mais de vinte anos. Tenha em mente a cozinha de uma velha casa espaçosa numa cidade de interior. A peça principal é um belo fogão preto; mas também há uma grande mesa redonda e uma lareira com duas cadeiras de balanço em frente. Hoje mesmo a lareira deu início ao seu rugido sazonal.

Uma mulher de cabelos brancos e tosados está postada diante da janela da cozinha. Usa um par de tênis e um suéter cinza disforme sobre um vestido leve de chita. É baixinha e vivaz como uma galinha garnisé; mas, por conta de uma longa doença na juventude, tem os ombros lamentavelmente arqueados. O rosto é notável — lembra o de Lincoln, marcado como o dele e tingido pelo sol e pelo vento; mas também é delicado, bem desenhado, e os olhos são tímidos e cor de xerez. “Ah”, exclama, o hálito embaçando a vidraça, “é tempo de bolo de frutas!”

Está falando comigo. Tenho sete anos; ela tem sessenta e tantos. Somos primos bem distantes e vivemos juntos — pelo menos, desde quando me lembro. Outras pessoas, nossos parentes, moram na casa; e, muito embora tenham poder sobre nós e volta e meia nos façam chorar, em geral não damos muita atenção a elas. Somos o melhor amigo um do outro. Ela me chama de Buddy, em consideração a um menino que foi seu melhor amigo em outros tempos. O outro Buddy morreu lá pela década de 1880, quando ela ainda era uma criança. Ela ainda é uma criança.

“Eu sabia antes de levantar”, ela diz, dando as costas à janela com um alvoroço decidido nos olhos. “O sino da prefeitura soou tão frio e claro. E não havia nenhum passarinho cantando; já foram para algum lugar mais quente, foram, sim. Ah, Buddy, pare de se empanturrar de biscoito e vá buscar a carreta. Veja se encontra o meu chapéu. Temos de assar trinta bolos.”

É sempre a mesma história: chega uma certa manhã de novembro, e minha amiga, como se inaugurasse oficialmente a temporada de Natal que lhe anima a fantasia e aquece o coração, anuncia: “É tempo de bolo de frutas! Vá buscar a carreta! Veja se encontra o meu chapéu”.

O chapéu é encontrado, um chapéu redondo de palha, enfeitado com rosas de veludo desbotadas; já pertenceu a uma parenta mais elegante. Juntos, conduzimos nossa carreta, um carrinho de bebê caindo aos pedaços, para o jardim e para um arvoredo de nogueiras-pecãs. A carreta é minha, quer dizer, foi comprada para mim quando nasci. É feita de vime, está um tanto surrada, e as rodas cambaleiam como as pernas de um bêbado. Mas é um objeto leal; na primavera, nós a levamos aos bosques e a enchemos de flores, arbustos e samambaias selvagens para os vasos da varanda; no verão, a entulhamos com a parafernália de piquenique e as varas de cana e descemos até a beira de um riacho; ela também tem serventia no inverno: como caçamba para carrear lenha do quintal para a cozinha, como cama quente para Queenie, a corajosa terrier branca e laranja que caça ratos e sobreviveu ao mau humor alheio e a duas mordidas de cascavel. Neste momento, Queenie vem trotando ao lado dela.

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Três horas depois, estamos de volta à cozinha, descascando um vultoso carregamento de pecãs derrubadas pelo vento. Nossas costas doem de tanto nos agacharmos para catá-las: foi difícil encontrá-las (o grosso da safra tinha sido chacoalhado das árvores e vendido pelos donos do pomar, que não somos nós), escondidas no meio das folhas, da grama enregelada e traiçoeira. Craaaque! Um rangido jovial, estalos de trovão em miniatura ressoam quando as cascas se rompem, e vai crescendo o montículo de polpa doce, oleosa e esbranquiçada na tigela opalina. Queenie quer provar, e de tanto em tanto minha amiga surrupia um pedacinho, sempre comentando a falta que esse pouco vai fazer. “Não pode, Buddy. Se a gente começar, não pára mais. E o que tem mal dá para o começo. São trinta bolos.” A cozinha começa a escurecer. A penumbra transforma a janela em espelho: nossos reflexos se misturam à lua nascente, enquanto trabalhamos à luz da lareira. Por fim, quando a lua já vai alta, jogamos no fogo a última casca e suspiramos ao vê-la queimar. A carreta está vazia, a tigela está cheia até a borda.

Jantamos (biscoitos, bacon, geléia de amora-preta) e falamos do dia seguinte. Começa nesse dia o trabalho de que mais gosto: as compras. Cerejas e cidras, gengibre, baunilha e abacaxi em lata, frutas caramelizadas, uvas-passas e nozes e uísque e, ah, tanta farinha e manteiga, tantos ovos, especiarias, essências; desse jeito, vamos precisar de um pônei para puxar a carreta.

Mas, antes que as compras possam ser feitas, há a questão do dinheiro. Nós dois não temos nenhum. Exceto pelas ninharias sovinas que as pessoas da casa nos dão (dez centavos são considerados uma dinheirama); ou pelo que nós mesmos arrecadamos em várias atividades: montando um bazar de velharias, vendendo baldes de amoras-pretas catadas uma a uma, potes de geléia caseira, gelatina de maçã e compota de pêssego, colhendo flores para funerais e casamentos. Uma vez, ficamos com o septuagésimo nono prêmio, cinco dólares, de um concurso nacional de futebol. Não entendemos nada de futebol. É que simplesmente entramos em todo concurso de que ouvimos falar: no momento, nossas esperanças recaem no grande prêmio de cinqüenta mil dólares oferecido a quem der o melhor nome a uma nova marca de café (sugerimos “am”, e, depois de alguma hesitação, pois minha amiga pensou que talvez isso fosse sacrílego, acrescentamos o slogan “am! Amém!”). Para dizer a verdade, nosso único empreendimento realmente lucrativo foi o Museu de Monstros e Milagres, que montamos num telheiro do quintal, dois verões atrás. Os Milagres eram um estereoscópio com cromos de panoramas de Washington e de Nova York, cedidos por uma parenta que estivera nesses lugares (ela ficou furiosa ao descobrir por que tínhamos pedido os cromos emprestados); os Monstros se resumiam a um pintinho de três patas, chocado por uma de nossas galinhas. Todo mundo nas redondezas queria ver o pintinho: cobrávamos cinco centavos dos adultos e dois das crianças. E embolsamos uns bons vinte dólares antes que o museu fechasse em virtude do falecimento de sua atração principal.

Mas, de um modo ou de outro, todo ano fazemos nossas economias de Natal, nosso Fundo Bolo de Frutas. Mantemos esse dinheiro escondido numa velha bolsa de contas guardada embaixo de uma tábua solta do piso embaixo do penico embaixo da cama da minha amiga. A bolsa raramente é removida desse lugar seguro, exceto quando fazemos um depósito ou, como acontece todo sábado, um saque; pois aos sábados tenho direito a dez centavos para ir ao cinema. Minha amiga nunca foi ao cinema, nem pretende: “Prefiro ouvir você contar a história, Buddy. Assim posso imaginar mais. Além disso, uma pessoa da minha idade precisa economizar a vista. Quando o Senhor chegar, quero ver tudo direitinho”. Além de jamais ter visto um filme, ela jamais: comeu num restaurante, viajou além de oito quilômetros da casa, recebeu ou enviou um telegrama, leu nada diferente dos quadrinhos ou da Bíblia, usou maquiagem, praguejou, desejou mal a ninguém, mentiu de caso pensado, deixou um cão faminto continuar com fome. E aqui vão algumas coisas que ela fez e faz: matou com uma enxada a maior cascavel (com dezesseis guizos) que já se viu no condado, cheira rapé (em segredo), domestica beija-flores (tente fazer isso) até que venham pousar num dedo, conta histórias de fantasmas (nós dois acreditamos em fantasmas) de dar calafrios no meio do verão, fala sozinha, passeia na chuva, cultiva as camélias mais bonitas das redondezas, sabe a receita de todo tipo de antigas poções indígenas, até mesmo a de um mágico removedor de verrugas.

Agora, terminado o jantar, vamos nos retirar para o quarto, que fica bem nos fundos da casa; é lá que minha amiga dorme, numa cama de metal pintada de rosa, que é sua cor preferida, e coberta por uma colcha de retalhos. Silenciosamente, chafurdando nos prazeres da conspiração, tiramos a bolsa de contas do esconderijo e espalhamos o conteúdo dela sobre a colcha de retalhos. Notas de um dólar, bem enroladas e verdes como brotos de primavera. Moedas sombrias de cinqüenta centavos, pesadas o bastante para fechar os olhos de um morto. Lindas moedas de dez, as mais alegres, as únicas que tilintam de verdade. Moedas de cinco e de vinte e cinco, lisas como pedras de córrego. Mas, na maior parte, um monte odioso de centavos azedos. No verão passado, as demais pessoas da casa nos ofereceram um centavo a cada vinte e cinco moscas mortas. Ah, a matança de agosto: as moscas que subiram aos céus! Mas não foi um trabalho que nos desse orgulho. E agora, contando os centavos, é como se novamente contabilizássemos moscas mortas. Nenhum de nós é bom de números; contamos devagar, nos perdemos, recomeçamos. Segundo os cálculos dela, temos doze dólares e setenta e três centavos; segundo os meus, exatamente treze dólares. “Espero que você esteja errado, Buddy. Não se brinca com o número 13. Os bolos vão murchar. Ou alguém vai parar no cemitério. Meu Deus, por nada deste mundo eu sairia da cama num dia 13.” É verdade: ela sempre passa o dia 13 na cama. Assim, por via das dúvidas, subtraímos um centavo e o jogamos pela janela.

Dos ingredientes para o bolo de frutas, o uísque é o mais caro e também o mais difícil de conseguir: as leis estaduais proíbem sua venda. Mas todo mundo sabe que se pode comprar uma garrafa do sr. Haha Jones. E, no dia seguinte, tendo concluído nossas compras mais prosaicas, seguimos para o endereço comercial do sr. Haha, um café “pecaminoso” (para citar a opinião pública), onde se dança e se come peixe frito, perto do rio. Já estivemos lá, e na mesma missão; mas, nos anos anteriores, fizemos negócio com a mulher de Haha, uma índia de pele escura feito iodo, cabelos descaradamente oxigenados e aparência exausta. Na verdade, jamais vimos o marido, mas ouvimos dizer que é índio também. Um gigante com cicatrizes de navalha no rosto. É chamado de Haha por ser um homem soturno, que nunca ri. À medida que nos aproximamos do café (uma grande cabana de troncos, enfeitada por dentro e por fora com grinaldas feitas de lâmpadas berrantes, junto à margem enlameada do rio, à sombra de árvores carregadas de um musgo que toma conta dos galhos como uma neblina escura), nossos passos se tornam mais lentos. Até mesmo Queenie pára de saracotear e segue ao nosso lado. Houve gente que morreu no café de Haha. Cortada em pedaços. Um golpe na cabeça. Há um caso que vai para o tribunal na semana que vem. É claro que esses acontecimentos se dão à noite, quando as luzes coloridas projetam sombras fantasiosas e a vitrola geme. Durante o dia, o café de Haha parece derreado e deserto. Bato na porta, Queenie late, minha amiga chama: “Dona Haha? Senhora? Alguém em casa?”.

Passos. A porta se abre. Nossos corações se viram pelo avesso. É o sr. Haha Jones em pessoa! E ele é um gigante; tem cicatrizes, e não ri. Não, ele nos encara com olhos satanicamente revirados e exige saber: “O que vocês querem com Haha?”.

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Por um instante, ficamos paralisados demais para responder. Mas logo minha amiga meio que recobra a voz, ao menos uma voz sussurrante: “Por favor, sr. Haha, gostaríamos de comprar um litro do seu melhor uísque”.

Os olhos do índio reviram ainda mais. Quem diria? Haha está sorrindo!

Rindo mesmo. “E qual de vocês é o bebum?”

“É para fazer bolo de frutas, sr. Haha. É para cozinhar.”

Ele volta a ficar sério. Franze a testa. “Isso não é jeito de gastar uísque bom.” Mesmo assim, recua para o café sombrio e, segundos mais tarde, reaparece com uma garrafa de bebida sem rótulo, amarelo-margarida. Exibe o brilho à luz do sol e diz: “Dois dólares”.

Pagamos com moedas de cinco, de dez e de um. De repente, quando o índio chacoalha as moedas na mão como um par de dados, seu rosto se descontrai. “Vamos fazer o seguinte”, propõe, vertendo o dinheiro de volta na bolsa de contas, “em vez de pagar com dinheiro, mandem um desses bolos para mim.”

“Bem”, minha amiga comenta no caminho de volta, “eis um sujeito amável. Vamos pôr uma xícara de passas a mais no bolo dele.”

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O fogão preto, repleto de carvão e lenha, brilha como uma abóbora iluminada. Os batedores de ovos rodopiam, as colheres giram em vasilhas com manteiga e açúcar, a baunilha adoça, o gengibre tempera o ar; cheiros que se desmancham e pinicam o nariz, saturando a cozinha, inundando a casa, saindo para o mundo com as baforadas da chaminé. Em quatro dias o trabalho está feito. Trinta e um bolos, umedecidos com uísque, descansam nas janelas e nas prateleiras.

Mas para quem?

Para amigos. Não necessariamente para amigos próximos; na verdade, a maior parte foi feita para pessoas que talvez tenhamos visto uma vez, quando muito. Pessoas que caem nas nossas graças. Como o presidente Roosevelt. Como o reverendo e a sra. J. C. Lucey, missionários batistas em Bornéu que vieram dar palestras aqui no inverno passado. Ou o amolador de facas, que visita a cidade duas vezes por ano. Ou Abner Packer, o motorista do ônibus que chega às seis de Mobile, o qual troca acenos conosco todo dia ao passar num turbilhão de poeira. Ou como os Wiston, um casal de jovens da Califórnia cujo carro, uma tarde, quebrou em frente à nossa casa e que passaram uma hora agradável conversando conosco na varanda (o jovem sr. Wiston bateu uma foto nossa, a única que temos). Será que é porque minha amiga é tímida com todo mundo, exceto com estranhos, que todos esses estranhos e conhecidos casuais parecem ser nossos melhores amigos? Acho que sim. Além disso, nossos álbuns com papel timbrado da Casa Branca, mensagens esparsas da Califórnia e de Bornéu, e cartões-postais baratos do amolador de facas fazem que nos sintamos conectados a mundos momentosos que ficam além da cozinha com sua vista para um céu que nos detém.

Mas agora, em dezembro, um galho pelado de figueira arranha a vidraça. A cozinha está vazia, os bolos se foram; ontem carreamos os últimos até a agência do correio, onde o preço dos selos esvazia nossos bolsos. Estamos falidos. Eu me entristeço, mas minha amiga insiste em festejar — com dois dedos de uísque no fundo da garrafa de Haha. Queenie ganha uma colherada numa vasilha de café (ela gosta de café forte e com sabor de chicória). O resto dividimos em dois potes de geléia. Ficamos temerosos diante da perspectiva de beber uísque puro, cujo gosto provoca expressões contorcidas e arrepios de amargor. Mas aos poucos começamos a cantar, ao mesmo tempo, cada qual uma canção. Não sei a letra da minha, só sei: “Come on along, come on along, to the dark-town strutters’ ball”. Mas sei dançar, e é isto que finjo ser: um sapateador de cinema. Minha sombra dançante evolui nas paredes; nossas vozes fazem tremer a porcelana; rimos como se mãos invisíveis nos fizessem cócegas. Queenie rola pelo chão, suas patas escavam o ar, algo parecido com um sorriso estica seus lábios negros. Quanto a mim, sinto-me tão quente e faiscante quanto a lenha que desmorona na lareira, tão livre quanto o vento na chaminé. Minha amiga valsa ao redor do fogão, com a barra da pobre saia de chita presa entre os dedos como se fosse um vestido de festa: “Show me the way to go home”, ela canta, os tênis guinchando no assoalho. “Show me the way to go home.”

Entram dois parentes. Muito bravos. Poderosos, com olhos que recriminam e línguas que ralham. Ouvimos o que têm a dizer, as palavras martelam uma canção colérica: “Uma criança de sete anos fedendo a uísque! onde você está com a cabeça? uma criança de sete anos! ficou maluca? começa assim a desgraça! lembra da prima Kate? do tio Charlie? do cunhado do tio Charlie? uma vergonha, um escândalo, uma humilhação! de joelhos, reze, vamos, reze ao Senhor!”.

Queenie se esgueira para debaixo do fogão. Minha amiga fixa os olhos nos sapatos, o queixo estremece, ela levanta a saia e assoa o nariz, depois corre para o quarto. A cidade já foi dormir há muito tempo, e a casa está em silêncio, exceto pelo badalar dos relógios e pelos estalos do fogo moribundo, mas ela continua chorando num travesseiro úmido feito um lenço de viúva.

“Não chore”, digo, sentado ao pé da cama e tiritando apesar do pijama de flanela, que guarda o cheiro do xarope para tosse do inverno passado, “não chore”, peço, brincando com os pés dela, fazendo cócegas nos dedos, “você é velha demais para isso.”

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“É que eu sou”, ela soluça, “eu sou velha demais. Velha e esquisita.” “Esquisita, não. Engraçada. Mais que todo mundo. Escute. Se não parar de chorar, estará tão cansada amanhã que não vai dar para a gente cortar a árvore.”

Ela se apruma. Queenie pula para cima da cama (onde não é admitida) para lamber as bochechas da minha amiga. “Sei onde encontrar umas bem bonitas, Buddy. E são azevinhos. Com bagas do tamanho dos seus olhos. Ficam bem no meio do bosque. Mais longe do que você já foi. Papai nos trazia árvores de lá, ele as carregava no ombro. Isso já faz cinqüenta anos. Bem, eu mal posso esperar por amanhã.”

De manhã. O orvalho congelado faz a relva brilhar; o sol, redondo feito uma laranja e laranja feito uma lua de verão, pende no horizonte, lustra os bosques prateados pelo inverno. Um peru selvagem gruguleja. Um porco desgarrado grunhe no meio do matagal. Logo chegamos à margem de cursos de água mais fundos e velozes, onde precisamos abandonar a carreta. Queenie é a primeira a vadear os riachos, nadando e latindo contra a rapidez da correnteza, num frio de pegar pneumonia. Nós a seguimos, erguendo os sapatos e o equipamento (uma machadinha, um saco de aniagem) acima da cabeça. Mais um quilômetro e meio de espinhos que nos castigam, ouriços e sarças que se agarram em nossas roupas, folhas de pinheiro pontudas e cor de ferrugem, fungos coloridos e penas soltas. Aqui e ali, um relance, um alvoroço, nos lembram que nem todos os pássaros voaram para o sul. O caminho se desenrola entre poças amarelo-limão de sol e túneis escuros de trepadeiras. Outro córrego a cruzar: uma armada irrequieta de trutas pintadas remexe a água ao redor, e sapos do tamanho de um prato treinam mergulhos de barriga; castores trabalhadores constroem um dique. Na outra margem, Queenie se sacode e estremece. Minha amiga está tremendo também, não de frio, mas de entusiasmo. De uma das rosas esfarrapadas do chapéu cai uma pétala quando ela levanta a cabeça e aspira o ar tomado pelo cheiro dos pinheiros. “Estamos quase lá, dá para sentir o cheiro, não dá, Buddy ?”, ela diz, como se nos aproximássemos do oceano.

E, de fato, é uma espécie de oceano. Acres aromáticos de árvores de Natal, azevinhos de folhas espinhentas. Framboesas rebrilham como sinetas de porcelana, corvos negros se precipitam aos berros sobre elas. Tendo enchido nossos sacos de aniagem com galhos e bagas para enfeitar uma dúzia de janelas, passamos a escolher uma árvore. “Ela deve ter”, minha amiga pondera, “o dobro da altura de um menino. Para menino nenhum roubar a estrela.” Escolhemos uma com o dobro da minha altura. Um belo e bravo brutamontes que resiste a trinta golpes de machadinha antes de vergar e quebrar com um estalo.

Arrastando-o como a uma presa, começamos a longa jornada de volta. A cada tantos metros abandonamos a luta, sentamos e ofegamos. Mas temos a força de caçadores triunfantes; isso e o perfume gélido e viril da árvore nos reavivam e nos tocam para a frente. Muitos cumprimentos acompanham nosso retorno crepuscular pela estrada de terra roxa, rumo à cidade; mas minha amiga é escorregadia e evasiva quando os transeuntes elogiam o tesouro empoleirado na nossa carreta: que bela árvore, de onde veio? “Daqueles lados”, ela murmura vagamente. A certa altura, um carro pára, e a mulher rica e preguiçosa do dono da usina se inclina para fora e gane: “Dou vinte e cinco por essa árvore aí”. Em geral, minha amiga tem medo de dizer não; mas dessa vez sacode de pronto a cabeça: “Nem por um dólar”. A mulher do dono da usina insiste. “Um dólar, nem pensar! Cinqüenta centavos. Última oferta. Que é isso, mulher, você consegue outra.” Em resposta, minha amiga alega gentilmente: “Duvido. Não há duas coisas iguais neste mundo”.

Em casa: Queenie desaba junto ao fogo e dorme até o dia seguinte, roncando alto feito um homem.

Um baú no sótão contém: uma caixa de sapatos com estolas de arminho (da pelerine usada em noites de ópera por uma senhora esquisita que uma vez alugou um quarto na casa), emaranhados de lantejoulas corroídas e amarelecidas pelo tempo, uma estrela prateada, uma fieira curta de lâmpadas com aspecto de doces, desencapada e certamente perigosa. Decorações excelentes, na medida do possível, o que não é muita coisa: minha amiga quer que a árvore resplandeça “que nem uma janela de família batista”, arriando sob a neve ornamental. Mas não temos dinheiro para os esplendores made in Japan da loja de artigos populares. De modo que fazemos o que sempre fizemos: sentamos por dias e dias à mesa da cozinha com tesouras e lápis e resmas de papel colorido. Desenho os moldes, e minha amiga corta: montes de gatos e também de peixes (são fáceis de desenhar), algumas maçãs, algumas melancias, uns poucos anjos alados, feitos do papel-alumínio que protege as barras de chocolate Hershey . Usamos alfinetes de segurança para prender essas criações à árvore; como toque final, salpicamos os galhos de algodão desfiado (colhido em agosto com esse propósito). Minha amiga, examinando o efeito, aperta as mãos, com os dedos entrelaçados. “Diga a verdade, Buddy. Não dá até vontade de comer?” Queenie tenta comer um anjo.

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Depois de trançarmos e decorarmos guirlandas para todas as janelas, nosso próximo projeto é preparar os presentes para a família. Lenços tingidos para as mulheres; para os homens, um xarope caseiro de limão, alcaçuz e aspirina, a ser tomado “aos primeiros sintomas de resfriado ou após uma caçada”. Mas, quando chega a hora de prepararmos nossos próprios presentes, minha amiga e eu nos separamos para trabalhar em segredo. Eu gostaria de comprar para ela uma faca de cabo perolado, um rádio, meio quilo de cerejas cobertas de chocolate (certa vez, provamos algumas, e desde então ela jura: “Eu poderia viver só disso, Buddy, meu Deus, como eu poderia — e isso não é usar o nome Dele em vão”). Em vez disso, estou fazendo uma pipa.

Ela gostaria de me dar uma bicicleta (já disse em milhares de ocasiões: “Se ao menos eu pudesse, Buddy. Já é ruim ter de viver sem alguma coisa que a gente quer; mas, arre, o que me tira do sério é não poder dar a alguém uma coisa que a gente quer que o outro tenha. Mas um dia desses eu consigo, Buddy. Vou arranjar uma bicicleta para você. Não me pergunte como. Roubando, quem sabe”). Em vez disso, tenho quase certeza de que ela está fazendo uma pipa para mim — como no ano passado e no retrasado: antes disso, trocamos estilingues. O que para mim está muito bom. Somos mestres da pipa, estudamos o vento feito marinheiros; minha amiga, mais experiente que eu, consegue levantar uma pipa quando a brisa mal remexe as nuvens.

Na véspera de Natal, juntamos cinco centavos e vamos ao açougue comprar o presente tradicional de Queenie, um osso de boi. O osso, embrulhado em papel de presente, é posto no alto da árvore, perto da estrela prateada. Queenie sabe que está bem ali. Senta ao pé da árvore, olhando para cima num êxtase famélico: quando chega a hora de dormir, ela se recusa a arredar dali. Sua agitação só tem igual na minha. Chuto os cobertores e viro o travesseiro como se esta fosse uma noite escaldante de verão. Em algum lugar, um galo canta, fora de hora, pois o sol ainda está do outro lado do mundo.

“Buddy, está acordado?” É minha amiga, chamando do seu quarto, contíguo ao meu; num instante, está sentada na minha cama, segurando uma vela. “Pois é, não consigo pregar o olho”, declara. “Minha cabeça fica pulando feito uma lebre. Buddy, você acha que a sra. Roosevelt vai servir nosso bolo no jantar?”

Nós nos aconchegamos na cama, e ela aperta minha mão com carinho. “Sua mão já foi tão pequenina. Não acho graça em ver você crescer. Quando você for grande, ainda vamos ser amigos?” Eu digo que sempre seremos. “Mas estou me sentindo tão mal, Buddy. Queria tanto dar uma bicicleta para você. Tentei vender o camafeu que papai me deu. Buddy ”, ela hesita, “fiz outra pipa para você.” Então confesso que também fiz uma para ela; e rimos.

A vela já está pequena demais para agüentar. Logo se apaga, dando vez à luz das estrelas, às estrelas que rodopiam na janela como uma cantoria visível que a madrugada silencia devagar, devagar. Provavelmente cochilamos; mas o raiar do dia nos desperta como um banho de água fria: pulamos da cama, de olhos acesos, andando para cima e para baixo, esperando que os outros acordem. De caso pensado, minha amiga derruba uma chaleira no chão da cozinha. Eu sapateio diante das portas fechadas. Um a um, todos da casa emergem, com ar de que gostariam de nos matar; mas é Natal, não há jeito. Primeiro, um belo café-da- manhã: com tudo o que se possa imaginar, de panquecas a esquilo frito, de canjica a mel no favo. O que deixa todos de bom humor, com exceção da minha amiga e de mim. Francamente, estamos tão ansiosos pelos presentes que não comemos nem um bocado.

Bem, acabo me desapontando. Quem não se desapontaria? Um par de meias, uma camisa para a escola dominical, alguns lenços, um suéter de segunda mão e uma assinatura anual de uma revista religiosa para crianças, O Pastorzinho. É de ferver o sangue. É mesmo.

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Minha amiga tem mais sorte. Um saquinho de tangerinas japonesas é seu melhor presente. Mas ela fica orgulhosa mesmo é de um xale branco de lã, tricotado pela irmã casada. Porém, diz que prefere a pipa que eu fiz. E a pipa é bonita mesmo, mas não tão bonita quanto a que ela fez para mim, azul e pontilhada de estrelas de honra ao mérito verdes e douradas; além do mais, traz meu nome pintado em cima: “Buddy ”. “Buddy , está ventando.”

Está ventando, e não há quem nos impeça de correr até um pasto atrás da casa, para onde Queenie disparou a fim de enterrar o osso (e onde, no próximo inverno, Queenie será enterrada também). Ali, mergulhando na relva viçosa que chega à cintura, empinamos as pipas, sentimos como se contorcem no fio tal qual peixes-voadores nadando no vento. Satisfeitos, aquecidos pelo sol, nos esparramamos na relva e descascamos tangerinas, observando as piruetas das pipas. Logo esqueço as meias e o suéter de segunda mão. Sinto-me feliz como se já tivéssemos ganhado o grande prêmio daquele concurso da marca de café.

“Meu Deus, como sou boba”, minha amiga exclama, subitamente alerta, como uma mulher que lembra tarde demais dos biscoitos no forno. “Sabe o que eu sempre pensei?”, pergunta em tom de descoberta, rindo não para mim, mas para alguma coisa mais longe. “Sempre pensei que era preciso estar doente e quase à beira da morte para ver o Senhor. E eu achava que, quando Ele viesse, seria como olhar para uma janela de batista: bonito feito um vidro colorido contra a luz, tão brilhante que nem se nota que está escurecendo. E era um consolo pensar nesse brilho tirando toda sensação medonha. Mas agora aposto que não é desse jeito. Aposto que, bem no fim, a gente descobre que o Senhor já se mostrou. Que as coisas, do jeito que são”, a mão faz um círculo, num gesto que reúne as nuvens e as pipas e a relva e Queenie jogando terra em cima do osso, “do jeito que a gente sempre viu, já eram uma visão Dele. Por mim, eu poderia partir deste mundo com o dia de hoje nos olhos.”

É nosso último Natal juntos.

A vida nos separa. Aqueles-que-sabem-o-que-é-melhor decidem que o lugar certo para mim é uma escola militar. E assim começa uma sucessão miserável de prisões a toque de clarim, penosos acampamentos de verão sob o jugo da alvorada. Tenho um novo lar também. Mas esse não conta. Meu lar é onde minha amiga está, e para lá eu jamais vou.

E lá ela fica, circulando pela cozinha. Só ela e Queenie. Depois, só ela. (“Querido Buddy ”, ela escreve, com a letra rebelde e difícil de ler, “ontem o cavalo do Jim Macy deu um coice feio na Queenie. Graças a Deus, ela não sofreu muito. Então a enrolei num lençol bonito e a levei na carreta até o pasto do Simpson, onde ela pode ficar com todos os ossinhos dela…”)

Por mais alguns novembros minha amiga continua a assar os bolos de frutas, sozinha; já não são tantos bolos, só alguns; e é claro que ela sempre me manda “o melhor da fornada”. Além disso, em toda carta enfia uma moeda de dez centavos embrulhada em papel higiênico: “Vá ao cinema e me conte a história”. Mas aos poucos ela começa a me confundir nas cartas com seu outro amigo, o Buddy morto na década de 1880; cada vez mais, o dia 13 não é o único que ela passa na cama; chega certa manhã em novembro, certa manhã de um começo de inverno sem folhas nem pássaros, em que ela não consegue mais levantar para dizer: “Ah, é tempo de bolo de frutas!”.

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E eu sei muito bem quando é que isso acontece. Uma mensagem a respeito só confirma a notícia que alguma veia secreta já recebera, cortando uma parte insubstituível de mim mesmo, soltando-a feito uma pipa de fio partido. É por isso que, caminhando pelo terreno da escola nesta manhã de dezembro, vasculho o céu. Como se esperasse ver, tal qual corações, um par de pipas voando direto para o paraíso.

* Foto acima: cena de um filme baseado no conto.

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A melancolia de ‘O diabo’

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O diabo veste Prada 2 me pareceu desnecessário. Se o primeiro filme é perfeito, fechado a vácuo, o segundo é selado com bolhas de ar. É um filme visto com saudade, mas que nos decepciona pela nostalgia de um momento impossível de reviver. Foi bom rever a turma? Foi.

Gostei de rever Stanley Tucci (Nigel), o ator com cara de amendoim, e os demais. Porém, achei triste ver a destruição das lembranças do filme original, por conta acima de tudo do envelhecimento real das atrizes, principalmente o de Anne Hathaway (Andrea), assistente de Meryl Streep, a implacável Miranda. Cadê aquele frescor da Hathaway de 20 anos atrás? Ela simbolizava o desejo da moça antiga de ‘subir ao altar’.

O tempo passa pra todos, óbvio. Mas, em matéria de cinema, uma coisa é rodar uma sequência pouco tempo depois do primeiro filme, como ocorreu com O poderoso chefão II, com os atores com idades próximas das de quando atuaram no I. Outra é rodá-la 20 anos depois, com os atores bem mais velhos. Fica uma sensação desagradável de algo que estava intacto e se quebrou. Senti o mesmo quando vi o filme francês Um homem, uma mulher 20 anos depois: melancolia.

Quando O diabo 1 foi lançado, em 2006, a internet e as redes sociais não tinham o poder de hoje. Revistas impressas de moda, como Harper’s Bazaar e Vogue, ainda eram templos sagrados, mesclando em suas páginas fotografias e artigos sobre moda com ficção de alta qualidade — textos de Virgínia Woolf, F. Scott Fitzgerald, Tom Wolfe, Truman Capote e outros.

Já neste 2026, depois que há muito as redes começaram a abocanhar a maior parte das verbas publicitárias, as revistas impressas se viram sob ameaça não só como negócios, mas como símbolos da progressão cultural que transformava em arte vestimentas e acessórios. Tais revistas ainda existem, mas não mais com a autoridade, personificada na figura da Miranda do primeiro filme, não mais com o glamour de antes.

É da erosão desse mundo que trata O diabo 2, ao denunciar a decadência dos altares estéticos a que se havia chegado pelo refino das experiências sensoriais — ruína esta causada pela ditadura do clique na internet, como diz o filme. A tirania da massa, sempre acrítica, sem identidade. O que antes era uma referência cultural sólida, fruto de cabeças cultas, deixou de ser. Perdeu-se na vulgaridade ignorante do clique digital, que, sobrepondo-se àquelas cabeças, passou a ditar as abordagens editoriais, com anuência dos donos do negócio. Em vez de fechar as portas, rebaixe-se a qualidade, em favor do senso comum.

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Mesmo que tente mascarar a situação difícil que vive, invocando sua garbosa presença, Miranda, obrigada a descer do altar para salvar sua posição, tornou-se uma mulher “comum”. Uma ex-rigorosa mulher tentando sobreviver em um ambiente que já não domina, em que sua revista Runway (Vogue) deixou de ser vista como o vértice do bom gosto na moda e na arte, o que é triste de ver para quem ama a exigência, o belo. Vem acontecendo por todo lado na vida real. “Terei apenas mais alguns anos”, Miranda diz para a Hathaway, dentro da limusine, sabendo que não durará no mercado.

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Cultura

Romance de Luiz Carlos Freitas é traduzido e publicado na Rússia

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O romance Voo cego em zona morta, do escritor e jornalista pelotense Luiz Carlos Freitas, foi traduzido e publicado na Rússia.

“Devido a circunstâncias políticas e às regras do governo russo quanto às plataformas de redes sociais (Facebook, Instagram etc) foi uma verdadeira cruzada do editor russo concluir a edição em tempo recorde”, conta Freitas.

A obra foi publicada mês passado no Brasil pela Editora Urutau (está à venda no site da Editora) e será lançada nacionalmente na Festa Literária Internacional de Parati (FLIP) em julho, e na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em setembro.

Ambientado em Pelotas, é um romance psicológico que retrata, segundo o autor, “a patética e trágica história da confissão de um homem moralmente corrompido”.

“Ao escancarar mágoas, frustrações e recalques, dando ênfase a defeitos e virtudes, o personagem encarna a maioria dos seres humanos em seu comportamento cotidiano, com seus vícios, hábitos e pecados. Sobretudo os ocultos.”

Freitas também assinou contrato com editora italiana para a tradução e publicação naquele país do romance autobiográfico Confissões de um cadáver adiado. O layout do livro estará pronto em setembro e o lançamento está marcado para dezembro, incialmente em Cesena (IT).

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Luiz

Obra de Luiz Carlos Freitas chega à Rússia

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Cultura

Apesar de dispensável, sequência O Diabo Veste Prada acerta na nostalgia

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Vinte anos após O Diabo Veste Prada, a continuação acompanha Andy Sachs (Anne Hathaway), que construiu uma carreira sólida e respeitada no jornalismo investigativo depois de deixar para trás os corredores implacáveis da revista Runway. Miranda Prestly (Meryl Streep), por sua vez, enfrenta um momento de mudanças na moda e no declínio da publicação tradicional de revistas.

Pressionada por investidores, anunciantes e um novo conselho administrativo, ela precisa provar que ainda é capaz de ditar tendências. Enquanto isso, Emily (Emily Blunt) é agora uma influente executiva na grife Dior.

Novamente sob a direção de David Frankel e com o roteiro de Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger, autora do livro original, O Diabo Veste Prada 2 resgata o carismático elenco do primeiro filme em uma trama que equilibra nostalgia e uma crítica afiada à desumanização corporativa dos dias atuais.

De forma esperta, a trama explora o mercado de trabalho jornalístico, artístico e publicitário, que passaram por mudanças nas últimas décadas. Em 2026, Andy representa um mercado jornalístico sucateado, tomado por demissões em massa e cortes de gastos, ao mesmo tempo em que lida com a transição para o digital.

Apesar de ser uma sequência dispensável, O Diabo Veste Prada 2 é um filme ciente do momento em que chega aos cinemas duas décadas depois do clássico que entregou mais um personagem icônico para Meryl Streep, colocou Anne Hathaway no patamar de estrela de cinema e apresentou Emily Blunt, que estava em um dos seus primeiros grandes papéis na telona.

Não posso esquecer de Stanley Tucci, que retorna como Nigel, o mentor de estilo e fiel braço direto de Miranda Prestly. Nigel é, sem dúvidas, o melhor personagem da franquia.

Entretanto, os novos personagens pouco têm a dizer e agregar à narrativa, embora tenham papel fundamental no desenrolar dos conflitos da história. São os casos de Lucy Liu, no papel de uma magnata reclusa, Kenneth Branagh, como o marido de Miranda, Justin Theroux, no papel do excêntrico milionário Benji Barnes, Patrick Brammall como o desnecessário interesse amoroso de Andy e Simone Ashley, como a estilosa e confiante Amari, a nova assistente de Miranda.

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Mantendo a ambientação sofisticada, em locações como Nova York, Milão e o Lago de Como, na Itália, O Diabo Veste Prada 2 acerta ao reunir o elenco original, equilibrando nostalgia com um olhar crítico sobre a era digital, a crise do jornalismo impresso e a inteligência artificial na moda.

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Cultura

Cinebiografia de Michael Jackson é eficiente, mas frustrante

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Cinebiografia sobre o “Rei do Pop”, Michael acompanha a infância de Michael Jackson (Juliano Valdi) começando sua carreira ao lado dos irmãos no Jackson 5, nos anos 1960, passando pelos primeiros passos na carreira solo (Jaafar Jackson), com o sucesso dos álbuns “Off the Wall” (1979) e “Thriller” (1982), até o auge da sua carreira na turnê do disco “Bad” (1988).

Dirigido pelo experiente Antoine Fuqua e roteirizado pelo três vezes indicado ao Oscar John Logan, Michael é claramente um filme feito para os fãs. O grande acerto da trama é tornar parte central da narrativa os conflitos entre Michael e seu pai Joe Jackson (Colman Domingo), colocado como o grande vilão da história. Existe um destaque necessário para a intimidade do cantor fora dos palcos, com esses ciclos de abusos físicos e psicológicos causados pelo pai, enquanto o protagonista cresce cheio de traumas (o filme explora sua identificação com Peter Pan), obcecado por perfeição e em busca de liberdade para fazer suas próprias escolhas.

É uma construção de um mito eficiente, mas também muito problemática. Isso fica ainda mais evidente considerando que as acusações de abuso infantil contra o cantor estariam no filme, mas ficaram de fora por problemas legais e, consequentemente, todo final foi alterado, com a produção passando por refilmagens. Diante de uma figura tão emblemática, havia conflitos familiares e fragilidades pessoais suficientes para um retrato mais aprofundado. Neste caso, a presença dos irmãos, fundamentais na sua formação artística e emocional, passam pelo longa sem qualquer desenvolvimento (Janet Jackson não autorizou sua participação e sequer é mencionada), assim como o produtor Quincy Jones, fundamental para a sua carreira.

Ao priorizar a cronologia e a reconstrução de momentos icônicos, a edição erra ao funcionar apenas como um mero registro dos feitos do artista dentro do recorte temporal escolhido. Com isso, a trama apresenta muitos pulos na narrativa, sem nenhum contexto. Questões mais pessoais ao artista, como sua obsessão estética e o caso de vitiligo, também são mencionados, mas nunca trabalhados. É uma cinebiografia que dedica pouquíssimo tempo a realmente mostrar a vida do protagonista.

Sem dúvidas, o maior destaque do filme são as atuações e as caracterizações de Juliano Valdi, Jaafar Jackson e Colman Domingo. O talentoso e intenso Juliano está ótimo interpretando a infância nos Jackson 5, e Jaafar, sobrinho de Michael Jackson, vive a sua fase adulta com perfeição e muita naturalidade, nunca parecendo que se trata de uma imitação. Ele passou por uma preparação extrema nos bastidores, nos fazendo realmente acreditar que se trata de Michael Jackson ao reproduzir de maneira impressionante seus trejeitos, coreografias e voz. Jaafar Jackson prova que foi a escolha perfeita para interpretar Michael Jackson no cinema. Duas vezes indicado os Oscar, o sempre excelente Colman Domingo impõe naturalmente uma presença dominante em cena como Joe Jackson, conseguindo passar toda ameaça com suas atitudes controladoras apenas pelo olhar. Enquanto isso, os outros personagens coadjuvantes servem mais como suporte para Michael, como sua mãe Katherine Jackson (Nia Long), seu empresário John Branca (Miles Teller), seu segurança Bill Bray (KeiLyn Durrel Jones) e o produtor Quincy Jones (Kendrick Sampson).

As sequências musicais foram perfeitamente recriadas pelo filme, funcionando especialmente para um público mais saudosista. Ouvir as grandes músicas de sua carreira no cinema é uma experiência por si só, e assistir as recriações de apresentações e videoclipes, como “Billie Jean” no aniversário de 25 anos da Motown em 1983, o último show do Jackson 5 na “Victory Tour” em 1984, a união de gangues rivais para o clipe de “Beat It” e o icônico “Thriller”, filmado no mesmo cemitério e com Jaafar Jackson usando a mesma jaqueta que Michael Jackson usou, é simplesmente de arrepiar. São esses momentos que vão conquistar o público. Certamente me conquistaram

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Um espetáculo frustrante, Michael entrega fortes atuações e momentos nostálgicos que vão empolgar e emocionar os fãs, mergulhando em apresentações cheias de energia e a recriação de momentos icônicos da sua carreira.

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Cultura

O ousado e desconfortável ‘Drama’

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Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) estão prestes a se casar. Porém, em uma conversa descontraída com o casal de padrinhos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie), uma terrível revelação sobre o passado de Emma vem à tona. O chocante segredo fará Charlie questionar o quanto ele realmente conhece a pessoa com quem vai se casar.

O Drama é o tipo de filme que, quanto menos souber, melhor. Ao apresentar a história do casal partindo do primeiro encontro, o segredo revelado na trama afeta profundamente a semana do casamento e a percepção que Charlie tem de Emma. A narrativa aposta no quanto a desconfiança e a quebra de expectativa podem causar uma fragilidade e uma ruptura nos relacionamentos, questionando se as pessoas podem ser definidas por seus piores momentos.

Com direção e roteiro de Kristoffer Borgli, o filme foge dos clichês dos romances tradicionais, transitando com naturalidade entre a comédia e o drama, explorando humor ácido ao abordar um tema bastante sensível, principalmente para a sociedade americana.

O grande destaque é, sem dúvidas, a química entre Zendaya e Robert Pattinson, transmitindo perfeitamente a tensão de um relacionamento que desmorona. A dupla está acompanhada de um bom grupo de coadjuvantes, liderado por Alana Haim e Mamoudou Athie, que vivem os melhores amigos e padrinhos do casal, fundamentais para o desenrolar da narrativa.

Ousado, surpreendente e, muitas vezes, desconfortável, O Drama tem uma dupla de protagonistas excelentes, uma reviravolta intensa e, claro, muito drama.

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Brasil e mundo

Promotoria de Justiça abre inquérito para apurar tratamento desumano no BBB

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O Ministério Público Federal (MPF) determinou a instauração de um inquérito civil para investigar possíveis práticas de tortura e tratamentos desumanos ou degradantes no programa Big Brother Brasil 26. A decisão, assinada pelo procurador regional adjunto dos Direitos do Cidadão, Julio Araujo, fundamenta-se em representações que apontam riscos à integridade física e psicológica dos participantes da atual edição do reality show.

O procedimento teve origem após relatos de episódios convulsivos vivenciados pelo participante Henri Castelli durante uma prova de resistência. O representante da denúncia alega que as condições impostas pela produção expõem a saúde dos envolvidos a riscos desnecessários, citando exemplos de edições anteriores e casos recentes, como o do participante Breno, que ficou “exilado”, em uma área externa da casa. Segundo o documento, submeter indivíduos a situações perigosas para gerar entretenimento pode representar uma afronta direta à dignidade humana.

Um dos pontos centrais da investigação é a dinâmica do “Quarto Branco”. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) enviou uma “Carta Aberta” ao MPF manifestando indignação com o quadro, afirmando que a metodologia utilizada guarda semelhança com práticas de tortura empregadas durante a ditadura civil-militar brasileira.

De acordo com o documento da CEMDP, uma participante chegou a desmaiar em janeiro de 2026, após permanecer mais de 100 horas em reclusão. O relato detalha que ela teria sido obrigada a ficar de pé em um pedestal de diâmetro ínfimo, técnica descrita como similar às utilizadas em regimes ditatoriais latino-americanos para infligir sofrimento.

Em sua fundamentação, o procurador da República destaca que a liberdade de produção das emissoras de TV não constitui um “salvo-conduto” para violar direitos fundamentais. Como concessionárias de serviço público, as emissoras devem respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família, conforme estabelecido no artigo 221 da Constituição Federal.

O MPF ressalta que a vedação à tortura e ao tratamento degradante é um preceito constitucional absoluto que deve ser zelado por todas as esferas de governo. Para o órgão, a normalização do sofrimento alheio como forma de espetáculo é incompatível com os objetivos fundamentais da República de construir uma sociedade justa e solidária.

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Em resposta prévia constante nos autos, a TV Globo alegou que oferece acompanhamento médico permanente, com suporte de UTI móvel e protocolos de encaminhamento hospitalar. Sobre Henri Castelli, a emissora afirmou que o participante recebeu o atendimento necessário e foi levado a unidades de saúde externas em duas ocasiões.

Como diligência inicial do inquérito, o MPF solicitou que a TV Globo preste informações detalhadas sobre os questionamentos levantados pela Comissão de Mortos e Desaparecidos. 

Foto divulgação da Globo

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Cultura

Devoradores de estrelas. Por Déborah Schmidt

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Devoradores de Estrelas acompanha a jornada do professor de ciências Ryland Grace (Ryan Gosling). Um dia, ele acorda sozinho em uma nave a anos-luz da Terra, sem qualquer lembrança de como foi parar ali. Aos poucos, as lembranças retornam e ele relembra que foi recrutado por uma organização mundial para integrar o “Projeto Fim do Mundo”, uma missão enviada para descobrir por que o Sol está morrendo. A partir daí, o personagem precisa usar seus conhecimentos científicos para evitar a extinção da humanidade até encontrar uma amizade inesperada em um alienígena misterioso que viajou anos-luz para salvar sua própria espécie do mesmo destino.

Dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, conhecidos por animações como Tá Chovendo Hambúrguer (2009) e Uma Aventura Lego (2014), além da produção dos aclamados Homem-Aranha: No Aranhaverso (2018) e Homem-Aranha: Através do Aranhaverso (2023), Devoradores de Estrelas mostra a maturidade da dupla em um projeto que aposta na emoção e no espetáculo visual.

Baseado no romance homônimo de Andy Weir, o roteiro de Drew Goddard, indicado ao Oscar por Perdido em Marte (2015), encontra um equilíbrio interessante entre o didatismo da ciência e o entretenimento. A montagem alterna sequências no passado e no presente, usando flashbacks para contextualizar a missão e revelar as decisões que levaram o protagonista até ali. São nessas passagens que conhecemos Eva Stratt (Sandra Hüller), líder do Projeto e disposta a sacrificar o que for necessário para garantir a sobrevivência da Terra.

A produção não é mais um filme cientifico sobre salvar o planeta, mas sim uma história que encontra sua força na construção de uma amizade inusitada e profundamente humana. O grande diferencial da narrativa está em Rocky, um extraterrestre feito de pedra que, mesmo sem uma linguagem convencional, desenvolve uma comunicação única com Ryland, auxiliada por um sistema criado pelo protagonista, algo parecido com o de Stephen Hawking e que ganha uma opção com a voz de ninguém menos que Meryl Streep. A relação entre Grace e Rocky é o coração do filme, em uma amizade construída aos poucos, que permite explorar temas como empatia e altruísmo.

Com carisma e um ótimo timing cômico, o filme prova, mais uma vez, que Ryan Gosling é capaz de sustentar uma superprodução praticamente sozinho. A capacidade do ator em transmitir vulnerabilidade e humanidade é um dos grandes destaques de sua atuação e sua quarta indicação ao Oscar está quase garantida. Mesmo com pouco tempo em cena, a brilhante atriz alemã Sandra Hüller rouba a cena, em especial com um karaokê memorável ao som de “Sign of the Times”, de Harry Styles.

O filme aposta em movimentos de câmera que reforçam a sensação de desorientação e solidão no espaço. A fotografia de Greig Fraser é, literalmente, um espetáculo, com uma cinematografia que prioriza cenários reais e efeitos práticos sempre que possível, em sua maioria sem o uso de efeitos especiais, construindo fisicamente a nave e usando marionetes avançadas para o alienígena Rocky. A épica e excelente trilha sonora de Daniel Pemberton utiliza toques de melancolia, com um belíssimo final ao som de “Two of Us”, dos Beatles.

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Devoradores de Estrelas é uma ficção científica que abraça sentimentos universais como solidão e esperança em uma experiência cinematográfica deslumbrante. Sem dúvidas, o grande filme do ano até agora. E que será lembrado durante todo o ano.

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Brasil e mundo

A mistura de “arte” e poder

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Arte e política renderam um livro clássico. Publicado em 1936, e baseado em um caso real, o romance Mephisto, do alemão Klaus Mann, conta a história de um ator que adere ao Nazismo.

Determinado a ascender na carreira, ele abandona seus princípios morais e sua integridade como artista.

Muitos artistas recebem dinheiro de governos para realizar obras que agradam ao poder, em troca de benefícios semelhantes aos do personagem central de Mephisto. Mesmo que tenhamos afeição por eles, é aceitável que o façam?

Creio que a resposta seja óbvia. Não é aceitável. Por uma razão simples. Um artista que troca favores com um governo radicalmente ideologizado perde algo mais do que sua alma. Perde o respeito pelo público.

Como é subsidiado pelo poder, já não se importa nem mesmo com a qualidade do aplauso, porque está pago de antemão. Tendo ou não valor artístico, fracassando ou não na bilheteria, não importará.

Nós temos essa ideia romântica de que artistas são pessoas do “bem”. São e não são. Porque no fim, como todos, também eles precisam pagar as contas.

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O problema é quando quem paga a conta é o governo. Quando isso ocorre, a tendência é de que haja cooptação política do artista. Daí em diante suas obras continuarão a ser financiadas pelo Estado, mesmo que não agradem o público, como confessa a presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata de Almeida Magalhães (vídeo abaixo).

Agora relembro um caso que ocorreu a um artista do nosso tempo quando se “engajou”.

A comparação não é perfeita, já que ele se fez à custa do próprio talento. Mas serve como exemplo do equívoco do engajamento político, por uma razão que resume tudo: o engajamento empobrece o artista, por aquém da realidade, sempre mais complexa do que aquele pretende, levando a entendimentos falsos que podem se tornar frustrantes aos seguidores e até perigosos aos artistas.

Numa cena de documentário sobre John Lennon, o músico e Yoko Ono, de pijamas na cama de um quarto de hotel no Canadá, recebem artistas e simpatizantes para “um protesto pacífico e cantante em favor da paz no mundo”. Estava megalomaníaco.

Como os discos dos Beatles e dele próprio vendiam como coca-cola, nessa altura rico, além de casado com uma filha de banqueiro de Tóquio, podia bancar seus luxos e caprichos.

Entre outros visitantes, apareceu lá um cartunista: Al Capp, um homem mais velho, de uns 50 anos. Homem vivido, sem ilusões, com os pés plantados na realidade.

Capp questionou o ato político do casal, perguntando o que Lennon podia fazer pela paz mundial sentado numa cama. Lennon não gostou. Bateram boca.

Capp disse a Lennon que ele não lhe “fazia a cabeça”, que os artistas que admirava eram outros, e foi saindo, enquanto Lennon reclamava: “ele não deveria estar aqui”, e, debochando, cantarolava de improviso algo com o nome de Capp para desmerecê-lo.

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O cartunista reagiu: “Não deveria estar aqui, por quê? Você convidou a todos para vir. Sou seu convidado”.

A recusa do cartunista a embarcar na canoa de Lennon, como todas as recusas, me fez pensar. Mesmo que me desagrade, sempre penso que em toda recusa há algo que merece atenção. E havia.

Anos depois Lennon cantou “the dream is over”. Ao menos foi sincero. Enfim aceitara o que, sendo sensível como era, no fundo sempre soube, apenas não admitia. Que a paz é uma quimera.

Então um fã o esperou em frente de casa e o matou.

Foto devulgação/ Klaus Maria Brandauer fez o papel do ator que adere ao Nazismo na versão cinematográfica de Mephisto.

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Cultura

O ousado e sem personalidade ‘A noiva!’ Por Déborah Schmidt

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Ambientado na Chicago da década de 1930, A Noiva! acompanha a história de Ida (Jessie Buckley), uma jovem assassinada que ganha vida novamente. O que ela não imaginava é que seria trazida de volta à vida por Frankenstein (Christian Bale), que, após um século de solidão, anseia por companhia e pede a ajuda da Dra. Euphronious (Annette Bening). Os dois, então, trazem-na de volta à vida e, assim, nasce uma nova criatura: a Noiva. Logo, a jovem descobre um mundo marcado por obsessões e violência, além de se envolver em um romance selvagem e explosivo.

Após uma excelente estreia na direção com A Filha Perdida (2021), a atriz Maggie Gyllenhaal resolve não apenas revisitar um clássico, mas ressignificar a icônica personagem criada por Mary Shelley. A diretora, e também autora do roteiro, não tem medo de mexer em algo que o público já conhece, e nem de assumir um discurso sobre identidade e pertencimento.

O longa quer tanto deixar claro o que está dizendo que acaba se repetindo, diminuindo seu impacto. Ainda assim, é impossível ignorar o quanto a proposta é instigante. A metalinguagem funciona bem no começo, com Jessie Buckley interpretando Mary Shelley, Ida e Penny ao mesmo tempo, com criadora e criatura dividindo a mesma mente.

Buscando sua própria identidade, o filme é uma mistura de estilos. A produção passeia pelo drama existencial, romance gótico e denúncia social, além de ter a impressão de que, em alguns momentos, estamos assistindo a um road movie ou até musical de Hollywood. Ao fim, A Noiva! não encontra sua identidade, pois parece que estamos assistindo filmes diferentes disputando o mesmo espaço.

Se há algo que sustenta o filme e que é inegavelmente seu maior triunfo são as atuações de Jessie Buckley e Christian Bale. A vencedora do Oscar entrega uma performance impressionante, no papel de uma mulher frágil e forte, que não sabe quem foi, mas que sente que sabe quem quer ser. A atriz domina as cenas sem esforço. Já Christian Bale equilibra intensidade e carisma. Seu Frankenstein começa contido, quase introspectivo, e aos poucos abraça o caos com uma energia magnética.

A química entre os dois culmina em uma marcante sequência de dança, onde o filme encontra sua síntese perfeita entre estranheza e liberdade. Entre os coadjuvantes, a contribuição de nomes de peso como Annette Bening, Penélope Cruz e Peter Sarsgaard, como uma dupla de detetives, e Jake Gyllenhaal como um popular astro de cinema.

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Quando o filme abraça o exagero, o caos e o gótico, ele ganha força. A ambientação nos anos 30 cria um contraste interessante entre o conservadorismo da época e a energia anárquica da protagonista. A fotografia de Lawrence Sher, indicado ao Oscar por Coringa (2019), reforça esse embate visual. Visualmente intenso e estimulante, o caos estético que dialoga com o processo interno da protagonista conta com o design de produção de Karen Murphy, indicada ao Oscar por Elvis (2022), que passeia por diferentes cidades como Chicago, Nova York e Cataratas do Niágara. Além disso, temos a densa trilha sonora da islandesa Hildur Guðnadóttir, vencedora do Oscar por Coringa (2019), e o figurino da lendária Sandy Powell, três vezes vencedora do Oscar, que mistura o horror gótico com uma energia punk rock da época.

Corajoso e ambicioso, porém irregular, A Noiva! atesta a visão de sua diretora, em um filme ousado e sem personalidade.

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Brasil e mundo

O filme mais humano e equilibrado sobre a ditadura no Brasil

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Dentre os filmes sobre o período da ditadura militar no Brasil, o de que gosto é O que é isso, companheiro?, baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira. A obra concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1998, mas não ganhou.

Dirigido por Bruno Barreto, ele conta o que se passou nos quatro dias do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio. A ação, realizada por guerrilheiros, ocorreu em 4 de setembro de 1969 e terminou com a libertação de Elbrick, a fuga dos sequestradores e a sua captura por agentes da repressão.

Barreto narra a história com equilíbrio, sem tomar parte ideológica, situando os envolvidos nas circunstâncias da época, modelando para além do maniqueísmo mocinhos vs bandidos — inclusive porque os gurerrilheiros pertenciam a organizações que pretendiam implantar sua própria ditadura, como admitiu Gabeira.

Abalxo alguns exemplos do tratamento dado pelo diretor.

Numa das cenas, o embaixador acha que será morto e, assustado, defeca. Envergonhado, conta o que ocorreu. O guerrilheiro de vigília o guia pelo braço até o banheiro, para que se lave. Sozinho na privada, Elbrick chora. Não é a encarnação do demônio americano. É apenas um homem.

Noutra cena, um dos torturadores do regime, um sujeito com a mulher grávida, tem problemas de consciência e, sufocado pela culpa, confessa à mulher o que vem fazendo nos porões da ditadura. Ele se sente perturbado por torturar. Mas, sendo funcionário de estado, e preocupado em manter o emprego e a família, prestes a crescer, ele tortura (e se tortura por torturar).

Outro exemplo: no revezamento da vigília de Elbrick no cativeiro, os sequestradores entravam no quarto com um capuz parecido com máscaras antigas de Carnaval, com dois furos para os olhos. Máscaras escuras, de carrascos. No filme, o personagem de Gabeira, assim como outros, acha que Elbrick não merece reter a visão de um mascarado com o revólver pousado no regaço. Por isso oferece ao embaixador uns óculos com o espaço das lentes coberto com uma proteção preta. Pousado o apetrecho, este faz do cativo literalmente um cego. Gabeira vê Elbrick, que não pode identificá-lo, mas ao menos não é obrigado a olhar para um “monstro”. Esse tipo de elegância é talvez o máximo das possibilidades humanas, a coisa mais valiosa que se possa almejar entre as pessoas. Em situações de desvantagem alheia, tratar os outros com humanidade.

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Elbrick acabou libertado em troca da soltura de outros guerrilheiros. Ele falou bem dos sequestradores e o governo americano o levou de volta aos Estados Unidos e o aposentou. Preso, torturado e banido do país, Gabeira só voltaria ao Brasil nove anos depois, com a anistia. No retorno, foi deputado federal por três mandatos, cansou (concluiu que “não valia o esforço”) e voltou a ser jornalista. Em seus comentários na Globo, é hoje um velhinho simpático e tranquilo. Às vezes sua gata Renata atrapalha suas entradas ao vivo, caminhando em frente da câmera. Noutro dia, Renata o arranhou e ele a afastou com um safanão, um gesto instintivo de defesa.

Quando Gabeira ainda era deputado, a filha de Elbrick veio ao Brasil se encontrar com ele, querendo conhecer melhor o pai. Saber quem este foi nos dias em que esteve cativo. Amigavelmente, os dois conversaram.

Proibido pelo Departamento de Estado de entrar na América, Gabeira, embora tenha tentado, nunca pôde pisar nos Estados Unidos.

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