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Crônicas

Amor por animais

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Golden retriever dog with a collar and tag reading Max, tongue out

Quando deparo com cuidadoras de animais em suas notáveis campanhas de salvação, penso sempre que devem dar ótimas esposas de homens, ao menos uma parte delas, tal a paixão, acima de tudo, pelos cachorros. Então lembro de Brigitte Bardot, a divindade de olhos ovalados, precursora da luta moderna pelos pobres bichos, e já não sei se minha impressão fica de pé.

Em livro que despertou polêmica, Roger Vadim, ex-marido da atriz, contou que BB passou a vida à procura do amor, o que a levou a constantes traições, muitas vezes em resposta à infidelidade dos parceiros. Vadim sabia o que estava falando. No meio de um filme dirigido por ele, Bardot o trocou pelo ator que fazia seu par romântico. Entre uma cena e outra, mudou-se para o bangalô do amante. Eram os Anos 60, tudo muito natural, e as filmagens continuaram, sem drama, até o corte final.

Os homens não são de fato confiáveis, menos ainda em relação a mulheres cobiçáveis tão só pela beleza, o que é diferente de um cão, capaz de amar sua cuidadora sem avaliá-la pela aparência, muito menos julgá-la pelo caráter. Ocorre que, de parceiro em parceiro, a francesa chegou ao reino animal.

Em declaração antiga à imprensa, Bardot disse: “Dei a minha beleza e juventude aos homens. Agora dou a minha sabedoria e experiência aos animais”.

Fazia tempo que não sabíamos nada de concreto dela, até sua morte, neste ano. Como abandonara o cinema e envelhecera, a mídia mundial deixou de noticiá-la. Hoje, de vez em quando, ela me reaparece, sugerida nas redes sociais, em infelizes comparativos fotográficos de juventude e velhice que parecem ter algo de cruel.

Contudo, deixou um legado.

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No pós-Bardot, o número de mulheres que dedicam suas vidas aos animais cresceu. Por ora elas se têm concentrado em cachorros, gatos e cavalos, embora eu tenha lido uma reclamação recente delas envolvendo os lagartos que habitam os banhados da cidade.

Com a chegada das máquinas de terraplenagem e de operários da construção naquelas áreas, lagartos disparam em todas as direções, abandonando seu habitat. É verdade. Eu mesmo já vi um lagarto verde cruzar a faixa de pedestres perto do Shopping, como se estivesse atrasado para um compromisso do outro lado da cidade.

Acho tudo muito bem. No entanto, do meu canto de homem, ando um pouco preocupado. Afinal, se essa competitiva sanha protetora de animais se expandir, o que será de nós? Não sei se notou, mas anda cada vez mais difícil encontrar mulheres determinadas a nos amar com o mesmo ardor que as protetoras dedicam aos animais. Inclusive uma parte delas deu pra nos encarar com cautela e até com animosidade.

Há muitos anos, tive uma namorada que me chamava de “cachorro”. Na verdade, o tratamento era mais civilizado e íntimo. Ela falava: “Seu cachorro”. Em resposta, eu lançava no ar um uivo. Como sou magro, em geral eu me sentia um galgo farejando um rastro. Já em dias mais animados, eu me via um São Bernardo, socorrendo uma vítima na neve com o barrilzinho de uísque atado no pescoço e a torneirinha de rosca fácil para abrir, aquecer o sangue e embriagar de amor.

Era muito bom.

Um belo dia, porém, a namorada se foi, e o caso é precisamente esse: apesar de meus defeitos, eu gostaria de ser amado pelo resto da vida como um cachorro é amado.

Será que é pedir muito?

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Jornalista. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar (finalista do Prêmio Açorianos/2026) e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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Crônicas

Descarte

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Há cerca de um ano, de repente, senti o impulso de desabarrotar meus armários, meu guarda-roupas e meu campo de visão. Livrar-me de tudo o que já não precisava, conservar comigo só os objetos essenciais, abrir grandes áreas de respiro. É sempre uma luta. De início a decisão de descartar prevalece. Porém, na hora do descarte, muitas vezes a mente ordena uma coisa, o coração, outra. A mente quer se ver livre, o coração, não. Muitas vezes desisto.

Os objetos pessoais mais difíceis de me desprender foram certos filmes e livros, por uma razão moral. O dvd do filme Cinema Paradiso e o romance Sidarta, de Hesse, por exemplo. Lá atrás, quando eu tinha 20 e depois 30 anos, seus conteúdos me ajudaram quando precisei sentir que não estava sozinho em meus sentimentos.

Para ter ideia do quanto esses “objetos” foram importantes pra mim, quando me dispunha a emprestar o dvd do Paradiso para alguém ver, e a pessoa não se interessava, eu costumava pensar que ela era totalmente imbecil. Por isso, mesmo feitos um de plástico, outro de papel, e com seus conteúdos agora acessíveis em meio digital, lamentei antes de depositá-los na caixa para Doação.

Entretanto, enquanto descartava, notei que me custava desprender inclusive de guardados de uso utilitário. Coisas como um par de mocassins deformados pelo uso ou uma armação de óculos ressecada ou um reles peso de papel lascado. Objetos assim, enfurnados há anos, dos quais nem lembrava mais. Por que hesitei então?

Logo relembrei do óbvio: nada é tão desprovido que prescinda de significado. Cada coisa, mesmo a mais simples, reflete identificações guarnecidas pelo inconsciente, ativa recordações temporais e suscita lembranças produzidas pela imaginação.

Aquele mocassim Guido, do melhor fabricante argentino, eu o comprei numa viagem a Buenos Aires, logo após a Guerra das Malvinas, quando, aliás, o inverno era mais rigoroso do que agora. Aqueles óculos me foram presenteados pela minha ex-mulher, quando as coisas ainda iam bem entre nós: óculos de aros robustos da Company, uma firma carioca que não existe mais. Já aquele peso de papel, por incrível que pareça, eu o achei na rua, peso da cor azul. Pousado em minha antiga mesa de trabalho de mármore branco, ele parecia um pequeno lago gelado.

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Entre hesitações segui com meu descarte. De 22 pares de sapatos, restaram comigo cerca de dez; na verdade, onze, pois desisti de doar um. Sigo gostando de mocassins, mas não devo mais usar sapatos de saltos baixos, não por tantas horas, muito menos em percursos maiores. Por recomendação médica, entrei na fase de usar tênis (um só) com macias entressolas espessas, o que não é ruim. Além de aliviar a pressão dos passos em minha coluna, eles me fazem cerca de cinco centímetros mais alto, o que mal nenhum tem feito. Ao contrário.

Ultimamente voltei ao descarte de objetos, porém não meus. Descarte de herdados de meus pais, escolhas deles. Há dois meses, após a morte do meu pai, precisei enfrentar esse momento.

Depois de reter comigo alguns itens de valor monetário e emocional, eu me vi diante de restos sem serventia, porém gravados na memória desde a infância. Alguns móveis arruinados, tapetes de tão gastos que seus motivos apagaram, biscuits rachados, tralhas há muito refugadas para um pequeno depósito nos fundos da casa. Uma destruída gaiolinha enferrujada, com passarinhos de mentira, se demorou um tempo maior em minhas mãos. Mas fui em frente.

Despejei tudo em um container, sentindo um misto de derrota, alívio, culpa, tristeza e traição. A cada despejo eu me vi despojando até mesmo da sensação de pertencer a uma linhagem familiar, solto no ar como uma pipa de fio partido.

Para o velório do meu pai, eu o vesti com meu melhor e único terno, meu melhor sapato, minhas melhores camisa e gravata, e, durante a cerimônia, flagrei-me magnetizado pela visão dos pés dele — os sapatos, a presilha de fivela e a lingueta do pé direito ligeiramente torta — com a impressão de que no caixão ele era eu e de que eu era ele. Ainda agora, em momentos inesperados, essa visão me volta. Ele era um homem de bom gosto, e eu quis honrá-lo em sua última viagem.

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