Esportes
É sobre fomes
Pablo Rodrigues* O futebol ensina. Por trás de cada passe despretensioso para o lado, há um punhado de histórias cheias de derrotas, de fracassos gritantes, mas também de vitórias inexplicáveis, de alegrias abertas à esperança de uma nova vida que nunca nascem sozinhas. Histórias de batalhas vencidas por uma espécie de armada invisível, disposta aos […]
Pablo Rodrigues*
O futebol ensina. Por trás de cada passe despretensioso para o lado, há um punhado de histórias cheias de derrotas, de fracassos gritantes, mas também de vitórias inexplicáveis, de alegrias abertas à esperança de uma nova vida que nunca nascem sozinhas. Histórias de batalhas vencidas por uma espécie de armada invisível, disposta aos maiores sacrifícios.
Taison passou fome. E o texto poderia terminar aqui – o principal estaria dito: a vida é senhora de ausências e milagres. Não fosse a macarronada feita por um dirigente do Progresso e talvez a jovem e magricela promessa não tivesse marcado três gols naquele dia contra o Inter. Porque não havia almoçado. E não havia almoçado porque são assim os dias nos bairros mais pobres de Pelotas: dias feitos de pão contra dias de não.
Talvez não tivesse despertado os olhares do time da capital. Talvez jamais tivesse deixado o Navegantes para onde hoje, coração nos lábios, sempre volta. Santa e milagrosa macarronada. Santo pão feito de trigo, farinha e trabalho humano. Santos pés e pernas e dribles. Santas ruas de chão batido. Santas pracinhas públicas em que a meninada pode escapar dos buracos e transformar pares de chinelo em traves. Santo segundo antes do gol – a suspensão do mundo, o cabeceio no alto, o ar parado. Dadá nos acuda!
O futebol ensina. E salva. Contra toda desesperança, salva. Resgata. Não poucas vezes. Faz o que poder público deveria fazer: olha para quem pouco ou quase nada tem. O maior nome do futebol pelotense em atividade passou fome nesta mesma Pelotas que cresce assustadoramente, tem uma legião de miseráveis, permanece sem justiça social e começa, contraditoriamente, a ensaiar um discurso meritocrático. Sem oportunidades iguais, o discurso do mérito sempre será falacioso.
Quantos, como Taison, talentosos como ele, hoje estão em Pelotas, como ele esteve, cuidando carros nas esquinas? Quanto valor desperdiçado em cada pessoa esmagada pela falta de condições mínimas? Esmagada pela ânsia de suprir a mais básica e primitiva das necessidades: a de comer. Nascido no Sul do Sul, Taison é, antes de tudo, um forte. E, neste ano de eleições, talvez não haja político digno sequer de amarrar os cadarços de suas chuteiras.
O futebol ensina. Porque, invariavelmente, recorda a importância de um pai e de uma mãe. A de Taison teve 11 filhos. E criou todos. Não sem dor. Não sem angústia. Não também sem uma força interior capaz de fazer inveja à mais disciplinada das pessoas.
Para alimentar os seus pequenos, dona Rosângela trabalhou como doméstica e várias vezes recorreu ao sopão distribuído pelas igrejas. O excelente perfil feito pelo Tino Marcos e produzido pelo Marcelo Prata, jornalista formado pela Universidade Católica de Pelotas, mostrou ao país com delicadeza e responsabilidade o essencial na vida de Taison: uma mãe sorridente e orgulhosa, que se tornou, de certo modo, um pouco a mãe de todo mundo, a mãe da gente também.
O futebol ensina. Porque é sempre sobre mais do que apenas 22 pessoas correndo atrás de uma bola. É sobre tudo o que se precisou driblar para chegar até aqueles 90 minutos de uma partida, seja de Copa do Mundo ou de várzea. Porque também a várzea tem seus encantos e gols espetaculares. Tem suas risadas e discussões, pernas para cima, pós-jogo, em outro tipo de copa, feita de largos balcões e de mesas e cadeiras enferrujadas. É eternamente febril o estado dos que amam o futebol. Se não fosse, como Taison resistiria a tantas contrariedades? Como suportaria um não ao sonho de jogar em time grande por ser franzino? Como não ser franzino quando se tem fome? Nunca é somente futebol, meus amigos e minhas amigas. Nunca será. É sobre fomes. De bola e de macarrão.
Sartori apareceu em primeiro na preferência dos gaúchos para o governo do Estado. Ao menos é o que diz pesquisa publicada ontem no Jornal do Comércio. E juram de pés juntos que ela não foi feita somente em Caxias. O que Sartori não diz é por que pouco fez por quem pouco tem. Em seu encalço, vem Eduardo Leite. E fala, por cifras, em mais austeridade. Austero é o prato vazio. Rosseto, Jairo Jorge…
Todos olham as contas do Estado, multiplicam números. Falam pouco em gente, na gente que constrói este Rio Grande do Sul de regiões tão díspares. Às vezes, se parecem com um dos homens que o Pequeno Príncipe conheceu em certo planeta: “Conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão contas. E o dia todo repete, como tu: ‘Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!’ E isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo.”
Tão comuns estes homens “cogumelares”. Tão sérios todos…
A Copa do Mundo começa amanhã. Taison já está na Rússia. Com ele, Pelotas inteira, mas, principalmente, o povo da periferia. Porque a vitória de Taison é vitória de quem não nasceu em berço de ouro. É a vitória de quem precisou descobrir, a cada dia, como sobreviver. É a vitória de quem passou fome e sentiu na pele o desamparo.
O futebol só é alienação para quem não enxerga para além da casca. A história do Taison e da família dele está aí para dar testemunho. Vale muito mais do que qualquer discurso que será dito até outubro. Porque é vida sofrida. Vida transformada. Vida em movimento.
Fica combinado, então: ninguém vai reclamar da Copa e dizer, com ares de intelectual, que é uma vergonha “tudo parar por causa de um jogo.” Os jogadores de futebol não são culpados pelos problemas sociais. Muito menos culpado é o próprio futebol. Em um país de mil e tantas misérias como o Brasil, o futebol é sinal de esperança. É a certeza de que existe ao menos a mínima possibilidade de alguém em completa desvantagem social virar o jogo.
Ao futebol, portanto. E, logo, aos deveres do voto!
O excelente texto de Pablo foi publicado originalmente no jornal Diário Popular, onde assina uma coluna. E reproduzido aqui com a gentil cortesia do autor.
Comportamento
Felipe Melo e a censura
Não há censura no Brasil. Pelo menos não deveria haver. Felipe Melo, volante do Palmeiras, dedicou seu gol ao, segundo ele, “nosso Futuro Presidente, Bolsonaro”. Por conta dessa afirmação a Procuradoria do STJD (uma espécie de Ministério Público do Esporte) vai denunciar o mesmo por manifestação de cunho político ou ideológico. Neymar e Robinho passaram […]
Não há censura no Brasil. Pelo menos não deveria haver. Felipe Melo, volante do Palmeiras, dedicou seu gol ao, segundo ele, “nosso Futuro Presidente, Bolsonaro”.
Por conta dessa afirmação a Procuradoria do STJD (uma espécie de Ministério Público do Esporte) vai denunciar o mesmo por manifestação de cunho político ou ideológico.
Neymar e Robinho passaram por situações parecidas ao usarem a faixa “100% Jesus”.
A liberdade de expressão está cada vez mais estreita.
Brasil
Felipe Melo dedica gol ao Capitão 17
O volante do Palmeiras, Felipe Melo, que jogou a Copa de 2010 pela seleção brasileira, na posição de líder da equipe alviverde, após o jogo de hoje, dedicou o seu gol ao “nosso futuro Presidente, Bolsonaro”. Nunca critiquei Felipe Melo, mas a censura é praxe no esporte. Na semana passada, depois do “Clash of the […]
Felipe
O volante do Palmeiras, Felipe Melo, que jogou a Copa de 2010 pela seleção brasileira, na posição de líder da equipe alviverde, após o jogo de hoje, dedicou o seu gol ao “nosso futuro Presidente, Bolsonaro”.
Nunca critiquei Felipe Melo, mas a censura é praxe no esporte.
Na semana passada, depois do “Clash of the Titans” entre Brasil e França pelo Mundial de Vôlei, o jogador Wallace fez o sinal com o número 17. Prontamente a CBV repudiou o ato.
Esportes
Prefeitura ‘olha de canto’ para a Avenida Dom Joaquim
Sou praticante de atividades físicas ao ar livre. Fico me perguntando porque a prefeitura não faz a devida manutenção no canteiro central da Dom Joaquim e nem mesmo na ciclovia, que cobre uma área de aproximados 1.300 metros da esquina da Dom Joaquim com a Andrade Neves, até o seu final Nunca vi uma pauta […]
Sou praticante de atividades físicas ao ar livre. Fico me perguntando porque a prefeitura não faz a devida manutenção no canteiro central da Dom Joaquim e nem mesmo na ciclovia, que cobre uma área de aproximados 1.300 metros da esquina da Dom Joaquim com a Andrade Neves, até o seu final
Nunca vi uma pauta para a instalação de uma “praça de esportes”, com uma pista de atletismo, mesmo que seja em saibro, de 400 metros, bem como a criação de passeios públicos sem os cruzamentos com as vias; só na Dom Joaquim, em 1.600 metros, são seis cruzamentos, e muitos veículos não respeitam as faixas de pedestres, que, anote-se, seguem apagadas; com a prefeitura olhando para eles com o canto dos olhos.
Trecho da Dom Joaquim
Cultura
Um psicólogo para a Seleção?
Tite nomeou Neymar como capitão da Seleção brasileira, o que é uma jogada psicológica, evidentemente. No esporte de alto rendimento, tudo é científico, da preparação física aos esquemas táticos, da fisiologia à nutrição. Mas há quatro anos não temos Psicologia na Seleção e há pelo menos dois motivos para isso, dois exemplos que não deram […]
Tite nomeou Neymar como capitão da Seleção brasileira, o que é uma jogada psicológica, evidentemente. No esporte de alto rendimento, tudo é científico, da preparação física aos esquemas táticos, da fisiologia à nutrição. Mas há quatro anos não temos Psicologia na Seleção e há pelo menos dois motivos para isso, dois exemplos que não deram certo.
Em 2014 a então psicóloga deu entrevista a canal de TV de debates onde traçou perfil psicológico dos jogadores, o que causou constrangimento por expor bastidores do ambiente do grupo. E há uma história lendária sobre o primeiro psicólogo na Seleção, que completa 60 anos agora, no glorioso ano de 1958.
Naquele time lendário, onde Pelé e Garrincha se consagraram, o psicólogo tentou barrar Garrincha por deficiência intelectual. Na época o conceito de inteligência era muito limitado, ao modelo cognitivo-verbal, não havia a compreensão dos vários tipos de inteligência, como existe hoje – a matemática, a musical, a cinestésica.
Garrincha podia até ser “retardado” nos testes formais de Q.I., mas era um gênio em inteligência cinestésica, que é a dos movimentos. Os marcadores até sabiam o que ele iria fazer, mas não conseguiam impedir, pois seus movimentos eram mais rápidos e desconcertantes.
Os jogadores bancaram Garrincha e quem perdeu prestígio em 58 foi o psicólogo Carvalhaes, na primeira demonstração de que a psicologia do futebol exige conhecimentos mais específicos. Isso continua válido até hoje e a experiência de 2014 confirmou isso, quando o grupo se sentiu exposto pela entrevista da psicóloga daquela época.
Mas em outros países isso funciona, na mesma Copa de 2014 se consagrava o trabalho do psicólogo do esporte que acompanhava a Seleção da Alemanha já há muitos anos.
Tão específicos são os conhecimentos dos bastidores do futebol, que geralmente os técnicos assumem esse papel de “psicólogos” do grupo, na prática. Em 1994 Parreira e Zagalo bancaram Dunga e tiveram a genial ideia de lhe colocar no mesmo quarto do Romário, craque até então indisciplinado. A dupla funcionou tão bem naquela Copa que são amigos até hoje.
Para evitar a exposição, ou descrer de conhecimentos específicos, Tite faz agora o papel de “psicólogo” ao nomear Neymar capitão. Mas será esse, mesmo, o melhor caminho? Não existirá nenhum psicólogo no país em que possamos confiar, que não cometa os equívocos anteriores? Neymar capitão é um aposta de risco.
Esportes
Copa: Não foi bem um apagão…
Na Copa dos 7 x 1 tivemos um apagão. Hoje o efeito foi diferente. Desta vez, os adversários apenas fizeram sombra ao Brasil. Uma tremenda sombra. Parecia um jogo de gigantes contra pigmeus, e não me refiro apenas ao aspecto físico.
Na Copa dos 7 x 1 tivemos um apagão.
Hoje o efeito foi diferente.
Desta vez, os adversários apenas fizeram sombra ao Brasil.
Uma tremenda sombra.
Parecia um jogo de gigantes contra pigmeus, e não me refiro apenas ao aspecto físico.

Brasil
O senso crítico e o esporte
O professor Filipe de Oliveira, um dos fundadores do maior curso pré-vestibular do estado, afirma que o aprendizado mais importante é o das séries iniciais, porque é o que ensina a pensar, a desenvolver os raciocínios básicos em linguagem, matemática e lógica. Se bem formado nos primeiros anos, o aluno desenvolve cada vez maior autonomia […]
O professor Filipe de Oliveira, um dos fundadores do maior curso pré-vestibular do estado, afirma que o aprendizado mais importante é o das séries iniciais, porque é o que ensina a pensar, a desenvolver os raciocínios básicos em linguagem, matemática e lógica. Se bem formado nos primeiros anos, o aluno desenvolve cada vez maior autonomia nos seus estudos e não vai ter problemas maiores na Universidade.
O senso crítico é uma das capacidades que se desenvolve com a capacidade de raciocínio e de análise dos fatos, ao crivo da lógica. E, sendo nosso país carente de uma boa formação nas séries iniciais, somos todos aprendizes, incipientes, nessa matéria.
Há uma série de modismos que revelam nossos esforços para desenvolver esse senso crítico. Quando as pessoas criticam a Copa do Mundo, nas redes sociais, estão repudiando o uso de futebol como fator de alienação, como ocorre tradicionalmente na história do país. O que não impediu o governo anterior, hoje na oposição, de dispender mais recursos do BNDES para estádios do que para obras de infraestrutura ou serviços. Então, faz sentido o alerta contra o mau uso do futebol.
Na Copa da Rússia, no entanto, não há despesas públicas do nosso país envolvidas na participação da nossa Seleção. A CBF é uma entidade privada, tal como a FIFA, com seus próprios patrocinadores. Então, quando as pessoas dizem hoje que são contra curtir a Copa “porque o dinheiro tinha de ir para a saúde”, estão desinformadas.
Esse dinheiro é proveniente de anunciantes e até dos espectadores que gostam de futebol. Não faz sentido imaginar que isso concorre com anúncios que seriam colocados dentro dos hospitais ou que as pessoas fossem pagar ingresso para assistir o espetáculo do atendimento hospitalar.
Senso crítico inclui desde a capacidade de desconfiar do “status quo” – no que a população brasileira vai indo muito bem – até a capacidade de submeter essas desconfianças ao exame das informações atualizadas e da lógica, da razão.
Somos um povo incipiente nessa racionalidade, pois na Inglaterra ou na Suécia, por exemplo, que também amam futebol, as pessoas já tem uma noção mais clara da diferença entre o público e o privado. A CBF, na verdade, é fonte de renda pois paga impostos.
Desenvolver o senso crítico é fundamental para uma nação que quer e precisa se desenvolver em todas as áreas, como a nossa. O esporte não é o vilão: o mau uso dele sim. Bem utilizado, ele é fundamental para o desenvolvimento da nossa juventude, não com mega estádios mas sim com locais públicos para esportes nas comunidades e nas escolas. Enfim, não se trata de colocar o futebol em oposição à saúde ou à educação, mas de ter estratégias racionais de desenvolvimento, que abrangem diversas áreas de atuação.
Empresa & Consumo
Parque Una na Copa
O Una está em ritmo de Copa do Mundo. Não só trabalhando pelos melhores resultados, mas compartilhando emoções. No jogo de ontem entre Brasil e Sérvia, cerca de 30 pelotenses visitaram o Una pra torcer juntos, vendo a partida em um telão no showroom da empresa, com direito a pipocas, chope do Café 35 e […]
O Una está em ritmo de Copa do Mundo. Não só trabalhando pelos melhores resultados, mas compartilhando emoções.
No jogo de ontem entre Brasil e Sérvia, cerca de 30 pelotenses visitaram o Una pra torcer juntos, vendo a partida em um telão no showroom da empresa, com direito a pipocas, chope do Café 35 e a plásticos-bolha para relaxar da tensão.
O Una voltará a recepcionar os torcedores no jogo com o México, na próxima segunda-feira.
Esportes
Galvão Bueno já tem um sucessor
Quem não suporta Galvão Bueno, aquele gestual robótico (aquela mãozinha trêmula e aqueles olhos esbugalhados fariam a festa de um psiquiatra), pode ficar “descansado”. Já há um substituto, este aí. Luís Roberto emula o Galvão. Como o ídolo, parece uma garrafa de champa prestes a expulsar a rolha. Tenho saudade do Luciano do Valle.
Quem não suporta Galvão Bueno, aquele gestual robótico (aquela mãozinha trêmula e aqueles olhos esbugalhados fariam a festa de um psiquiatra), pode ficar “descansado”.
Já há um substituto, este aí. Luís Roberto emula o Galvão. Como o ídolo, parece uma garrafa de champa prestes a expulsar a rolha.
Tenho saudade do Luciano do Valle.
Esportes
Bipolar social entre o Complexo de Vira-Latas e a Fé Cega
Daniel Halfen, advogado Vou fazer do time do Brasil minha reflexão da semana. Os jogadores partiram, estrearam mal e, sob pressão, venceram a Costa Rica. O Brasil ainda vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se […]
Daniel Halfen, advogado
Vou fazer do time do Brasil minha reflexão da semana. Os jogadores partiram, estrearam mal e, sob pressão, venceram a Costa Rica. O Brasil ainda vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!” ou “o Brasil não merece classificar” ou “tô nem aí… e a crise do país…”
Aqui, eu pergunto:
Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado ou a negação de um “mea culpa” com essa apontada triste realidade?
Eis a verdade, amigos: desde os 7 X 1 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo.
A derrota frente aos implacáveis e evoluídos alemães, na última batalha da Copa, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar.
Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 7 x 1.
Custa crer que um simples jogo de futebol possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há quatro anos, que, a toques de bola, Kroos arrancou, de nós, o título e o orgulho.
Eu disse “arrancou”, como poderia dizer “extraiu” de nós o título, como se fosse um dente.
Hoje, se negamos Neymar e equipe, não tenhamos dúvida: é ainda a frustração de 2014, e suas maracutaias de antes, durante e depois, que funciona como negação e revolta.
Gostaríamos talvez de acreditar na seleção e no país. Mas o que nos trava é o seguinte: o pânico de uma nova, reiterada e irremediável vergonha. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança e pensamento positivo.
Só imagino uma coisa: se o Brasil vence na Rússia, se volta hexacampeão do mundo!
Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 200 milhões de brasileiros iam acabar no hospício, menos aqueles que em tudo vêem capítulos do “golpe” e aqueles que moram em Miami e sonham com o Green Card.
Mas vejamos: a seleção brasileira tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: eu acredito no brasileiro, e, pior do que isso, sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo, um black bloc de chuteiras.
Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos espanhóis, que apanharam, aqui, da Laranja Mecânica que sequer classificou-se à Copa.
Pois bem: não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se em Messi e Cristiano Ronaldo. Eu contra-argumento com um Neymar, um Felipe Coutinho, um Marcelo, um Jesus… nada menos do que o menino Jesus.
A pura, a santa verdade é a seguinte: qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça e confiança, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção.
Neymar, gostem ou não, tem o DNA de um Mané Garrincha, é cria de Dener e Robinho.
Em suma: temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades: a bipolaridade.
Quero aludir aos extremos que eu poderia chamar de “Complexo de Vira-latas”, de um lado, e “Fé Cega”, de outro. Estou a imaginar o espanto do leitor: “O que vem a ser isso?” Eu explico.
Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem.
Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima. Praticamos um exercício contínuo de autodepreciação. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol.
Ainda que sejamos Pentacampeões e tenhamos o time mais valorizado do mundo, dizer que, na Copa da Rússia, nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade.
No outro extremo, no Mineirão, por que perdemos? Por que, diante do organizado time alemão, alto e louro, a equipe brasileira, de um lado, ganiu de desorganização, de outro, de fé cega. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo.
Não eramos piores do que o adversário. Além disso, levávamos a vantagem de jogar em casa. Pois bem: perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: porque entramos despreparados, desorganizados e acreditando em velhas fórmulas. Depois do primeiro gol, tudo ruiu, qualquer indício de autoestima e confiança acabou e os alemães nos trataram como se vira-latas fôssemos.
Eu vos digo: o problema do Brasil não é o futebol, e o problema da seleção não é de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente.
Nos dois casos é um problema de autoestima, de razão, de separar as coisas e cada um fazer sua parte na exata medida de sua capacidade e ajudar o outro para que o todo funcione. De não agir como vira-latas e não acreditar que todo brasileiro é um vira-latas.
O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas, que não está condenado a ser uma eterna decepção e que tem futebol e país para mostrar ao mundo, e lá na Terra dos Czares e dos Bolcheviques. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo, ponham-no para cobrar nossas autoridades, ponham-no para votar corretamente, cada coisa no seu tempo e lugar devidos e ele não será o eterno “país do futuro”.
Evidente que essa crônica não é de minha autoria. Não tenho talento ou genialidade para tal.
Adaptei para os dias atuais – mal e porcamente confesso – a famosa crônica “Complexo de Vira-latas”, de Nelson Rodrigues, antes da estréia brasileira na Copa de 58.
Espero, apenas, contribuir para uma reflexão sobre tudo que temos lido e ouvido nos últimos dias, em especial nas redes sociais.
Minha opinião já externei: nas redes sociais o brasileiro se mostra um eterno vira-latas com mania de patrulhamento e doses de esnobismo pequeno burguês.
É simples.
Aquilo que você diz, pejorativa ou cruelmente sobre os outros, apenas revela quem você é.
Que cada um faça sua parte, faça o que gosta, assista ou não a Copa e seja feliz.
Seja o Neymar ideal da sua vida… na cara da urna… faça um golaço… não engane ninguém (nem a si mesmo) e não se limite a reclamar dos outros e do juiz.
Cultura
O jogo nunca termina
“A Copa já começou?” perguntam, talvez de forma irônica, num dos posts do Rubens no seu perfil do Facebook. Confesso que deveria ter perguntado à autora sobre o real significado, mas este texto não se trata do post dela em si, mas da expressão “já começou”. A Rússia, poucos sabem, possui a sua Riviera, a […]
“A Copa já começou?” perguntam, talvez de forma irônica, num dos posts do Rubens no seu perfil do Facebook. Confesso que deveria ter perguntado à autora sobre o real significado, mas este texto não se trata do post dela em si, mas da expressão “já começou”.
A Rússia, poucos sabem, possui a sua Riviera, a cidade de Sochi, à beira do Mar Negro. A região próxima à cidade é chamada de Crimeia, tão importante que está presente em obras e contos de literatos russos, como Dostoiévski e Tchekhov. Sua relevância política é tamanha que em 2014 foi anexada, de forma “não voluntária”, por Vladimir Putin, à Federação Russa.
Até então trata-se o fato como uma adesão voluntária da República da Crimeia à Federação Russa. Foi lá que Gorbatchev exilou-se depois que a URSS caiu. Igualmente quem controla a Crimeia tem para si o principal ponto estratégico da banda oriental do Mar negro, cujo ponto mais conhecido é o Bósforo, que fica na cidade de Istambul, na ora asiática, ora europeia, Istambul.
Mas, enfim, a Ucrânia perdeu a sua soberania sobre a Crimeia ao ter se perguntado: “Ué, outra guerra? Já começou?”.
Como se ironizando o papel de seus nacionais e o próprio Vladimir Putin, a Ucrânia ignorou os tiques e os taques do próprio relógio.
Ontem, 15 de Junho de 2018, ali perto, como citei, na Riviera Russa, em Sochi, na beira do mesmo Mar Negro, Espanha e Portugal fizeram o jogo mais aguardado da primeira fase da Copa do Mundo. A despeito de vizinhos e de compartilharem uma história secular, sua diferença no futebol chega a ser gritante.
A Espanha faz uso de um estilo de jogo chamado de tique-taca, em que os jogadores, durante os 90 minutos de jogo, trocam a bola de pé em pé de forma acelerada, ritmada a ponto de fazer o adversário se perguntar: “Ué, o jogo já começou?”.
A quem assiste, parece ser cansativo. A bola é trocada, de pé em pé, numa plasticidade cansativa.
Fosse posto num desses modelos de previsão comportamental do esporte, seria como o seguido por Billy Beane no filme Moneyball – o Homem que mudou o jogo, estrelado por Brad Pitt (aproveito para recomendar a leitura do livro Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game, de Michael Lewis). Mas há, contudo, uma variável no futebol: a eterna outra variável não posta no modelo anterior.
Quando a Espanha “pensara” em começar o seu tique-taca, eis que Cristiano Ronaldo parte enfurecido para dentro da área dos espanhóis e é derrubado pelo goleiro De Gea. Pênalti. O melhor jogador do mundo parte para a bola e converte a primeira cobrança. Poderia Iniesta, Nacho e Diego Costa, assim como De Gea, terem se perguntado: “Ué, mas o jogo já começou?”
Foi esta a pergunta feita pelos jogadores brasileiros quando olharam para o placar eletrônico do estádio do Mineirão e viram que os alemães haviam feito cinco gols em menos de 25 minutos.
A verdade, e fiz uma delonga para chegar ao ponto fulcral, é que o jogo nunca termina, ele apenas é pausado, sofre uma leve interrupção, nada suficiente para nos tornar merecedores de uma pausa completa de nossa observação.
Apesar de celebrar as redes sociais, fico um pouco mais distante delas durante a Copa do Mundo, mas mesmo assim não alheio ao jogo que não tem começo e nem fim, é um eterno meio.
“Não atrapalhem o meu hobby”
Diversos brasileiros estão forçando a figura do politicamente correto e pedindo “desculpas ao Brasil” por não torcer pela Seleção em razão dos problemas sociais que por aqui imperam.
Não lhes tiro a razão, só peço que não atrapalhem o meu hobby e o meu espaço.
O futebol, deveriam saber eles, é um esporte, um lugar comum, “todos os lugares em apenas um só”, a história que é contada durante os 90 minutos de um jogo não começou ontem e tampouco terminará amanhã, é uma história de amor e paixão entre o Brasil e o futebol, coisa que somente Nelson Rodrigues saberia explicar.
Não cabe a mim tentar sequer imitá-lo, mas afirmo que a história que falo é contada e recontada, há diversos roteiros, mas somente uma estrela, são nesses 90 minutos em que o nosso melhor sonho faz do planeta uma simples bola, e o mundo fica mais claro e mais justo, pelo menos até o apito final do árbitro.
Este jogo que já começou, e nunca terminará, prostra 11 contra 11 em igualdade de condições e os condiciona a um número tão grande de variáveis que não dá para se prever se apenas um desses 11 jogará por toda uma esquadra.
Quem viu, ou pelo menos revisou alguns dos lances de Portugal e Espanha, sabe do que eu estou falando. Cristino Ronaldo fez três gols, o famoso hat-trick.
Os heróis do mar, como diz a letra do hino luso, se dão ao luxo de ter para si um jogador comprometido mais do que todos os outros que estavam com ele em campo, e na hora em que os espanhóis começaram a se perguntar se o jogo já havia começado, os portugueses também cantavam para si o refrão de seu hino nacional, “às armas, às armas, sobre a terra e sobre o mar, às armas, pela pátria lutar”.
Já o jogo, este, repito, nunca termina.
